
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
22:41 PM
Eu pretendia ir direto até Maria, me desculpar e tentar explicar o quão covarde eu sou. Pretendia. Até agora continuo vagando como um espírito errante. Pensei em ir ver o Cristo. Também a idéia ficou na ceara dos pensamentos.
Pela janela no táxi a cidade devolve meus insultos. Cada pessoa pra mim é um experimento em potencial. Em suas particularidades. Todas possuem sua...
- Vai querer continuar seguindo aquele carro, patrão?
O taxista. Jovem, veste uma camisa pólo cor musgo e um bigode ralo no rosto. Noto sua aliança dourada refletindo a luz do poste.
- Eles estão indo pra uma parte mais afastada, acho que... – o taxista é hesitante.
- Não se preocupe comigo. Quando eles pararem, você me deixa e pode ir embora. – entendo a preocupação do homem.
Dois homens renderam um casal, obrigando-os a entrar no carro. Sorte do casal que assisti tudo de camarote. Esse tipo de ação é mais comum do que aparenta. É fácil, rápido. Seqüestro. Nesse tipo de situação sempre me preocupo mais com as mulheres. Homens armados se sentem poderosos e no controle, isso é excitante para alguns pervertidos. Perder os bens materiais é algo que se pode superar, ser violentada, ou assistir, no caso do companheiro, é traumatizante. Estou sem nenhum equipamento, somente a toca para esconder meu rosto. Vai ser o suficiente.
Estalo meus dedos. Estou inquieto. O táxi segue o Corsa até uma estrada escura, subimos uma longa reta. A vista para o mar é linda. A água negra reflete a lua nova e algumas estrelas tímidas. Me concentro nos faroletes vermelhos a nossa frente. A seta do Corsa é acionada. Aqui parece ser um bom lugar para se namorar, perigosamente excitante. Eles param.
- Siga em frente. – ordeno. O taxista obedece.
- Mulher tem em todo lugar amigo. Se ela terminou com você... – o cara está tentando me consolar! – Deixe-a seguir em frente...
- Você acha que estou seguindo... – gargalho. – Pode parar aqui. E relaxe não sou nenhum ex namorado ciumento, nenhum marido traído. – mas posso ser tão violento quanto.
Dou-lhe o dinheiro e saio. Acelero meu passo, quando escuto gritos vindo do Corsa.
- Isso ai! Agora pula! – ordena uma voz esganiçada.
- Por favor... Agente já te deu tudo... Leva o carro... – implora o homem, temendo por sua segurança e de sua companheira.
A mulher treme e chora. Seus cabelos negros sibilam junto com o vento, tornando nu o abismo às suas costas. Seus algozes nem se preocupam em esconder o rosto. A crueldade alimenta a besta dentro de mim.
- Quero vê pulando porra! Anda logo! – grita o outro apontando seu revolver.
Estão se sentindo poderosos.
- Mas... – agora o homem também chora, pela primeira vez em anos creio. Aparentar ter quarenta e poucos. Deve ter uma vida simples e pacata. E agora isso...
- Já vamos levar tudo seu mermão! Quero ver se você sabe voar. – os dois riem juntos.
Visto a toca. Meu capuz. Começo a rosnar como o próprio demônio.
- Que isso? – questiona uma de minhas presas.
- Deve ser um bicho ai, relaxa rapá! – seu rosto percorre a escuridão, voltando para o casal. – PULA CARALHO!
O imbecil atira no chão. A mulher grita de susto, seu companheiro a abraça, na tentativa inútil de confortá-la. Meu rosnado aumenta.
- Cacete. – o segundo busca enxergar algo na mata.
Capto seus olhos. Avanço! Meu grito é gutural, vindo das profundezas! Eles se assustam, atiram a esmo, errando cada disparo. Amadores. Consigo abraçar os dois, que se debatem. A prioridade é desarmá-los. Com toda a força que meus músculos permitem, jogo ambos em direção a mata. Capotam no chão, embolando um no outro. Sem dar oportunidade de reação, parto para cima deles. Cada pancada, o som de ossos quebrando, do sangue jorrando de suas bocas, me satisfaz. Os dois são fortes, isso torna a batalha mais divertida. Não que tenham alguma chance... Só não quero que acabe agora. Não percebi, continuei rosnando o tempo todo. Um deles desmaia. O outro se arrasta pela poeira, amassando folhas secas, tentando fugir. O Corsa arranca cantando os pneus, os faróis, por um instante, iluminam a face amedrontada do homem. Agora ele sabe como o casal se sentiu. Agarro sua perna. Ele grita. Arrasto-o pelas folhas secas. Suas mãos buscam algo em que segurar. Inutilmente. A perna escapa das minhas mãos. Isso me irrita! E muito! Engatinhando como um bebê, ele se arrasta para fugir... Agarro-o pelas orelhas. Ainda solto sons ininteligíveis pela boca. Chego até a beira do barranco.Todo seu corpo batalha pela sobrevivência. Estou pronto para matá-lo! É fácil demais! Só lançar sua carcaça abjeta para frente, e assistir a cada quicada que o animal daria nas pedras. Fico sem ar. Derrubo o bandido no chão. Tento recuperar meu fôlego. Minha nuca gela, meu coração acelera. NÃO! Saio correndo em direção a estrada, na esperança de que o suor mande embora essa ânsia assassina dentro de mim.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
00:11 PM
Essa é a primeira regra do meu trabalho: não matar. Encosto minha cabeça no ferro gelado. O chacoalhar do ônibus impedi que eu durma. Cada buraco ou curva é um sofrimento. Demorei a achar o ponto correto, errei duas vezes e sempre acabava em um lugar ermo, desconhecido. Agora os muros são familiares, o caminho é conhecido.
Ando vagarosamente, calculando cada passo e me perdendo mais uma vez. As ruas são escuras e mal iluminadas. Nem a lua quer aparecer por aqui, será vergonha? Viro a direita em um beco, avisto a escadaria e subo contando os degraus. Um casal troca ofensas, algo sobre dinheiro e bebida. Chego ao topo da escadaria. A rua está deserta, morbidamente quieta. O farol solitário de uma moto aponta no fim da rua, vindo vagarosamente em minha direção. Ao passar por mim avisto dois homens, sem capacete, não chego a olhar para seus rostos ou vestimentas. O Ar-15 nas mãos do carona e a Sig-Sauer em sua cintura roubam toda minha atenção. Armamento pesado. Internacional. A motocicleta continua seu caminho, como se eu não existisse. Eu deveria... É a rua de Maria. Nada de tiros aqui. Vou até a porta da casa.
Está destrancada! Abro cautelosamente, tentando ouvir qualquer movimento, até uma mísera respiração. Tudo em paz. A sala está tomada pelas trevas, sendo iluminada pela luz dos monitores. Abaixo deles Maria dorme. Nas telas o satélite monitora a noite carioca. A coitada ficou aqui até agora. Seus braços separam seu rosto delicado da madeira, sua respiração é calma e tranqüila. Sem acordá-la, desligo os monitores, trazendo a escuridão para a sala. Com cuidado, pego Maria em meu colo. Instintivamente seus braços agora estão envoltos em meu pescoço, sua cabeça em meu peito. Sinto sua respiração calma e serena. Espero que esteja tendo um sonho bom. Caminho até o quarto.
- Pai... – Maria sussurra. – Pai... Corte a corda pai. Me deixe correr... – suas mãos apertam minha camisa suada. – Corte pai... Ta machucando... – suas palavras soam tão penosas.
Deito Maria na cama de forma delicada. Sua face demonstra inquietação. Pego um lençol no armário. Cubro todo seu corpo. Acaricio seu cabelo ondulado e com cheiro doce, beijo sua testa, levo meus lábios até seu ouvido, falando bem baixinho.
- Eu corto pra você Maria. Descanse.
Fico ali, sentado no chão, deslizando minhas mãos entre seus cabelos, aguardando o pesadelo ir embora. Ele se vai... O sono pacífico retorna. Beijo sua testa mais uma vez e saiu do quarto.
Sento em frente os monitores e fito o colorido da noite. Agarro o mouse, vasculho as ruas, os becos e avenidas da Rocinha. Como é fácil trabalhar com uma ferramenta dessas. É de arrepiar os defensores da dita segurança nacional. Esse brinquedinho pode achar esconderijos de terroristas no Afeganistão, eu não vou encontrar uns bandidos em uma moto? É como procurar uma agulha no palheiro.
♦ ♦ ♦
O programa de auditório arranca a monotonia da noite. Sorridente e carismático o apresentador caminha pela platéia, que o cerca batendo palmas com o mesmo entusiasmo. Os convidados da noite: um professor universitário, com seus doutorados em História e Sociologia, catedrático da USP; uma modelo brasileira, destaque nas passarelas européias, atualmente namora um jogador de futebol – ou seria um ator famoso americano?; por fim, um cantor de uma banda, que toca uma espécie de rock meloso e sem graça.
O apresentador.
- Já tratamos da questão do Etanol. Não foi? – a platéia confirma. – Falamos sobre a amostra de filmes independentes que acontece aqui no Rio essa semana... Vamos ver... A nova peça... – várias pausas e caretas, enquanto segura o microfone com a mão direita e um papel com a esquerda. – Vamos falar sobre Jack Built. Você primeiro professor...
O professor da USP.
- Definitivamente um homem que decide colocar uma máscara e sair para esbofetar... Agora vamos com bastante cautela por favor... Ditos criminosos. Por que ditos? Porque não sabemos, e agora, jamais saberemos seus critérios para bater e torturar os pobres. Pobres sim meus amigos. É fato que as ações desse vigilante eram totalmente direcionadas para os oprimidos, os desprovidos, as minorias que sofrem já com o desmazelo da sociedade. Imaginem a sociedade como um conjunto de balões. Jack Built é um menino que acredita que os balões pretos – aqui como os bandidos. – são os criminosos, as demais cores somos nós, cidadãos comuns. Acontece que historicamente, devido às manipulações e correntes políticas, as cores mais escuras dos balões tendem a ficar mais na base desse conjunto. Jack Built, com uma agulha tenta limpar o conjunto de balões, estourando-os com uma agulha. E como menino, não consegue discernir com clareza as cores, uma vez que esses balões flutuam sobre sua cabeça, levando a luz do sol a ofuscar seu discernimento, então a cada salto e agulhada, ele acerta os balões pretos e os de cor escura, que ele, julga ser também da cor preta. Ele é definitivamente um risco político. Um reacionário. É doloroso dizer, mas no fundo creio que sua morte foi um benefício para a sociedade.
A modelo. O professor franze a testa, momentos antes de a moça abrir a boca.
- Reduzir o Jack a um risco político é errado. Ele não é uma força da natureza, um ente conspiratório que luta contra as classes menos desfavorecidas. Vejo como um homem indignado. Insatisfeito com o status quo que vivemos. É claro que a criminalidade atinge os mais... Pobres. Mas isso é culpa dele? Pelo que vejo, o homem salva vidas, e bate nas pessoas certas. Está bem! Temos a criminalidade crescente pela insuficiência de um Estado, que deixa pessoas a sua margem... Jack por outro lado, tenta trazer essas pessoas de volta para o caminho correto. Não como uma ONG que admite fazer acordos com donos de morro, por exemplo. Ele bate! Bate forte, como uma correção. No fundo ele desejaria que todos seguissem as leis, e respeitassem os direitos alheios. Bem... É o que eu penso.
O cantor da banda que acreditar ser rock o que suas guitarras tocam.
- Revolução brother! Falta isso, saca? Atitude!
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RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
02:01 PM
Os homens da moto são uma espécie de vigias do bairro. Cumprem uma rotina, um padrão fácil de ser aprendido. Estico a corda que roubei de um varal. Ela é grande o suficiente de ir de um lado a outro da rua, vai dar certo! Escolhi a rua mais escura por onde eles passam. Isso vai dificultar a percepção deles. Preciso saber onde guardam aquele tipo de arma, deve haver algum depósito, uma casa, alguma merda de lugar. Com sorte esses imbecis sabem quem é o fornecedor, para uma visita futura. Ai vem o farol. Solitário, iluminando a escuridão. Ambos estão sem capacete, vai ser uma queda e tanto. A moto acelera, mudando a marcha. Me escondo atrás do poste, fico imóvel, utilizando as trevas como camuflagem. Nada de uniforme hoje.
Tudo ocorre como o previsto. A corda segura o condutor pelo peito, jogando ambos no chão, a motocicleta segue seu curso até perder o equilíbrio. Amarrei bem, a corda estava bem tencionada, não poderia correr riscos de ela arrebentar. A queda foi feia, nada fatal, nenhum ferimento sério para eles... Até o momento pelo menos.
Enquanto eles esbravejam e xingam palavrões dignos de estádios de futebol, corro e chuto o Ar-15 para longe. A mão de um deles tenta pegar a Sig-sauer, piso e a seguro no chão. Os dois são jovens, sempre são. O que pilotava a motocicleta se levanta, dispara socos em minha direção. Danço um pouco, e acerto um cruzado em seu queixo, jogando no chão mais uma vez. Chego a achar engraçado, ao ver ele engasgar com o próprio sangue. O outro caído, agora tenta tirar meu pé da sua mão. O que também torna a situação cômica. Chuto sua cara. Este também engasga. O Brasil merece uma classe melhor de criminosos.
Os dois gemem de dor, pego a Ar-15, e volto para perto deles. Aponto na cara de um, do que pilotava.
- Onde vocês guardam suas armas? – falo de forma gutural.
- Pô... – o verme cospe um catarro de sangue. – Qualé...
Interrogar criminosos é um esporte delicioso. Você pode fazer qualquer tipo de merda, e simplesmente... A consciência não pesa. Dou um tiro com a Ar-15, bem ao lado de sua cabeça, o barulho é selvagem e alto! Seu tímpano deve ter estourado, ou agora ele passará a escutar sinos.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
02:23 PM
Uns cagões! A vergonha pra trupe do crime. Só o tiro foi o bastante para eles me trazerem até o telhado dessa escola municipal. Esses desgraçados não têm escrúpulos mesmo! Guardam armas de calibre pesado, e até granadas, dentro da caixa de água da escola!
Seguro a base da caixa azul, preparo minhas pernas e braços, de uma só vez levanto o recipiente de uns bons milhares de litros. A caixa de água tomba, derramando água por todo o lugar, um outro tipo de larva é revelado... Armas, dos mais variados tipos e tamanhos, todas amarradas em sacos plásticos para não enferrujarem. A Ar-15 ainda está comigo, miro nas armas e grudo meu dedo no gatilho. Gasto todo o pente atingindo as armas! Os plásticos e os pedaços de armas, pulam junto com água. Estilhaços são lançados no ar. Não paro nem por um segundo, até que tudo esteja destruído. Os coices contínuos acompanham as batidas do meu coração.
Quando termino quebro a Ar-15 em dois pedaços. Inutilizo-a para sempre.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
02:43 PM
A água quente cai sobre minhas costas. O vapor ganha todo o espaço do pequeno banheiro. Ensaboou meu rosto, deixando a á água batizá-lo e confortá-lo em seguida. É disso que eu estava precisando! Um bom banho quente para arrancar as sujeiras de mim.
Mal deito no sofá e o sono ataca. Durmo tão fácil. Deve ser o cansaço, ou só a simples vontade de dormir.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
08:00 PM
O aroma do pão tostado é convidativo. A margarina da um toque ao sabor do queijo, que estala na frigideira. Acordei cedo para tentar surpreender Maria. Escolhi com cuidado, frutas, leite, pães e o queijo. Mineiro é claro! Maria ainda dorme, tranqüila e serena. Parece que o ontem jamais existiu. Sou um babaca mesmo! Preciso aprontar esse ambientei toda, só para tentar me desculpar. Retiro o queijo junto com a crosta escura que se fixa na superfície da frigideira. Corto os pães, passo manteiga, e ajeito o queijo para derretê-la. Aqueço o leite, até o ponto correto para não criar nata. Misturo o achocolatado. Abro um pacote de biscoitos. Uma maçã e uma banana para enfeitar a bandeja. Pronto! Tomará que dê certo.
- Desculpa por ontem. – Maria aparece na cozinha, seu rosto ainda está amassado e inchado. Ela ainda é linda.
Fico completamente sem jeito, segurando a bandeja do café, que era para ser um café na cama. Maria continua.
- Eu vi a garota de batendo, não sabia o quê fazer. Se devia intervir ou... – seu rosto se envergonha, Maria olha para baixo enquanto gesticula. – Ela gritava... Desculpe mesmo. De verdade. Não queria invadir sua intimidade...
- Deixa de bobagem Maria! – repreendo. – Vamos sente logo. Tome esse café que preparei com cuidado. Era para ser uma surpresa e você estragou tudo!
- Descul... – interrompo-a.
- Olha só! Mais uma desculpas e eu vou usar todos os meios de causar dor que aprendi em você. – discurso com um sorriso no rosto, indo em sua direção. Simulo uns socos. Maria entra na brincadeira. Agora somos duas crianças brincando de luta na cozinha. – Eu que tenho que pedir desculpas. – Meu rosto queima, não tenho para onde correr. – Você me aceita em sua casa, salva minha vida, e eu ainda te tratei como uma qualquer. Você não merece isso! Me desculpa.
Seus lábios tocam minha bochecha. Não foi preciso dizer nada, eu estava desculpado.
Devoramos todo o café da manhã. Maria elogiou o pão e o queijo, me fiz de bobo, como se não tivesse gostado do elogio. Nem café eu sei fazer. Conversamos sobre tudo! Mais uma vez. Maria me conta que dominou o programa no computador, que até foi ver como estava o consultório da doutora Janete. Passados alguns instantes de mastigação e risos, sua face denota seriedade. Correspondo a tal expressão.
- As pessoas estão mesmo comentando. – Maria afirma.
- Sobre mim?
- Isso. – confirma.
- Qual eu? – sorrio, sem obter outro em troca.
- Sobre você mesmo. Um pessoal da igreja veio aqui ontem, perguntaram por que eu não vou mais ao culto. Os olhos de algumas delas secavam os computadores, o travesseiro no sofá e até a televisão que agora está no quarto. Fiquei sem saber onde me esconder. Fui bombardeada com perguntas. – Nunca vi Maria falar tanto. – Isso me incomodou sabe?
- E aí?
- Nem me lembro da desculpa que dei.
- Não se preocupe...
- Como não? – Maria se altera.
- Não vou ficar por muito tempo.
- Ah... – uma tristeza a atinge sem pedir permissão. – Outra coisa...
- O quê?
- O baile funk. Que vai comemorar a sua morte não vai ser qualquer.
- Como assim? – agora eu me altero.
- O local mudou. Não vai ser mesmo onde costuma ser, naquele galpão na entrada do morro. Vão fazer na Acadêmicos da Rocinha, é uma escola de samba, o espaço é maior e mais... Acessível.
- Acessível?
- Foi o que me disseram ontem, também consegui escutar algumas conversas alheias. – Maria está ficando perigosamente boa nisso.
- Entendi. Escolheram um lugar mais público, para diversificar mais o público, assim a polícia ou o General vão pensar duas vezes antes de qualquer movimento.
Maria concorda com a cabeça, mordendo seus lábios perfeitamente desenhados.
Levanto, coleto os pratos cheios de migalhas, deixo-os na pia. Faço o mesmo com os copos.
- Pode deixar Augusto, eu cuido disso. – Sua mão segura meu ombro.
- Não mesmo! Vá se aprontar. – me viro e dou um sorriso para amenizar o papo sério.
- Aprontar? Pra quê?
- Vamos visitar um colega meu.
O rosto de Maria fica engraçado quando denota dúvida. Sua boca faz um pequeno bico, a sobrancelha esquerda se eleva delicadamente. Isso revela a menina que ainda existe em seu interior.
- Bem senhorita, não é bem um dos melhores passeis que irá fazer na vida. Vamos ao hospital. – balanço as mãos, seco-as no pano de prato.
- Ele é médico?
- Não. – dou um sorriso malicioso.
- Pode ir parando com o mistério senhor Augusto! – ela aponta o dedo. – Sei muito bem que você não conhece ninguém aqui no Rio. Com exceção daqueles militares que te sacanearam.
Fico sério. Maria está levando tudo isso a sério demais. Normalmente... Ao menos nos primeiros dias ela era uma mulher tímida, reservada e quase sem atitude. Está manhã há algo estranho no ar. Será que as perguntas a incomodaram tanto assim? Nesses momentos que vejo quem é o mistério nesse pequeno barraco. Maria Aparecida.
- O nome dele é Thiago Firmato. Você deve tê-lo visto nos jornais, eu salvei a vida dele e peguei os caras que tentavam matá-lo.
Recolho o restante de louças da mesa, dobro o forro e coloco as frutas em uma cesta. Uma maçã cai. Maria se abaixa para pegá-la antes de mim. Suas vestimentas leves recuam em suas coxas, grossas e firmes. Sem que meu cérebro dê a ordem meus olhos percorrem todo seu corpo magnífico, o sangue corre quente em minhas veias. Ela se levanta. Agora está bem perto de mim. O sangue cavalga de forma selvagem, quase incontrolável. O castanho escuro de seus olhos é hipinotizante. Seu cheiro é puro, sem nenhuma usurpação de algum perfume.
- Vou me aprontar... – seu rosto se abaixa e ela vai até seu quarto. Mais uma vez meus olhos masculinos percorrem seu corpo, travando em suas ancas magníficas.
Homens são realmente engraçados. Não fujo a regra. Nem quero! Não há nada melhor do que uma mulher perfeita, nada mesmo! Uns verdadeiros animais, somos plenamente incapazes de racionar de forma plena diante de uma fêmea. A não ser que já não estejamos enfeitiçados por outra. Minha vontade de dominar Maria, jogá-la nesse chão batido e frio, fazendo-o esquentar com o calor de nossos corpos, é grande. Deus! Como essa mulher é gostosa. Mesmo assim, um dever inerente a minha vontade me domina. O dever de protegê-la! Dívida por ela ter salvo minha vida? Não... É um carinho protetor. Poucos homens devem ter se deitado com ela. Amor não é algo presente em sua vida. Por isso... Se contente em olhar seu pervertido!
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
09:10 PM
- Você tem mãe? – Maria quebra o silêncio.
Vamos de ônibus mais uma vez, com seus chacoalhares e freadas bruscas. Cheio! Entupido de pessoas. E como não pode faltar em uma lotação, crianças histéricas. Brincando de Homem-Aranha nos ferros. Dois irmãos, um magro bem loirinho e o outro gordo. Coitado, suas coxas podem ser divididas em camadas. Os dois lutam para saber quem é o Homem-Aranha. Todos querem ser ele. Fazem aquele movimento com os dois dedos, como um chifre de demônio, imaginam a teia saído e grudando no vidro. O magricelo salta, acreditando ter sido picado por uma aranha radioativa. Sua testa se choca com o apoio de ferro. Ele chora. O irmão gordo ri. Ou melhor, gargalha! A mãe intervém e repreende o momento super-heróico.
- Tenho sim. Claro! – não percebi que tinha um sorriso no rosto.
- Eu sei. Dã... – Maria faz uma careta. – Quer dizer... Sua mãe é viva? Sabe o quê você faz?
- Minha mãe? Saber do meu trabalho. – gargalho. – Não mesmo! A velha me mataria, me acorrentaria. Ninguém da minha família sabe. Minha irmã de algum modo desconfia, porque ela sempre percebe quando chego tarde em casa.
- Você tem uma irmã? – isso a surpreende.
- Sim! Ela tem três anos. Uma graça de chatice.
- Não fale assim dela. Deve ser linda. – agora seus olhos brilham.
- E é. A pessoa mais pura e bela desse mundo. Não cheguei a ver seu nascimento, muito menos seu primeiro ano de vida. – uma tristeza mal educada fala por mim.
- Onde você estava?
- Pelo mundo.
Maria aguarda o complemento.
- Então... – dou uma risada sem graça e forçada. – Eu precisava de experiência. De vivência. Principalmente, eu tinha que saber se vale a pena fazer o quê faço. Eu precisava conhecer o mundo! Ver as pessoas que vivem nele. Suas diferentes culturas, seus ensinamentos... Eu tinha que aprender. Tudo! Era minha obrigação saber o máximo de coisas possíveis. Os primeiros anos como... Você sabe. Foram desastrosos. Não tinha um método, uma estratégia, nem mesmo um uniforme descente. Eu pulava na frente de armas acreditando que elas não me acertariam. Comprava qualquer briga, sem medir conseqüências. Apanhava! Fui salvo muitas vezes pelo vermelho rodopiante das viaturas. Minha única e verdadeira aliada era a sorte. Me dediquei ao meu corpo e artes marciais no Japão, Tailândia e China. Apanhei muito. – agora a risada é menos forçada. – Para minha mãe eu estava em uma viagem de mochileiro pela Europa. Gastando a poupança para a faculdade. Meu pai não ligou, de algum modo ele sentiu que eu precisava daquilo. Meu irmão... Também tenho um irmão, mais velho e insuportável. Quase me bateu... – faço a cara de quem é confiante, certo de que mesmo mais velho, ele não tinha nenhuma chance. Também tive ajuda do governo, por uns trabalhinhos, como essa furada em que me encontro. – Maria não gostou da última frase, desvia o olhar de mim e passa a olhar a cidade que passar por nós sem dizer oi. – Também deixei para traz um amor... Isso é história para outra hora! Fiquei cinco anos fora do Brasil, voltei tem um ano...
Maria já não prestava atenção no que eu falava, parei sem que ela notasse. Imitei seu olhar e passei a namorar a cidade maravilhosa. Vendo o verde que rodeia a imensa lagoa, da qual não lembro o nome. O céu tem muitas nuvens, isso compromete a beleza da paisagem. Mas o sol é forte e o calor constante. Deve chover nos dias que virão...
Descemos no ponto mais próximo do hospital. Maria conhece o lugar, já veio fazer alguns serviços para sua chefe nessa região. Trocamos algumas palavras, mais sobre medicina, assunto que não tenho o mínimo conhecimento. Maria entende bem, disse que seu sonho era ser médica. Nunca teve condições para tal, então o máximo que conseguiu se aproximar de um jaleco branco foi o curso inacabado de enfermagem que freqüentava. Não há frustração em sua breve narrativa. Sua história é indiferente, como se seu sonho fosse uma bobagem. Eu diria que Maria está anestesiada. O sofrimento tem esse poder. De nos deixar adormecidos, para que não soframos mais com decepções. Alguns consideram isso algo bom, mesmo que inconscientemente, chamam de “ficar mais forte”. Não concordo! Não posso concordar. Sentimentos são para serem vividos, se há sofrimento, que siga em frente, agüente a pancada... Não fique indiferente a elas. Engraçado como podemos aprender vendo filmes.
- É aqui. – Maria aponta para o prédio branco com janelas espelhadas, o letreiro verde é claro. Um hospital. – Como vamos nos identificar? Deve haver alguma segurança, afinal tentaram matar o homem. Você não poderia ligar para ele?
- Preciso da ajuda de Firmato. Não confio em telefones.
Entramos no prédio. O cheiro de álcool e desinfetante domina o lugar. Cheiro de hospital. Enfermeiras e médicos vão de lá para cá, em passos preguiçosos e calmos. Pacientes idosos sorriem com poucos dentes, uma menina de braço quebrado segura dois pirulitos como se fosse a melhor recompensa pela dor. O lugar é quieto. Os aparelhos da recepcionista chamam mais atenção do que seus olhos verdes.
- Pois não senhor? – uma baba mínima se acumula no canto de sua boca. Mínima, mas ainda sim incomoda.
- Vim visitar Thiago Firmato. – respondo com um sorriso.
- Você é parente? – ela responde com um sorriso.
- Não. – outro sorriso.
- Você é policial? – mais um... sorriso.
- Não. Sou... – minhas bochechas ficam levemente doloridas.
- Sinto muito, não posso deixar que vá até o Sr. Firmato. Questões de segurança.
- Mas... – tento argumentar, sou interrompido.
- Você deve saber da situação delicada em que o Sr. Firmato se encontra, creio que entendera o procedimento para mantermos seguro e tranqüilo o ambiente para o Dr. Por isso, caso seja da imprensa, ou amigo, não estamos autorizados a deixar ninguém ir até o quarto do Sr. Firmato. – ela ainda sorri, sem ao menos tomar fôlego.
Maria segura meu braço, seu olhar me questiona o que devemos fazer.
- Sem correr meninos! Nada de pular em cima do pai de vocês como fizeram da última vez. Lembrem-se o ferimento infeccionou. – uma mulher magra e de aparência bondosa repreende dois garotos familiares.
- Eu já vi aqueles garotos. – cochicho com Maria.
- Onde? – ela questiona.
Remexo minha memória. A mulher de mãos dadas com os meninos caminha até a recepcionista. Um dos garotos me olha, e desvia o rosto em seguida. Onde eu já vi esse menino?
- Bom dia Sra. Firmato. – a moça dos dentes metálicos lança seu sorriso mais uma vez.
Senhora? São os filhos do delegado! Isso! Eu dei a arma para o garoto segurar. Mandei vigiar os bandidos da motocicleta. Me lembro de suas mãos firmes, e olhar atento.
- Ainda tem as mãos firmes garoto. – falo maliciosamente.
- É comigo? – pergunta o garoto. É com você sim,
- Tudo bem senhor? – pergunta a mãe, puxando o garoto para perto de si.
Agacho para ficar da altura do garoto.
- Você vigiou bem aqueles bandidos! Parabéns! Fez um bom trabalho. – faço um jóia com meu polegar. – Suas mãos ainda são firmes?
O menino arregala os olhos, tenta falar algo, mas as palavras se recusam a sair.
- Senhor... – a voz mansa da mãe tenta me repreender.
- Mãe... – as pequenas mãos puxam a blusa de sua mãe.
- Que foi filho? – ela atende o chamado.
- É ele... – seu dedo indicador aponta para mim. O meu faz um sinal para ele ficar em silêncio.
- Quem fi... – a mãe está vem informada. As lágrimas começam a escorrer em sua face magra.
- Quer que eu chame a segurança Sra. Firmato? – agora o aparelho metálico é ocultado, e a recepcionista ameaça segurando o telefone.
- Não... Não precisa Sabrina. Está tudo bem. – a mulher retira um lenço da bolsa, enxuga as lágrimas, respira fundo. – Obrigada por salvar meu marido. – ela engole o choro, enquanto abraça os filhos com seus braços magros e protetores.
Me levanto.
- Preciso falar com seu marido. – afirmo.
- Claro. – ela passa o lenço mais uma vez no rosto. – Vamos suba comigo.
- Mas Sra. Firmato, tenho ordens... – a recepcionista intervém.
- Ele vai comigo Sabrina, se precisar de qualquer coisa eu aviso. – explica a Sra. Firmato.
Maria e eu pegamos um crachá para cada. Todos em silêncio aguardamos o elevador, que range do outro lado da parede. A porta se abre automaticamente, como uma coreografia, entramos.
- O que quer com meu marido? – a Sra. Firmato pergunta com o rosto fixo nos números de cada andar.
- Preciso de sua ajuda.
- Para quê? – o olhar ainda se prende aos números digitais em vermelho ao lado da porta.
Maria e eu nos questionamos em silêncio.
- Quero que saiba, ele está onde está por ser honesto! Já que você não morreu, confesso que fico mais aliviada, mas por gratidão. Vocês dois são parecidos na burrice... – a voz é mansa, mas não as palavras. – Já parou para pensar em quem sofreu quando os jornais noticiaram sua morte? Você não tem família? Uma namorada. Ela não sofreu? – agora se refere à Maria. – Não existem poderes nesse mundo. Você não é invencível. Eu não vou perder meu marido! – as lágrimas escorrem como um rio na chuva. – Acredito que exista alguém no mundo que não quer te perder também...
- O que você está dizendo senhora? – sou desafiador. – Sim. Acredito que tenham sofrido com minha morte. Mas estou aqui, e seu marido também. E isso é sinal que estamos incomodando alguém! E esse alguém é mau. Morrerei quantas vezes precisar, e seu marido, como um bom homem também o faria. – Maria agarra meu braço, na tentativa de me calar. – Sei que ele faria falta, você teria que cuidar de seus filhos sozinha, você se sentiria sozinha! Entendo sua dor! É por isso que eles têm vencido... Porque temos sido omissos...
O elevador se abre ao som de um apito digital. Caminhamos até o quarto em... Um conveniente silêncio.
Thiago Firmato. Delegado. Honesto. Punido pela sua própria virtude. Sua aparência é fraca, mas viva. O soro pinga sem pressa ao seu lado. Os garotos não obedecem ao aviso da mãe e correm para abraçar o pai, que sorri ao vê-los. A senhora ajeita o travesseiro do marido, e lhe da um beijo. Deixo-os conversar por alguns instantes. O braço de Maria ainda segura o meu. O menino das mãos firmes está calado, mas seu irmão conta com empolgação como o Homem-Aranha... Ele de novo... Derrotou o Duende Verde. A senhora vai até a janela, abrindo as cortinas para que o sol amarelo entre no quarto. Firmato olha para mim e Maria, depois para sua esposa, aí sim fala com a voz um pouco rouca.
- São seus amigos amor?
A senhora fica em silêncio.
- É o Jack Built pai. – responde o garoto.
- O quê? – Firmato está surpreso e mexe o corpo de maneira imprudente.
- Thiago! Não se levante. – a esposa corre para acalmar o marido.
- Você? Mas tão jovem? – Firmato faz uma careta de dor. – Achei que tinha morrido.
- Você e todos os jornais do Rio de Janeiro e do Brasil. – dou uma risada irônica.
- Mas como? – Firmato está feliz com a notícia, demonstra entusiasmo.
- O senhor que tem que me explicar como não se recuperou ainda. Enfrentei um bocado de meliante, levei tiros, e estou de pé. Você levou só um tirinho e está ai cheio das dores. – brinco.
- O super-herói aqui é você. – Firmato me devolve a brincadeira, sua esposa não gostou e fecha a cara.
- Ele precisa de sua ajuda Thiago.
- Como eu... – o delegado aponta para si. – Posso te ajudar?
- Preste bastante atenção homem. Preciso da ajuda de sua imagem. – afirmo.
- Imagem? – ele questiona.
- Você é quase um mártir essa semana. Para a imprensa. Eu te salvei, morri. Tentaram te matar porque você não é condizente com o crime e com a corrupção.
- E o que isso tem haver?
- Quero que vá para os jornais e televisões.
- Pra quê?
- Quero você contra a operação do General Costa Machado! – falo cada palavra com força e firmeza que merecem.
- Não mesmo! Agora que temos a chance de limpar pelo menos a Rocinha, os desgraçados viram o que conseguiram fazer com você, não haverá mais limites se não... – interrompo seu discurso.
- Não! O exército não pode subir o morro! Não assim! – quase grito.
- Achei que era o que queríamos! – Firmato também se exalta.
- Pense homem! Aquelas pessoas já vivem a margem, estão entregues à criminosos. Esses malditos virarão verdadeiros heróis se o exército comprar essa guerra! Um Estado de Sítio na Rocinha é a pior maneira de fazer isso...
- Não mesmo! Isso é uma guerra. Você caiu. Eu caí! – Firmato não sabe o que fala, ele não conhece Costa Machado, nem quero explicar essa parte.
- Cidadãos de bem serão esmagados! – argumento.
- Sinto muito Jack, mas não se pode agradar a todos. Não devemos ser passiveis mais perante essa classe criminosa que toma nossa cidade! Porque isso agora?
- Porque acredito na Democracia! E estão usando a minha morte para conquistar a opinião pública, e convencer os outros poderes a aceitarem essa medida extrema!
- Democracia Jack? Você... – Firmato se cala. Eu também.
- Peço... – engulo seco, nunca fui de fazer isso. – Como agradecimento por eu ter salvo sua vida! Faça isso. Confie em mim! Eu pegarei os irmãos que comandam o tráfico. Isso irá desestabilizá-los por um tempo...
- E de nada adiantará. Virão outros em seu lugar. – ele está certo.
- E continuaremos lutando! Eu peço... Por favor. Condene publicamente essa operação... – chego à beira de implorar.
- Farei isso. Pagarei minha divida com você. Agora saia! – essa frase dói. O desprezo pode machucar. Muito.
Obedeço. Maria e eu partimos sem dizer nada. No canto dos meus olhos vejo um pequeno tchau, do menino das mãos firmes.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
12:42 PM
Sem perceber Maria me conduziu até um Shopping. Me fez olhar algumas vitrines coloridas, roupas, aparelhos eletrônicos, tudo para tentar me acalmar. Ela não parou de falar um segundo. Me contou como o norte do país pode ser belo, não mencionou sua infância sofrida, mas disse que se lembra de ter visto um boto cor de rosa uma vez. Não sabe se foi sonho, ou realidade. Sua mente parece ter esquecido de muita coisa que viveu, isso não é necessariamente ruim. O boto é constante em suas memórias, segundo ela. Não perguntei por quê. Nem tentei imagina o que esse animal raro representa pra ela. As letras luminosas dançam em minha visão, pessoas as acompanham com prazer. O braço de Maria ainda segura o meu. Seu ex-marido foi assunto pela primeira vez. Por apenas alguns segundos, quando vimos a camisa do Bota Fogo. Ele era botafoguense. Ofereci a Maria um presente, disso que poderia escolher algo pra ela. Com muita relutância a convenci, então ela escolheu uma bata, simples e barata. Não discuti. Sei que ela ficaria desconfortável em escolher algo caro, não que dinheiro fosse o problema. Esses cartões hackeados, os quais os chamo de coorporativos, descontam na conta diretamente de alguns deputados e senadores corruptos. Espero que os contribuintes não reclamem. Tem muito dinheiro invisível rondando o país. Não me sinto bem com isso, mas dou uma boa contraprestação social.
- Não seria melhor mesmo, deixar isso por conta do exército? – questiona Maria, enquanto namora uma sandália com adornos de strass.
- Não Maria. Não do jeito que está sendo. – respondo perdido em tantos brilhos.
- Você tem que considerar que poderiam vir conseqüências benéficas... Ora. – ela argumenta.
- Claro, Maria Aparecida! Desde que você esteja disposta a deixar alguns cadáveres inocentes no caminho...
- É difícil de acreditar que... Isso aconteceria...
- Eu também. Mas o meu foi só o primeiro. Não posso arriscar.
- Você tem que deixar? – Maria me... desafia.
- Não existe essa idéia de fazer a coisa certa pelo motivo errado! O motivo deve ser certo, e o que fazer também. Lembre-se disso.
- Não sei se entendi, desculpa, não sou muito inteligente...
- Assunto encerrado Maria.
Caminhamos entre os corredores de lojas. As telas de plasma e lcd jorram informações para nós. E como bons receptores, perdemos alguns segundos com o colorido das explosões que acontecem no filme em suas telas.
- Estou com fome. – comenta Maria.
- Vamos para a praça de alimentação. Nada melhor do quê um bom fast-food, para nos sentirmos entalados. – sorrimos juntos.
O cheiro de comida é delicioso! Percorre as narinas sem pudor, me lembrando que estava com fome. Minha boca é tomara por saliva, já imagino o tamanho do sanduíche que vou querer. Vasculho os letreiros. Maria puxa meu braço.
- Vamos comer em outro lugar. – ela sorri sem jeito.
- Por quê? – questiono surpreso.
- Estou sem fome. – ela olha para frente e segue me puxando.
- Então pra que comer em outro lugar? Você mente muito mal Maria. O quê foi?
- Nada.
Viro a cabeça para tentar ver o que, ou quem, incomodou Maria desse jeito. Aperto os olhos. E nada. Ninguém olhando para nós, nenhum rosto ameaçador... Meu coração bate uma única só vez. Um coice firme e solitário. Em seguida para. A nuca formiga novamente. Meus olhos travam em Costa Machado! Mesmo sem o uniforme militar o homem transmite sensações de poder e autoridade. O braço frágil de Maria tenta me segurar, inutilmente deixo-a de lado e caminho até a mesa do General, que come tranquilamente sua refeição, acompanhado de um único homem de costas para mim. O caminho até a mesa é mais distante do que pensava, tentei ordenar meus pensamentos, decidindo se quebraria sua cara ali mesmo ou... Sento sem pedir permissão. Bem de frente para o General Costa Machado. Ele larga os talheres, e sem nem ao menos picas uma vez, olha dentro de meus olhos. Ficamos ali, não sei dizer por quanto tempo, travando uma luta psíquica, disputando quem de nós é o mais firme. Costa Machado ainda mastiga a última garfada, sem pressa, como se eu não estivesse ali. O homem viu meu rosto de longe dias atrás, jamais me reconheceria, mas isso não é necessário quando o espírito marca o ambiente com sua presença. Ele sabe quem sou! O mais estranho aqui é que estou... Calmo. Ao sentar meu coração voltou a bater de maneira ordenada e calma. Isso não vai ser uma luta. Definitivamente, não vai ser em um Shopping que terei de enfrentar o General Costa Machado.
- Vá comprar um suco para mim Rogério, e não tenha pressa. – toda e qualquer palavra soa como uma ordem. O homem, que agora vejo é um simples jovem de alguns vinte anos de idade, rosto familiar, obedece sem pestanejar. - Estou no exército a mais de quarenta anos. – a frase tem o peso de uma montanha. – Nunca fitei olhos como os seus. Há uma fibra nesse olhar. Ódio também, mas agora ele não o controla. Você é o tipo de homem que deveria usar uma arma. Ela não o dominaria, jamais. – suas mãos acariciam o bigode branco. - Nesses quarenta anos, é fácil imaginar, vendo a história de nosso país, o que enfrentei. Vi esse país crescer em cinco anos, assisti a sua modernização e participei dela. Queríamos ser fortes! Ansiávamos a alcunha de potência sul-americana. Tínhamos ordem, vivíamos em paz. Mas, os jovens, ah os jovens, queriam mais. Fome insaciável. Insatisfação infinita. Desejos que levariam a desordem. Esse demônio que se disfarça de liberdade, que adentra em nossas entranhas como verme... Era isso que queriam? Um país entregue aos corruptos e assassinos. – o General põe os dois braços na mesa, até essa cadeira de metal é um trono para esse homem. – Eu li a Constituição antes de 1988, eu previ. Eu sabia! Nós não queremos isso. Não estamos prontos. E agora veja... – seu braço me mostra o invisível. – Drogas, prostituição, tráfico de armas, assassinatos, estupros... Todos os dias.
- Isso não vai funcionar comigo General. – afirmo.
- Você quer o mesmo que eu garoto. – sua voz é como aço.
- Não, não quero General. Você me deixou para morrer. Poderíamos ter capturado vários daqueles malditos de uma só vez.
- Belotto foi claro. Você avançou porque quis. – nem ao menos uma vez, o desgraçado fraqueja.
- Eu tinha que salvar aqueles garotos!
- Tinha? – a pergunta fica no ar. – Ir a mídia foi uma idéia interessante, no princípio achei aquilo sujo demais. Mas o jeito que os meios te tratavam, em menos de uma semana você estava estrelando em todos os canais e revistas! Eu sabia... O garoto fez a decisão certa. Você não precisava ter salvo aqueles garotos, imagine, filhos de políticos assassinados pelo tráfico.
- Está querendo dizer... – denoto nojo. – Que eu não deveria ter salvo aqueles garotos?
- Não precisamos de viciados. Aliás, alcançaríamos os jovens nesse intento. - mais uma vez suas mãos acariciam o bigode.
- Seu...
- Você irá me ofender garoto? Só porque consigo ver através de olhos do progresso, prevendo situações e... – o General toma fôlego. – Tudo isso foi culpa sua. Inclusive a sua morte. Me lembro bem de nossa primeira reunião, você quis a sua espetacularização. Eu me aproveitei dela. – o velho sorri.
O jovem retorna com o suco enlatado.
- Esse que você pediu vovô? – sua voz não me é estranha. Ele se vira para mim. – Quem é esse?
A ira percorre meu peito, rasgando-o em seu interior! O fogueteiro! Aquele miserável que deixei... Eu caí em sua história... Ele disse que teria um filho! Eu aliviei para o filho da puta! ELE ATIROU EM MIM! Meu abdômen se contorce e me lembro da dor. Costa Machado percebe a raiva. Entende que posso esmagar o maldito e subjugá-lo como um brinquedo.
- Ele é Jack Built. – o jovem treme ao escutar as palavras do General, engasga com sua própria comida.
- Você não só me deixou para morrer... – não tiro os olhos do jovem, que agora só consegue olhar para o prato. – VOCÊ MANDOU ME MATAR! – todo o a praça de alimentação agora tem nossa atenção.
- O quê você queria que eu fizesse? – o velho volta a atenção para seu prato de comigo, enchendo sua boca dela, como se nada tivesse acontecido. – Eu tenho uma cidade para limpar. Encontrei a melhor maneira de fazer isso. Com força! Com eficiência! Graças a você... – ele ri novamente. Ele ri! – Agora parte da imprensa está do meu lado, a classe média em sua inteireza, algumas peças importantes do Judiciário... Agora as coisas serão do meu jeito! Não há lugar nessa cidade para traficantes, ladrões e assassinos. Não mais.
- E você irá matar a todos, ou quem precisar para isso. – provoco.
- É CLARO! – as migalhas de comida voam da sua boca. – Isso é preciso. Não vê? Acha que a polícia irá fazer esse trabalho? NÃO! Eles não têm colhões para isso.
- E você tem? – provoco mais uma vez.
- Tenho o quê você não tem. Soldados.
Concordo levemente com a cabeça, retomamos a batalha com o olhar. Ele é velho, e isso definitivamente não é sinônimo de fraqueza. Seus músculos ainda são fortes, delineando a camisa social que veste. Sua presença me incomoda. Eu confiei nesse mentiroso! Nesse manipulador! NÃO! Ele não pode vencer.
- Velho. Sem rodeios. Me poupe dessa sua retórica porca. Sentei nessa mesa só para te dar um único aviso... – Costa Machado controla seu humor com sua respiração, e está atento. – Se seus soldados entrarem em alguma casa onde uma família esteja almoçando em paz, ou se algum trabalhador for atingido por uma bala perdida sequer, não me importará quem a disparou, ou se alguma criança sujar o asfalto com sangue, eu irei atrás de você! E você estará comprando uma guerra que não poderá vencer.
- Como ousa seu... - o jovem se exalta.
Agarro seu antebraço com força com a mão direita, enquanto a mão esquerda agarra a faca de serra que o imbecil usa para se alimentar e cravo em sua mão!
- AARRGG!! – o meu assassino grita de dor.
A lâmina atravessa a carne de sua mão, usei força o suficiente para que a faca crave na madeira da mesa, deixando-a presa. O sangue começa a minar. Costa Machado não mexe um milímetro sequer. Engole o restante de comida em sua boca. Abre o suco, toma um gole e bate a lata com força na mesa. O líquido pula junto com os talheres e pratos, suja completamente a mesa.
- Quem é aquela moça com rosto preocupado, logo ali atrás? – fala o General, escolhendo bem as palavras. – Muito bonita.
- Fique longe dela. – ameaço.
- Você é meu inimigo agora Jack. Irei te caçar se ficar em meu caminho. Deus sabe que irei te caçar como um animal se você ficar entre minha operação e a favela da Rocinha.
Levanto de forma brusca, derrubo a cadeira e vou em direção a Maria. Agarro-a pelo braço. Ela treme, e está com a cara assustada.
- Vamos embora! Chegando na sua casa, empacote suas coisas. – falo enquanto ando apressadamente pelo Shopping. – Você vai se mudar!
- Pra onde? – Maria quase tropeça ao tentar acompanhar meu ritmo. Não largo seu braço.
- Hoje à noite vou pegar os irmãos! Esse baile não vai acontecer. Depois você vai para Minas Gerais comigo! Amanhã é o meu último dia no Rio de Janeiro... – olho para ela. – E o seu também!
Nos camuflamos em meio a multidão.