Mente De Um Zé Que Se Chama Pedro

Este é um espaço para expor meus pontos de vista sobre os mais variados assuntos, desde política até a nova banda que começou a tocar nas rádios. Espero que gostem e que também comecem a despertar seus espíritos para a crítica! Beijos para as mocinhas e abraços para os mocinhos!

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Nome: Pedro Augusto

Um Zé que se chama Pedro.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

A Crônica do Terno Branco

O terno branco me incomoda. Fico muito visível. Devo confessar que o chapéu branco me deixa charmoso, escondo meus olhos com sua aba. Tento não desfilar enquanto ando, isso é muito anos cinqüenta para mim. A polícia me deu somente um nome... Annie. Filha de um milionário. Tem que ser. Para me chamarem com tanta urgência. Só me deram uma foto, a garota tem dezenove anos, loira dos cabelos dourados e pele rosa. A menina parece um anjo. Pura. Inocente. Foi seqüestrada. É tudo que preciso saber... Se o pai dela tem algum tipo de negócio ilegal, cuido disso depois. Ela está sozinha, com medo, temo pelo pior. Só me avisaram... “Não vá de uniforme, você precisa entrar naquele bar de luzes vermelhas, use esse disfarce”. Um terno branco! Tento amenizar o meu brilho natural com uma camisa azul... Não deu certo.
Esse bar é um antro da escória de nossa sociedade. Falo de criminosos, viciados e putas. O lugar é grande, foi um bordel badalado no início do século, mesmo tendo a mesma clientela o lugar é cinza. Exala podridão e mete medo nos curiosos. A policia raramente vem aqui, quando aparecem é para pegar propina. Meus sapatos brilham sob a luz azul da cidade, estão bem engraxados e são desconfortáveis. Espero não ter que lutar.
Venho pela calçada molhada ao
relento, algumas cabeças curiosas me acompanham. Ignoro-as e caminho com elegância. “Entre, descubra onde Annie está e saia!”. Foram categóricos. Eu não dou a mínima, só saio do lugar com a loirinha comigo. Abro a porta de madeira velha, o letreiro escarlate me cumprimenta. Que tipo de estabelecimento tem sua entrada em um beco, que parece ter saído de filmes noir? Ajeito o palito branco. Meu sapato brilhoso entra em minha frente.
O interior do bar ainda tem seu toque sinistro, mas não é cinza esfumaçado como seu exterior. A luz chega a incomodar meus olhos.
Outra coisa me incomoda. Ou esse terno branco é realmente oitentista demais, ou tenho um magnetismo incrível exalando. Todos no bar em silêncio, nenhuma música, nada, nem sequer um bêbado cantarolando... Quietos demais! Todos sem exceção reparam minha chegada, até aquela prostituta oriental sendo lambida pelo pescoço. A falta de som me deixa nervoso, mordo meu lábio inferior e analiso o ambiente. O balcão do bar relativamente movimentado, garrafas ao fundo e copos manchando a madeira, enquanto o barman luta contra o suar dos vidros. A jukebox solitária e sem utilidade complementa meu visual, estou no passado. Nostalgia, essa é a palavra. Desfilo dentre as mesas, em direção a jukebox, preciso de alguma música ou foi perder a cabeça. Por falar em cabeça, todas me acompanham em uma coreografia sinistra. Eu jogaria a moeda de um real de longe... Se pudesse.
A moeda tintila dando início a uma música velha. Ritmo dançante, agradável, tem seu charme admito. Sem perceber meus pés começam a seguir a melodia, os braços também. Dou um sorriso pelo canto da boca e parto para cima dos olhares curiosos. Hora de começar a... Entrevista.
O quê eu sei? Primeiro, o homem entrou pela janela de seu apartamento. Sei disso pela mancha de sangue deixada em seu carpete. Segundo, ela o viu. Coitadinha, devia estar apavorada. Tentou se esconder sob a mesa, ele percebeu e quase partiu a madeira em sua cabeça. Em seguida, Annie correu para o quarto e foi golpeada. Foi o seu fim. O dia negro era domingo, faz uma semana. A lua era crescente.
O seqüestrador deve ser forte, mesmo sendo mulher um homem sozinho não a dominaria tão facilmente. Annie você esta bem?
A cortesã oriental vem me dar seu cumprimento, oferece seus serviços – não duvido de sua competência – e afirma que o preço é bom. Dou corda, sorrio e jogo meu charme, levantando de leve o chapéu. Ela se oferece de maneira educada para mostrar o bar, andamos em coreografia, passo a passo, ao som da canção.
Suas mãos agarram nas minhas com vontade, e começamos a bailar. A escória a minha volta imita nossos movimentos, preciso ganhar espaço e confiança. Como se confiança fosse o nome do que quero... Como se isso existisse aqui.
Homens discutem atrás de mim. Ignoro. O som da pistola disparando acontece junto com a batida da música, olho para ver melhor o que aconteceu... O terno bege do cara estirado no chão ganha detalhes vermelhos. Esse não é meu trabalho. A dança não para. A briga continua, socos e chutes são a sonoplastia agora. A cortesã oriental de cintura fina, deixa de rebolar comigo e vai apartar a luta. Outra não menos bela, mas mais formosa em seus atributos me agarra, e passamos a rebolar junto.
Sem mais delongas, abandono-a e vou em direção às escadas. Seu rosto é triste, como se eu fosse o tesouro em meio a esse esgoto de apostadores, viciados e bêbados.
O segundo andar é ainda mais podre. Jogos de cartas, dados, sinuca são os meios mais eficientes de ganhar algum dinheiro. A fumaça dos cigarros e charutos toma o lugar. O cinza da noite agora domina o ambiente interno, respirar é uma arte. O cara de fuinha se apressa em não me deixar subir, pego seu braço e faço-o rodopiar duas vezes do ar. Preciso achar Annie. Um negro do tamanho de urso me olha furioso. Os outros a seu lado compartilham o mesmo sentimento, espero que não sujem meu terno branco. Corro até a mesa de sinuca. Pego uma bola. Acho que era a sete. Jogo como um exímio arremessador, acerto a cabeça do careca ao lado do grandalhão. Pego o giz próximo a caçapa, amasso-o em minhas mãos. Dois deles correm com os tacos na mão, abaixo antes que a madeira rache meu crânio. Passo a rasteira nos dois ao mesmo tempo, não vão dar mais trabalho. A pele negra do homem agora está púrpura, deve ser raiva. Ele parte o taco, como se um graveto fosse. Abro a palma da minha mão e assopro todo o giz em sua cara! O pó arde em seus olhos. Continuo minha jornada pela cozinha do inferno.
A luz azul da cidade ilumina os degraus, subo cautelosamente, meus pés ainda acompanham a batida dos anos oitenta. Ao fim da escada, uma mulher de beleza selvagem me agarra. A juntada chega a ser confortável, apesar de forte. Meu joelho agora roça a parte inferior de sua coxa macia. Agarro sua bunda, trago-a para perto. Ela arrepia com meu hálito de menta. Beijo seu pescoço, buscando o caminho para seu ouvido.
- Onde está Annie? – pergunto com a voz charmosa.
Escuto um tapa. Um homem, bem vestido até, se não fosse a cor salmão de sua camisa, começa a bater em uma das prostitutas. Não na minha frente garotão! Meus sapatos brilham, meu chute acerta o peito do homem, que alça vôo e cai até o primeiro andar.
- Você está bem? – pego a mulher nos braços.
Mais vozes e palavrões me amaldiçoam. Corro até elas e as calo com meus punhos. Um dos malditos tenta me acertar com um porrete, desvio e dou a ele um novo tipo de dor.
As putas vêm até mim, preocupadas. Tento acalmá-las, passo por isso quase sempre... Um brilho reflete nos olhos verdes da cortesã. O reflexo de uma lâmina. Agarro o metal do revólver dentro do palito, sem ao menos olhar para trás, aperto o gatilho. Tudo que escuto é um urro. Faço meu algoz desaparecer. Me lembro de Annie. Pego a foto e mostro para as mulheres.
Nenhuma soube me informar. Nenhuma quer falar!
Desço pela escada a minha frente, direto para o primeiro andar, onde pessoas ainda dançam, apesar de algumas já terem notado o corpo estranho em seu organismo pútrido.
Corro até o palco. Pego o microfone! Grito para chamar a atenção de todos. Ergo a foto de Annie! Quatro homens sentados na mesa ao centro parecem se incomodar, atravesso todo o salão, subo em sua mesa, jogo a foto na cara de um deles.
- ONDE ESTÁ ANNIE? – faço o máximo para parecer um monstro. Forço o gutural, como se um demônio fosse.
As luzes se apagam! A vidraça do teto estoura! Os cacos sibilam no ar, caindo como chuva. Somente o azul macabro da noite ilumina o bar. Não penso duas vezes. Faço o dente de um dos caras, estragar meu sapato engraxado. Parto para cima deles com tudo que tenho. São uns beberrões e não conseguem brigar direito. Quebro o braço de um deles tranquilamente, e o lanço de cabeça na jukebox. A música para. Teclas de piano soam quatro vezes. Notas solitárias aos gemidos na escuridão.
Uma mulher grita! Não! Uma garota! O grito é juvenil! Minha visão ainda não se acostumou às trevas, tento segui-lo pela audição. Sou obrigado a machucar mais alguns imbecis. Empurro o último corajoso, largo sua carcaça mole em cima de uma garrafa de gim. Outro grito de Annie!
- ANNIE VOCÊ ESTÁ BEM? – grito!
As luzes de acendem! Minhas pupilas retraem. O salão agora está mais vazio, e mais homens vêm em minha direção. Cinco! Eles avançam juntos, são espertos. Tenho espaço livre o suficiente, esquivo de todas suas investidas. Passo uma rasteira em um deles. Um soco quase arranca meu chapéu branco, isso me deixou nervoso. Uso os cotovelos para causa mais estrago. Golpeio três deles ao mesmo tempo, de forma tão rápida que nem ao menos conseguem acompanhar. Deslizo com meus sapatos brilhantes, o chão encerado ajuda. Escapo ileso de mais uns golpes. Acerto as bolas do gordo a minha frente, isso o imobilizará. Pulo em um giro, rodando meu pé e acerto a orelha do último deles.
Avisto Annie sendo levada para a saída do bar. Tento correr até ela, mas sou impedido por TODOS! Quando menos espero, me vejo batendo em cada ser vivo daquele lugar. Homem ou mulher. Todos que avançavam, armados ou não. Tinha que ser rápido! Causa o máximo de estrago, no menor tempo possível! Usava as penas e os braços com destreza. De algum modo o terno branco não atrapalhava meu bailar.
Consigo escapar dos milhares de braços, e chego perto de Annie. O homem que a segura tem os traços fortes, e arranca uma metralhadora de não sei onde! Desarmo-o me valendo de golpes certeiros e fortes! Ele sente cada um deles. Faço esforço para isso! A garota está amedrontada.
- Está tudo bem Annie. – tento tranqüilizá-la.
As janelas que permitem a entrada do azul noturno, revelam silhuetas de pessoas... Fortemente armadas! Chamarão reforços! Pego a metralhadora do homem caído aos meus pés, e miro para as janelas. Colo do dedo no gatilho e tento controlar os coices da arma. Os vidros se partem, a chuva brilhante agora virou uma tempestade! Annie se esconde atrás de mim. Quando a arma para de cuspir as balas, largo-a no chão e falo para Annie.
- Está tudo bem! – dou um pequeno sorriso. – Vamos embora.
Com a respiração ofegante, partimos juntos para o cinza indiferente da noite.

NOTA: Essa crônica é uma homenagem ao grande e único... Michael Jackson! Assistam o video Smooth Criminal, caso não tenham entendido a homenagem.


Quinta-feira, Junho 25, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XXI: Néon

RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
13:58 PM


Sábado e o trânsito não ajuda. O ônibus não está tão cheio, isso alivia um pouco. Me da chance para respirar. Maria está pensativa olhando o céu. Eu, mais inquieto impossível. Fico apertando o ferro com minhas mãos. Mordo meus lábios a cada minuto que passa, além de ficar olhando para lá e para cá, sem nada para olhar. Não prestando atenção em nada. As nuvens tomaram conta do azul, o dia agora está cinza. Melancolicamente cinza.
Um General doente prometeu me caçar. Fui morto por traficantes há quase uma semana... Suspiro, abaixo minha cabeça, na tentativa de aliviar a inquietação. Fecho os olhos. Eu sou um controlador. Preciso ter algum controle, e perdi todo o senso aqui no Rio de Janeiro. Minas Gerais é meu território. Belo Horizonte minha cidade! Lá eu mando! Apareço e todos sabem o que significa... Dor garantida para quem quiser brincar de bandido. Aqui não. Falta a sensação do preto no branco do meu trabalho. Vou ter que sair dando pancada em soldados e traficantes. Isso não é bom. Para o... Caralho! Você tem que se encontrar rapaz... Não está na idade de ficar bancando o viadinho. Trânsito da porra! Tudo parado. Soco a barra de ferro. Maria se assusta. Igualmente o passageiro a minha frente, um senhor com a face cansada. Olho para os lados tentando esconder a vergonha. Agora sim percebo onde estamos! Já chegamos perto da Rocinha, as casas empilhadas no que uma vez fora um morro já estão visíveis.
O vidro do ônibus se quebra! Sons de estouros seguem vindos da favela.
Agarro Maria e deito por cima de seu corpo no chão de metal frio. Alguns passageiros imitam o meu movimento. Nunca meu corpo esteve tão próximo do dela, sinto sua pele macia, rígida e... O aroma de seus cabelos seduz meu olfato. O som de um helicóptero passa por nosso ônibus, aguardo alguns instantes e ele aparece através da janela estilhaçada. Sirenes de polícia abafam as buzinas desesperadas. A adrenalina começa a fluir pelo meu corpo, minha pele sente falta do colante e meu peito da proteção do kevlar. Pessoas podem se ferir com... Um gemido de dor vem do outro lado do ônibus. O homem com uniforme azul, crachá no bolso, da um espasmo e revela o sangue em sua barriga.
- Maria! Ligue para uma ambulância! – me levanto rápido e começo a correr para a saída do ônibus. – ABRA A PORTA MOTORISTA!
- Onde você vai Augusto? – Maria questiona com a expressão de desespero.
- Onde você acha? – respondo fitando seus olhos e os demais olhos naquele ônibus, que também fazem a mesma pergunta.
Maria morde os lábios temendo o pior. Salto do ônibus assim que a porta se abre. Outro tiro acerta a lateral do veículo. Pessoas saem dos carros e se abaixam no asfalto sujo. Corro no labirinto de carros, pulo a barreira de aço que separa as casas da avenida. Pessoas gritam, e correm em minha direção. Não para mim... Para longe da guerra e dos tiros. Sou obrigado a dançar no meio delas, desviando de cara rosto amedrontado. Uma mãe corre com o filho dos braços. Uma rajada de metralhadora dá ao ambiente a trilha sonora adequada! Comércios fecham as portas. Duas Blazers da Polícia Militar cantam os pneus a minha frente, fechando a rua. Ignoro-as e sigo correndo o mais rápido que posso. O helicóptero é meu guia. Avisto um cadáver no meio da rua, passo por ele tentando obter alguma resposta. O corpo é gordo e está suado, segurando um fuzil. E é claro, um buraco no meio do peito minando sangue. A minha frente alguns policiais feridos se protegem atrás do poste, trocando tiros com as casas acima dos morros. O helicóptero está parado, uma arma aponta em sua lateral e começa a atirar. Os cartuchos usados caem como chuva dourada.
- Sai daqui porra! – grita uma voz atrás de mim. Um policial. – Quer morrer caralho?
Não respondo.
- Sai pra lá seu imbecil! – o outro a seu lado também ofende. Ambos armados vão ao socorro dos companheiros.
- Por que só duas viaturas? – pergunto com a voz calma e serena.
- Não é da sua conta! – eles me empurram, e vão até a linha de tiro.
Milícias. Não é um confronto com traficantes ou bandidos normais. A outra ferida infeccionada da pele do Rio de Janeiro. Milícias de ex-policiais civis, militares e até integrantes das forças armadas. Invadem as comunidades carentes, prometendo segurança e outras blasfêmias. Agem ao arrepio das leis. Os filhos da puta tem treinamento! Tem treinamento! Cobram por essa proteção, sem direito a constituir o devedor em mora... Fuzilam e expulsam os inadimplentes. É uma indústria e tanto. Envolve políticos corruptos, eleitos pelo medo e pela chantagem. Um animal difícil de se abater... Para os policiais comuns... Não para mim!
Agarro o fuzil do miliciano morto e me esgueiro pelos becos apertados. Subo o morro na lateral do confronto. Tiro a blusa e a uso como máscara. Devo estar parecido com um palestino ou... um completo imbecil. Surge alguns garotos correndo, chorando. Se intimidam com minha presença e ficam paralisados a minha frente, acelero o passo em compaixão. Os tiros estão cada vez mais altos e claros. Armamento pesado. Não sei dizer qual. O helicóptero recua. Mais sirenes e gritos dão o som a essa guerra. Mal caibo no beco que se segue, os disparos estão mais próximos. Caminho vagarosamente, curvo meu corpo, apoio a parte de trás do fuzil do meu ombro. Chego ao fim do beco. Os disparos estão vindo de algum lugar próximo. O helicóptero retorna e metralha algo a minha direita. Viro para o lugar, com o fuzil apontado para frente... Uma casa! Homens pulam as janelas fugindo dos disparos. Aos berros um deles dá ordens para se espalharem. Todos estão armados, com metralhadoras e pistolas. O maior deles usa uma doze. Estão próximos... Muito... Meu dedo coça. Quase chego a apertar o gatilho... As balas sairiam nervosas e violariam com facilidade a carne dos milicianos... MERDA. Largo o fuzil e parto para cima deles. O som das hélices me da a furtividade que preciso. Os milicianos atiram a esmo. Balas perfurantes e desespero são um perigo... Ainda mais com casas tão próximas. Tenho que ser rápido. O maior deles, usa uma camisa pólo laranja, me vê, grita e atira com sua espingarda. Dou um salto, rolo no chão e a poeira do asfalto destruído pelo disparo suja meu corpo. Ele arma novamente a doze. Azar o dele estou perto demais. Dou um pequeno salto, e direciono meus pés para seus joelhos. Ambos se partem. Com direito a fratura exposta e muito sangue. O grandão esperneia como um bebê. Pego sua doze e miro na porta de ferro. Atiro. A porta cai! Outro miliciano me avista. O desgraçado atira freneticamente, com o dedo colado na Uzi. Me jogo para dentro da casa. CARALHO! Outros quatro aqui dentro! Desviam sua atenção do morro abaixo deles. Dos policiais. Se viram preparados para atirar. Mais uma vez sou obrigado a ganhar o ar e caio dentro de um pequeno banheiro, tudo atrás de mim vira pó com milhares de tiros! O homem fora da casa grita. Vítima de seus próprios companheiros. São quatro. Armo a doze atiro nos azulejos do banheiro minúsculo e fétido. Puxo mais uma vez a madeira da espingarda. Atiro na parede! Os milicianos recarregam suas armas. Jogo a doze no vazo, ainda amarelo pelo mijo. Respiro fundo. Lanço adrenalina para os músculos certos. O diafragma é bombeado. A energia é acumulada. Uso a lembrança de Costa Machado ao meu favor. O ódio é minha ferramenta agora!
- RRRHHHUUUURRRRYYYYAAAAHHHH!!!! – exorcizo a besta dentro de mim.
Meus pulsos destroem os tijolos vagabundos, mas somente após esmagar os azulejos beges e de extremo mal gosto. Atravesso a parede como se de papel fosse. Essa merda vai doer muito amanhã! A poeira e as migalhas batizam meu corpo. Os milicianos perdem preciosos segundos assustados com a cena. Tempo o suficiente para que eu os alcance. Primeiro passo é desarmá-los. Os dois primeiros foi fácil. Exagerei na força de meu chute, e um deles imita minha manobra, só que com a cabeça. Minha perna direita é mais rápida e mais forte, desmaio o outro com um só golpe. Os restantes ainda têm fôlego, terminam de recarregar suas pistolas e apontam para mim. Faço meu punho desviar a pontaria de um deles. O tiro acerta o teto. O mesmo punho desvia a pontaria do outro 38 que me ameaça. A bala acerta um televisor de 29 polegadas. Com facilidade ambos beijam a lona com os dentes da frente. Nada de cortar carne mais colegas.
Silêncio. Respiro ofegante. Isso é muito bom. Mal reparei que estava sorrindo.
O som das hélices está mais próximo. Passos apressados também se revelam. A polícia. Me preparo para ir embora, agarro um palito horroroso para o disfarce... Calma aí... Um computador. Quantas informações não podem estar aí... Abraço a torre como um bebê. Não vou deixar você ser destruído por incompetentes e corruptos. Parto me esgueirando pelo morro. E claro... Tiro a camisa da cara.

RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
15:48 PM


O segurança do hospital não resistiu nem dez segundos. A recepcionista de sorriso metálico grita eufórica às minhas costas. Ignoro-a. Sei que minha aparência suja de cinza pelo pó de cimento, de laranja pelas migalhas de tijolos, e o suor que não deixa meu cheiro o mais agradável... Não é das melhores. Pô! Mas tinha que chamar a segurança. Tsc, tsc. A porta automática do elevador se fecha, me lembro da mulher de Firmato. Ela fitava os números digitais vermelhos. As lágrimas tomavam seu rosto... E eu... Um completo idiota. Suspiro. Devia pensar mais nos sentimentos alheios. Será que não entendem que isso me enfraquece? Se eu parar pra pensar em minha mãe, ou no meu pai, não conseguirei fazer o que faço! É por isso que criminosos vencem. Sua família ou é sua arma ou seu escudo. Nunca um motivo para arriscar sua saga lucrativa que solapa leis. Eu TENHO que fazer isso! POR QUÊ NÃO ENTENDE QUE TIVE QUE IR EMBORA POR ISSO? Agora não é lugar para lembrar do passado... A porta automática saúda o corredor branco. Caminho até o quarto de Firmato.
- O quê? – o delegado se assusta.
- Um presente para você. Para incentivar a sua opinião contrária... – respiro um pouco. – Para me ajudar.
Deixo a torre do computador ao lado das flores, que enfeitam uma mesa ao canto do quarto. O lugar cheira a hospital. Agora mais do que nunca as dores passam a aparecer.
- Suas mãos homem... – Firmato comenta.
Percebo o porquê do espanto. Estão feridas. Os calos não foram o bastante e a pele está um pouco rasgada. Nada fatal. Vasculho uma pequena prateleira. Encontro alguns analgésicos. Paracetamol, Tylex, Novalgina... Isso é um santuário. Tomo alguns comprimidos.
- Qual o conteúdo desse HD? – questiona Firmato, olhando curioso para os remédios.
- Acabei de espancar uns milicianos. Provavelmente “pés inchados”. – os que fazem o trabalho sujo. – Essa torre estava lá. Alguma senha de e-mail e pronto! Políticos e alguma galerinha do topo... – aponto para o céu com meu indicador. – Vão estar ligados a esses pés-rapados. O armamento era pesado. Mas dei conta... – um auto-elogio.
O elevador apita no corredor. Passos apressados e duros caminham até o quarto.
- Tenho que ir doutor! – sorrio. – Espero poder contar com você. Não te incomodarei mais...
Apoio o pé e me preparo para sair pela janela.
- Jack... Esse é o sétimo andar... – afirma o delegado, como se fosse o maior absurdo que aconteceu nessa sala.
Dou uma piscadela e vou até o vento refrescante da altitude. Pensei ter ouvido um... “obrigado”.

RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
17:52 PM


- Maria! Você tem que trancar essa porta menina.
Entro fazendo muito barulho, revelando minha presença. Ela não responde. Está vidrada nos monitores. Um verdadeiro oráculo da cidade maravilhosa. Chego a achar engraçado. Maria é muito eficiente. Talvez com um treinamento certo... NÃO! Você é um lobo solitário e maluco, nada de tragar inocentes para essa sandice sem sentido.
- Tá... – ela é seca e direta, sem querer ser grossa.
- Preciso de um banho. – retiro o palito, que não serviu muito bem como disfarce.
- Tá... – mais uma vez.
- Fez as malas? – pergunto.
Agora sim tenho sua atenção! Ela se vira com os olhos saltando em minha direção. Tenta conter um sorriso sincero. Sua face brilha... Isso também me cativa. De alguma forma estamos sorrindo como bobos.
- Você falou sério Augusto?
- Claro! Chega de clima tropical o ano inteiro e funk. – sou sincero, apesar de reduzir o Rio a uma frase pejorativa.
- Sua mãe... – Maria balança a mão, como se começasse a fazer uma contagem. – Seu...
- Relaxa mulher... – tiro a camisa e a jogo no canto. – Somos bons de inventar mentirinhas!
Ela sorri e se volta para os monitores.
Demoro mais do que devia no chuveiro. O quê eu vou inventar para minha mãe? Puta merda! “Mãe, essa é a mulher que salvou minha vida no Rio de Janeiro. Como temo pela sua segurança, a trouxe para casa. E mais! Seu filho é o vigilante que recentemente morreu... Como pôde ver nos jornais. E...”. Estou completamente... Fudido! Maria pode ser minha namorada... Não! Deixo a água lavar minhas feridas. Abro e fecho as mãos para ter certeza que nada quebrou. Sei que faria Maria feliz ao levá-la comigo. Chega de sofrimento em sua vida, vou fazer o máximo para aliviar sua existência. Me lembro do dia em que estava com a arma de seu ex-marido nas mãos. O dia em que eu iria embora... Será que ela... Não. Ela tem depressão e eu aqui preocupado com bandidos. Traumas de infância e uma vida sofrida... O inimigo de Maria é maior e mais forte do que eu. Invencível. Impossíveis de se vencer na base da violência. Ah... Simples e fácil violência. Destrói mais não cura...
Desligo o chuveiro. Enxugo as partes molhadas de meu corpo. As dores começam a surgir. Vou até o espelho. Caramba como estou feio! Vaidade foi a última coisa que tive por aqui. A barba está grande, coça um bocado. Como não notei antes. O cabelo despenteado, parece um louco. Enxugo-o com a toalha, piorando a aparência. Faço umas caretas. Puts!
- Maria! – grito.
- O quê Augusto? – ela devolve o grito.
- Você tem alguma lâmina por aqui? – grito mais uma vez.
- Tirando as suas armas? – parece que encontramos um novo meio de nos comunicarmos... Piadinhas e gritos!
- Engraçadinha. – murmurei. – Preciso fazer essa barba. Estou parecendo um viking.
Uns instantes se passam. Maria bate na porta do banheiro. Abro. Um braço surge tímido, com uma gilete rosa.
- Isso servirá? – a voz mal sai de sua boca envergonhada.
- Claro.
A porta bate. Misturo a água no sabão para criar espuma e começo a desenhar o rosto. Brinco deixando um bigode francês. Costumava fazer isso na adolescência. O bigode me deixa com um ar mais maduro. Quem sabe... Não. Passo a lâmina e arranco os pelos que faltam.
Chego no quarto e sou surpreendido por Maria... Minha pele aquece de maneira mágica, excitante e indevida... Somente de calcinha e sutiã. Dou um salto para fora do quarto. Ela não me notou, ainda bem. Tento usar a respiração para acalmar... Bem... Acho que entendemos bem o quê deve se acalmar. Estou somente de toalha. Maria tem o corpo tipicamente brasileiro, mais do que perfeito. Um metro e sessenta e poucos, ancas largas, coxas bem delineadas como se fosse atleta, a cintura é delicada, a gordura que ali insiste em ficar é um charme, boa para a pegada... Respeito homem! Seu rosto juvenil é só mais um adorno a esta perfeita obra de genes nacionais.
Ela sai do quarto, perfumada e bem arrumada. Calça jeans e um salto que nunca a vi usar... Acho que ninguém nunca a viu usar. A bata que eu lhe dei de presente é mais bonita nela do que no manequim. Fico boquiaberto por alguns instantes... Noto que está envergonhada, seus ombros se fecham...
- Por... – demoro a completar a frase. – que? – é tudo que falo.
- Vamos sair hoje. – Maria sorri ousada. – Acabei de ver Joãozinho e seu irmão brutamontes indo para um clube noturno. Acho que era uma boate ou algo assim... – ela franze o cenho, como se pensasse. – Você disse que precisava pegá-los hoje.
Isso me assusta. Essa eficiência! A primeira vez que a vi tudo era tão... Triste nessa casa. A foto do marido morto. O passado indecifrável. Agora isso. Preciso cortar suas asas, infelizmente.
- Eu vou! – aponto para ela com o dedo indicado. – A senhorita vai dormir!
- E se o General vir atrás de mim? – isso era para ser uma brincadeira.
Fico sério. Gelado como o inverno russo. Olho de forma ameaçadora para Maria, a brincadeira não foi bem vinda. Suas mãos tocam meu rosto recém barbeado, acariciando-o. Não adianta. A inquietação voltou. Seguro-a pelos pulsos, retiro suas mãos.
- Você conseguiu o que queria. – sou frio. – Você vai comigo.
- Relaxe Augusto. Acha mesmo que o General faria algo de mal? – ela tenta argumentar. Costa Machado é um monstro manipulador... Algo em mim diz que ele não desceria a esse nível. Me tranqüilizo por um instante. – As conversas no bairro que me preocupam. Se cair algo no ouvido errado... É com os donos do morro que temos que nos preocupar.
- Desde quando você foi de se preocupar com você mesmo. – bombardeio, me arrependendo logo depois.
Maria engole seco, como se engolisse um pranto. Sai para a cozinha. Me visto. Olho para o armário que esconde meu uniforme. Meu colante. O toque de Maria ainda continua em meu rosto, não entendo bem minha ligação com ela, queria a máscara agora.
- Vamos. – comando.
Maria obedece, pega um papel com o endereço anotado, apaga as luzes, e vamos em direção ao ponto de ônibus.
Curioso. A noite está amena, quase um friozinho elegante. As nuvens tomaram mais os céus. Um chuvisco impertinente cai sobre nossas cabeças, nem chega a nos molhar. Os postes são nossa companhia, todos estão em suas casas, aproveitando a programação de um sábado à noite. O bar ao longe convida os solitários e excêntricos. O samba é o som da vez. Ritmo constante, alegre e confuso. Olhares curiosos me atingem quando passamos em frente ao dito bar, isso me preocupa. Mais por Maria do que por mim. Continuo andando como se nada estivesse acontecendo, como se eu não fosse um estranho em meio ao sotaque chiado, como se eu não fosse jovem e bonito com a viúva puritana e evangélica do bairro!
Entramos no primeiro ônibus e zarpamos rumo às luzes de néon da cidade maravilhosa!

RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
21:05 PM


Os solavancos do ônibus não me incomodam mais. Acostumei, eu acho. Muito menos as curvas. Somente os garotos segurando armas me dão arrepios. Vejo alguns em uma esquina macabra. As coisas se confundem aos poucos, falo das casas mal acabadas das favelas e os prédios que se espremem para caber cada vez mais gente. O asfalto é a ligação de tudo. As veias do organismo vivo... A cidade dos homens. Se Deus fez uma coisa bem feita, foram os engenheiros. Meus dedos estão entrelaçados nos de Maria. Seus dedos são magros, mas a mão é graciosamente gordinha.
- Vamos parar próximos a praia, de lá teremos que pegar um táxi. – sua face denota certo desconforto.
- Maria, você está bem? – pergunto demonstrando preocupação.
- Nunca sai. – sua resposta é tímida.
Não quero prolongar esse assunto desconcertante.
- Você está maravilhosa! Vamos dançar muito! – falo alegre.
- Mas...
- Os irmãos drogados? – me porto como alguém excessivamente confiante. – Deixo-os para o final da noite. – dou uma piscadela. Ganho um sorriso. – Vamos descer.


RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
21:35 PM


O calçadão é movimentado. Turistas tiram fotos como se o mundo fosse acabar, tudo é novidade para eles. Jovens conversam em um volume alto demais nos quiosques, me lembro do chopp com Angélica. Procuro em vão por um rosto conhecido. Nenhum. Aonde estão os atores e atrizes? Agora que preciso de um apoio, um rosto conhecido... Maria e eu. Na balada. Ai, ai... Tenho que me segurar.
- Augusto! Vamos! – Maria me chama ao para um táxi.
Obedeço.
A entrada do clube é movimentadíssima. Vários carros e indivíduos disputam um lugar na rua. A porta da boate é bem decorada, faz o que deve fazer, chamar atenção! Seguranças de preto, dois deles, cobertos de massa muscular e tatuagens, controlam a entrada. Os letreiros coloridos de roxo encantam um nome, não presto atenção. Ainda estou procurando um rosto conhecido, mas para esmagá-lo logo após. Eu e Maria estamos de mãos dadas, como um casal. Ela está espantada, chega a grudar o corpo em mim cada vez que um bêbado passa por nós gritando. Da entrada sinto as batidas eletrônicas, harmônicas com o piscar das luzes.
Pegamos o cartão magnético de consumação. Moderno, muito bem. Drogas realmente dão muito dinheiro. O lugar é escuro, somente os balcões dos bares são devidamente iluminados. As luzes brancas refletem nas garrafas de bebidas alcoólicas, um repouso para quem não agüenta ver sua visão ser destruída pelos lasers frenéticos da pista de dança. O ritmo mecânico, meio industrial faz o pública dançar como uma massa única e disforme. O chão treme. Homens e mulheres brincam no mercado da conquista. Amigos se divertem se abraçando, e amigas mancomunam fofocas e estratégias. A música acelera. Um casal beija apaixonado no canto. Sem pudor, se amam sinceramente aos olhos invejosos. As batidas da caixa de som ditam o ritmo de nossos corações. Meus olhos ainda procuram os irmãos, e Maria ainda parece ser minha esposa, namorada, companheira.
- Vamos dançar. – puxo-a, com a certeza de que ela não me ouviu.
Embrenhamos nos indivíduos suados e perfumados. Todos produzidos adequadamente para a caça, convidativos com o olhar. Seguro as duas mãos de Maria e começo a mexer, para a esquerda e para direita. Tento aprender o balancear da canção... Se é que posso chamar essa caixa pulando de canção. O estroboscópio pisca raivoso. Agora danço, me movimento como todos os outros, deixo-me levar. Maria também! Isso a diverte. A voz metálica da vocalista remixada é irritante, mas de modo estranho... Adequado ao momento. A música acelera mais ainda, como se fosse explodir. Maria sorri! Eu também! Acho que nunca em sua vida tantas pessoas tiveram contato com ela, falo de empurrões e reboladas desengonçadas de algumas moças embriagadas.
- Espere aqui. – tento me comunicar.
- O QUÊ? – Maria grita.
Chego até seu ouvido.
- Vou comprar algo para bebermos. – falo alto.
- NÃO ME DEIXE SOZINHA! – o grito dói em meus tímpanos.
Faço uma careta e um sinal para ela relaxar. Vou para o bar.
- Quem é o dono disso? – pergunto como quem não quer nada.
O barman é negro, tem o cabelo esquisito, estilo Bob Marley. Imagino os piolhos.
- Ele lá. – responde indiferente a minha pessoa, apontando uma massa de músculo em forma de gente ao lado do Dj. Bombinha!
O touro humano dança travando seus enormes bíceps, chega a ser cômico. Vá cheirar pó seu anabolisado, dançar não é seu forte. Vejo que está de tapa olho, somente uma das marcas que vou deixar em você. Sorrio autoconfiante no balcão.
- Vai querer o quê? – pergunta o barman rodopiando uma garrafa de gim.
- Duas vodkas puras, com gelo e limão. – entrego meu cartão.
- O irmão dele. – fala o barman neto do Bob, aponta novamente para o Bombinha. – Que curte saca? Esse aí é hétero.
- Sério? – pergunto às gargalhadas, como se eu já não soubesse. Pensava que era um segredo.
Pego os copos envoltos com guardanapos e vou até Maria. A música fica mais pesada! A melodia eletrônica se arrasta, demora mais para se fixar no ambiente. Gritos melódicos e artificiais dão um tom gótico ao lugar. Em seguida, sons mais delicados entram em cena. Maria está de olhos fechados e se liberta... Nem nota o homem que tenta se aproximar. Paro e fico observando, Maria graciosa dançando livre pela primeira vez. Me sinto orgulhoso. A música para. Olho para o Dj, e para o Bombinha que curte junto comigo, Maria e todos os outros a mesma música. Dou um gole na vodka, minha garganta esquenta. O outro copo é para Maria. O ritmo se torna repetitivo, dando graça a algumas coreografias possíveis.
- ONDE VOCÊ ESTEVE? – Maria grita!
Sorrio balançando a cabeça. Entrego o copo. Ela olha curiosa, da um gole, e recebo uma careta.
- Vodka. – falo com os dentes a mostra.
- O QUÊ? – outro grito. Novo meio de comunicação meu e dela, somente nosso.
Fecho os olhos e danço também.
Tudo passa muito rápido ao seu lado, até as músicas infinitas e chatas que nos agradam essa noite. O copo de vodka alegrou um pouco mais Maria, que esta realmente à vontade. Juntamos nossos corpos e bailamos como um só. No meio da tempestade de batidas, às vezes surgiam momentos calmos e tranqüilos. Eu aproveitava esses momentos, para ficar mais perto dela. Linda. Livre. Feliz.
O funk estraga tudo. Bombinha pega o microfone e as putarias tomam conta. Letras ofensivas, ritmos mal construídos e palavrões! O público parece não ligar. A festa continua. Sento em um puff vermelho, junto com alguns casais, enquanto aguardo Maria voltar do banheiro. Com um sorriso no rosto, ela senta ao meu lado. Ficamos ali. Calados e alegres. Sem nenhum de nós dar um movimento sequer, aproveitando o pequeno contado de nossas coxas e braços. Estávamos pegando fogo!
- Quantas horas? – Maria pergunta, quebrando o silêncio.
- Não faço idéia.
Viro para o bêbado no sofá, loiro e jovem. Exagerou nas bebidas, nada mais normal. Espero que seja somente... Suspiro.
- Hei. – cutuco o moribundo.
Ele murmura algo que não entendo. Pego seu braço e olho as horas que seu relógio me mostra.
RIO DE JANEIRO – 10 DE AGOSTO DE 2008
03:24 AM


- Maria...
- Oi?
- São três e vinte quatro da manhã.
- Já! – ela se surpreende. O sorriso é constante, agora é maior e mostra os dentes perfeitos. – Passou muito rápido. Adorei dançar! Nunca fiz isso sabia?
- O quê? Dançar? – pergunto.
- Não. Sair... Ficar de madrugada acordada. – sua cabeça pende para um lado, como se afirmasse o óbvio. – Muito menos dançando. – suas mãos pequenas ajeitam o cabelo ondulado. – Minha mãe não deixava. Se bem que... Eu não tinha amigos também. Talvez eu não tivesse, porque ela não me deixava sair. – Maria fica séria. – Ela só me liberou quando me casei, só que ele... – ela não disse seu nome, por quê?. – Era parecido com ela. Ambos me viam como alguém frágil, isso me incomoda um pouco. Eles não precisavam me segurar daquele modo. Minha mãe eu entendia... Tudo é culpa minha... – ela olha para seus pés, uma lágrima solitária atinge o chão. – Eu aqui, achando que perdi parte de minha vida, e eles... Mortos... – agora a gota desbrava suas bochechas, arrastando a maquiagem. – Mamãe largou tudo por mim... Eu não deveria nem existir. E você, tem sua missão seu objetivo e perde tempo...
A música nefasta havia parado, pessoas se preparam para deixa o local, mas ainda a pista está cheia. Hora de agir.
- Maria, me espere lá fora. - sou direto.
Ela entende, enxuga as lágrimas, ajeita sua roupa, me olha com um olhar triste e vai em direção à pista de dança. É necessário cruzá-la para chegar à saída. Vejo-a entrando no meio da multidão dançante... Começo a caminha para a gaiola do Dj, onde Bombinha, e seu tapa olho, beija uma prostituta. Procuro Maria mais uma vez com o olhar... Acuada, um cara grita com ela. A mulher loira a seu lado ajuda, ambos pressionam Maria com a parede de pessoas. Sem querer, Maria esbarra em um grupo de mulheres às suas costas, que se viram e também partem para a ofensiva. Salto para a pista de dança. Empurro quem esteja em minha frente! Homem, mulher, homossexual, travesti. Jogo-os para longe. Não passam de gravetos para mim! As ofensas são muitas! E altas! Posso ouvi-las claramente sob a música que estupra minha orelha. Meus braços empurram o grupo de mulheres, como papel, voam para um canto. Entro na frente do grupo ofensivo e encaro o homem... De frente! Como igual... Não! Como superior... O bafo alcoólico me da nojo. Vontade de vomitar. A nuca formiga. O coração lateja, querendo sair. Me preparo...
- Não Augusto! – Maria segura meus braços. – Eu derramei a cerveja dele, deixa pra lá. – seus olhos ainda estão vermelhos pelo choro.
Pense nos sentimentos dela sua anta! Tiro uma nota de cinco reais... Viro para o homem que esbraveja xingamentos ininteligíveis.
- Toma! – ofereço a nota. – Isso paga sua cerveja.
- E... u... – tenta se comunicar o seqüelado. – Tenho cara de mendigo? – as palavras saem emboladas. A mulher ao seu lado o encoraja.
- Esquece isso Augusto, vem. – Maria me puxa.
Me deixo levar, ambos caminhamos para sair da pista.
- Precisa da meninha pra te salvar? Hein? Machão? Colé! – ofende o maldito. Ignoro.
Maria larga meu braço, e com a cólera em sua face parte para cima do homem.
- NÃO QUERO DEIXAR QUE ELE ARRANQUE SUA CABEÇA! Eu deveria pedir para ele quebrar você em pedaços! Mas não quero que ele faça nada de errado, Augusto é um bom homem e cada vez que ele perde a cabeça ele... – Maria esbraveja como uma eficiente protetora. Me sinto orgulhoso.
O bêbado da um safanão em Maria, ela caí no chão.
- VEM CÁ ENTÃO RAPÁ! – ele me provoca.
Todas as pessoas em minha volta se foram. Desapareceram. Ou quem sabe, são invisíveis. O ambiente se movimenta em câmera lenta. A única coisa veloz e animalesca aqui é meu sangue! Carregado de adrenalina! De ódio! De raiva! Por pessoas como esse desgraçado, ignorante, abjeto! Um coice. Meu coração da um... Único... E bruto coice. Meu punho atrita com o ar e só para quando esmigalha a mandíbula do imbecil. Ele cai como um tronco podre. Chega a tremer no chão. Convulsão? Sua companheira grita...
- É ESSE CARA QUE TE FODE? – minha voz é demoníaca. Maria volta a chorar. – Vamos Maria. – parto para a saída.
Dois seguranças. Dois armários vivos, vestidos de preto vem em minha direção. Pessoas se afastam, prudentes. Eles tomam posição de batalha, vão sofrer pela imprudência alheia. Torço para que sejam bem treinados, assim não causarei nenhum dano permanente. Um deles tenta agarrar meu braço, o outro vai para minhas costas e encaixa um mata leão. Clássico. Pego a caneta que está no bolso do gigante que me segura, e finco em sua perna. O segurança não chega a gritar, mas me larga e sente a dor. O outro me golpeia, tão forte quanto o Bombinha. MERDA! Eu precisava desses desgraçados presos hoje. Desconto à frustração revidando o golpe, o segurança cai quebrando a mesa de madeira. Clássico. Aquele que me segurava se prepara mais uma vez para atacar, olho para sua coxa com a caneta fincada, na esperança de que ele entenda o aviso... Não adiantou! Ele avança! Seu soco raspa em meus cabelos, o seguro pelo pescoço e com a perna acerto a caneta! Agora sim ele grita. Piso na caneta afundando-a em sua coxa! Sua pele morena fica pálida... Ele cai inútil no chão.
Todos me olham amedrontados. Menos Maria, que corre para a saída. Corro atrás dela.
- MARIA! – grito.
Ela da sinal para um táxi. Entramos no primeiro que para.
- Odeio isso. – sua voz engasga com o pranto.
- Com o quê? Aquele idiota...
- Você é o idiota! Isso não adianta... Por favor, de onde vem tanto ódio de alguém que quer salvar as pessoas? Isso me dá medo!
O taxista nem se importa com o diálogo. Para ele somos mais um casal, perdendo o nosso tempo... Brigando.
Me calo e passo a contar postes. Nenhum pensamento linear me vem. Maria encosta no meu peito e chora... Molhando minha camisa. Não me importo. Passo meu braço em sua volta. Ela chora com dor, algo que estava guardado presumo. Meus olhos também se enchem, me seguro, travo minha mandíbula e volto para os postes. Um deles pisca, se apaga e volta a brilhar. As mãos de Maria amassam minha blusa, me seguram firme como nunca assim o fizera...
Eu vou consertar tudo! Eu tenho... Preciso...

Terça-feira, Junho 23, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XX: Como Podemos Vencer?


RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
22:41 PM

Eu pretendia ir direto até Maria, me desculpar e tentar explicar o quão covarde eu sou. Pretendia. Até agora continuo vagando como um espírito errante. Pensei em ir ver o Cristo. Também a idéia ficou na ceara dos pensamentos.
Pela janela no táxi a cidade devolve meus insultos. Cada pessoa pra mim é um experimento em potencial. Em suas particularidades. Todas possuem sua...
- Vai querer continuar seguindo aquele carro, patrão?
O taxista. Jovem, veste uma camisa pólo cor musgo e um bigode ralo no rosto. Noto sua aliança dourada refletindo a luz do poste.
- Eles estão indo pra uma parte mais afastada, acho que... – o taxista é hesitante.
- Não se preocupe comigo. Quando eles pararem, você me deixa e pode ir embora. – entendo a preocupação do homem.
Dois homens renderam um casal, obrigando-os a entrar no carro. Sorte do casal que assisti tudo de camarote. Esse tipo de ação é mais comum do que aparenta. É fácil, rápido. Seqüestro. Nesse tipo de situação sempre me preocupo mais com as mulheres. Homens armados se sentem poderosos e no controle, isso é excitante para alguns pervertidos. Perder os bens materiais é algo que se pode superar, ser violentada, ou assistir, no caso do companheiro, é traumatizante. Estou sem nenhum equipamento, somente a toca para esconder meu rosto. Vai ser o suficiente.
Estalo meus dedos. Estou inquieto. O táxi segue o Corsa até uma estrada escura, subimos uma longa reta. A vista para o mar é linda. A água negra reflete a lua nova e algumas estrelas tímidas. Me concentro nos faroletes vermelhos a nossa frente. A seta do Corsa é acionada. Aqui parece ser um bom lugar para se namorar, perigosamente excitante. Eles param.
- Siga em frente. – ordeno. O taxista obedece.
- Mulher tem em todo lugar amigo. Se ela terminou com você... – o cara está tentando me consolar! – Deixe-a seguir em frente...
- Você acha que estou seguindo... – gargalho. – Pode parar aqui. E relaxe não sou nenhum ex namorado ciumento, nenhum marido traído. – mas posso ser tão violento quanto.
Dou-lhe o dinheiro e saio. Acelero meu passo, quando escuto gritos vindo do Corsa.
- Isso ai! Agora pula! – ordena uma voz esganiçada.
- Por favor... Agente já te deu tudo... Leva o carro... – implora o homem, temendo por sua segurança e de sua companheira.
A mulher treme e chora. Seus cabelos negros sibilam junto com o vento, tornando nu o abismo às suas costas. Seus algozes nem se preocupam em esconder o rosto. A crueldade alimenta a besta dentro de mim.
- Quero vê pulando porra! Anda logo! – grita o outro apontando seu revolver.
Estão se sentindo poderosos.
- Mas... – agora o homem também chora, pela primeira vez em anos creio. Aparentar ter quarenta e poucos. Deve ter uma vida simples e pacata. E agora isso...
- Já vamos levar tudo seu mermão! Quero ver se você sabe voar. – os dois riem juntos.
Visto a toca. Meu capuz. Começo a rosnar como o próprio demônio.
- Que isso? – questiona uma de minhas presas.
- Deve ser um bicho ai, relaxa rapá! – seu rosto percorre a escuridão, voltando para o casal. – PULA CARALHO!
O imbecil atira no chão. A mulher grita de susto, seu companheiro a abraça, na tentativa inútil de confortá-la. Meu rosnado aumenta.
- Cacete. – o segundo busca enxergar algo na mata.
Capto seus olhos. Avanço! Meu grito é gutural, vindo das profundezas! Eles se assustam, atiram a esmo, errando cada disparo. Amadores. Consigo abraçar os dois, que se debatem. A prioridade é desarmá-los. Com toda a força que meus músculos permitem, jogo ambos em direção a mata. Capotam no chão, embolando um no outro. Sem dar oportunidade de reação, parto para cima deles. Cada pancada, o som de ossos quebrando, do sangue jorrando de suas bocas, me satisfaz. Os dois são fortes, isso torna a batalha mais divertida. Não que tenham alguma chance... Só não quero que acabe agora. Não percebi, continuei rosnando o tempo todo. Um deles desmaia. O outro se arrasta pela poeira, amassando folhas secas, tentando fugir. O Corsa arranca cantando os pneus, os faróis, por um instante, iluminam a face amedrontada do homem. Agora ele sabe como o casal se sentiu. Agarro sua perna. Ele grita. Arrasto-o pelas folhas secas. Suas mãos buscam algo em que segurar. Inutilmente. A perna escapa das minhas mãos. Isso me irrita! E muito! Engatinhando como um bebê, ele se arrasta para fugir... Agarro-o pelas orelhas. Ainda solto sons ininteligíveis pela boca. Chego até a beira do barranco.Todo seu corpo batalha pela sobrevivência. Estou pronto para matá-lo! É fácil demais! Só lançar sua carcaça abjeta para frente, e assistir a cada quicada que o animal daria nas pedras. Fico sem ar. Derrubo o bandido no chão. Tento recuperar meu fôlego. Minha nuca gela, meu coração acelera. NÃO! Saio correndo em direção a estrada, na esperança de que o suor mande embora essa ânsia assassina dentro de mim.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
00:11 PM

Essa é a primeira regra do meu trabalho: não matar. Encosto minha cabeça no ferro gelado. O chacoalhar do ônibus impedi que eu durma. Cada buraco ou curva é um sofrimento. Demorei a achar o ponto correto, errei duas vezes e sempre acabava em um lugar ermo, desconhecido. Agora os muros são familiares, o caminho é conhecido.
Ando vagarosamente, calculando cada passo e me perdendo mais uma vez. As ruas são escuras e mal iluminadas. Nem a lua quer aparecer por aqui, será vergonha? Viro a direita em um beco, avisto a escadaria e subo contando os degraus. Um casal troca ofensas, algo sobre dinheiro e bebida. Chego ao topo da escadaria. A rua está deserta, morbidamente quieta. O farol solitário de uma moto aponta no fim da rua, vindo vagarosamente em minha direção. Ao passar por mim avisto dois homens, sem capacete, não chego a olhar para seus rostos ou vestimentas. O Ar-15 nas mãos do carona e a Sig-Sauer em sua cintura roubam toda minha atenção. Armamento pesado. Internacional. A motocicleta continua seu caminho, como se eu não existisse. Eu deveria... É a rua de Maria. Nada de tiros aqui. Vou até a porta da casa.
Está destrancada! Abro cautelosamente, tentando ouvir qualquer movimento, até uma mísera respiração. Tudo em paz. A sala está tomada pelas trevas, sendo iluminada pela luz dos monitores. Abaixo deles Maria dorme. Nas telas o satélite monitora a noite carioca. A coitada ficou aqui até agora. Seus braços separam seu rosto delicado da madeira, sua respiração é calma e tranqüila. Sem acordá-la, desligo os monitores, trazendo a escuridão para a sala. Com cuidado, pego Maria em meu colo. Instintivamente seus braços agora estão envoltos em meu pescoço, sua cabeça em meu peito. Sinto sua respiração calma e serena. Espero que esteja tendo um sonho bom. Caminho até o quarto.
- Pai... – Maria sussurra. – Pai... Corte a corda pai. Me deixe correr... – suas mãos apertam minha camisa suada. – Corte pai... Ta machucando... – suas palavras soam tão penosas.
Deito Maria na cama de forma delicada. Sua face demonstra inquietação. Pego um lençol no armário. Cubro todo seu corpo. Acaricio seu cabelo ondulado e com cheiro doce, beijo sua testa, levo meus lábios até seu ouvido, falando bem baixinho.
- Eu corto pra você Maria. Descanse.
Fico ali, sentado no chão, deslizando minhas mãos entre seus cabelos, aguardando o pesadelo ir embora. Ele se vai... O sono pacífico retorna. Beijo sua testa mais uma vez e saiu do quarto.
Sento em frente os monitores e fito o colorido da noite. Agarro o mouse, vasculho as ruas, os becos e avenidas da Rocinha. Como é fácil trabalhar com uma ferramenta dessas. É de arrepiar os defensores da dita segurança nacional. Esse brinquedinho pode achar esconderijos de terroristas no Afeganistão, eu não vou encontrar uns bandidos em uma moto? É como procurar uma agulha no palheiro.
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O programa de auditório arranca a monotonia da noite. Sorridente e carismático o apresentador caminha pela platéia, que o cerca batendo palmas com o mesmo entusiasmo. Os convidados da noite: um professor universitário, com seus doutorados em História e Sociologia, catedrático da USP; uma modelo brasileira, destaque nas passarelas européias, atualmente namora um jogador de futebol – ou seria um ator famoso americano?; por fim, um cantor de uma banda, que toca uma espécie de rock meloso e sem graça.
O apresentador.
- Já tratamos da questão do Etanol. Não foi? – a platéia confirma. – Falamos sobre a amostra de filmes independentes que acontece aqui no Rio essa semana... Vamos ver... A nova peça... – várias pausas e caretas, enquanto segura o microfone com a mão direita e um papel com a esquerda. – Vamos falar sobre Jack Built. Você primeiro professor...
O professor da USP.
- Definitivamente um homem que decide colocar uma máscara e sair para esbofetar... Agora vamos com bastante cautela por favor... Ditos criminosos. Por que ditos? Porque não sabemos, e agora, jamais saberemos seus critérios para bater e torturar os pobres. Pobres sim meus amigos. É fato que as ações desse vigilante eram totalmente direcionadas para os oprimidos, os desprovidos, as minorias que sofrem já com o desmazelo da sociedade. Imaginem a sociedade como um conjunto de balões. Jack Built é um menino que acredita que os balões pretos – aqui como os bandidos. – são os criminosos, as demais cores somos nós, cidadãos comuns. Acontece que historicamente, devido às manipulações e correntes políticas, as cores mais escuras dos balões tendem a ficar mais na base desse conjunto. Jack Built, com uma agulha tenta limpar o conjunto de balões, estourando-os com uma agulha. E como menino, não consegue discernir com clareza as cores, uma vez que esses balões flutuam sobre sua cabeça, levando a luz do sol a ofuscar seu discernimento, então a cada salto e agulhada, ele acerta os balões pretos e os de cor escura, que ele, julga ser também da cor preta. Ele é definitivamente um risco político. Um reacionário. É doloroso dizer, mas no fundo creio que sua morte foi um benefício para a sociedade.
A modelo. O professor franze a testa, momentos antes de a moça abrir a boca.
- Reduzir o Jack a um risco político é errado. Ele não é uma força da natureza, um ente conspiratório que luta contra as classes menos desfavorecidas. Vejo como um homem indignado. Insatisfeito com o status quo que vivemos. É claro que a criminalidade atinge os mais... Pobres. Mas isso é culpa dele? Pelo que vejo, o homem salva vidas, e bate nas pessoas certas. Está bem! Temos a criminalidade crescente pela insuficiência de um Estado, que deixa pessoas a sua margem... Jack por outro lado, tenta trazer essas pessoas de volta para o caminho correto. Não como uma ONG que admite fazer acordos com donos de morro, por exemplo. Ele bate! Bate forte, como uma correção. No fundo ele desejaria que todos seguissem as leis, e respeitassem os direitos alheios. Bem... É o que eu penso.
O cantor da banda que acreditar ser rock o que suas guitarras tocam.
- Revolução brother! Falta isso, saca? Atitude!


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RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
02:01 PM

Os homens da moto são uma espécie de vigias do bairro. Cumprem uma rotina, um padrão fácil de ser aprendido. Estico a corda que roubei de um varal. Ela é grande o suficiente de ir de um lado a outro da rua, vai dar certo! Escolhi a rua mais escura por onde eles passam. Isso vai dificultar a percepção deles. Preciso saber onde guardam aquele tipo de arma, deve haver algum depósito, uma casa, alguma merda de lugar. Com sorte esses imbecis sabem quem é o fornecedor, para uma visita futura. Ai vem o farol. Solitário, iluminando a escuridão. Ambos estão sem capacete, vai ser uma queda e tanto. A moto acelera, mudando a marcha. Me escondo atrás do poste, fico imóvel, utilizando as trevas como camuflagem. Nada de uniforme hoje.
Tudo ocorre como o previsto. A corda segura o condutor pelo peito, jogando ambos no chão, a motocicleta segue seu curso até perder o equilíbrio. Amarrei bem, a corda estava bem tencionada, não poderia correr riscos de ela arrebentar. A queda foi feia, nada fatal, nenhum ferimento sério para eles... Até o momento pelo menos.
Enquanto eles esbravejam e xingam palavrões dignos de estádios de futebol, corro e chuto o Ar-15 para longe. A mão de um deles tenta pegar a Sig-sauer, piso e a seguro no chão. Os dois são jovens, sempre são. O que pilotava a motocicleta se levanta, dispara socos em minha direção. Danço um pouco, e acerto um cruzado em seu queixo, jogando no chão mais uma vez. Chego a achar engraçado, ao ver ele engasgar com o próprio sangue. O outro caído, agora tenta tirar meu pé da sua mão. O que também torna a situação cômica. Chuto sua cara. Este também engasga. O Brasil merece uma classe melhor de criminosos.
Os dois gemem de dor, pego a Ar-15, e volto para perto deles. Aponto na cara de um, do que pilotava.
- Onde vocês guardam suas armas? – falo de forma gutural.
- Pô... – o verme cospe um catarro de sangue. – Qualé...
Interrogar criminosos é um esporte delicioso. Você pode fazer qualquer tipo de merda, e simplesmente... A consciência não pesa. Dou um tiro com a Ar-15, bem ao lado de sua cabeça, o barulho é selvagem e alto! Seu tímpano deve ter estourado, ou agora ele passará a escutar sinos.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
02:23 PM

Uns cagões! A vergonha pra trupe do crime. Só o tiro foi o bastante para eles me trazerem até o telhado dessa escola municipal. Esses desgraçados não têm escrúpulos mesmo! Guardam armas de calibre pesado, e até granadas, dentro da caixa de água da escola!
Seguro a base da caixa azul, preparo minhas pernas e braços, de uma só vez levanto o recipiente de uns bons milhares de litros. A caixa de água tomba, derramando água por todo o lugar, um outro tipo de larva é revelado... Armas, dos mais variados tipos e tamanhos, todas amarradas em sacos plásticos para não enferrujarem. A Ar-15 ainda está comigo, miro nas armas e grudo meu dedo no gatilho. Gasto todo o pente atingindo as armas! Os plásticos e os pedaços de armas, pulam junto com água. Estilhaços são lançados no ar. Não paro nem por um segundo, até que tudo esteja destruído. Os coices contínuos acompanham as batidas do meu coração.
Quando termino quebro a Ar-15 em dois pedaços. Inutilizo-a para sempre.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
02:43 PM

A água quente cai sobre minhas costas. O vapor ganha todo o espaço do pequeno banheiro. Ensaboou meu rosto, deixando a á água batizá-lo e confortá-lo em seguida. É disso que eu estava precisando! Um bom banho quente para arrancar as sujeiras de mim.
Mal deito no sofá e o sono ataca. Durmo tão fácil. Deve ser o cansaço, ou só a simples vontade de dormir.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
08:00 PM

O aroma do pão tostado é convidativo. A margarina da um toque ao sabor do queijo, que estala na frigideira. Acordei cedo para tentar surpreender Maria. Escolhi com cuidado, frutas, leite, pães e o queijo. Mineiro é claro! Maria ainda dorme, tranqüila e serena. Parece que o ontem jamais existiu. Sou um babaca mesmo! Preciso aprontar esse ambientei toda, só para tentar me desculpar. Retiro o queijo junto com a crosta escura que se fixa na superfície da frigideira. Corto os pães, passo manteiga, e ajeito o queijo para derretê-la. Aqueço o leite, até o ponto correto para não criar nata. Misturo o achocolatado. Abro um pacote de biscoitos. Uma maçã e uma banana para enfeitar a bandeja. Pronto! Tomará que dê certo.
- Desculpa por ontem. – Maria aparece na cozinha, seu rosto ainda está amassado e inchado. Ela ainda é linda.
Fico completamente sem jeito, segurando a bandeja do café, que era para ser um café na cama. Maria continua.
- Eu vi a garota de batendo, não sabia o quê fazer. Se devia intervir ou... – seu rosto se envergonha, Maria olha para baixo enquanto gesticula. – Ela gritava... Desculpe mesmo. De verdade. Não queria invadir sua intimidade...
- Deixa de bobagem Maria! – repreendo. – Vamos sente logo. Tome esse café que preparei com cuidado. Era para ser uma surpresa e você estragou tudo!
- Descul... – interrompo-a.
- Olha só! Mais uma desculpas e eu vou usar todos os meios de causar dor que aprendi em você. – discurso com um sorriso no rosto, indo em sua direção. Simulo uns socos. Maria entra na brincadeira. Agora somos duas crianças brincando de luta na cozinha. – Eu que tenho que pedir desculpas. – Meu rosto queima, não tenho para onde correr. – Você me aceita em sua casa, salva minha vida, e eu ainda te tratei como uma qualquer. Você não merece isso! Me desculpa.
Seus lábios tocam minha bochecha. Não foi preciso dizer nada, eu estava desculpado.
Devoramos todo o café da manhã. Maria elogiou o pão e o queijo, me fiz de bobo, como se não tivesse gostado do elogio. Nem café eu sei fazer. Conversamos sobre tudo! Mais uma vez. Maria me conta que dominou o programa no computador, que até foi ver como estava o consultório da doutora Janete. Passados alguns instantes de mastigação e risos, sua face denota seriedade. Correspondo a tal expressão.
- As pessoas estão mesmo comentando. – Maria afirma.
- Sobre mim?
- Isso. – confirma.
- Qual eu? – sorrio, sem obter outro em troca.
- Sobre você mesmo. Um pessoal da igreja veio aqui ontem, perguntaram por que eu não vou mais ao culto. Os olhos de algumas delas secavam os computadores, o travesseiro no sofá e até a televisão que agora está no quarto. Fiquei sem saber onde me esconder. Fui bombardeada com perguntas. – Nunca vi Maria falar tanto. – Isso me incomodou sabe?
- E aí?
- Nem me lembro da desculpa que dei.
- Não se preocupe...
- Como não? – Maria se altera.
- Não vou ficar por muito tempo.
- Ah... – uma tristeza a atinge sem pedir permissão. – Outra coisa...
- O quê?
- O baile funk. Que vai comemorar a sua morte não vai ser qualquer.
- Como assim? – agora eu me altero.
- O local mudou. Não vai ser mesmo onde costuma ser, naquele galpão na entrada do morro. Vão fazer na Acadêmicos da Rocinha, é uma escola de samba, o espaço é maior e mais... Acessível.
- Acessível?
- Foi o que me disseram ontem, também consegui escutar algumas conversas alheias. – Maria está ficando perigosamente boa nisso.
- Entendi. Escolheram um lugar mais público, para diversificar mais o público, assim a polícia ou o General vão pensar duas vezes antes de qualquer movimento.
Maria concorda com a cabeça, mordendo seus lábios perfeitamente desenhados.
Levanto, coleto os pratos cheios de migalhas, deixo-os na pia. Faço o mesmo com os copos.
- Pode deixar Augusto, eu cuido disso. – Sua mão segura meu ombro.
- Não mesmo! Vá se aprontar. – me viro e dou um sorriso para amenizar o papo sério.
- Aprontar? Pra quê?
- Vamos visitar um colega meu.
O rosto de Maria fica engraçado quando denota dúvida. Sua boca faz um pequeno bico, a sobrancelha esquerda se eleva delicadamente. Isso revela a menina que ainda existe em seu interior.
- Bem senhorita, não é bem um dos melhores passeis que irá fazer na vida. Vamos ao hospital. – balanço as mãos, seco-as no pano de prato.
- Ele é médico?
- Não. – dou um sorriso malicioso.
- Pode ir parando com o mistério senhor Augusto! – ela aponta o dedo. – Sei muito bem que você não conhece ninguém aqui no Rio. Com exceção daqueles militares que te sacanearam.
Fico sério. Maria está levando tudo isso a sério demais. Normalmente... Ao menos nos primeiros dias ela era uma mulher tímida, reservada e quase sem atitude. Está manhã há algo estranho no ar. Será que as perguntas a incomodaram tanto assim? Nesses momentos que vejo quem é o mistério nesse pequeno barraco. Maria Aparecida.
- O nome dele é Thiago Firmato. Você deve tê-lo visto nos jornais, eu salvei a vida dele e peguei os caras que tentavam matá-lo.
Recolho o restante de louças da mesa, dobro o forro e coloco as frutas em uma cesta. Uma maçã cai. Maria se abaixa para pegá-la antes de mim. Suas vestimentas leves recuam em suas coxas, grossas e firmes. Sem que meu cérebro dê a ordem meus olhos percorrem todo seu corpo magnífico, o sangue corre quente em minhas veias. Ela se levanta. Agora está bem perto de mim. O sangue cavalga de forma selvagem, quase incontrolável. O castanho escuro de seus olhos é hipinotizante. Seu cheiro é puro, sem nenhuma usurpação de algum perfume.
- Vou me aprontar... – seu rosto se abaixa e ela vai até seu quarto. Mais uma vez meus olhos masculinos percorrem seu corpo, travando em suas ancas magníficas.
Homens são realmente engraçados. Não fujo a regra. Nem quero! Não há nada melhor do que uma mulher perfeita, nada mesmo! Uns verdadeiros animais, somos plenamente incapazes de racionar de forma plena diante de uma fêmea. A não ser que já não estejamos enfeitiçados por outra. Minha vontade de dominar Maria, jogá-la nesse chão batido e frio, fazendo-o esquentar com o calor de nossos corpos, é grande. Deus! Como essa mulher é gostosa. Mesmo assim, um dever inerente a minha vontade me domina. O dever de protegê-la! Dívida por ela ter salvo minha vida? Não... É um carinho protetor. Poucos homens devem ter se deitado com ela. Amor não é algo presente em sua vida. Por isso... Se contente em olhar seu pervertido!
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
09:10 PM

- Você tem mãe? – Maria quebra o silêncio.
Vamos de ônibus mais uma vez, com seus chacoalhares e freadas bruscas. Cheio! Entupido de pessoas. E como não pode faltar em uma lotação, crianças histéricas. Brincando de Homem-Aranha nos ferros. Dois irmãos, um magro bem loirinho e o outro gordo. Coitado, suas coxas podem ser divididas em camadas. Os dois lutam para saber quem é o Homem-Aranha. Todos querem ser ele. Fazem aquele movimento com os dois dedos, como um chifre de demônio, imaginam a teia saído e grudando no vidro. O magricelo salta, acreditando ter sido picado por uma aranha radioativa. Sua testa se choca com o apoio de ferro. Ele chora. O irmão gordo ri. Ou melhor, gargalha! A mãe intervém e repreende o momento super-heróico.
- Tenho sim. Claro! – não percebi que tinha um sorriso no rosto.
- Eu sei. Dã... – Maria faz uma careta. – Quer dizer... Sua mãe é viva? Sabe o quê você faz?
- Minha mãe? Saber do meu trabalho. – gargalho. – Não mesmo! A velha me mataria, me acorrentaria. Ninguém da minha família sabe. Minha irmã de algum modo desconfia, porque ela sempre percebe quando chego tarde em casa.
- Você tem uma irmã? – isso a surpreende.
- Sim! Ela tem três anos. Uma graça de chatice.
- Não fale assim dela. Deve ser linda. – agora seus olhos brilham.
- E é. A pessoa mais pura e bela desse mundo. Não cheguei a ver seu nascimento, muito menos seu primeiro ano de vida. – uma tristeza mal educada fala por mim.
- Onde você estava?
- Pelo mundo.
Maria aguarda o complemento.
- Então... – dou uma risada sem graça e forçada. – Eu precisava de experiência. De vivência. Principalmente, eu tinha que saber se vale a pena fazer o quê faço. Eu precisava conhecer o mundo! Ver as pessoas que vivem nele. Suas diferentes culturas, seus ensinamentos... Eu tinha que aprender. Tudo! Era minha obrigação saber o máximo de coisas possíveis. Os primeiros anos como... Você sabe. Foram desastrosos. Não tinha um método, uma estratégia, nem mesmo um uniforme descente. Eu pulava na frente de armas acreditando que elas não me acertariam. Comprava qualquer briga, sem medir conseqüências. Apanhava! Fui salvo muitas vezes pelo vermelho rodopiante das viaturas. Minha única e verdadeira aliada era a sorte. Me dediquei ao meu corpo e artes marciais no Japão, Tailândia e China. Apanhei muito. – agora a risada é menos forçada. – Para minha mãe eu estava em uma viagem de mochileiro pela Europa. Gastando a poupança para a faculdade. Meu pai não ligou, de algum modo ele sentiu que eu precisava daquilo. Meu irmão... Também tenho um irmão, mais velho e insuportável. Quase me bateu... – faço a cara de quem é confiante, certo de que mesmo mais velho, ele não tinha nenhuma chance. Também tive ajuda do governo, por uns trabalhinhos, como essa furada em que me encontro. – Maria não gostou da última frase, desvia o olhar de mim e passa a olhar a cidade que passar por nós sem dizer oi. – Também deixei para traz um amor... Isso é história para outra hora! Fiquei cinco anos fora do Brasil, voltei tem um ano...
Maria já não prestava atenção no que eu falava, parei sem que ela notasse. Imitei seu olhar e passei a namorar a cidade maravilhosa. Vendo o verde que rodeia a imensa lagoa, da qual não lembro o nome. O céu tem muitas nuvens, isso compromete a beleza da paisagem. Mas o sol é forte e o calor constante. Deve chover nos dias que virão...
Descemos no ponto mais próximo do hospital. Maria conhece o lugar, já veio fazer alguns serviços para sua chefe nessa região. Trocamos algumas palavras, mais sobre medicina, assunto que não tenho o mínimo conhecimento. Maria entende bem, disse que seu sonho era ser médica. Nunca teve condições para tal, então o máximo que conseguiu se aproximar de um jaleco branco foi o curso inacabado de enfermagem que freqüentava. Não há frustração em sua breve narrativa. Sua história é indiferente, como se seu sonho fosse uma bobagem. Eu diria que Maria está anestesiada. O sofrimento tem esse poder. De nos deixar adormecidos, para que não soframos mais com decepções. Alguns consideram isso algo bom, mesmo que inconscientemente, chamam de “ficar mais forte”. Não concordo! Não posso concordar. Sentimentos são para serem vividos, se há sofrimento, que siga em frente, agüente a pancada... Não fique indiferente a elas. Engraçado como podemos aprender vendo filmes.
- É aqui. – Maria aponta para o prédio branco com janelas espelhadas, o letreiro verde é claro. Um hospital. – Como vamos nos identificar? Deve haver alguma segurança, afinal tentaram matar o homem. Você não poderia ligar para ele?
- Preciso da ajuda de Firmato. Não confio em telefones.
Entramos no prédio. O cheiro de álcool e desinfetante domina o lugar. Cheiro de hospital. Enfermeiras e médicos vão de lá para cá, em passos preguiçosos e calmos. Pacientes idosos sorriem com poucos dentes, uma menina de braço quebrado segura dois pirulitos como se fosse a melhor recompensa pela dor. O lugar é quieto. Os aparelhos da recepcionista chamam mais atenção do que seus olhos verdes.
- Pois não senhor? – uma baba mínima se acumula no canto de sua boca. Mínima, mas ainda sim incomoda.
- Vim visitar Thiago Firmato. – respondo com um sorriso.
- Você é parente? – ela responde com um sorriso.
- Não. – outro sorriso.
- Você é policial? – mais um... sorriso.
- Não. Sou... – minhas bochechas ficam levemente doloridas.
- Sinto muito, não posso deixar que vá até o Sr. Firmato. Questões de segurança.
- Mas... – tento argumentar, sou interrompido.
- Você deve saber da situação delicada em que o Sr. Firmato se encontra, creio que entendera o procedimento para mantermos seguro e tranqüilo o ambiente para o Dr. Por isso, caso seja da imprensa, ou amigo, não estamos autorizados a deixar ninguém ir até o quarto do Sr. Firmato. – ela ainda sorri, sem ao menos tomar fôlego.
Maria segura meu braço, seu olhar me questiona o que devemos fazer.
- Sem correr meninos! Nada de pular em cima do pai de vocês como fizeram da última vez. Lembrem-se o ferimento infeccionou. – uma mulher magra e de aparência bondosa repreende dois garotos familiares.
- Eu já vi aqueles garotos. – cochicho com Maria.
- Onde? – ela questiona.
Remexo minha memória. A mulher de mãos dadas com os meninos caminha até a recepcionista. Um dos garotos me olha, e desvia o rosto em seguida. Onde eu já vi esse menino?
- Bom dia Sra. Firmato. – a moça dos dentes metálicos lança seu sorriso mais uma vez.
Senhora? São os filhos do delegado! Isso! Eu dei a arma para o garoto segurar. Mandei vigiar os bandidos da motocicleta. Me lembro de suas mãos firmes, e olhar atento.
- Ainda tem as mãos firmes garoto. – falo maliciosamente.
- É comigo? – pergunta o garoto. É com você sim,
- Tudo bem senhor? – pergunta a mãe, puxando o garoto para perto de si.
Agacho para ficar da altura do garoto.
- Você vigiou bem aqueles bandidos! Parabéns! Fez um bom trabalho. – faço um jóia com meu polegar. – Suas mãos ainda são firmes?
O menino arregala os olhos, tenta falar algo, mas as palavras se recusam a sair.
- Senhor... – a voz mansa da mãe tenta me repreender.
- Mãe... – as pequenas mãos puxam a blusa de sua mãe.
- Que foi filho? – ela atende o chamado.
- É ele... – seu dedo indicador aponta para mim. O meu faz um sinal para ele ficar em silêncio.
- Quem fi... – a mãe está vem informada. As lágrimas começam a escorrer em sua face magra.
- Quer que eu chame a segurança Sra. Firmato? – agora o aparelho metálico é ocultado, e a recepcionista ameaça segurando o telefone.
- Não... Não precisa Sabrina. Está tudo bem. – a mulher retira um lenço da bolsa, enxuga as lágrimas, respira fundo. – Obrigada por salvar meu marido. – ela engole o choro, enquanto abraça os filhos com seus braços magros e protetores.
Me levanto.
- Preciso falar com seu marido. – afirmo.
- Claro. – ela passa o lenço mais uma vez no rosto. – Vamos suba comigo.
- Mas Sra. Firmato, tenho ordens... – a recepcionista intervém.
- Ele vai comigo Sabrina, se precisar de qualquer coisa eu aviso. – explica a Sra. Firmato.
Maria e eu pegamos um crachá para cada. Todos em silêncio aguardamos o elevador, que range do outro lado da parede. A porta se abre automaticamente, como uma coreografia, entramos.
- O que quer com meu marido? – a Sra. Firmato pergunta com o rosto fixo nos números de cada andar.
- Preciso de sua ajuda.
- Para quê? – o olhar ainda se prende aos números digitais em vermelho ao lado da porta.
Maria e eu nos questionamos em silêncio.
- Quero que saiba, ele está onde está por ser honesto! Já que você não morreu, confesso que fico mais aliviada, mas por gratidão. Vocês dois são parecidos na burrice... – a voz é mansa, mas não as palavras. – Já parou para pensar em quem sofreu quando os jornais noticiaram sua morte? Você não tem família? Uma namorada. Ela não sofreu? – agora se refere à Maria. – Não existem poderes nesse mundo. Você não é invencível. Eu não vou perder meu marido! – as lágrimas escorrem como um rio na chuva. – Acredito que exista alguém no mundo que não quer te perder também...
- O que você está dizendo senhora? – sou desafiador. – Sim. Acredito que tenham sofrido com minha morte. Mas estou aqui, e seu marido também. E isso é sinal que estamos incomodando alguém! E esse alguém é mau. Morrerei quantas vezes precisar, e seu marido, como um bom homem também o faria. – Maria agarra meu braço, na tentativa de me calar. – Sei que ele faria falta, você teria que cuidar de seus filhos sozinha, você se sentiria sozinha! Entendo sua dor! É por isso que eles têm vencido... Porque temos sido omissos...
O elevador se abre ao som de um apito digital. Caminhamos até o quarto em... Um conveniente silêncio.
Thiago Firmato. Delegado. Honesto. Punido pela sua própria virtude. Sua aparência é fraca, mas viva. O soro pinga sem pressa ao seu lado. Os garotos não obedecem ao aviso da mãe e correm para abraçar o pai, que sorri ao vê-los. A senhora ajeita o travesseiro do marido, e lhe da um beijo. Deixo-os conversar por alguns instantes. O braço de Maria ainda segura o meu. O menino das mãos firmes está calado, mas seu irmão conta com empolgação como o Homem-Aranha... Ele de novo... Derrotou o Duende Verde. A senhora vai até a janela, abrindo as cortinas para que o sol amarelo entre no quarto. Firmato olha para mim e Maria, depois para sua esposa, aí sim fala com a voz um pouco rouca.
- São seus amigos amor?
A senhora fica em silêncio.
- É o Jack Built pai. – responde o garoto.
- O quê? – Firmato está surpreso e mexe o corpo de maneira imprudente.
- Thiago! Não se levante. – a esposa corre para acalmar o marido.
- Você? Mas tão jovem? – Firmato faz uma careta de dor. – Achei que tinha morrido.
- Você e todos os jornais do Rio de Janeiro e do Brasil. – dou uma risada irônica.
- Mas como? – Firmato está feliz com a notícia, demonstra entusiasmo.
- O senhor que tem que me explicar como não se recuperou ainda. Enfrentei um bocado de meliante, levei tiros, e estou de pé. Você levou só um tirinho e está ai cheio das dores. – brinco.
- O super-herói aqui é você. – Firmato me devolve a brincadeira, sua esposa não gostou e fecha a cara.
- Ele precisa de sua ajuda Thiago.
- Como eu... – o delegado aponta para si. – Posso te ajudar?
- Preste bastante atenção homem. Preciso da ajuda de sua imagem. – afirmo.
- Imagem? – ele questiona.
- Você é quase um mártir essa semana. Para a imprensa. Eu te salvei, morri. Tentaram te matar porque você não é condizente com o crime e com a corrupção.
- E o que isso tem haver?
- Quero que vá para os jornais e televisões.
- Pra quê?
- Quero você contra a operação do General Costa Machado! – falo cada palavra com força e firmeza que merecem.
- Não mesmo! Agora que temos a chance de limpar pelo menos a Rocinha, os desgraçados viram o que conseguiram fazer com você, não haverá mais limites se não... – interrompo seu discurso.
- Não! O exército não pode subir o morro! Não assim! – quase grito.
- Achei que era o que queríamos! – Firmato também se exalta.
- Pense homem! Aquelas pessoas já vivem a margem, estão entregues à criminosos. Esses malditos virarão verdadeiros heróis se o exército comprar essa guerra! Um Estado de Sítio na Rocinha é a pior maneira de fazer isso...
- Não mesmo! Isso é uma guerra. Você caiu. Eu caí! – Firmato não sabe o que fala, ele não conhece Costa Machado, nem quero explicar essa parte.
- Cidadãos de bem serão esmagados! – argumento.
- Sinto muito Jack, mas não se pode agradar a todos. Não devemos ser passiveis mais perante essa classe criminosa que toma nossa cidade! Porque isso agora?
- Porque acredito na Democracia! E estão usando a minha morte para conquistar a opinião pública, e convencer os outros poderes a aceitarem essa medida extrema!
- Democracia Jack? Você... – Firmato se cala. Eu também.
- Peço... – engulo seco, nunca fui de fazer isso. – Como agradecimento por eu ter salvo sua vida! Faça isso. Confie em mim! Eu pegarei os irmãos que comandam o tráfico. Isso irá desestabilizá-los por um tempo...
- E de nada adiantará. Virão outros em seu lugar. – ele está certo.
- E continuaremos lutando! Eu peço... Por favor. Condene publicamente essa operação... – chego à beira de implorar.
- Farei isso. Pagarei minha divida com você. Agora saia! – essa frase dói. O desprezo pode machucar. Muito.
Obedeço. Maria e eu partimos sem dizer nada. No canto dos meus olhos vejo um pequeno tchau, do menino das mãos firmes.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
12:42 PM

Sem perceber Maria me conduziu até um Shopping. Me fez olhar algumas vitrines coloridas, roupas, aparelhos eletrônicos, tudo para tentar me acalmar. Ela não parou de falar um segundo. Me contou como o norte do país pode ser belo, não mencionou sua infância sofrida, mas disse que se lembra de ter visto um boto cor de rosa uma vez. Não sabe se foi sonho, ou realidade. Sua mente parece ter esquecido de muita coisa que viveu, isso não é necessariamente ruim. O boto é constante em suas memórias, segundo ela. Não perguntei por quê. Nem tentei imagina o que esse animal raro representa pra ela. As letras luminosas dançam em minha visão, pessoas as acompanham com prazer. O braço de Maria ainda segura o meu. Seu ex-marido foi assunto pela primeira vez. Por apenas alguns segundos, quando vimos a camisa do Bota Fogo. Ele era botafoguense. Ofereci a Maria um presente, disso que poderia escolher algo pra ela. Com muita relutância a convenci, então ela escolheu uma bata, simples e barata. Não discuti. Sei que ela ficaria desconfortável em escolher algo caro, não que dinheiro fosse o problema. Esses cartões hackeados, os quais os chamo de coorporativos, descontam na conta diretamente de alguns deputados e senadores corruptos. Espero que os contribuintes não reclamem. Tem muito dinheiro invisível rondando o país. Não me sinto bem com isso, mas dou uma boa contraprestação social.
- Não seria melhor mesmo, deixar isso por conta do exército? – questiona Maria, enquanto namora uma sandália com adornos de strass.
- Não Maria. Não do jeito que está sendo. – respondo perdido em tantos brilhos.
- Você tem que considerar que poderiam vir conseqüências benéficas... Ora. – ela argumenta.
- Claro, Maria Aparecida! Desde que você esteja disposta a deixar alguns cadáveres inocentes no caminho...
- É difícil de acreditar que... Isso aconteceria...
- Eu também. Mas o meu foi só o primeiro. Não posso arriscar.
- Você tem que deixar? – Maria me... desafia.
- Não existe essa idéia de fazer a coisa certa pelo motivo errado! O motivo deve ser certo, e o que fazer também. Lembre-se disso.
- Não sei se entendi, desculpa, não sou muito inteligente...
- Assunto encerrado Maria.
Caminhamos entre os corredores de lojas. As telas de plasma e lcd jorram informações para nós. E como bons receptores, perdemos alguns segundos com o colorido das explosões que acontecem no filme em suas telas.
- Estou com fome. – comenta Maria.
- Vamos para a praça de alimentação. Nada melhor do quê um bom fast-food, para nos sentirmos entalados. – sorrimos juntos.
O cheiro de comida é delicioso! Percorre as narinas sem pudor, me lembrando que estava com fome. Minha boca é tomara por saliva, já imagino o tamanho do sanduíche que vou querer. Vasculho os letreiros. Maria puxa meu braço.
- Vamos comer em outro lugar. – ela sorri sem jeito.
- Por quê? – questiono surpreso.
- Estou sem fome. – ela olha para frente e segue me puxando.
- Então pra que comer em outro lugar? Você mente muito mal Maria. O quê foi?
- Nada.
Viro a cabeça para tentar ver o que, ou quem, incomodou Maria desse jeito. Aperto os olhos. E nada. Ninguém olhando para nós, nenhum rosto ameaçador... Meu coração bate uma única só vez. Um coice firme e solitário. Em seguida para. A nuca formiga novamente. Meus olhos travam em Costa Machado! Mesmo sem o uniforme militar o homem transmite sensações de poder e autoridade. O braço frágil de Maria tenta me segurar, inutilmente deixo-a de lado e caminho até a mesa do General, que come tranquilamente sua refeição, acompanhado de um único homem de costas para mim. O caminho até a mesa é mais distante do que pensava, tentei ordenar meus pensamentos, decidindo se quebraria sua cara ali mesmo ou... Sento sem pedir permissão. Bem de frente para o General Costa Machado. Ele larga os talheres, e sem nem ao menos picas uma vez, olha dentro de meus olhos. Ficamos ali, não sei dizer por quanto tempo, travando uma luta psíquica, disputando quem de nós é o mais firme. Costa Machado ainda mastiga a última garfada, sem pressa, como se eu não estivesse ali. O homem viu meu rosto de longe dias atrás, jamais me reconheceria, mas isso não é necessário quando o espírito marca o ambiente com sua presença. Ele sabe quem sou! O mais estranho aqui é que estou... Calmo. Ao sentar meu coração voltou a bater de maneira ordenada e calma. Isso não vai ser uma luta. Definitivamente, não vai ser em um Shopping que terei de enfrentar o General Costa Machado.
- Vá comprar um suco para mim Rogério, e não tenha pressa. – toda e qualquer palavra soa como uma ordem. O homem, que agora vejo é um simples jovem de alguns vinte anos de idade, rosto familiar, obedece sem pestanejar. - Estou no exército a mais de quarenta anos. – a frase tem o peso de uma montanha. – Nunca fitei olhos como os seus. Há uma fibra nesse olhar. Ódio também, mas agora ele não o controla. Você é o tipo de homem que deveria usar uma arma. Ela não o dominaria, jamais. – suas mãos acariciam o bigode branco. - Nesses quarenta anos, é fácil imaginar, vendo a história de nosso país, o que enfrentei. Vi esse país crescer em cinco anos, assisti a sua modernização e participei dela. Queríamos ser fortes! Ansiávamos a alcunha de potência sul-americana. Tínhamos ordem, vivíamos em paz. Mas, os jovens, ah os jovens, queriam mais. Fome insaciável. Insatisfação infinita. Desejos que levariam a desordem. Esse demônio que se disfarça de liberdade, que adentra em nossas entranhas como verme... Era isso que queriam? Um país entregue aos corruptos e assassinos. – o General põe os dois braços na mesa, até essa cadeira de metal é um trono para esse homem. – Eu li a Constituição antes de 1988, eu previ. Eu sabia! Nós não queremos isso. Não estamos prontos. E agora veja... – seu braço me mostra o invisível. – Drogas, prostituição, tráfico de armas, assassinatos, estupros... Todos os dias.
- Isso não vai funcionar comigo General. – afirmo.
- Você quer o mesmo que eu garoto. – sua voz é como aço.
- Não, não quero General. Você me deixou para morrer. Poderíamos ter capturado vários daqueles malditos de uma só vez.
- Belotto foi claro. Você avançou porque quis. – nem ao menos uma vez, o desgraçado fraqueja.
- Eu tinha que salvar aqueles garotos!
- Tinha? – a pergunta fica no ar. – Ir a mídia foi uma idéia interessante, no princípio achei aquilo sujo demais. Mas o jeito que os meios te tratavam, em menos de uma semana você estava estrelando em todos os canais e revistas! Eu sabia... O garoto fez a decisão certa. Você não precisava ter salvo aqueles garotos, imagine, filhos de políticos assassinados pelo tráfico.
- Está querendo dizer... – denoto nojo. – Que eu não deveria ter salvo aqueles garotos?
- Não precisamos de viciados. Aliás, alcançaríamos os jovens nesse intento. - mais uma vez suas mãos acariciam o bigode.
- Seu...
- Você irá me ofender garoto? Só porque consigo ver através de olhos do progresso, prevendo situações e... – o General toma fôlego. – Tudo isso foi culpa sua. Inclusive a sua morte. Me lembro bem de nossa primeira reunião, você quis a sua espetacularização. Eu me aproveitei dela. – o velho sorri.
O jovem retorna com o suco enlatado.
- Esse que você pediu vovô? – sua voz não me é estranha. Ele se vira para mim. – Quem é esse?
A ira percorre meu peito, rasgando-o em seu interior! O fogueteiro! Aquele miserável que deixei... Eu caí em sua história... Ele disse que teria um filho! Eu aliviei para o filho da puta! ELE ATIROU EM MIM! Meu abdômen se contorce e me lembro da dor. Costa Machado percebe a raiva. Entende que posso esmagar o maldito e subjugá-lo como um brinquedo.
- Ele é Jack Built. – o jovem treme ao escutar as palavras do General, engasga com sua própria comida.
- Você não só me deixou para morrer... – não tiro os olhos do jovem, que agora só consegue olhar para o prato. – VOCÊ MANDOU ME MATAR! – todo o a praça de alimentação agora tem nossa atenção.
- O quê você queria que eu fizesse? – o velho volta a atenção para seu prato de comigo, enchendo sua boca dela, como se nada tivesse acontecido. – Eu tenho uma cidade para limpar. Encontrei a melhor maneira de fazer isso. Com força! Com eficiência! Graças a você... – ele ri novamente. Ele ri! – Agora parte da imprensa está do meu lado, a classe média em sua inteireza, algumas peças importantes do Judiciário... Agora as coisas serão do meu jeito! Não há lugar nessa cidade para traficantes, ladrões e assassinos. Não mais.
- E você irá matar a todos, ou quem precisar para isso. – provoco.
- É CLARO! – as migalhas de comida voam da sua boca. – Isso é preciso. Não vê? Acha que a polícia irá fazer esse trabalho? NÃO! Eles não têm colhões para isso.
- E você tem? – provoco mais uma vez.
- Tenho o quê você não tem. Soldados.
Concordo levemente com a cabeça, retomamos a batalha com o olhar. Ele é velho, e isso definitivamente não é sinônimo de fraqueza. Seus músculos ainda são fortes, delineando a camisa social que veste. Sua presença me incomoda. Eu confiei nesse mentiroso! Nesse manipulador! NÃO! Ele não pode vencer.
- Velho. Sem rodeios. Me poupe dessa sua retórica porca. Sentei nessa mesa só para te dar um único aviso... – Costa Machado controla seu humor com sua respiração, e está atento. – Se seus soldados entrarem em alguma casa onde uma família esteja almoçando em paz, ou se algum trabalhador for atingido por uma bala perdida sequer, não me importará quem a disparou, ou se alguma criança sujar o asfalto com sangue, eu irei atrás de você! E você estará comprando uma guerra que não poderá vencer.
- Como ousa seu... - o jovem se exalta.
Agarro seu antebraço com força com a mão direita, enquanto a mão esquerda agarra a faca de serra que o imbecil usa para se alimentar e cravo em sua mão!
- AARRGG!! – o meu assassino grita de dor.
A lâmina atravessa a carne de sua mão, usei força o suficiente para que a faca crave na madeira da mesa, deixando-a presa. O sangue começa a minar. Costa Machado não mexe um milímetro sequer. Engole o restante de comida em sua boca. Abre o suco, toma um gole e bate a lata com força na mesa. O líquido pula junto com os talheres e pratos, suja completamente a mesa.
- Quem é aquela moça com rosto preocupado, logo ali atrás? – fala o General, escolhendo bem as palavras. – Muito bonita.
- Fique longe dela. – ameaço.
- Você é meu inimigo agora Jack. Irei te caçar se ficar em meu caminho. Deus sabe que irei te caçar como um animal se você ficar entre minha operação e a favela da Rocinha.
Levanto de forma brusca, derrubo a cadeira e vou em direção a Maria. Agarro-a pelo braço. Ela treme, e está com a cara assustada.
- Vamos embora! Chegando na sua casa, empacote suas coisas. – falo enquanto ando apressadamente pelo Shopping. – Você vai se mudar!
- Pra onde? – Maria quase tropeça ao tentar acompanhar meu ritmo. Não largo seu braço.
- Hoje à noite vou pegar os irmãos! Esse baile não vai acontecer. Depois você vai para Minas Gerais comigo! Amanhã é o meu último dia no Rio de Janeiro... – olho para ela. – E o seu também!
Nos camuflamos em meio a multidão.

Sábado, Junho 20, 2009

Arrepios: Idéias Mortas ou Como Se Alimentar de Capim e Ler Marx



Por que esse tipo de mentalidade retrograda só se perpetua nas Universidades Federais? Duvido que seja, digamos, uma ideologia majoritária nos campus e faculdades federais pelo Brasil. Mas com certeza é marca registrada de cursos de História, Geografia, Sociologia (Ciências Sociais), Filosofia, e - agora arrepiem-se - Direito. Em suma, a bobajada esquerdopata ronda e se mantêm de forma constante nas ciências humanas. Enfim, não sei o porquê da burrice endêmica. Tudo bem, temos que conviver com a bobagem. Lembram-se? Só que ninguém é obrigado a aturar violência! Essa bobagem não pode vir e esmagar meu direito, aquele básico que todos sabem, o clichê dos clichês, o de "ir e vir". É o que acontece na USP! Sim. Essa mesmo meu caro. Vejam o video, ele fala por si. Quem é contra a greve deve ser... Espancado e apedrejado. O motivo? Desejo de oprimir os oprimidos, aposto! Sigo em frente no texto, de forma geral e com fatos vividos por mim.
Uma das razões de meu arrepio a estudantes dessa trupe, é a famosa antropologia marxista de categorizar pessoas. Somos "trabalhadores", vulgo proletariado, categoria que traz a inata qualidade da honestidade, e o defeito de serem "oprimidos", ou então somos "burgueses", aqueles que exploram e toda a ladainha que aprendemos nas auletas de história. Chamo essa razão arrepiante de... Arranca Rabo de Classes. Quer coisa mais atrasada, imoral, manipuladora, e sem fundamento fático que isso? Para alguns essa besteira de séculos passados, esse motivo para derramamento de sangue, ainda existe. E vejam! É uma justificativa para... Burlar nossas leis. Ver USP. Ver MST.
Dando continuidade, o parágrafo anterior nos mostra outro detalhe desprovido de sentido... A Causa. Notem, todo estudante das idéias mortas tem uma causa. Essa energia motivadora de suas bobagens fanáticas e radicais, sempre é justa! Sempre! Não importa quantas leis ou pessoas que tenham que esmagar. A Causa é sempre JUSTA! Ver Cuba. Ver Che Guevara. Ver qualquer facistóide latino-americano.
Temos as categorias e a base, agora e quem for contra? Quem não concordar com o iluminismo santificador que essa galerinha propõe? De duas uma, ou é movido por interesses egoísticos, ou é alienado. Tente debater de qualquer forma com a trupe do radicalismo, você vai acabar sendo espancado ou ridicularizado por ter... A razão! E eles sempre contarão com um argumento - liguem a Tecla Sap. - dogmático e real. "O socialismo real nunca foi implantado". Claro que não! Não tem como! Não presta! Existe uma brecha, como as pernas de uma puta de vermelho, para a ditadura! E aposto que até Marx ou Engels, nem fazem idéia do que era. São conceitos mortos e devem ser esquecidos. Em outros textos meus, só ir fuçando o arquivo, refuto com mais calma outras esquisitisses dessa galerinha. Com mais calma e detalhe. Até mais entusiasmo eu diria. Continuemos.
No Encontro Mineiro dos Estudantes de Direito, lá estava o seu estimado amigo, tentando se divertir, e nas horas vagas aprender algo. Durante as pescadelas nas palestras, um dos temas era os 120 anos de nossa República. Bacana não? Uau! O interessante mesmo veio depois, no decorrer dos chamados Grupos de Trabalho. Nós tinhamos que assistir as palestras, e após a soneca, iriamos nos dirigir até salas de aula para debater o tema proposto. Friso, a República. Assim, com cara inchada e ressaca no sangue, lá fui. Me bateu uma certa saudade de 2007, em outro também Encontro Mineiro dos Estudantes de Direito, quando lembrei de uma discussão minha com uma aluna da UFMG, a respeito do tratamento desigual entre empregador-empregado. Dessa discussão eu previ... Lá vem mais um GT daqueles! Não foi diferente. Nem venha me perguntar como o assunto foi parar naquele famigerado programa assistencialista. Os detalhes me escapam, mas não a essência! O nome da bagaça: Bolsa Família. Alguém duvida que esse programa, essa assistência, mesmo que tenha uma consequência - argh! - nobre, é usado como moeda de troca eleitoral? Alguém em sã consciência acha mesmo que o governo atual faz jus ao ideário da "multiplicação dos peixes"? Sério! Convenhamos, é essa esmola dada a milhões que sustenta a imoralidade e a solapação das instituições democráticas! Essa porcaria alimenta o "povo" - arrepios! - alicerce dos populistas, aproveitadores e corruptos. Não é novidade. Então, não perdendo o foco, o responsável por conduzir o debate era um verdadeiro entusiasta da Causa. Sua fala era apaixonada! Firme! Cheia de certezas! O dito cujo era professor universitário. Em meios aos comentários dos mais esdruxulos e imbecis, sem contar com os inúteis. O vingador solta, reproduzo literalmente, minha memória gravou essa frase, e passarei para a eternidade aqui: "Pelo menos o pobre come". Conseguiram extrai a safadeza dessa frase? Que se fodam as leis! Que se fodam os princípios democráticos! Que se foda a tolerância! Que se foda o seu dinheiro! Que se foda a República! Desde que... O pobre coma. É bonito? É A Causa! Quando o homem terminou a supra citada frase, levantei a mão e disse: "Não. Não é assim. Pelo menos o pobre SÓ come". Tenho outros exemplos fáticos que vivi, mas os deixarei para outra hora. Quem sabe você já não o tenha lido? Vou fazer uma relação dos meus xingos direcionados a essa trupe. Os links estarão disponíveis no fim do post.
Vejam o video mais uma vez. Passeata? Manifestação? Deixo para os mortos e fanáticos. Se quero protestar, contestar, ou tentar, vá lá, fazer a diferença, eu escrevo! Sozinho? Que seja. Só não me peça para comer capim.

Outros textos:

Um desabafo...
Depois do desabafo, uma revolta...
Depois do desabafo, uma revolta, uma conclusão!
Fudendo, Explicando e Flertando com a Democracia - Parte 1
Fudendo, Explicando e Flertando com a Democracia - Parte 2
Fudendo, Explicando e Flertando com a Democracia - Parte 3
A Retórica das Falsas Verdades
Eleições 2008: Algumas declarações e um manual de "Como não ser feito de..."
O Cu do Universo: um lugar chamado planeta terra
Uma Conversa Com Reinaldo Azevedo
As Massas

Sexta-feira, Junho 12, 2009

Clube do Anti-namoro

Existe algo mais estúpido do que namorar? Tá! Eu sei que existe. Ser comunista é um bom exemplo. Gostar de Caminho das Índias é outro. Sério! A instituição do namoro é ontologicamente uma hipocrisia. Antes deu explicar o porquê, vamos entender seu significado. Não há dia melhor do que hoje para escrever essas palavras, afinal... Feliz dia dos namorados. Não, não, não. Aos nervosinhos e defensores fervorosos das alianças de prata, relaxem, curtam o carinho e amor desses kbites gramáticos em formas de letras. Se não der. Tentem se divertir.
Namoro, do latim, game almost over. É o nome que se da a uma relação mais íntima entre pessoas. O íntima inclui beijinhos e amaços. Se você possui um amigo ou amiga assim, devemos extrair outro requisito de tal instituto que é a exclusividade. Fazendo jus a Bíblia e outros livros religiosos do tempo em que jogar pedra nos outros era bacanissimo, e cagar, jogando as fezes pela janela era o máximo, chamaremos essa exclusividade de... Fidelidade. Essa é a hora que um arrepio percorre toda sua coluna, o pescoço aperta. Sim! A tão desejada coleira.
Até aqui estamos entendidos? Para caracterizar um namoro, não basta passear de mãos dadas pela calçada. Você deve ter contato físico, além disso ser fiel. Quer dizer... Não necessariamente fiel... Bem... É... Que... Continuemos com a dissertação. A gênese de tal galenteio tem origem no olhar. Uma pessoa olha para a outra, seu peito da um coice, o desejo é o guia de suas ações. Se seguir todo o ritual mágico, aquela mentirada de ser gente boa, educado, limpo, você conseguirá partir do ficar, para o namorar. Essa passagem exige alguns ritos de iniciação. Como na máfia. Só que sem ter que segurar a Santa de madeira, enquanto ela pega fogo. Aquele que anseia aprofundar uma relação deve: 1) conhecer a família; 2) conhecer os amigos; 3) conhecer os animais de estimação. Depois disso, pronto! A pessoa é oficialmente namorado de alguém.
É claro que acima resumi grossamente, e de maneira mal educada, todo o galanteio, o romance, o tremor das mãos e a nervosia de cada um daqueles momentos. Mas lembre-se, sempre existe uma coragem líquida que se chama cachaça. Essa mesmo! Aquela que lhe deu coragem de conhecer seu namorado, naquela festa... Lembra? Adiante. Todos sabemos o que é um namoro! Na Índia não pode, sabia? Ainda dizem que lá é um lugar super descolado. Pelo amor de Jah! Não podemos nem comer um bom bife de vaca. Desculpe mais uma vez, espero não ter que pular para um próximo parágrafo. Outro fato notório é que todo namoro está fadado ao fim, do latim, the end. Isso te incomoda? Eu sei. É triste. Superável, completamente. O império romano acabou, ninguém chorou por ele. O muro de Berlim caiu, e ai? Agora você está abrindo o orkut do seu namorado, vendo as amigas lindas que deixaram recados para ele, o suicídio é tão legal nesses momentos. Mas o fim pode ser bom. Não. Não! A saída não é ir para farra. O casamento é um fim do namoro. Gostou agora né? Noivado é um namoro com aliança de ouro, e uma desculpa para o homem enrolar as mulheres. Tanto ser namorado(a) ou noivo(a) é um aquecimento para o casamento! Um treinamento. Um briefing. É nesse curso da vida que você aprenderá várias coisas super interessantes, ganhando uma experiência super descolada e sendo alguem... Maduro! Pessoas podem ser de várias maneiras, mas você aprenderá que - agora segue uma lista auto explicativa:

  • De perto todo mundo é de alguma maneira... Pior.
  • Parentes são um tormento.
  • Amigos de homens sempre são contra o namoro do amigo. Amigas de mulheres sempre estão prontas para dar o - vulgo - pulão no namorado da amiga.
  • Traição é como a gripe. Não a suína, que, pasmem!, teve cerca de cinquenta casos no Brasil! Traição é uma dengue mais endêmica. Mais constante que as guerras dos homens cruéis e malvados, que assolam nosso planeta como uma chaga constante, seifando vidas, e mais vidas (lágrimas).
  • O ciúme tem como fonte a insegurança.
  • A insegurança tem como fonte o passado, ou uns quilos a mais, ou uma cara feia, ou... Entenderam né?
  • O passado tem como fonte uma infância sinistra, cheia de traumas, decepções, traições - ver tópico acima - , que perpetuaram pela adolescência, e o perseguem na vida universitária.
  • Confiança é um tesouro! Tão frágil quanto precioso. Raro, muitíssimo, raro. Quase uma lenda. Um folclore urbano inventado para você comprar presentes e saciar seu consumo nessa sociedade nojenta e capitalista! Não, nada disso. Falando sério, confiança é mais parecida com os alienígenas... Todos conhecem alguma pessoa que já viu, e juram de pé junto que o Universo é grande demais para nossos caprichos.
Maduros. Somos todos maduros o suficiente nesse instante. Namoro não é um mar de rosas, nem mesmo um mundo fantástico de Bob. Esse ensaio para o casamento, ou essa curtição compromissada, tem o destino fatal porque homens e mulheres, digo, pessoas - maldita Constituição que dá direito a todos indistintamente, agora tenho que considerar namoros gays. Nada contra, só estou me acostumando a falar de relacionamentos... Indistintamente. Isonomia saca? - não conseguem se entender! Discutir relação é algo totalmente desprovido de sentido (ler Ciclone e Aguaceiro, neste blog). Homens são burros por natureza. Inúteis e imbecis em seu âmago. Como vocês (mulheres) esperam que entendamos tudo que passa em seus neurônicos elétricos? Detalhe, mocinhas tem uns milhões a menos. É impossível, outrossim jamais as mulheres, que sentem demais, saberão entender a natureza masculina. Mulher não raciocina, mulher sente. Mulher não pensa, matuta. Mulher não discursa, ladainha. Mulher não sente... Tem TPM. Rapaz, tente ficar em silêncio por dois segundos com sua namorada. Aposto minha vida, que ela perguntará como não quer nada, utilizando daqueles olhos pidões, "o quê você está pensando amor?". Viu? Ganhei a aposta. E você senhorita, saiba que amigos do seu namorado são necessários. Matilha. Um lance animal e macho! Ele a descartará sem saber que faz isso, pois para ele é natural. Inconscientemente o homem é grosso, ausente, sacana e... Burro.


Dia doze de junho. Dia dos namorados. A data que comemora algo que irá acabar. Um instituto social fadado ao fim. A inexistência. Onde amor e respeito, dançam distintamente, sendo úteis somente unidos. No fim, só não queremos estar sozinhos, poder olhar para os olhos de outra pessoa e falar... Eu te amo. Sem medo, sem qualquer vergonha. E assim ter como resposta... Eu te amo. Por isso namoramos... Para sermos namorados de volta, independentemente de qualquer obstáculo! Ser amado e amar vale a pena! No mais, para os solteiros de plantão, vamos para a farra e brincar de amar o mundo!

Sexta-feira, Junho 05, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIX: Guerra Contra O Crime

RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
10:21 AM

O dia está lindo! Poucas nuvens e um sol amarelo iluminando esse mundo sujo e podre. Como estão felizes. Afinal, é sexta. O dia do baile funk se aproxima, estão todos estonteantes e confiantes. Apoio o rifle em meu ombro com cuidado, o vento acaricia meu rosto com carinho. O calor não chega a me incomodar. Não de colante. Armo o rifle. Todos eles bebem felizes, cheiram e fumam suas drogas.
- Eu sou o marinheiro da perna de... – cantarolo sozinho em cima do telhado, como um felino no cio. – Pau!
A bala corta o ar com ferocidade. Ultrapassa a velocidade do som, com certeza. Seu rugido é abafado pelo silenciador, mas o som das chamas que lançam o Stillo prateado pelo ar não podem se calar. Seria fácil mirar na cabeça do Joãozinho. Seu cadáver ilustraria muitos jornais pelo Brasil. Pena que seria só mais um verme morto. Não, não, meu amigo. É hora de incutir terror! Minha mira foi perfeita, o carro explode sem pudor. Uma puta que adora gritar! Pessoas correm e gritam. Meu alvo mija nas calças de tanto medo, assim como seus comparsas. Todos correndo imitando baratas medrosas.
Tenho três dias para prender os chefes do tráfico. Joãozinho e seu irmão, o maldito que me espancou dias atrás, Bombinha, como também Antonio Pereira. No meio do caminho o plano é tentar ferir o máximo de criminosos possíveis. Por três dias a Rocinha é minha! Não tenho outra alternativa, se a operação do General Costa Machado for mesmo concluída, não vai sobrar direito sobre direito do povo. Casas serão reviradas. Pessoas ficarão na linha de tiro dessa guerra. Isso vai virar um Estado de Sítio, e não vai ser nada bom. Preciso entregar esses malditos... Espero que seja o suficiente para saciar a fome do General.
Desmonto o rifle em poucos segundos. Guardo-o na mochila. Coloco o boné do falecido marido de Maria, pulo do telhado, e me misturo à multidão em pânico.
Envolver Maria Aparecida nisso é uma má idéia. Ontologicamente uma péssima idéia. Para não dizer covarde. Embora ela tenha gostado, não posso medir as conseqüências. É claro que Maria não vai estar na linha de frente, mas preciso de ajuda logística. Dei alguns cartões de crédito coorporativos, e sua missão é trazer dois computadores até o meio dia, com placa de vídeo e todas as frescuras necessárias para as máquinas serem eficientes. Ir a qualquer loja de operadora de celulares, e trazer internet móvel mais rápida que conseguir. Também dois aparelhos e chips novos. E por fim, juntar o máximo de informação possível da operação divulgada ontem pelo General, em jornais, revistas, e até na televisão.
Preciso ser rápido e eficiente como nunca. Estudar em um dia o comportamento dos traficantes, e neutralizar o máximo possível, não vai ser fácil. Eles também devem ter visto o discurso ontem. Dou graças por esses malditos serem previsíveis. De duas uma, ou eles correrão como ratos, ou se armarão para a guerra. Como estão excessivamente confiantes por terem me matado, seria uma vergonha cancelar o baile.
Me embrenho em becos e morros, não gosto de andar pelo solo. Esse emaranhado de casas parece um labirinto. Um campo de futebol surge a minha frente. Não há grama, natural ou sintética, apenas a poeira e a terra sendo levantadas, em meio aos gritos de crianças felizes. Do outro lado do campo um adolescente, magro e com olhar perverso, suas mãos frágeis seguram uma automática. Os óculos escuros apoiados em sua cabeça, tentam dar um ar de adulto a sua imagem. Não conseguem. Todos a sua volta o ignoram, como se fosse uma estatua de algum poeta morto, ou uma fonte. Seu celular toca. O jovem sai correndo. Chego a sorrir. Corro atrás, tentando ser o mais discreto possível.
Sigo-o até um comércio de registro duvidoso. Um açougue. O fedor da carne se alastra pela rua. O jovem entra. Noto as várias motocicletas á porta. Sessão de terapia. Olho para o relógio. Penso em Maria. A coitada saiu cedo para buscar minhas encomendas, já é quase hora do almoço. Devo ou não me permitir? Foda-se. Isso vai ser interessante.
A aparência é ordinária, comum. Carnes penduradas ainda sangrando, lingüiças e frangos sem cor enfeitam o freezer. O triturador geme ao moer a carne. O homem de branco e barba por fazer me olha curioso.
- Vai querer maminha ou picanha? – pergunta com uma voz repugnante, assuando o nariz logo depois.
Ignoro e tento olhar o que acontece por detrás da porta de metal.
- Mermão! Vai querer o quê? – o homem insiste, agora apontando o facão.
Sorrio. Perdão Maria, mas vou me atrasar um pouco.
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
12:37 PM

- Quando o senhor falou em tocar o terror, não pensei que levaria ao pé da letra! – repreende Maria.
- Do que você está falando? – ironizo, enquanto deixo a mochila no sofá, indo direto para as caixas ainda embaladas. – Muito bem soldado. Missão cumprida. – abro as caixas e começo a instalar os computadores. – E a internet?
- Olha aqui super-herói, acabou de passar no jornal! Carro explodindo, uma refinaria de cocaína totalmente destruída e treze homens presos. – sinto uma pitada de diversão em suas palavras.
- Você fez almoço?
- Espere aí... Agora sou cozinheira também?
- Isso! Precisamos ficar fortinhos... – ligo tudo onde deve ser ligado, cabo por cabo. – E você vai ter um curso intensivo de vigilância monótona via satélite.
A comida de Maria é deliciosa. Tempera o feijão como se pintasse um quadro de arte, com cuidado e na medida certa. Conversamos bastante. Ambos diferentes, como se voltássemos a viver, deixando de lado aquele sentimento medíocre e depressivo. Morte acaba fazendo isso. Nos ronda silenciosa, e ataca quando menos espera. Sempre nos lembrando da finitude do ser humano. Ser limitado e frágil. Maria fica linda com uma roupa casual. Qualquer tipo de vestimenta cai bem em seu corpo brasileiro, suas curvas são dignas de uma deusa indígena. Seu sorriso é um imã ao sorriso alheio. Gosto de vê-la feliz.
- Como você convenceu a doutora de me dar folga hoje? – não contei de meu papinho ontem à tarde com Janete.
- Liguei e falei que você estava doente.
- Só isso?
Faço sim com a cabeça.
- Temos que montar nossa mentirinha. – afinal, não sabemos o quão fofoqueiros são seus vizinhos.
- Pra quê? – ela questiona, enquanto se levanta e começa a lavar as louças.
- Uma viúva, do nada, agora tem um homem em sua casa. – levanto os braços entojando a voz.
- Não vejo nenhum problema. Nem tenho que dar satisfação da minha vida... – Maria se irritou um pouco.
- Eu vejo. Porque pessoas falam! E também porque pessoas escutam. E certas pessoas não podem escutar que um estranho... – enfatizo. – Milagrosamente apareceu na casa de uma viúva solitária.
Maria agora está séria, com os olhos vidrados na água que cai da torneira.
- Você é meu primo distante. Ponto final. Vou espalhar a notícia entre os vizinhos. – Maria é seca, direta.
- Vamos para o computador. Chega de papo.
- Só uma coisa... – ela me interrompe.
- Pode falar.
- Você não quer acabar com o crime?
- Quero.
- Então, qual o problema dessa operação do General? Vários soldados entraram aqui, vai ser complicado eu sei, mas limparão a Rocinha em menos de uma semana. É o que você quer.
Paro um minuto, reflito... É complicado.
- Maria... – ainda não encontro palavras. – Quando está nesse mundo, quando você sai de casa e decide fazer da sua vida... Quando tentamos fazer o certo! Ele substancialmente tem que ser o certo. O tráfico é só uma ponta de todo esse gênero crime. Não que eu esteja diminuindo... É maléfico, uma chaga...
- Você não está chegando a lugar nenhum...
- Limpar a sujeira não adiantará de nada. A não ser que aja uma melhor estruturação e projeção a longo prazo. O que o General fez foi aproveitar a espetacularização feita com minha morte, e transformou isso em uma tragédia, conquistando a opinião pública. Agora ele tem o aval da sociedade para suspender direitos fundamentais dos cidadãos daqui da Rocinha. Que vão ficar no meio da troca de tiros, e serão os únicos sofredores com tudo isso. O tráfico continuará existindo, pois conta com apoio de conglomerados mafiosos internacionais e da tolerância da sociedade, em enxergar o básico sobre qualquer mercado... Ele só sobrevive com o consumo. Temos sorte do crime aqui não ser organizado...
- Então o que você faz também é inútil... Já que é uma luta perdida. – Maria é incisiva, ela compreende o dilema.
- É o que quero fazer todas as noites.
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
15:00 PM

Maria é uma mulher inteligente. Compreendeu que tenho um parafuso solto, de alguma forma isso a agrada. Me conectei por um link pirata aos satélites americanos da CIA, não tive tempo de explicar como isso funciona. Na verdade nem eu compreendo bem. Cortesia de um amigo meu. Em sua tentativa de elucidar o procedimento, o engraçadinho disse, “é como o Google Earth, só que ao vivo, e com um zoom descente”. Consegui localizar meus três alvos, e esse brinquedinho computadorizado tem a opção de marcá-los, fazendo o próprio programa segui-los. Seus rastros ficam marcados com uma linha levemente amarelada, à medida que o trajeto, a rotina se repete, essa linha rotineira fica mais forte, assim posso traçar... A rotina dos meus alvos. Esse é o papel de Maria Aparecida, ficar em frente o computador e me informar cada detalhe.
Segundo ela, daqui duas semanas o exército ocupará a Rocinha, por sessenta dias, podendo ser prorrogados por mais sessenta se assim decidirem. Serão quinhentos soldados, contando com apoio aéreo e terrestre de carros blindados, caminhões e helicópteros.
Já rodei todo o morro e nada relevante. O ataque da manhã surtiu algum efeito, apenas a policia finge que ronda o local, e o helicóptero da imprensa capta tudo. Tenho um plano para a noite... Acho que Maria merece uma distração. Disco para o único número salvo no celular.
- Senhorita Aparecida?
- Pois não senhor herói. – ela gargalha. – Os três estão quietos em casa. Nenhum ousou sair.
- Digite automático no campo a sua direita.
- Pra quê?
- Mocinha curiosa você hein? – não dou tempo para a resposta e continuo. – Vamos para praia. O sol está me queimando aqui! Vamos nos divertir.
- Pensei que...
- Pensou errado! Me encontre no ponto de ônibus.
Desligo para não ouvir mais protestos.
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
16:20 PM

Durante toda a pequena viagem até Copacabana, tive que ouvir protestos. Meus argumentos sendo jogados contra mim. Agora que percebi, três dias serão mais do que suficientes! Vou trabalhar durante a noite. Seus lábios se mechem, meu cérebro se desconecta como se desativasse minha audição. Mulheres gostam de falar. Interrompo seu discurso.
- Vamos dançar amanhã à noite. – sorrio e olho para o mar azul e magnífico.
- Que? – ela se surpreende.
- O João...
- O irmão daquele monstro musculoso...
- Isso. É dono de uma boate, vamos fazer uma visitinha.
Maria não comenta a idéia. Nem precisa, quanto menos souber melhor. Vou pegá-los onde menos esperam. Tenho o elemento surpresa, presumidamente morto do meu lado. Hoje vou assistir uma aula de Direito.
Saltamos. Em todos esses dias no Rio, somente hoje me dou ao luxo de ver o mar. De observá-lo. Olho para o alto e avisto o Cristo. Nos vigiando, como um protetor silencioso e frio... Feito de cimento e ferro. Toco a areia com meus pés, o calor é confortável. Esse momento demora mais do que deveria, deixando Maria preocupada.
- No que está pensando? – pergunta.
Quando me viro meu queixo cai. Gravidade! Libido! Seja o que for. É inegável que Maria é maravilhosa. Com seu biquíni discreto e um pouco velho, como se jamais tivesse usado, Maria Aparecida é ainda mais bela. Suas curvas são perfeitas, modeladas por um talentoso escultor. Nenhum defeito, nenhum detalhe. Qualquer estria ou celulite que exista é insignificante. Ela repara o meu espanto, ruboriza. Tiro a blusa, deixando os raios solares atingirem meu corpo branco demais. De alguma forma ela também se espanta. Tiro o curativo do abdômen com cuidado, quase curado. Um pouco de água do mar fará bem.
- Vamos? – convido para entrar no mar.
- Não posso. – seu rosto ruboriza mais uma vez.
- Por... – me calo. – Entendi.
- Prefiro tomar sol. – Maria sorri, mostrando o sorriso perfeito.
Alongo todos meus músculos. Estico os braços em busca de liberdade. Estalo a coluna. Caio na areia, e faço algumas flexões para aquecer. Os homens ao redor babam no corpo moreno de Maria, rio comigo mesmo. Em um pulo me levanto, e corro em direção ao azul infinito. Me sinto um moleque. Uma criança que vê pela primeira vez a sua insignificância perante a natureza. No caminho meus olhos se perdem em uma atriz mais ou menos famosa. Continuo e deixo o mar me banhar. O ferimento arde. Ignoro. Mergulho na água salgada. Deixo as ondas me acertarem. Me viro para a areia e aceno como um bobalhão para Maria, que me devolve outro daqueles sorrisos cativantes.
Com a água em minha cintura, agora contemplo o Rio de Janeiro. Sua beleza, sua maravilha. Pessoas tentam sobreviver aqui, chegam a ignorar a podridão. Às vezes eu também consigo... Não enxergar. São momentos gostosos, fazem valer a pena viver.
- Augusto? – uma voz familiar me arranca de meus pensamentos.
Angélica! O coração não se sintoniza com o resto do corpo, chega a bater tão forte, parecendo que pularia de meu peito a qualquer momento. Disfarço a surpresa, entoando qualquer outra reação.
- Angélica, como está? – por uma coincidência cruel, estamos a sós nessa pequena parte do Atlântico. Se não estamos, sinto como se estivéssemos.
Um tapa acerta meu rosto. Como resposta instintiva meu corpo se prepara para o ataque. Respiro fundo e seguro a reação. Meu rosto ainda arde quando sou bombardeado pelas palavras de Angélica.
- VOCÊ ESTAVA CERTO! Ele ia estuprá-la! O desgraçado admitiu para todos em uma mesa de bar. – sua voz é aguda, seu rosto meigo angelical sofre com algo que não entendo. – Ele ria Augusto! Ele ria, enquanto se vangloriava que estava prestes a comer minha amiga. E todos riam juntos! – lágrimas escorrem de seu rosto se misturando com a água do mar. – E você... – seus olhos claros atingem os meus, minhas pernas chegam a tremer. – VOCÊ TINHA QUE MORRER! – como? Me pergunto, enquanto mais uma vez meu queixo cai. – Acha que não ia perceber? – seu dedo agora está próximo do meu nariz. – UM CARA VINDO DE FORA, todo bonito, corpo sarado, e espancando drogados em uma festa. Seja lá qual for sua identidade, ESCOLHA UMA MÁSCARA MELHOR!
- Angélica... – meus braços buscam seu corpo trêmulo.
- NÃO ME TOCA! – recuo. – Eu chorei por você. Como se você fosse grande coisa para mim... – sua expressão agora é cínica. – Você só me comeu em uma porra de um dia! SÓ ISSO! E eu sofri por alguém que está se divertindo como um IDIOTA!
Seu discurso se encerra. Suas lágrimas também. Queria concordar, contar tudo. Não posso.
- Não sou quem você pensa que é. – sou frio.
- Como não? – Angélica esbraveja.
- Você fumou demais hoje. Vá para casa.
Angélica arma outro tapa, agarro seu braço antes de acertar meu rosto. Ficamos ali, em meio às ondas, nos digladiando com o olhar. Como ela é linda. E frágil. Tão diferente de Maria. Largo seu braço, e sem dar nenhuma palavra, vou em direção à areia. Maria vem correndo em minha direção.
- O que aconteceu?
- Nada.
- Quem era ela?
- Ninguém.
- Não vai me responder? O quê aconteceu?
- Vamos embora.
- Mal chegamos. – de alguma forma Maria protesta.
- Pode ficar se quiser. Eu estou indo embora.
Um babaca. Um ignorante. Nojento. Sujo! Grosso. Pego as roupas sujas de areia e parto. Não sei para onde, apenas ando, com a vontade de matar alguém.

RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
19:35 PM

Mais cedo lembro de Maria me perguntar sobre o uniforme. Disse que sem a máscara ele não vale de nada. Arrumei uma toca vagabunda para esconder parte de meu rosto, não é muito eficiente, mas servirá.
A Universidade está movimentada. Jovens em passos ensaiados vão de sala em sala, buscando um futuro decente. Me informo com o porteiro, e vou em direção a Faculdade de Ciências Humanas. Sou uma presença estranha, os demais universitários notam isso e cochicham entre si. Meu primeiro dia na escolinha. A segurança é débil. Meros enfeites. Adentro no prédio construído no século passado, com uma arquitetura dos anos quarenta se não me engano. Pelo corredor um professor se vangloria de seu doutarado, sobre algo claramente desinteressante. Papos sobre leis e provas permeiam o corredor. De porta em porta, busco pela pequena janela algum rosto conhecido. Na quarta tentativa eu avisto...
Antônio Pereira. Ex-policial militar. Corrupto. Traficante. Cafetão. Minha presa. Minhas mãos agarram a toca com vontade, puxando para baixo, ocultando meu rosto. Ergo minha perda, e com um só golpe ponho a baixo a porta da sala de aula! Interrompo algo sobre Teoria Geral dos Contratos. Todos se assustam. Principalmente, uma loira que grita histericamente. Caminho até a carteira de Toninho, que assim como os outros alunos não entendem o que está acontecendo. Ninguém ousa me parar. Agarro o verme pelo colarinho! Como um brinquedo, levanto-o e o lanço em cima das carteiras. Chego a derrubar outros estudantes. Eles superam. Vejo o temor em sua face. Isso me anima. Chuto tudo que encontro em minha frente. Mochilas, carteiras, bolsas. Tudo que me separa do meu alvo.
- Quê... Porra! – um palavrão, estava sentindo falta da boca suja desses filhos da puta.
Toninho é gordo, como qualquer outro homem de quarenta anos. Seu rosto é enrugado, e eu faço questão de enrugá-lo ainda mais com um soco! Pego-o pelo cabelo e bato suas costa na parede! Protestos contra minha violência ecoam pela sala. Ignoro. Antonio tenta reagir, inutilmente. Cada tentativa é devolvida com uma pancada mais forte. Nenhuma palavra sai da minha boca. Ele entende o que está acontecendo.
- Agente pode conversar... – soco sua nuca, o criminoso entende a mensagem.
Arrasto-o como um troféu por toda a Universidade. Pessoas correm para saciar sua curiosidade. Toninho pede por ajuda. Ninguém ousa. Muito menos os seguranças. Caminhamos até seu carro. Uma passeata, uma verdadeira platéia nos segue em direção ao estacionamento. Chuto o saco de merda, fazendo-o catar cavaco até bater com a cabeça no farolete de seu Honda.
- O quê... – não o deixo terminar e acerto mais uma vez seu rosto.
Vasculho seus bolsos, suas mãos tentam impedir as minhas. Quebro seus dedos. Todos eles. O gordo grita! Encontro à chave do carro. Abro o porta malas, e lá está... Sacos cheios de comprimidos e cartelinhas de sintéticos. Pego um desses sacos, esfrego na cara de Antonio.
- Sabia que isso é especialidade da máfia turca? – quase rosno.
Estapeio seu rosto com as drogas, até o saco estourar e cartelas e comprimidos tomarem o chão. Parece que o homem percebe quem sou... Isso me irrita e acerto seu rosto com mais força. Ele chora. Mal escuto os protestos e esbravejos em minhas costas.
O vermelho da polícia reflete nas árvores, e a sirene é estridente. Hora de ir. Largo a carcaça espancada de Antonio e parto, indo em direção aos estudantes, minha platéia, que se abrem como o mar para Moisés. Todos eles agora quietos, apenas murmúrios e cochichos. Estão intimidados.
- Você pensa que isso ajuda? – uma jovem de óculos grandes pula em minha frente. – Acha que assim teremos justiça? Leis! – ela segura seu livro como um escudo. Temos leis! Não precisamos disso. Não destrua tudo que conquistamos com essa justiça torpe e suja. – a jovem é tão pequena, não é bonita, mas tem seu charme. – Eu sei que ficamos indignados, desacreditados, mas o que você fez é... – suas mãos trêmulas arrumam seus óculos desajeitados. ERRADO! Pare de destruir cem anos de teorias! Não assassine o nosso Estado de Direito!
Fico ali parado. A respiração da jovem é ofegante. Os olhos nos ensinam muita coisa... Os dela me mostram a paixão. Seus colegas se juntam, todos com medo, mas preparados para defendê-la.
- Desculpe... – a palavra mal sai da minha boca.
Vou embora. Isso que preciso... Ir embora!

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XVIII: Dúvida, Amor e Veneno

RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
02:03 AM


Não consigo dormir. Não é a dor. Deixei Aparecida em sua cama, a mesma que venho ocupando há dois dias. Vim até a janela. Para pensar, eu acho. Apenas vim. Apoio meus cotovelos e observo o emaranhado de casas. São milhares! Se amontoam, uma obra infantil. Como blocos de um quebra cabeça mal feito e desorganizado. Nenhuma peça se encaixa aqui. Mesmo durante a noite podemos contemplar a Rocinha, agora calada, dormindo.
A chuva de dias atrás foi atípica, o clima tropical volta a me incomodar. Deixo a janela aberta e caminho até a cozinha. Um bom copo de água como companhia seria bom. Bebo rapidamente, ansiando outro. Chego a babar um pouco. É refrescante. Estou muito viadinho esses dias. Me lembra o começo de tudo. A infantilidade. A maldita inocência. Ser adolescente foi uma fase boa, agora preciso crescer. Dúvidas são para crianças. Se bem que... Todos são até o fim.
Brasil. Ordem e progresso. Penso em nossa bandeira como uma meta. Na verdade acho que essa era a real intenção. Quantos anos de República nós temos? Quantos anos de país? Faltam aulas de história pra garotada. Não. Não faltam. Não há patriotismo nessa terra. Nem deveria. O maior ícone dessa barca é o futebol. Ou então aquele baixinho que inventou o relógio de pulso, e três dias depois de uns americanos inventou o avião. Eu deveria colocar a bandeira do Brasil em meu uniforme. Se é que vou vesti-lo novamente.
Uma rajada de metralhadora perturba o silêncio. Meu coração acelera. A adrenalina programada para agir corre aceleradamente pelos braços e pernas. Sigo o som. Calculo a direção. O tempo para chegar até lá. Qual arma foi usada. Quantos tiros. Imagino todas as sete hipóteses do porquê do disparo. Cinco minutos. Esse seria o tempo para chegar até lá, desarmar e espancar o verme.
Respiro fundo. Sento em uma cadeira. Dura e indiferente. Namoro o copo com a água pela metade. Bebo de gole em gole. Respiro fundo mais uma vez. Penso em minha irmã. Que tipo de mundo eu lhe dei? Penso nas drogas, nos políticos, nas imbecis boas intenções que permeiam isso tudo! Não temo guerras. Esse não é meu trabalho. Por Deus não temos que viver em uma sociedade tão beligerante quanto Ruanda ou Afeganistão. Isso não é menos preocupante. Nem um pouco. O Brasil é violento por natureza. Sua sociedade é autoritária! Reacionária e hipócrita! Passiva e indiferente. E o pior antidemocrática. Respiro fundo. Liberação da maconha! Rio sozinho. Como se isso fosse a solução. Bando de asnos que ainda não aprenderam a comer usando talheres. Marcha da maconha, como eu gostaria de sair descendo a pancada em todos! Me sinto tão infantil, esse é meu trabalho. Dar porrada! Não vejo outra solução. Estamos afogados em boas intenções e particularidades sendo reivindicadas. Uma crise está por vir. Sinto no ar. E o que farei?
Crianças morrem no tráfico. Crianças! Eu me lembro de Ibiza.

Decoração de outro planeta, colorida, chamativa, cativante. Um pulso sonoro constante. Uma batida de coração. Um coração amante. Forte e vigoroso. Em seguida a melodia começa. Leve e romântica. E o coração pulsando sem parar. Barulhos indescritíveis e vozes metalizadas entram na dança. Enquanto estou parado, hipnotizado pela... Festa. A música para. O piano solitário toca uma nota por vez. Seguranças e capangas vêem em minha direção. Devem estar vindo pelo traficante de sintéticos espancado no banheiro, ou pela explosão de uma Van da máfia albanesa no estacionamento. Não! Pelas vinte mulheres escravizadas que entreguei à polícia semana passada. O coração pulsa novamente, as luzes acompanham freneticamente. Até parar mais uma vez. Ah o piano. Como é lindo. Quebro o braço do que aparenta ser o mais forte. Já sei! É isso. Estou de colante. Meu punho afunda o rosto do de rastafari. Antes que a música eletrônica passe a ficar entediante, todos os dez já estavam no chão.

No fim tudo é festa. Tudo é samba. E isso me deixa muito puto. A passividade do usuário. A tolerância da sociedade para com esse. Até a lei o trata com mel. NÃO! Isso não é diversão. É segurança pública.
Passo a noite olhando para o resto de água.

RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
06:03 AM


- Augusto?
Maria.
- Você dormiu sentado na cozinha? – ela está brava! – Por que não me acordou? E o repouso?
- Calma mamãe. – tento sorrir com a cara inchada e o corpo dolorido.
Aparecida balança a cabeça negativamente, e faz seu caminho até o banheiro. Ela tem que trabalhar. E eu também. Hoje vou embora.
Queria conhecê-la um pouco mais. Gratidão eu acho. Tomamos nosso café em silêncio. Aparecida coloca seu uniforme bege e sem sal. Isso não retira o ar carioca de sua beleza. Arruma sua bolsa, com todos os milhares de acessórios indispensáveis. Me troco também. Com roupas de seu marido. Caem bem, apesar de estarem largas e com cheiro de guardadas.
- Estou indo. Vê se dorme direito agora, está bem? – preocupada como sempre. Sempre? O que é isso? Somos íntimos agora?
- Vou te acompanhar até o ponto de ônibus.
E assim o faço. São alguns quarteirões e uma escadaria até chegar no ponto mais próximo. Entre protestos sobre a questão repouso, falamos de coisas triviais. Desde novela, política e de como odiamos a Hebe. Trocamos algumas pinçadelas de teorias próprias a respeito de relacionamento. Maria é madura. Com seus vinte e seis anos. Já viúva. Como sempre – sempre! – nada sobre seu passado, e muito de mim. Falei por alto do Japão e dos Estados Unidos. As ruas estão bem movimentadas. Trabalhadores saem como formigas em direção ao trabalho. Sou um estranho aqui, e todos percebem isso. Uma gorda que anda com dificuldades, devido a suas coxas roçarem umas nas outras, pergunta quem eu era. Sem total discrição. Maria Aparecida envergonhada responde que sou um primo, lá do norte, de Roraima. Ela é de lá? Seu sotaque é tão chato, tão carioca. Continuamos a caminhada com a obesa inconveniente nos acompanhando. Chega duvidar da resposta, solto um “uai” sem querer. Força do hábito. A mentira agora é que estou morando em Minas Gerais. Seu rosto redondo sorri, acreditando. Avistamos o ponto. Um mar de gente aguarda o transporte. Todos com rostos cansados e inchados pelo sono. Todos indiferentes ao cadáver em um canto da calçada. O sangue já está coagulado. Vozes lamentam sem nenhum alarde. Aparecida segura meu braço. Paro e fico olhando para o corpo com quatro furos no peito e dois na cabeça. Um cartaz fixado no poste chama mais minha atenção.

BAILE FUNK – TÔMA TÔMA TÔMA JACK BUILT

Os filhos da puta! Vão comemorar minha morte! Mc Bombinha? Maria segura ainda mais forte meu braço. Não sinto nada. Nem raiva. E a merda do baile é open bar. Olho para os lados. Lembro onde estou. O ônibus de Maria chega. A balofa a chama. Ela não quer ir. Não larga meu braço. Beijo sua testa.
- Obrigado. Por tudo. – não espero resposta, começo a andar.
Viro mais uma vez, ganho uma expressão triste da minha salvadora. Ela sabe que preciso ir embora. O cadáver. Um garoto de dezesseis anos morto. Sorri pra mim. Me esnoba.

RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
09:43 AM

Pego uma mala velha. Maria não ligaria, eu sei. Coloco o uniforme, ou o que restou dele, dobrado sobre o kevlar perfurado. As lâminas eu embrulho no jornal, e as acomodo com cuidado. Escrevo uma carta, nada muito sentimental, apenas agradecendo. Bebo o último copo d’água. Percorro com o olhar todos os cômodos apertados, o coração aperta. Estou muito viadinho. Definitivamente.
Hora de buscar minhas outras tralhas. No hotel e na base naval.
RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
11:13 AM


Não presto atenção no caminho. Em nada. Apenas viajo em meus pensamentos. Para falar a verdade... Não lembro de nada que pensei até aqui. Dou o sinal, salto a alguns quarteirões da base. Vou procurar uma entrada mais discreta. Salto à grade. O abdômen dói um pouco. Corro um pouco abaixado até um tanque. Vasculho o ambiente. Livre. Cautelosamente chego até um caminhão militar. Dois marinheiros passam trocando figurinhas sobre o Flamengo e o Bota Fogo. Espero. Atravesso o pátio sem ser visto. Chego ao meu quarto, meu cantinho especial e reservado. Pego a chave que me deram, abro e me alivio. Tudo está aqui. O rifle, a escopeta americana, meu brinquedinho de escalar prédios, as granadas. Fico surpreso desses militas não terem vindo fuçar minhas tralhas. Guardo tudo em minhas mochilas, que também estão aqui. Hora de ir. A porta se abre.
- Quem será que abriu essa porta? Costa Machado e Oswaldo nem chegaram... – Coronel Manuel Belloto.
Belloto não acredita no que vê. Seus olhos arregalados e sua boca aberta me demonstram isso. Depois da surpresa, vem a vergonha. Talvez ele chegue a lamentar por uns instantes, pelo fato de ter me negado reforço no que seria a maior operação já vista no Rio de Janeiro. Talvez por sua omissão ter custado uma vida humana. Não. A vergonha é passageira. Sua arrogância é maior.
- Enfim vi seu rosto... – uma pausa. – Herói.
Fico calado.
- Então Jack Built sobreviveu. Os jornais sensacionalistas estão errados. Conseguiu sobreviver a todas intempéries. Foi derrotado. Humilhado. Mas seu vigor é grande, e não se permite descansar. Não é herói? – sua expressão agora é pura arrogância, por conseqüência, pura naturalidade. – Você falhou.
Fico calado.
- Não pude arriscar a imagem das forças armadas. São instituições e deviam ser preservadas. – seu rosto magro e velho me irrita.
- Você quer se justificar? – questiono.
- Nunca precisei herói. Não é agora que vou. É só para não haver rancor, ou nenhuma espécie de desafeto entre você... – Belloto se aproxima. – E as instituições desse país. Ficamos orgulhosos pela sua perseverança, garra e amor à pátria.
- Eu não gostei de você desde o momento que o vi Coronel. Você é fraco, como homem e como militar. Um caráter decadente. Só participei disso por respeito ao General Costa Machado. – não chego elevar o tom de voz, mas a mensagem é essa.
Algo que disse o atingiu. Sua arrogância ainda permanece. Triste, mas ainda arrogante. Uma de suas mãos massageia o rosto. Pego minhas coisas e me preparo para sair.
- Espere... – seu braço estica como se quisesse me impedir. – Você é tão jovem. Jamais vi seu rosto. – sua mão ainda massageia seu rosto. – Pare de desperdiçar sua vida. Volte para casa, para sua família, arrume uma namorada, tenha filhos, estude... – sua voz cessa.
Ignoro. Caminho para saída. Penso em Angélica. E em minha irmã... E nela... Vida normal. Só Deus sabe o quanto a quero. Quem sabe esse arrogante não esteja certo. Caminho tranquilamente através do pátio. Alguns soldados estranham, mas é justamente isso que os intimada. Vejo Costa Machado me observando na janela de um dos prédios. Surpreso. Belloto faz sinal para me deixarem passar.
- Você nos amaldiçoou Costa Machado. Não devia ter tirado a coleira desse rapaz.
Hora de esquecer e voltar pra casa.

RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
15:33 PM


- Senhor?
Travo meus pensamentos em algo, enquanto observo as letras e os números de plástico informando horário e preço das passagens. São letras e números amarelos. Belo Horizonte em vermelho.
- Senhor? – uma voz feminina e irritada.
Meu cérebro não está em harmonia com a visão. Ainda olho o amarelo de plástico. O quadro é negro e cheio de furos.
- Escuta aqui! – o som é agudo e o sotaque é cheio de xis.
- Como? – pergunto ao voltar da excursão para o mundo da lua.
- Vai comprar ou o quê? – a mulher é feia, antipática e o seu falar me incomoda.
Maria me acolheu, cuidou de mim, e pronto! Pego um ônibus, volto para meu mundinho, ponto final. Ela merecia ao menos um abraço, um obrigado. Um agradecimento digno. Às vezes me espanto o quanto idiota consigo ser. Se é que posso me considerar um homem. Humilhado. Derrotado. E a única pessoa que me ajudou... Vou ir vê-la! Maria merece! Chego a sorrir.
- Hei! Qual é a tua? – a atendente ela sua voz esganiçada.
Agarro minha bagagem. Mando um beijo para a mal amada e corro até Maria!
RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
16:02 PM


Não foi difícil encontrar o consultório onde Aparecida trabalha. Me lembro do uniforme sem vida que usava, da logo marca, e do nome. Janete Clínica Médico-Cirúrgica. O bairro é elegante, assim como a casa onde se instalou a clínica. Branca com adornos verdes, combinando com a logo marca. Acima da porta de entrada, o nome daquela que se recusou a retirar a bala alojada em meu abdômen. Médica e patroa de Maria Aparecida. Entro na esperança de encontrar a recepcionista que brincou de médica há alguns dias atrás.
- Boa tarde, posso ajudar? – uma moça jovem, com sorriso cativante me recebe. Não é Maria.
- Boa tarde. – retribuo a educação. – Maria Aparecida está? – pergunto.
Isso a surpreende. Não faço idéia por que. Sua educação se mantém.
- O que o senhor gostaria de tratar com ela? – responde a senhorita.
- Na verdade... – tento responder mas sou interrompido.
- Pode deixar Lívia, eu atendo ele. – a voz é um pouco roca, o cigarro causa isso. Cansada também. É Janete.
Por um instante a parcela humana em mim fala mais alto, e meu olhar é grosseiro. Afinal, ela disse sim para a minha morte.
- Entre por favor. – Janete sorri como uma boa anfitriã.
Eu obedeço.
Trocamos alguns cumprimentos. Em seu ambiente ela é segura, não demonstra o medo e a insegurança profissional que demonstrou dias atrás. Pede para examinar meus ferimentos. Permito apenas para entrar em seu pequeno jogo de desculpas, e quem sabe conseguir algumas respostas.
- Incrível. – Janete elogia.
- O quê? O estrago feito? – respondo ríspido.
- Sua recuperação. Maria tratou bem de você. – ela vai até sua mesa, abre uma gaveta. – Tome um desses a cada seis horas, evitará qualquer infecção.
- Obrigado. – guardo os comprimidos em uma das malas. – Não vim aqui pra isso. – sento na cadeira. – E você sabe disso!
- Olhe, eu só não queria... – sua expressão é triste, mas não de arrependimento.
- Problemas.
- Isso. Espero que entenda.
- Entendo, com certeza. – sorrio levemente. – Muito humano. – debocho.
- Eu tenho filhos, marido, família. Uma vida! Não posso entrar nesse fogo cruzado. Já imaginou se algum daqueles... – seu rosto denota nojo.
- Não vim aqui pra isso também. Nem tenho direito de lhe cobrar nada. Vim por Maria. Preciso falar com ela.
- Maria saiu para o almoço e não voltou.
Alguma coisa se mexe dentro do meu peito. Janete percebe a preocupação.
- Fique tranqüilo. – ela me acalma. – Maria ligou, disse que não se sentia bem e que iria para casa.
- Tenha uma boa tarde doutora. – me levanto, não tenho motivos para permanecer aqui.
- Ela estava feliz.
- Como?
- Maria. Ela estava tão alegre ontem. Sorridente, sabe? – Janete gira a cadeira, e parece contemplar a vegetação que decora a vista de seu consultório. – Há anos não a via daquele jeito. Quer dizer, eu nunca a vi com tamanho ânimo. – Janete sorri. – Nem mesmo no dia de seu casamento. Meu irmão é pastor, foi através dele que a conheci. Seu marido era muito religioso, que Jesus o tenha.
- Por que está me contando isso? – pergunto.
- Ela está feliz por sua causa! A coitada sempre viveu a sombra do passado, e pela primeira vez eu vi em seus olhos uma luz de liberdade. – Janete se emociona.
- Honestamente doutora, não creio que tenho...
- Tem sim meu jovem. Tem sim! Não me arrependo de negar-lhe socorro. – como já demonstrou mulher. – Já falei, tenho família, e eles são tudo que importa pra mim. O fato de Maria ter te salvado significou algo para ela que não consigo explicar. Talvez se sinta bem por ter feito uma boa ação. Ou pela sua companhia em sua casa. Quem sabe sua solidão não tenha diminuído. – o pesar surge em sua face. – Jack... Nem ao menos sei o seu nome. Acho justo que saiba de algumas coisas.
- Sobre Maria?
Janete confirma com a cabeça e começa a história.
- Maria Aparecida sempre foi uma mulher triste. Quando a conheci ela tinha somente dezessete anos, e casaria no ano seguinte. Não sorria muito, entretanto sempre era bondosa, tanto com a mãe quanto com o marido. Sei que Maria não gostava das palavras de meu irmão, religião, Deus, a incomodava um pouco. Mas todas as terças e domingos Maria estava lá, junto com o marido, escutando as palavras de Jesus.
- O marido era ruim pra ela? De onde vinha a tristeza?
- Também gostaria de saber meu jovem. – seus olhos cansados encontram os meus. – Sua mãe veio fugida de Roraima para o Rio de Janeiro, quando Maria tinha apenas nove anos. Nunca soube o real motivo de sua vinda. Tudo que sei são conversas tortas depois do culto, e pelo que meu irmão me contava. – Janete fica pensativa, e retoma a narrativa. – Parece que o pai a usava como moeda de troca para índios locais. Sua família era pobre, e naquele norte perdido em meio à floresta, lei é algo tão acreditável quanto curupiras.
- Moeda de troca?
- Não sei de detalhes. Sei que judiavam da coitadinha. Sexualmente, digo. – um ardor me consome. – Sua mãe possuía uma cicatriz no rosto, nunca a questionei a veracidade desses fatos, dizem que ela matou o próprio marido em defesa da filha.
- A mãe de Maria ainda está viva? – pergunto.
- Não. Morreu uma semana após o casamento da filha. Parece que viveu o quanto podia, resistindo o máximo só para ter certeza de que sua filha não ficaria sozinha.
- E o marido, era bom para ela? – questiono com certo tom de dúvida.
- Um homem de família. Da igreja. Um bom homem. – vejo certeza em suas palavras. – Era policial também.
- Honesto?
- Respeite a alma do homem! – sou repreendido. – Honestíssimo. Um santo! O único que sabia de toda a verdade sobre o passado de Maria, o único. A aceitou e cuidou dela.
- Como ele morreu? – pergunto.
- Executado.
- Por quê? Por ele ser policial? – elevo o tom de voz.
- Não, em uma briga de bar. – Janete se levanta, pega um copo descartável e o enche com água gelada, toma um gole demorado. Me oferece. Recuso. – Maria nunca o amou. Eles pareciam mais amigos do que marido e mulher. Mesmo sendo o primeiro e último homem de sua vida, Maria tinha um carinho enorme por ele, mas era um amor frio. Amor de alguém que não se lembrava como amar. Isso o magoava, mas como um homem honrado e correto, ficou do lado de sua esposa. Incentivou seus estudos, tentava lhe mostrar Jesus, a levava para a igreja. – tanto Jesus em uma conversa nunca me incomodou tanto.
- E a briga do bar?
- Uns colegas policiais, que não sabem o limite do álcool, começaram a caçoar do pobre coitado. Dizendo-lhe injúrias e difamações. Insinuavam a infidelidade de Maria, sua frigidez. A chamavam de Virgem Maria. Até que caçoaram algo sobre o passado da pobre coitada. Não lembro o quê. Não houve testemunhas nem culpados para esse assassinato. A versão oficial, não a verdadeira, relata o pobre Roberto como um homem de demasia violência que feriu, sem nenhum motivo, três colegas em uma mesa de bar, e um quarto, em legítima defesa, atirou três vezes, duas no peito e uma na cabeça, matando assim o marido de Maria.
O quão oportuno silêncio. Janete o quebra.
- Maria Aparecida não chorou sequer uma vez.
- Mas ela não tinha um carinho por ele? Mesmo não o amando como você falou? – procuro alguma lógica na expressão carinho sem amor.
- Não me peça para explicar a fisiologia dos sentimentos meu jovem. É uma estrutura complexa demais para a ciência humana, apenas tentamos compreender, ou fingir compreender.
- Entendo... Maria tem depressão.
Janete faz sim com a cabeça.
- Vejo que vai embora.
- Antes queria falar com Maria. Por isso vim até aqui.
- Fique tranqüilo. Mesmo tendo visto seu rosto, seu segredo está bem guardado comigo. – ela é firme no que fala, mas não posso arriscar.
- Eu estou. – sorrio, ficando sério logo em seguida. – Se algum dia me reconhecerem... – Arregalo os olhos e mostro um largo sorriso. – Eu sei a quem procurar.
Pego um cartão com o nome, endereço, telefone da Clínica. Deixo o consultório... Satisfeito com o compromisso que a doutora me fez. Ela guardará meu segredo.
Vou até a casa de Aparecida. Queria poder fazer algo... Lutar contra esse inimigo invisível e parasita. Corrói o coração e assassina a alma. Não tenho poderes para apagar o passado de alguém.
RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
18:17 PM

Maldito trânsito! Depois de pegar um ônibus errado, me vejo parado em meio ao mar de carros, se movimentando como lesmas moribundas. Tudo bem. Me familiarizo com essa parte da favela. Salto da lotação. Penso em Maria. Penso em minha irmãzinha. Subo a mesma escadaria que desci esta manhã. O cartaz da festa de comemoração da minha morte me fita. Dois jovens magros e atrevidos tentam me provocar. Ignoro. Sorte a deles. Chego à porta da casa de Aparecida. Está entreaberta! Meus sentidos se aguçam, largo minha bagagem e corro para dentro. A casa é pequena, em segundos vasculho a sala e a cozinha. A televisão está ligada! O quarto!
- MARIA! – grito!
Lá está ela, sentada na cama, com o metal em suas mãos. A voz da jornalista é conveniente, ritmada. Maria está com um trinta e oito nas mãos, com o olhar vazio, indo de mim para o revólver.
- Pensei que tinha ido. – sua fala é indiferente, apática.
- O que pensa que está fazendo mulher? – sou rude.
Seus olhos travam no metal opaco do revólver, como se me ignorasse. Até que o falar ensaiado da jornalista chama minha atenção.

Estamos ao vivo da coletiva dada pelo General do Exército Costa Machado, onde serão discutidas medidas emergenciais a respeito da segurança na cidade do Rio de Janeiro. A morte do vigilante urbano Jack Built, nas mãos de traficantes na noite do dia quatro de agosto, desencadeou uma enorme discussão a respeito da impunidade e da falência de nosso sistema penal. Veremos agora o protagonista desse debate sobre a Mobilização Nacional Contra o Crime.

O General surge, resguardado da bandeira de nossa República e pelos escudos das forças armadas. Microfones e câmeras registram o momento de sua subida no palanque. Meu coração agora bate freneticamente, como se acompanhasse os flashs dos fotógrafos.
- Augusto? – a indiferença penosa de Maria some.
Um monstro quer rasgar meu peito. Costa Machado caminha até o microfone no centro do palco. Como um político! COMO A MERDA DE UM POLÍTICO! Sua presença é poderosa. Como a de uma cobra! Então eu me lembro de sua voz, forte e determinada... Como agora... Como em frente a cova de seu irmão... Para todo o Brasil!


Eu fui avisado para não vir aqui. Alertaram-me. “Não vá para televisão”. Me disseram. Mas porque eu deveria escutar tal advertência? Quando alguém como ele está morto. Não fique atrás daquele caixão. Não há luto. Nenhuma cerimônia. Esse homem foi o estremo do espírito que vivemos. O desejo puro pela Justiça. Por isso eu estou aqui. Não tenho dado a vocês, o que vocês deveriam ter. Até quando vamos sair nas ruas, andar livremente em avenidas, nos encontrarmos na praia, sem sermos prisioneiros do medo? Nossas esposas conversando, nossas crianças rindo... Enquanto formos prisioneiros do medo, não teremos uma cidade. Me rotulem um fracassado até esse dia. Quando pressupomos uma sociedade democrática, e sim ela foi conquistada. Era isso? O que tínhamos em mente? Essa desordem. Esse caos. Essa impunidade! Essa morosidade! Era isso? O Rio de Janeiro já foi maravilhoso. Não pode ser maravilhoso de novo? Algo de Jack Built, não poderia ser aprendido? Esse guerreiro não poderia me dar o poder, a força, o conhecimento para somarmos nossa coragem para cumprir essa básica, fundamental tarefa? Construir uma cidade em que se possa viver! Apenas em que se possa viver. HAVIA UMA MARAVILHA QUE ERA UMA CIDADE! Era uma maravilha! E não pode ser uma maravilha de novo? Uma cidade maravilhosa onde não temos traficantes, policiais corruptos, matadores, ladrões, pedófilos, miséria, fome! Cidadãos. Todos juntos fazendo um lugar melhor para viver. É algo demais a pedir a vocês? Estamos pedindo algo demais? É além de nossas capacidades? Porque se for, nós não passamos de um gado a caminho do matadouro! Eu não vou cair dessa maneira! EU ESCOLHO DAR O TROCO! Eu escolho ascender e não cair! Eu escolho viver e não morrer! E eu sei, eu sei! O que está em mim, está também em vocês! É por isso que eu peço a vocês agora se juntem a mim! Ergam-se comigo nas asas desse anjo assassinado! Vamos construir na alma desse guerreiro! Pegar sua jornada, seguir em frente! Até essa cidade! Minha cidade! Sua cidade! Nossa cidade! A cidade dele! Ser maravilhosa de novo! Maravilhosa mais uma vez! Eu estou com você Jack, eu sou você.

A jornalista fala algo sobre quinhentos soldados e “a maior operação das forças armadas em ambiente urbano”. Gostaria de ter prestado mais atenção. Gostaria que minhas mãos parassem de tremer. Que meu coração deixasse de ser um animal selvagem! Maria tenta conversar. Abraça minhas costas. Enquanto minha mão sangra. Minha mandíbula trava. Não escuto nada. Não sinto nada, nem o soco que desferi atravessando os tijolos da parece. Raiva. Pura e simples. Algo parecido com um som gutural sai de minha boca.
- Fui enganado Maria. Ele me usou! Sabia que eu não ficaria na coleira. A imprensa foi a parte mais fácil. Apenas jogue carne aos cães! Dê a eles o gozo. Foi isso que ele fez. Me deu um motivo para vir até o Rio de Janeiro. Um propósito. – tento recuperar o fôlego. – Conquistou minha confiança! Alimentou minha vaidade. O maldito sabia que eu salvaria vidas! Então... atirou em mim! COSTA MACHADO ME MATOU PARA COLOCAR O EXÉRCITO NAS RUAS! – grito, cuspindo todos meus demônios na cara de Maria.
- Para Augusto! PARA! – ela também grita.
Seu clamor me faz perceber algo de maior importância no momento. As lágrimas no rosto de Maria. Mais uma vez... Nos abraçamos. Caídos em nossa própria desgraça. Ao meu ouvido sua fala é trêmula e penosa.
- Você me salvaria?
Um gelado percorre minha espinha.
- Sempre.
- Você... vai embora?
- Vou.
Seus braços me apertam.
- Mas antes vou tocar o terror nessa porra de Rio de Janeiro! E você vai me ajudar!
NOTA: Há uma pequena homenagem aos vários discursos feitos pelo ator Al Pacino. Alguns trechos e idéias podem ser extraídos da fala de Costa Machado.

Terça-feira, Maio 05, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XVII: Medo e Delírio

* Em um quarto de hotel, em alguma cidade podre e luminosa.

- Argh! Que merda! De onde surgiu essa mulher? Larga meu pé sua vaca!
- Calma porra. Ela ta só fritando.
- Onde você arrumou essa piranha?
- No avião.
- Que quadros são esses?
- Ela é fanática religiosa e gosta de pintar a Barbra Streisand. A mocinha pediu um remédio pra dormir na viagem.
- E você batizou a parada?
- Isso. Ela surtou. Ficou louquinha.
- O quê você não faz pra arrumar um sexo. Seu doente.
- E isso foi a mais de vinte quatro horas atrás. A vagabunda não para de fritar! O quê agente vai fazer com ela?
- Agente? Bem... Tenho uma idéia. Fanática religiosa não é? Jesus e tudo mais. Conheço uns policiais. Pagam cenzinho cada pra fazer um grupal. Agente coloca uns quadros de Jesus e uma Bíblia no meio. Enfia um sintético nela. Olha essas coxas, essa aí agüenta o tranco.
- Você é doente?
- Eu? Você dopa a desgraçada, e o doente aqui sou eu? Só estou tentando achar um modo de lucrar com isso.


♦ ♦ ♦
- Por que o preto?
- Camuflagem. Funciona muito bem à noite.
- Mas acaba assustando as pessoas, não? - hoje Aparecida tirou o dia para perguntas.
- A idéia é mais ou menos essa. Se eu pulasse na frente de um criminoso, com colete amarelo e azul, imagina! A intenção não é matar o crime de tanto rir.
- Você não teria um símbolo, algo além do preto?
- Te incomoda tanto assim?
- É meio mórbido. – sua boca se fecha e é levada para o canto esquerdo, como um coelhinho.
- Meu nome também não funciona como deveria.
- Verdade. – ela confirma.
Rimos juntos.
- No começo era pior, pode acreditar. – e como era! – Não planejei a parte publicitária de vestir um colante e sair pelas ruas.
- Eu fiquei pensando Augusto. Qual motivo... – sua pele morena segue perfeitamente cada expressão de dúvida, enquanto a luz incandescente é refletida em seus olhos.
- Se eu falar que não sei. Você acreditaria?
- Vindo de você... – ela morde os lábios, tentando conter um sorriso. – Acreditaria sim!
Rimos mais uma vez. Nos damos bem. Isso é fato! Desde que deixei de ficar grogue com os analgésicos, temos conversado bastante. Não saio da cama há dois dias, preciso repousar, os ferimentos ainda doem. Me recupero bem. Maria Aparecida é uma mulher interessante. Curiosa. Muito curiosa para falar a verdade. Acorda cedo e vai para o trabalho, retorna as seis, arruma minha bagunça, senta na cama e ficamos conversando. Segundo ela, eu a salvei das garras das novelas. Não duvido. Pessoas ainda vêem essa porcaria? Nosso papo acaba desembocando madrugada adentro. Não falamos sobre sua vida, tento descobrir algumas coisas, mas quando o assunto é ela, sempre surge uma pergunta para lubridiar o rumo da conversa. Tive que descobrir algumas coisas sozinho, pelo modo de falar, maneirismos, porta retratos e essa cama de casal. No primeiro dia pensei que ela fosse casada, nenhum homem apareceu, nem ao menos foi citado, conclui que Maria gostava de conforto. Não é porque se vive em uma favela que não pode dar ao luxo de algum conforto. Só que essa cama representa algo mais triste. Esse colchão que me acomoda simboliza sua solidão. Camas de casal não são feitas para dormir no meio delas. Foram feitas para serem divididas. Duas pessoas unidas e abraçadas pelo amor, compartilhando o sono. Maria Aparecida é viúva. A foto de um homem vestido com uniforme da policia dentro da Bíblia me contou. Ele era policial militar. Como morreu? A foto fria não é tão sincera quanto parece. Minha salvadora é evangélica. O rádio vagabundo que usa como despertador toca a mesma música todos os dias às cinco da manhã. Algo sobre misericórdia divina, repetindo e repetindo o tempo todo. Não tenho nada contra religiões, mas isso me soou como uma espécie de lavagem cerebral. E se eu falar que a intenção é essa, posso parecer rude, mas tudo aquilo que se repete constantemente tem um fim. E gruda na porra da cabeça. Me peguei cantando sozinho, enquanto mijava.
- Cida, quantas horas? E que dia é hoje? Preciso diminuir a dose desses remédios.
- Seis de agosto. Só um instante que vou ver as horas. – adoro suas roupas de ficar em casa. Um básico estonteante.
Maria corre na cozinha e grita.
- São nove horas!

RIO DE JANEIRO – 06 DE AGOSTO DE 2008
21:00 PM

- Obrigado! – grito agradecendo.
- Vai querer o quê pra jantar? – momento conversa a grito.
Apesar da situação estou gostando de como estamos nos conhecendo. Maria possui um coração bondoso, e de alguma forma Jack Built despertou algo nela. Não descobri o quê ainda.
Tento me levantar, o abdômen queima. Chega de frescura. Não posso me acomodar. Caminho até a cozinha. Maria se encontra agachada procurando algo em uma das estantes de metal, empurrando panelas e vasilhas de plástico. Já comentei de sua bunda? Sou um homem respeitoso, estou tentando evitar pensamentos sujos. Pena que meus olhos não têm consciência. Malditos. Como ela é linda. Seu sotaque carioca nem chega a me incomodar.
- Não, não! – sou repreendido. – Já de volta pra cama! Nada de ficar se esforçando.
Maria fecha a cara e vem ao meu encontro. Segura no meu braço, e começa a me levar de volta para o quarto. Levo minha mão à sua. Seus olhos encontram os meus. Não sinto nada. Não expresso nada.
- Me solta.
- Mas... – não a deixo argumentar.
- Sente-se. – aponto para a mesa da cozinha. Ela obedece. – Olha Maria, eu agradeço por tudo que fez por mim, mas eu não sou feito de seda. Não sou um graveto.
- Eu sei... – seus dentes mordem sua boca mais uma vez.
- Você me trouxe de volta a vida Aparecida! Eu lhe devo isso. Só não se preocupe tanto comigo. Por favor. Sei que esse lance de máscara empolga muita gente, mas... – uma pausa proposital. – Por que você me salvou? Sei que não trabalha pra ninguém que me quer morto. Em dois dias aprendi muito sobre você, mesmo com suas evasivas ao falar de si mesma. Ou é uma ótima atriz, ou estou sendo muito inocente. E acredite, quando se leva um tiro e é espancado, descuidado é o último adjetivo que se aplica a minha pessoa! Vou repetir... – ambos sérios, nos olhamos. – Por que você me salvou? Por que ao escutar tantos tiros... POR QUE VOCÊ SE ARRISCOU TANTO?
- EU NÃO SEI! – ela responde meu grito!
Silêncio, meu velho companheiro nessa cidade estranha. Ele é expulso por uma voz macia, triste e sincera... A voz de Maria.
- Eu não sei Jack... Quer dizer... Augusto. Não sei mesmo! – suas sobrancelhas contraem, sua cabeça abaixa. – Você acredita em mim?
- Vindo de você...
Rimos juntos. Jantamos falando de coisas boas.
- Agora vá descansar mocinho.
- Quem trabalha aqui é você... Mocinha!
- Vou ver um pouco de televisão. – Cida se levanta, juntando as louças e deixando-as na pia.
- Vamos ver juntos então.
- No sofá duro? Seus ferimentos. Não é nada confortável. – bom aviso.
- Tudo bem.
Ela confirma com a cabeça, se vira e começa a brincar com o detergente, banhando os pratos sujos de feijão e arroz com água corrente. Vou até a sala, tiro a televisão da tomada, pego a antena... Agora a prova da recuperação... Carregar uma televisão de vinte polegadas. Os milhares de machucados reclamam! Minha perna treme. Isso é tão fácil. Debilitado de merda! Tenho sucesso. Levo a televisão para o quarto. Arredo a Bíblia, apoiando o aparelho em uma estante. Ligo, testo e pronto!
- O quê você apronto hein, senhor super-herói? – indaga com as mãos na cintura ao entrar no quarto.
- Vamos ver televisão juntos!
A pele morena enrubesce. O convite é aceito.

RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
00:13 AM

A luz medíocre da tv luta contra a escuridão do quarto.
- Acho que sei por que você me salvou. – lanço a frase no ar, isso a surpreende.
Maria não fala nada.
- Não tem haver com sua religião, tem? – pergunto.
- Religião? – outra pergunta... dessa vez retórica.
- Você não é evangélica? A Bíblia. A rádio.
- Meu marido era. Na verdade eu tenho diploma e tudo mais, dou minha contribuição para o culto, mas nunca levei a sério. Mantenho a rádio só porque foi o Beto que programou. Era nele que meu marido ouvia os jogos do Bota-fogo, e essa rádio. – ela continua olhando para a tela.
- Como ele morreu?
- Bala perdida.
A frieza do momento não me atrapalha. Nem me surpreende. Notícias são jogadas pela televisão no nosso colo, enquanto falamos de morte.
- Não sabia quem você era. Sabia que você existia. – vez de Maria lançar uma frase no ar. – Por que eu te salvei?
- Você precisa cuidar das pessoas. Eu sou o ápice desse desejo. Cuidar de quem cuida dos outros. Por isso casou com um policial, por isso se arriscou tanto para me salvar. – também não tiro os olhos da televisão. – Sem fazer isso você não se completa.
- Eu não casei porque ele era um policial. Como você chegou a essa conclusão?
- É por isso que eu coloco uma máscara e saio à noite.
A morbidez do momento é interrompida. Não. Aumentada pela voz séria da bela jornalista, vestida com seu uniformezinho engomado, protegida por monitores e a redoma de vidro do jornalismo.

“Mais detalhes sobre a reação das autoridades à presença do falecido, e suposto herói Jack Built no Rio de Janeiro. Como também a comoção das pessoas ao redor do país...”.

Maria se levanta correndo e desliga o televisor! Sinto daqui seu coração batendo com força. O meu? Está calmo, quase silencioso, como a moça do jornal falou.
- Você não está morto! Os jornais e revistas dizem que sim! Mas não está!
- Cida, será que realmente precisamos cuidar dos outros? – as trevas tomaram o quarto, não nos incomodamos com ela. Maria e eu. – Há quase oito anos eu... – engulo seco. – VISTO A PORRA DE UMA ROUPA PRETA! Uma merda! Um caralho de um colante preto! PRA QUÊ? É como me falaram! É ridículo! Infantil! Inútil! Combater o crime... Como eu posso reclamar se eu for morto? EU ESTOU MORTO! Em oito anos a melhor coisa que eu sei fazer é como derrubar um homem em combate. Sou uma máquina de matar... Só que nem isso eu consigo fazer... Não consigo matar a porra de um verme sem me sentir culpado! Jack Built está... morto.
Maria corre até mim, me abraça. Ambos solitários nessa cidade. Ambos no escuro.
*NOTA: Cena adptada do filme homônimo ao título desse capítulo.

Terça-feira, Abril 28, 2009

A Imaturidade Política de Lagoa Santa: O Andar Sobre Quatro Patas da Preguiça

É fato que ainda há um grande número de fossas em Lagoa Santa. Por quê não uns fósseis também? Ambos simbolizam um passado que não volta mais. Sexta-feira foi um daqueles dias. Aguardando o final de semana, as farras, a ausência de responsabilidade, e todas as regalias que merecemos. Afinal, vivemos em um país livre, com leis e tudo mais do que há de moderno! Uma vanguarda da civilização ocidental. E é justamente por isso que somos obrigados a conviver com a bobagem. E acreditem, ela não é pouca. Liberdade é uma coisa curiosa. Desculpe meu vagar, vamos aos fatos. O Prefeito de Lagoa Santa e seu Vice tiveram o mandato cassado. Motivos: corrupção eleitoral, compra de votos, distribuição de cestas básicas e abuso de poder econômico na disputa do ano passado. Ponto!
Ao ouvir essa notícia, qual foi a sua reação? Apatia. Revolta. Alegria. Carreatas. Bandeirolas rodopiando pelo ar. Comemorações. E acreditem! Festa de comemoração. Parece que 30 % do eleitorado lagoasantense estava estonteantemente... Feliz.
Antes de prosseguir na minha jornada, preciso dar alguns avisos. Não gostaria, mas... É aquela velha história de conviver com a bobagem. Esse texto não é a favor ou contra fulano, obeso ou vesgo. Tenho um lado. A razão.
Partirei agora para a analise dessa tal "felicidade". Todo sentimento é motivado por algo. Ao escutar que o autor da ação, aquele que exerceu seu direito de ação, instaurando o dito processo contra o atual Prefeito, teve suas alegações acatadas, e em seguida, o tão cobiçado mandato foi cassado, qual foi a força propulsora de tamanho gozo festivo? Darei algumas opções: 1) a justiça foi feita e a corrupção foi punida; 2) sempre confiei na capacidade do candidato derrotado, sabia que a eleição tinha sido fajuta!; 3) eu votei nele! Eba!; 4) nunca gostei desse Prefeito; 5) é primo de quarto grau da minha tia avó! 6) agora sim eu vou trabalhar na Prefeitura!
Escolheram suas alternativas? Infelizmente a que menos retrata o espírito político (que expressão mais abstrata!) de Lagoa Santa é justamente a única que vale a pena ser escolhida. "A opção 6?", grita uma voz oriunda das massas. Não. A primeira alternativa é a única que vale a pena. Não preciso me delongar nesse aspecto, uma pequena pesquisa boca a boca pela nossa cidade já é prova o suficiente. Faça o teste. Tente outros interiores, mas guarde espaço para a decepção.
Esse cenário é a pior coisa para nossa cidade! Estão brincando no Judiciário de "mamãe eu quero mamar". É descarado! Imoral! Em menos de quatro anos, dois Prefeitos entregues aos papéis forenses, as abstrações legais e procedimentos processuais (sendo "quase" prolixo). A quem pense que há algo de positivo nisso tudo. Deve ser aquele tipo de gente otimista. Detesto otimistas. Prefiro os esperançosos. É mais difícil ter esperança, acreditem. Voltando ao absurdo. Chamo esse jogo de "picuinhia" política. Já sabemos que não foi o fazer valer das leis e de nosso Estado de Direito Democrático que impulsionou o êxtase de alguns entusiastas. Agora buscarei a intenção do autor da ação. É de notório conhecimento que o dito cujo possui em sua carteira profissional a palavra Prefeito. Eu arriscaria algumas coisas mais depreciativas, tais como Senhor Feudal. Vamos nos ater ao básico. Com esse vasto número de mandatos poderiamos facilmente comprovar a eficácia do homem como administrador. Bastaria olhar para trás. Aquela velha remechida na memória. E pronto! O controle democrático estaria completo. Eficácia comprovada. Candidato eleito! Lindo mundo de Poliana. Não é bem assim, o que explica alguns processos do mesmo em instâncias superiores, e o seu enquadramento como um político de "ficha suja".
Ausência de envergadura moral? Clamor por justiça? Vamos brincar com os opostos. Para os desavisados, e como eu mesmo previ. Tal decisão, a de cassar o mandato do atual Prefeito, foi suspensa, e toda a "picuinha" será decidida por uma instância superior. E seguindo a força inevitável do óbvio, futuramente solucionada em Brasília. Segue notícia do Estado de Minas:

Uma liminar obtida junto ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) suspendeu os efeitos da decisão judicial que cassou, em primeira instância, o prefeito de Lagoa Santa, Rogério Avelar (PPS). Ele permanecerá no cargo até o julgamento pela corte eleitoral do mérito da ação de impugnação de mandato, proposta por Genesco Aparecido (PMDB), segundo colocado nas eleições. Com a reviravolta do caso, Genesco Aparecido não será mais diplomado hoje.

Por decisão da juíza eleitoral da comarca de Lagoa Santa, Sandra Sallete da Silva, Rogério Avelar e o vice, Leônidas Araújo (PP), reeleitos com 55,98% dos votos, tiveram o mandato cassado na sexta-feira. O processo corre em segredo de Justiça. Eles foram acusados, por Genesco Aparecido de corrupção eleitoral, compra de votos, distribuição de cestas básicas e abuso de poder econômico na disputa do ano passado. Aparecido teve 30% dos votos válidos nas eleições passadas.

Em seu despacho, Sandra Sallete da Silva acatou as alegações de Aparecido e determinou que ele fosse empossado. No recurso apresentado ao TRE, Rogério Avelar argumentou ter havido cerceamento de sua defesa. "Não tínhamos acesso à sentença. As testemunhas apresentadas pelo meu adversário foram cooptadas", disse Avelar.

O presidente do TRE, José Tarcízio de Almeida Melo, expediu liminar em favor de Rogério Avelar no sábado a noite: ele se mantém no cargo até o julgamento do caso em segunda instância. De acordo com Tarcízio de Almeida Melo, a ação de impugnação de mandato deve ter rito respeitado: a decisão precisa ser publicada em órgão oficial ou comunicada pessoalmente. No caso em questão, a decisão foi afixada no cartório eleitoral. Para Almeida Melo, a afixação da decisão no cartório eleitoral, sem sequer especificar se foi julgada procedente ou não, obstou o conhecimento do seu conteúdo, o que fere o direito de ampla defesa. (BM)

Jornal Estado de Minas - 27/04/2009


Pronto. Agora todos são "fichas sujas". Nada está decidido. Nada foi transitado em julgado. Nos resta aguardar. Chorar dessa lambança. Sei que é difícil apontar o dedo e exteriorizar a vontade alheia, como tenho tentado fazer nessas linhas. A intenção, o elemento subjetivo, é algo custoso de ser provado. "Essa é a opinião do Zé, não é a verdade". Mas me permitam apresentar alguns sintomas, uma pitada de doutrina Italiana e Francesa, sobre desvio de poder. Abaixo estão alguns indícios, de quando a coisa começa a feder:


“contradição do ato com atos posteriores; contradição do ato com atos
anteriores; motivação exagerada; motivação contraditória; motivação insuficiente;
alteração dos fatos; ilogicidade manifesta; manifesta injustiça; disparidade de
tratamento; derrogação de norma interna; precipitação com que o ato foi editado;
inexistência de fato, dos motivos apresentados pelo administrador para justificar a
decisão tomada; desigualdade de tratamento dispensada aos interessados; caráter
sistemático de certas proibições; caráter geral atribuído à medida que deveria
permanecer particular; circunstâncias locais que antecederam a edição do ato e,
finalmente, um fim convergente de indícios."

MORTARA, Comentário, 4ª ed., v.I, pp. 482 e segs., nota 1 e ALESSIO,
Istituzione di diritto amministrativo italiano, 4ª ed., 1949, v. II, p.245, nota 1 apud
CRETELLA JR. (1998:331).

Voltemos ao controle clássico, acima exposto. Uma vez que o atual Prefeito ganhou as eleições com 55% dos votos, e o autor da ação discutida teve 30%, podemos comprovar que o tal controle clássico, por mais ineficiente que seja, funcionou. O derrotado como podemos perceber tem vários mandatos a mais que o vencedor. Nesses vários mandatos, por também vários anos, seria mais fácil a comprovação da eficácia administrativa de quem? Olhemos nossa cidade hoje. A segurança pública está falida. Nossa Polícia é um enfeite, e a criminalidade cresce cada vez mais. Saneamento básico é uma piada! Século XXI e fossa ainda é a melhor opção em muitos bairros, aos moldes da Idade Média. Um poder público entregue ao marasmo, ao nepotismo, a burocracia desnecessária, a corrupção. Não foi pensando um plano sequer para o bruto crescimento que tivemos, tendo em vista a influência do Aeroporto de Confins. O turismo é uma piada! Arrisco a dizer, e não fui o único, Lagoa Santa daqui a alguns anos será a nova Santa Luzia. E isso não é uma coisa boa! Tal mazela é culpa de alguém com dois anos e meio de mandato?
Se a lei foi descumprida, que sejam punidos os culpados. Sem festa! Que aconteça de forma fria e devida. Isso não é um show, ninguém aqui está lutando por você, muito menos pelo interesse público. Tudo bem. Afinal, sou obrigado a viver com a bobagem. E essa filha da puta é como a miséria... Adora companhia.

Segunda-feira, Abril 27, 2009

Nós

“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, os a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil.”

Brasília, 5 de outubro de 1988.


- Kurt Cobain é o maior ícone da nova geração!
- Como é que é?
- Sério! Sem dúvida.
- Uhun. E os Mamonas Assassinas a maior banda do Brasil.
- Calma, não é por ai. Eu falo que Kurt Cobain foi o maior ícone de nossa geração, porque ele é o melhor reflexo dela.
- O cara deu um tiro na boca! Um suicida.
- Você está chegando onde eu quero. Kurt foi definitivamente uma pessoa de personalidade frágil. Atingiu o sucesso rapidamente, se tornou uma Cristo temporário para a mídia. Sua guitarra grunhenta era escutada em todo canto do planeta! Essa escalada repentina, vem junto com pressões de todos os lados, inclusive dele para com ele mesmo. Sua rebeldia era direcionada para o nada. Logo, logo, toda essa energia ia acabar se esgotando. Daí a sua fuga para as drogas. Que também acabariam por se tornar insuficientes! Nesse “marasmo” angustiante, qual foi à solução encontrada?
- Um tiro na cabeça?
- Não. Fuga. Não é novidade para ninguém que os jovens de uns vinte anos para cá são, em sua maioria, alienados. Encontraram um mundo já com mudanças sólidas. Um mundo feito e pronto para se viver. Não há contra o que lutar. Nada para se reivindicar. No Brasil por exemplo, desde o caso Collor ninguém mais pinta a cara e sai defendendo seus direitos. Estão todos entregues aos prazeres da grande mídia. Sendo levados por tendências e modismos.

- Como assim? Só porque ninguém é idealista, ou quer simplesmente... Viver sua vida?
- É por ai sim. E é uma tendência que se perpetua já a um bom tempo. Politicamente falando o jovem se tornou insignificante. Não é visto mais como um participante na mudança. É somente um beneficiário dela. O exemplo do Nirvana é perfeito! Tudo se baseia na diversão. Política, filosofia, e outras coisas do ramo do saber, são assuntos chatos. Há uma aversão ao espírito verdadeiramente rebelde, que não se acomoda. Bill Clinton é outro retrato dessa geração.
- Com certeza! Ainda mais depois do...
- Esse é só um detalhe, que também confirma o que estou dizendo. Há uma relativização de certos valores na mente dos jovens. Um Presidente ganhar um boquete na Casa Branca, foi no mínimo, admirável! Pela mente jovem atual. Digo atual, de uns vinte anos pra cá.
- Ninguém se tornou antiamericano por isso!
- E, sinceramente, deveriam.
- Você fala de relativização de quais valores?
- Antigamente não acontecia desse jeito. Tínhamos valores fixos e determinados. O pudor seria um deles. O rock, o sexo e as drogas, são as únicas coisas que atraem os jovens. Pela sua facilidade de envolvimento e prazeres rápidos. Basta ver a comunidade universitária. Como se não houvesse mais uma necessidade de revolução! Chega a ser ultrajante.
- Vamos, responda a minha pergunta. Quais valores?


- Já falei um deles, o pudor. A moral também é um deles. Vamos pegar o Brasil. Vivemos em uma ditadura ferrenha por vários anos, de sessenta e quatro até meados dos anos oitenta. Nesse período, com a liberdade sendo engasgada pelos coturnos militares, os jovens eram a única chance de mudança. Jovens que lutavam por aquilo que achavam certo! Que defendiam a democracia! E hoje? Quando virá a próxima etapa? Temos uma democracia mal aproveitada, essa liberdade sem sentindo, sendo usada somente para a subversão de valores e de uma diversão desmedida.
- Quem lutava pela democracia em sessenta e quatro? Ninguém! Isso é mito.
- Não mesmo! Os jovens eram ativos! Não se entregavam. Hoje o nível de percepção é limitado à televisão e internet.
- Então, o que faz um jovem ativo, não apático, é querer fazer parte de uma revolução armada comunista?
- Que seja. Desde que ele se movimente, queira abrir suas asas e se lançar no mundo como um fator modificador. Esse espírito morreu nos anos noventa. Musas siliconadas. Músicas com anencefalias sonoras. Drogas sintéticas. Estamos entregue às traças do tempo. Ainda vamos nos dar um tiro.
- Mudando um pouco o foco do assunto, quando se fala em 11 de Setembro, o quê você pensa?
- Bem... Foram conseqüências de uma política externa...
- Do Bush? Não. Do Bill Clinton. Concordo com alguns pontos, como a relativização de valores, mas ter uma postura saudosista não é a melhor das opções. Colocar a culpa do que não ocorre hoje, naqueles que vivem hoje, é correto, no primeiro momento. Sinto informar, mas a juventude sempre foi alienada.
- Como assim?
- Nas revoluções do século dezenove, era alienada pelo Iluminismo. No século vinte pelo espírito revolucionário. Atualmente, nesses “anos negros” e apáticos que você coloca... Pelo niilismo aparente, que deriva da palavra latina nihil. Podemos conceituar isso como uma condição cultural em que os indivíduos não valorizam nada, nada parece certo ou errado, bom ou ruim, bonito ou feio. Falo aparente, porque há certa insatisfação dos jovens com mundo, pequena mas ainda há. Ou seja, os jovens ainda são jovens... Só que possuem um paradigma diferenciado de tratar com o mundo.
- Claro! Estão apáticos. Inertes.
- Segundo você, porque já conquistaram a tão desejada liberdade. Já estão inseridos em um mundo democrático, falando das nações ocidentais, obviamente, e não há mais o que reivindicar.
- Não é tão simples. Há o que reivindicar.
- Com certeza! Mas essa apatia não é totalmente condenável. Pela sua lógica alguém que nasceu em 1986, hoje em 2009, terminando sua vida acadêmica, querer somente constituir uma família, ter um emprego, paga suas contas e só, estaria cometendo um “crime”. Transgredindo uma “lei”, de que os jovens não devem estar satisfeitos. Sei que a satisfação pode ser perigosa, e até concordo que ainda há o que reivindicar. Mas não podemos condenar quem está feliz pela sua situação.
- E o mundo que se foda, não é assim?
- Estamos nesse “buraco”, considerando o antes melhor que o agora, justamente por termos pessoas querendo mudar este mundo. Também vou me valer de um ícone de nossa geração, um pouco mais antigo, e mais condenável, o famoso Che Guevara.
- Um símbolo de luta e revolução definitivamente.
- O oposto do Kurt Cobain?
- Podemos dizer que sim.
- Pois eu falo que não. São extremos da mesma porcaria que existe. Um é a personificação cult da fragilidade, do culto ao suicídio, o outro um assassino guerrilheiro, transformado em herói. Duas caras para vender chaveiros.
- Onde você quer chegar?

- Peguemos o que esses dois ícones da modernidade representam. Não quero utilizar Barack Obama, o único é conseguiu ser ícone por ser ele mesmo, não irá servir para o que demonstrarei. Um o ápice da revolução, o outro o representante da fragilidade juvenil dos anos noventa. Estou aliviado por você não ter usado o Rap como exemplo, nem o funk, dariam mais clamor para a discussão. Esses dois indivíduos, viveram épocas distintas, em circunstâncias distintas, um Guerra Fria, o outro a recente queda do Comunismo soviético, mas sua influencia incide sobre a mesma, digamos, geração. Somos filhos de um mundo onde não há mais guerras significativas. Nem frias, nem ideológicas. O mundo não está em paz. Mas o viés de combate ao status quo, não tem mais consistência. Os jovens atualmente não devem brandir armas e fazer revoluções. Afinal, revolução para que? Já temos liberdade.
- Liberdade a que preço?
- Ao preço das leis. Nossa Constituição por exemplo. É um verdadeiro marco de nossa geração. Direitos Fundamentais, princípios constitucionais, para não falar no próprio artigo quinto.
- E mesmo assim, ela ainda é tratada como piada...
- Seguindo suas palavras, ai a “relativização dos valores”. A China se tornou uma potência econômica, aliando economia de mercado e comunismo. Quer maior relativização do que isso? O quê esse fato implica na mentalidade jovem? A relativização do valor democrático. Já conquistado.

Utilizo esse exemplo porque não me importo com, por exemplo, a qualidade da música que é escutada hoje. Isso é insignificante. Apesar de que, poderiam elevá-la um pouco. Nem com qual programa passa na televisão, se ele é ou não uma descarga mental para cérebros. Presumir que esses instrumentos do entretenimento, alienam o indivíduo, sacrificar o próprio indivíduo e sua vontade, sua inteligência.

Concentro minha preocupação no que concerne à visão política e moral do mundo. Fenômenos como o ONGuismo governamental, a auto determinação dos povos confundida com terrorismo, a volta do populismo como arma política. Essas são as mazelas que os jovens devem tomar cuidado. O mundo não é uma piada. Muito menos algo que se pode mudar através da luta, de uma revolução. Jovens não tem poder para tanto. É complexo. A melhor ferramenta para nos libertarmos do nosso niilismo, é o conhecimento.

Uma postura saudosista não leva a nada. Não trás nenhuma vantagem. Somente obscurece o debate. O mundo hoje é diferente. Possui suas crises, como sempre possuiu, e há de superá-las. Um futuro negro nos espera? É papel da juventude mudar essa ordem caótica e apocalíptica na qual nós caminhamos? Não poluir mais. Combater o aquecimento global. Ficar firme durante a crise econômica. Assistir a pequenas guerras ao redor do globo, por motivos, na maioria das vezes, ausentes de razão. Ter uma opinião. Se divertir. Se indignar com os verdadeiros apáticos, os nossos congressistas. Nos preocuparmos com o crescente protecionismo europeu. Saber o que é Bovespa, Dow Jones, Nasdaq. Entender o motivo da euforia pré-sal! Conseguir diferenciar o político oportunista/populista/charlatão/calhorda/peculatista, do apedeuta, do competente. Entender a TPM da namorada. Decifrar o espírito simplista masculino. Aceitar o Complexo de Édipo. Resistir, ou ignorar, o fato de que o tráfico de drogas cresce, mata, e destrói mais vidas do que uma Alemanha Nazista. Conseguir um emprego. Entrar para Universidade. Saber quem foi Voltaire. Pescar uma mensagem subliminar em um outdoor publicitário. Operar o Windows. Usar o Google. Chorar pela África. Diferenciar civilidade de fundamentalismo. Escolher uma religião. Visitar asilos. Fazer caridade. Declarar imposto de renda, é necessário? Ler livros. Blogs. Jornais. Revistas. Informativos. Jurisprudências. Leis. Decretos. Resoluções. Java. COBOL. Teorias administrativas. Burocracia. Escrever um diário. Querer mudar o mundo é só a ponta do iceberg de uma mente jovem!

Um maluco e auto-intitulado mago, falou uma vez que assimilamos informações demais, em número “x” de segundos, e a cada instante, esse número de informações aumenta “y”... A nova geração tem um papel tão importante que é maior do que querer mudar o mundo... È não deixar que acabem com ele.

Sexta-feira, Março 06, 2009

A Lógica do Coitadismo

Aconteceu algo hoje que me deixou um tanto quanto... PUTO! Agora você pensa, "qual a novidade?". E eu aqui deste lado, concordando com a afirmativa oculta em sua pergunta, sigo em frente ainda com vergonha desse mundo. Isso não vem ao caso, já foi dito lá no "Cu do Universo" (um texto meu). Continuemos. O que me deixou PUTO? Foi uma mal educado interromper a minha diversão e de meus amigos no ônibus da Prefeitura (serviço PÚBLICO e gratuito que recebemos do Município - para os desavisados não é nenhum privilégio, uma vez que pagamos tributos, taxas, impostos e outras coisitas mais que vão direto para a boca do leão, leia-se, FISCO)? Não! Somento o fato do homem - ou o que seja aquele indivíduo que provavelmente deve andar sobre quatro patas - ter cessado o nosso riso não necessariamente teria como consequência a liberação de hormônios colerosos em meu organismo. Fiquei fulo da vida com a lógica por detrás de sua falta de educação. E olhem, não adentrarei na atitude rude do ruminante.
Que lógica é essa? A do Coitadismo! Segundo o supra citado, nós (eu e meus amigos), deveriamos nos quetar uma vez que aquele (o comedor de capim) e vários de seus semelhantes estariam cansados, PASMEM!, de tanto trabalhar e estudar o dia inteiro. Ressalto aqui que mesmo sendo educado, coisa que não aconteceu, o pedido deste homem ainda estaria respaldado e contamidado por essa lógica. Pra frente. O fato dele, e de sua suposta maioria, terem trabalhado o dia inteiro é suficiente para calar o nosso riso? Trabalhar e estar cansado é o suficiente para calar alguém? Não se esqueçam que estamos falando de um ambiente público, onde individuos distintos são compelidos a conviver, NOTEM, com suas diferenças. O estado pro labore, digamos assim brincando com o latim, não é suficiente para tal, se fosse eu teria o direito de calar o ronco do motor do ônibus, ou todo o som produzido por uma cidade. O sujeito só porque trabalha é dotado de uma verdade superior? O torna melhor do nós (eu e meus amigos)? Sem trazer a verdade de que nós (vocês já sabem) também trabalhamos! Thaís acorda três horas da manhã e vai dormir só lá depois da meia noite. É trabalho e estágio nas costas da coitada, e nós não atrapalhamos ela a dormir todos os dias. O que nos da uma tranquilidade com relação aos nossos decibéis. Fabrício e Carlos Henrique (Kku) também trabalham, ambos competentes e dedicados as suas profissões. E o cansaço não os impede de rir ou se divertir, FRISANDO, em um ambiente público. Crer que seu cansaço lhe da essa verdade, essa prerrogativa, eu não sei de onde vem tal fundamento! Não mesmo!
Esse tipo de pensamento que nos deixou onde estamos! Daí minha vergonha por esse mundo. Um homem quer descansar? Que vá. É seu direito. Mas faça isso em casa. Toda essa lógica perigosa (querer calar os outros pela sua condição), alimenta o pobrismo brasileiro, o cotismo racista, o bolsismo. Usando um termo de um grande pensador, "ISSO NÃO É BOM". Voltando para a situação atual, vimos que as condições, nossas e do comedor de ração, são IGUAIS. Pegando seu fundamento ambos temos CANSAÇO e TRABALHO nas costas, logo, nossos direitos tendo a mesma fonte, nossas prerrogativas são iguais, tando do DESCANÇO quanto da DIVERSÃO.
Então o que motivou o dito cujo? Sendo prolixo, sua certeza de que seu direito pesa mais do que o nosso. POR QUE? Segundo a lógica do Coitadismo, ele provavelmente estaria mais cansado , por isso teria um direito superior ao nosso, ou então, a suposta maioria cansada sufocaria o nosso direito a diversão. Por que digo suposta? O motivo é simples, dentro daquele espaço público existem os incomodados, mas também há os simpatizantes e os indiferentes. E afirmo! Mesmo que aja uma maioria, essa só teria algum tipo de prerrogativa para nos calar se nós estivessemos agindo por ABUSO nesse direito a diversão. Como se rir e contar piadas fosse ilegal, só porque a maioria quer. Não é assim que funciona, ou melhor, não é assim que deveria funcionar. Daí a minha vergonha pelo mundo e minha crítica ao coitadismo.
Essa porcalha também desemboca no politicamente correto. O quê é isso? Nem eu sei! Nem você sabe. Alguns afirmariam que nós não somos... Isso. Lembram que tentaram censurar a propaganda de alimentos NÃO saudáveis? Sério! Eu provo isso. Viram o perigo da lógica? E o pior que isso se mantém no Brasil! Na mente de todos (habitantes do curral). Isso é contra qualquer tipo de intelegência. Um absurdo na essência. Nenhum dos meus amigos atingiu nenhum tipo de moral, nem algum terceiro dentro do ônibus. Ninguém tirou a roupa. Ninguém ofendeu ninguém! Todas brincadeiras rodeiam um círculo fechado. São risos. Gargalhadas. Muito saudáveis por sinal, procurem no Google se é melhor ser alguém amargo ou alguém feliz. Vamos, digite ai. Viram? Agora tomem um fôlego para conclusão.
Eu podia falar de totalitarismo e repressão a liberdade. Só que isso é chato! Para alguns até inútil. Não vou falar. EU VOU RESISTIR! Nem que seja sozinho. Nenhuma maioria vai esmagar o direito de um indivíduo! A lógica democratica funciona ao contrário do que muita gente pensa. Senão ela se chamaria DITADURA DA MAIORIA. O que não ocorre. Esse fato me deixa triste. Por você e por mim. Não a nada de apocalíptico nisso. É só porque a liberdade é algo assim... Dispensável... Não acha? TECLA SAP: fui irônico. Parabéns faculdades e universidades! Ainda seremos dominados pelos coitados.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XVI: Remoção


Em programa sensacionalista, o apresentador obeso gesticula enquanto grita.

“Encontraram um corpo, uma camisa com sangue, também foi mandado um vídeo daqueles troços de gente usando a máscara dele... Então... QUEM É A P$%# DESSE JACK BUILT?De que adianta ele morrer se ninguém sabe quem ele é? Me responda Prefeito! Me responda PM!”
♦ ♦ ♦
Augusto. É difícil lembrar meu nome quando estou longe de casa. Faz três minutos que estou de olhos abertos. Memorizei duas vezes o quarto, caso precise. Que cheiro gostoso. Arroz e feijão. Nesses minutos perdi alguns segundos olhando para o teto, apenas contando os tijolos e flertando com a fiação mal feita, que termina na lâmpada incandescente. Tentei distrair a dor que se estende do meu dedinho ao último fio de cabelo castanho. Só tentei. Partículas de poeira flutuam em câmera lenta, denunciadas pela luz do sol. Posso deduzir que é uma casa humilde. Ainda estou na favela. Isso é mal. Deus! Argh! Como meu abdômen dói. Confiro as outras feridas, os hematomas, os arranhões, toda essa porra! Um bom sinal, todas minhas mazelas foram esterilizadas e curativos foram feitos. Mas o abdômen ainda me preocupa... Muito...
Algo cai em meio ao óleo quente. Fritura. O aroma demora alguns segundos para alcançar o quarto. Bife. Bife de boi. Minha boca enche de água, chego a lamber levemente os lábios. O gosto de boca dormida me desanima um pouco, só que o poder do bife é maior. Me levanto. Travo meus dentes, sufocando um gemido. Seja lá quem cuidou de mim... Não posso arriscar. Preciso do elemento surpresa ao meu lado. Que merda de abdômen, dói pra caralho! Aprendo novamente a caminhar, passo por passo, seguindo o cheiro de carne frita. Realmente a casa é simples, um quarto, uma sala com um sofá de dois lugares, limpo, tudo muito limpo, uma televisão vinte polegadas, alguns porta retratos em um móvel. Não dou importância. Avisto o banheiro, logo a frente... A cozinha. Silencio meu andar. Respiro vagarosamente. Minha mão agarra um castiçal por instinto. Vou até o vão que leva à cozinha... Alguém me tratou bem, isso não quer dizer, necessariamente, que me quer bem! Preciso de respostas... Ca... Pu... Ma... Nossa! Se eu morri esse com certeza é o céu! Que morena maravilhosa! Minha reação só confirma o mau caratismo inerente ao sexo masculino. Não chega a ser... Se bem que... Eu acabei de ser humilhado por uns vermes. Levei um tiro do cara que aliviei a barra. Quase morri. Acordo em um quarto... E só consigo pensar na bunda dessa morena! Não só no bumbum, mas em todo seu corpo. Ela de costas. Cozinhando. Suas pernas a mostra pelo santo shortinho jeans. Uma pequena blusa branca. Simples. Básico. E belo. O sol a ilumina como se fosse uma deusa, sua pele reflete maciez, sabor, libido. A mulher para por um momento, como se tomasse fôlego, será que sentiu minha presença? Com o pulso ela afasta uma mecha cacheada de seus cabelos negros. Ainda com a mesma mão, sua nuca é levemente massageada. Ela liga o rádio, que encontra próximo a janela. O arroz e o feijão estão postos na mesa... Para dois! A mulher não está sozinha... Preciso me concentrar... Como isso é difícil.
Começo meu caminho até ela. Se não fosse a dor, juro que teria uma ereção nesse momento. Morena, serão apenas umas perguntas. Tenho que ser rápido, se ela gritar, o outro alguém pode aparecer e no meu estado... Estou fudido! Passo pela mesa, a refeição é tão tentadora quanto à co... Não sinto minhas pernas. Caralho! Pisco repetidamente tentando me manter alerta. Uma pontada atinge meu abdômen, o curativo ainda está lá. Meu joelho cede a fraqueza. Vou cair. Procuro apoio. Minhas mãos seguram a mesa, que em seguida é arrastada pelo meu peso. Eu sabia. Caio como uma bosta, jogando o arroz e o feijão pelo chão.
- AH! – a morena grita de susto.
Toda a cozinha expande e contrai. Alucinações! Malditas alucinações! A desgraça da febre está me cozinhando vivo, enquanto gemo em posição fetal em meio ao arroz e feijão... Na cozinha de uma gostosona. É humilhação demais! Dor demais!
- Calma, pare de se debater. Fique calmo... – a voz dela... – Por favor.
Suas mãos seguram minha cabeça, levando-a até seu colo. Macio. Com um pano úmido ela enxuga meu suor. Ela fala comigo. Ela... Cuida de mim...
- Agüente firme...
Tudo que eu escuto antes de... Adivinhem? Apagar pela milésima vez.
Estou grogue. Pessoas conversam sobre mim. Duas pessoas. Ela e mais uma. Mulher, velha, cansada. O papo é sobre bala.
- Você tem que me ajudar Janete! Olha para ele! – Ela implora.
- Já te arrumei curativos, analgésicos, antibióticos! Não posso fazer mais nada. – a voz da velha.
- Você é médica, pode fazer algo por ele.
- E você fez bem seu trabalho, não devia ter abandonado o curso. Tratou bem desse coitado. Limpou suas feridas como te ensinei. Fez curativos impecavelmente... Mas...
- O que Janete? Você não fez aquele juramento... Aquele de salvar vidas... Sei lá!
- Juramento de Hipocrates.
- Isso!
- Olha... Você é minha amiga. Vou ser sincera depois que você me responder essa pergunta...
Nenhuma das duas percebeu que estou acordado. Não são ameaça. O rosto da minha salvadora é tão lindo quando seu corpo. Mulata dos traços finos e frágeis, além da... Sinto uma fisgada quando levanto meu pescoço para olhar sua... Agora sim me sinto envergonhado. A velha continua.
- Por que até agora você não levou esse homem a um hospital?
Hein senhorita salvador, por quê?
- Não posso te falar. Não pergunte de novo. Por nossa amizade.
Me sinto um lixo humano. Um dejeto de porco... Ela está cuidando de mim. A velha engole seco, olha para mim com olhos sérios, percebe que estou acordado escutando tudo... Olha para a moça, invejando sua ousadia, sua beleza, por não ter podido falar assim quando era mais nova. Novos tempos. Sua fala é triste.
- Esse homem não vai morrer.
- Graças...
- Escute Aparecida. Escute bem. Não sei o quê você tem com esse homem, mas homens que levam tiros podem acabar nos matando. Mande-o embora de sua casa assim que ele melhorar.
- Então ele vai ficar bem?
- Vai.
- Ufa!
- É só retirar a bala que ainda está em seu abdômen.
- Quê?
- Isso mesmo que você escutou. Todos os outros ferimentos estão cicatrizando, menos esse.
- Janete...
- Doutora. Me chame de Doutora.
Aparecida. Esse é o nome dela.
- Doutora, você pode...
- Não! Pelo seu bem não vou salvar esse homem. Estou indo embora, trouxe mais alguns materiais hospitalares pra você. Estão na cozinha.
- Janete... Não vá... Por favor... Aparecida está desesperada. Isso é compreensível. Não é todo dia que temos um baleado em nossa cama. E eu sou o pior dos tipos. Ela sabe quem sou. Ela sabe!
A mulata vai até uma instante, onde um pequeno altar foi montado. Nossa Senhora de alguma coisa, com certeza! Ela começa a rezar baixinho, pedindo ajuda a não sei quem. Espero que seja escutada porque essa porra ta doendo pra caralho! - O que eu faço? – ela olha para mim. – Se eu te levar por hospital vão te matar.
Aparecida está prestes a chorar, seguro sua mão. Ela assusta, mas se acalma em seguida.
- Traz as tranqueiras da velha. Me arruma um canivete. Uma pinça, a maior que você tiver.
- Pra quê? Eu não sou médica... Nem enfermeira... Muito menos sei fazer cirurgia. Cuidei de você porque uma vez fiz um...
- TRAZ TUDO! – grito. Preciso colocar essa mulher no lugar. – Você sabe limpar ferida. EU SOU A PROVA DISSO! Você limpa e eu tiro essa merda!- Você é louco?
- Não. Não sou. Agora traz tudo.
Ela obedece.
Tudo esterilizado. A porcaria ta limpa. Hora de virar homem. Respiro fundo. Isso dói demais! Porra! Minha mão treme, não vou conseguir! VIADINHO! Seguro firme a lâmina, levo-a até o buraco da bala, empurro a carne. Isso dói pra caralho! Com a outra mão pego a pinça. Respiro fundo mais uma vez.
- Você não sabe fazer isso! Você não é gado de açougue... Pode morrer. – Aparecida protesta.
- Olha só mocinha, o corpo é meu e eu sei o que estou fazendo. Dizem que... – hora de distraí-la. - ...morte é uma opção. Eu não sou do tipo que desiste. Já fui ferido muitas vezes, já tomei tiro demais pra deixar um pedacinho de metal acabar comigo. Eu fui descuidado e impulsivo. Mas tudo faz parte do plano. Eu queria que fizessem isso comigo, pense bem... – a pinça adentra na carne, isso dói! - ... alguém como eu ser morto por uns merdinhas? Agora eu tenho o elemento surpresa mais uma vez! Para eles estou morto, então agora é só agir na surdina e pegar a bandidagem com calça na mão. Fácil e rápido. Esse tiro. Eu estar aqui... – metal com metal, achei a desgraçada da bala, falar e quase morrer simultaneamente é difícil! Muito! – Tudo parte do plano. Você. A doutora. Agora sim vou poder fazer o que quero... - minha voz falha. - Com liberdade! Vou mostrar meu verdadeiro poder! – que frase ridícula, ela acreditou.
Tiro o projétil do meu ventre.
Aparecida me olha espantada. Nem ao menos viu minha cirurgia de açougue. Mal consegue falar a frase que se segue.
- Sé... Sério?
- Há, há, há! – gargalho. Isso também dói! Pra caralho!
- Tudo isso um plano?
- Relaxa Cidinha, foi tudo mentira. Só queria te distrair. Digamos que... – vergonha, meu rosto só transmite isso. – Esses merdinhas realmente acabaram comigo. Estou morto.
- Você fala muito para um defunto. – rimos juntos, mas só eu sinto dor com isso. – Deixe-me limpar essa bagunça.
Igual uma profissional. Não! Melhor! Um curativo perfeito, uma obra de arte. Tomo alguns analgésicos para dor. Paracentamol para elefante.
- Descanse agora. O remédio vai te deixar sonolento.
- Aparecida...
- Oi?
- Muito prazer e...
- Nada de desculpas. Não as aceito.
Engulo seco.
- Ao menos deixe-me apresentar...
- Eu sei quem você é. Por isso eu fiz o que fiz.
Com as duas mãos ela arreda um armário pesado, revelando meu uniforme e todas as armas. CADÊ A MÁSCARA?

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

As Melhores Coisas Para se Fazer no Motel

Já viso de antemão se você é menor de dezoito anos, continue a ler esse texto, já que se eu falar para não ler, provavelmente você o lerá do mesmo jeito. Mas fique tranqüilo, não falarei de sexo, nem colocarei fotos de mulheres ou homens super desenvolvidos e seminus. Agora sim você parou de ler! Safadinho(a).
Não é mistério a função do Motel. Para aqueles puritanos de plantão, darei uma definição bem direta: é o lugar onde papai e mamãe fizeram você. Bem, se não foi lá talvez tenha sido em algum mirante... Ou debaixo do poste... Quem sabe na sala... Isso não vem ao caso. Aqui vai mais uma definição interessante: Motel é o lugar certo para celebração do amor. Ou de algumas fantasias também, criatividade a parte. E esse tópico não vem ao caso também.
O que tratarei nessas linhas libidinosas são as coisas que você pode fazer em um Motel! Afinal, um quarto fechado, com televisão por satélite ou a cabo, frigobar, mesinha, banheira, Box com dois chuveiros e várias outras lembrancinhas, é o lugar perfeito para diversão. Veja as melhores coisas para se fazer no Motel!
Partiremos do ponto “quarto fechado”, o que isso quer dizer? Isso significa privacidade, quase uma jóia preciosa nos dias de hoje, no qual pessoas clamam por atenção (ver Orkut de pré-adolescentes). Tendo um lugar reservado, longe dos ouvidos malignos das beatas fofoqueiras, o presente último e valioso que você ganhará é algo que se chama... Discrição. Com tal vantagem nas mãos, fantasias podem ser liberadas e o Motel se torna o melhor lugar para... CONVERSAR. Isso mesmo! Converse bastante. Conte tudo. Desabafe. Resolva intrigas. Desvende Conspirações. Sinta-se a vontade para abrir a boca e soltar os demônios nas paredes surdas. Não perca essa chance, dialogue, troque conhecimentos e teses científicas, sem ter medo de espiões e registros roubados. Conversar, aquilo que falta na humanidade, quem sabe assim Judeus e Palestinos... Isso é matéria para outro texto.
Outra coisa super legal de se fazer no Motel é: ASSISTIR FILME PORNÔ. De graça! É só ir mudando de canal em canal, uma hora vai aparecer aquele historinha bacana da mulher que procura o marido em seu trabalho, lá estando somente seu empregado mais peão possível, suado e com barba por fazer, então a troca de olhares revela uma lascívia reprimida, os diálogos são clichêmente montados, perdão o neologismo, e o resultados todos sabemos. Confesse, o melhor do filme pornô é rir das histórias ridículas e da má atuação dos “atores”. No Motel você terá isso de graça! Diversão garantida!

Sabe aquela geladeira em miniatura no canto do quarto? Aquele objeto refrigerador se chama frigobar. Em seu interior estão guardados refrigerantes, cervejas, destilados, daquelelados, energéticos, e quem sabe algo bizarro. Então ao chegar no Motel, ASSALTE O FRIGOBAR. A sensação de estar cometendo o crime libera no nosso organismo um bocado de “inas” e outras besteiras biológicas. O que importa é que você se sente o tal, só lembre-se que tem que pagar depois. Os funcionários do Motel têm tudo registrado em uma câmera de seguran... Brincadeira, eles conferem o quarto depois. Sem mais detalhes.
Provavelmente vocês notaram a mesinha. Qual a função de uma mesa em um quarto de Motel? Não respondam. JOGAR BARALHO é claro! Um truquinho, um buraco (ops!), um mal mal (aí!), um... Deixa pra lá. Mesa serve pra isso não é? Psiu! Não responda. As três dicas até agora são combináveis entre si, converse, veja filme pornô e jogue baralho, tomando aquela cervejinha! É melhor que um boteco, já que você assalta a geladeira! Certo? Errado, dã. Você assalta o frigobar. Repetindo, fri-go-bar! Não geladeirinha.
Agora partiremos para a banheira. Grandinha não é? Então não perca tempo e NADE NA BANHEIRA! Dê umas braçadas, em qualquer estilo! Borboleta ou de costas (iii!). Liga a hidromassagem, imagine o Havaí e essa é sua jacuzzi, confira o fri-go-bar e veja se ele tem algum drink exótico. Viram como um quarto de Motel pode ser o paraíso?
Após esse banho relaxante com óleos e sabonetes com cheio de flores azuis nevada do Jardim da Babilônia, colhidas pelas freiras mancas do Tibet, pegue as toalhas, enxugue seu corpo, monte o chinelo descartável, e LEVE TUDO PARA CASA! Isso mesmo! Sobrou sabonete? Leve. Sobrou shampoo? Leve. Sobrou alguma coisa? Leve tudo! E saia com os chinelos no pé! Provavelmente você nunca irá usar tudo isso, quem liga? É só lembrar dos hormônios e tal. Diversão garantida para umas duas semanas subseqüentes, nas quais você desesperadamente tentará esconder todas essas lembrancinhas, pelo seu falso-puritanismo envergonhado... Depois você esquecerá o chileno no meio da sala, seus parentes vão ver, olhar para você e pensar, “filho-da-puta sortudo, não faço isso há seis meses”.
NOTA: roubar coisinhas de Motel, sua mente poluída!
Agora, honestamente, sinceramente, e toda intimidade entre leitor e escritor, o melhor do Motel é o ESPELHO NO TETO! Deitar na cama e se ver deitado na cama, visão panorâmica completa. Faça umas caretas e veja como Deus te vê... Para quem não entendeu a piada, Deus está no? Céu! E o Céu é onde? Isso! Fique ali olhando em seus próprios olhos, desvende sua própria insignificância perante o universo que o contempla. Sinta seu corpo relaxado, feche os olhos agora, e responda a pergunta: meu reflexo também fechou os olhos?
Deixando as maluquices de lado, imagine fazendo todas essas coisas que apresentei ao mesmo tempo! E dizem que se divertir é difícil! Basta ir ao Motel mais próximo e GOZAR das dicas que carinhosamente apresentei.

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XV: Cachorros Quentes, Jornais e Estrelas de Chocolate

Eu só tenho dezessete anos e não consigo mais segurar! Queria poder desabafar, mas isso é perigoso demais. Não é a melhor coisa a se pensar quando é filha única de um casal católico. Não depois do que eu fiz. Essas idéias de escolha, que podemos agir por vontade própria, livre arbítrio e outro monte de asneira servem pra quê? No fim somos um bando de pecadores mesmo. Isso está me matando. Deveria ligar pra ela? Não melhor não.
Eu nunca faria o que fiz se não fosse ele. O Jack Built. Já faz uns dias que comecei a prestar atenção nesse doido. Claro que ele é doido! Há, Há, Há. Mas ele faz o que quer! Aposto tudo que seus pais fizeram de tudo para impedir. O quê será que pensam dele? É tudo muito volátil. O quê isso significa mesmo? Deixa pra lá. Meu professor de Física falou que ele apenas bate nos caras certos. Já a louca da Laura diz que ele quer ser só mais um ícone pop, só que, segundo ela, o Jack não vai conseguir porque seu nome não é... Esqueci a palavra. Droga! Essa agonia está me matando.
- Luiza, o jantar está na mesa. Não demore, está bem filha? – milha mãe chama para o jantar. Tenho que contar!
- Mãe... – minha garganta trava.
- O quê foi meu anjo?
- Deixa pra lá... – não consigo.
Minha mãe senta ao meu lado na cama, arreda alguns ursinhos e presentes de antigos namorados, já esquecidos.
- Filha, eu estou aqui para o quê você precisar. Eu e seu pai. – minha garganta seca por completo.
Ganho um beijo na cabeça. Ela sai.
Como eu conto algo assim? O mundo deles vai desabar. Eu faço o quê eu quero, não é assim que deve ser? Quer saber! Se alguém pode fazer o que ele faz, eu posso fazer isso! É simples!
O jantar. Três pratos. O número certo de cadeiras. O Jornal Nacional passando. Um jantar... Pode ser o último da minha vida. Eles vão me matar. Me sento. O silêncio é o nosso convidado especial. Minha mãe e meu pai estranham a ausência de minha falação. A falta dos casos que conto. Das fofocas das meninas. Eles vão perguntar... Eu sei! Mas não vou ser covarde. Igual ao Jack!
- Lú. – fala meu pai. – Sua mãe me falou que você não está bem, é o Diego de novo?
- Não pai... – minha barriga está gelada. – É que... – o jornal...
“Morre o vigilante Jack Built. A Polícia Militar encontrou um vídeo de traficantes ostentando a máscara do justiceiro. Segundo os policias, o vigilante foi agredido por mais de vinte homens, alguns foram capturados após uma denúncia anônima na noite de ontem. Dois garotos, salvos pelo vigilante confirmam a informação. Mais informações...”
Eu perdi minha virgindade e não consigo contar pra ninguém...

♦ ♦ ♦

“O corpo do suspeito foi levado para o Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro. Peritos devem fazer um exame de DNA, comparando amostras de sangue do corpo com o sangue de uma camiseta encontrada pela polícia, perto do local do crime.
Os policiais devem seguir para o IML, na tarde desta quinta-feira, para prosseguir com as investigações.”
Lucas finaliza seu texto com a certeza de que tudo não passa de uma fantasia. Uma pena ter que fazer parte do jogo, o jornalista se lamenta. Não há corpo, só sangue e um vídeo amador de um homem fantasiado tomando uma surra. Muito conveniente para o “meio”. Lucas sabe que jornais venderão como nunca, sua vontade de investigar foi literalmente podada com os depoimentos dos garotos que iam ser executados. O jornalista só não consegue entender como juízes e promotores podem levar a sério a narrativa de dois drogados, moradores de condomínio. O fato é que eles foram salvos. Essa deveria ser a notícia. Um brutamontes vendedor de haxixe, balançando uma máscara como troféu é um indício.... A revolta de quem estudou anos para isso é fácil de ser contida, afinal, isso não é seu problema.

♦ ♦ ♦

Dois garotos em uma esquina.
- O cara quebro a janela, jogando umas granadas de gás e saiu horrorizando.
- E como você sabe disso?
- Pô, meu irmão ta no hospital! Deu até entrevista pros bacana.
- Sério? Vai passar aonde? Cabuloso.
- Num é? Acho que vão até filmar aqui no morro.
- Filmar o quê?
- Sei lá, vamo enchê o sorriso e da alô pras câmera.
- Já é!
- Vai ter baile pra comemora, ta sabeno?
- E tudo liberado!
Dois garotos em uma esquina, riem.

♦ ♦ ♦

“Não penso que ele deveria morrer assim. É só alguém que quer fazer o certo e não consegue. É como alguns irmãos que vem nos procurar, querem fazer o certo e não conseguem. Tudo que precisamos nessa vida é de Jesus, ele nos mostrará o amor... Como? Sim. Sou pastor. E todos que precisarem podem me procurar, resolvemos todos os problemas, relacionamentos desastrosos, crise financeira, encosto... Posso deixar o endereço mocinha? É...”
João Paulo, pastor.

“Ainda bem que ele morreu. Um primo meu está no hospital por causa dele! O que ele fez? Bem... O... Ele... É...”
Tammy Alves, autônoma.

“Isso é tudo culpa de uma cultura vulgar vigente desde o pós-Guerra. Tal comportamento psico-social estaria extinto se não fosse o êxito americano no século XX. Absorvemos seu modo de vida como buchas sedentas por consumismo. Não é de hoje que a idéia de justiça pelas próprias mãos permeia Hollywood, quadrinhos e, acredite, até a própria mentalidade americana. Se lembram bem do Pato Donald? Hã? Eu não acho que matar é a solução, mas se nesse caso especial, já que Jack é uma doença social oriunda de uma cultura vulgar e imperialista...”
Marcelo Dutra, Professor Universitário Mestre em Ciências Sociais.

“Eu fico triste com a morte de um homem desses. Faltam pessoas honestas no mundo, quando elas aparecem, ou são engolidas pela apatia ou são mortas. Faz anos que não choro por alguém.”
José das Luzes, Policial Militar.

“Jack Built era um herói! E eu gostaria de convidar a todos para a passeata que vamos fazer em seu nome. Quero todos fantasiados de super-heróis ou animês. Qualquer um... Onde vai ser o encontro? Esse domingo no Colégio Marista em Belo Horizonte... Isso, no Anime Festival.”
Joe-chan =D, cosplay profissional.

“Meu… Essa parada é muito louca… Virô mania já. Paia ele ter morrido, o brother tinha pegada. Vai rolar uma PVT... O que é PVT? Private. Que?”
Guilherme Novais, DJ Chesko.

♦ ♦ ♦

- Vai, vai, vai! – grita mais uma voz desesperada no corredor.
Foram dez anos. Dias perdidos embaixo de livros, aprendendo tudo sobre o corpo humano e suas mazelas. E aqui estou no meio do corredor, com feridos e mais feridos lotando todo espaço disponível desse lugar decrépito. Hospital Carlos Chagas. Hospital Getúlio Vargas. Hospital da Lagoa. Hospital Universitário Pedro Ernesto. Não importa qual, todos são decrépitos. Passei anos na faculdade para ficar atrás de uma mesa, para ter “uma vida boa”, segundo meu pai. Agora seguro o braço de um homem, e esse mesmo homem está em outra sala onde tentam não retirar outro membro dele. Isso é um açougue. Desde que ele veio para o Rio, os baleados diminuíram, pouco, mas diminuíram, e os esquartejados dobraram seu número. Eu não gosto de sangue. O que estou fazendo nessa merda? Vida boa não é pai? Salvar vidas. Eu agüentaria. Ficaria nesse inferno por mais uns três anos talvez, depois montaria minha clínica em algum lugar mais... Calmo. Mas salvar vidas... Essas míseras e insignificantes... São todos ratos para mim. Pássaros que quebram suas asas e caem no nosso quintal, pegamos com carinho e cuidado. Fazemos uns curativos e os liberamos para o mundo louco mais uma vez. Fazemos isso com as andorinhas. Com os sabiás também. Entretanto eu me lembro de uma lição muito importante... Pombos são uma praga. Doenças acompanham seu vôo e sua alimentação. São uma praga porque são muitos. São em qualquer lugar, em qualquer ambiente, e mais do que isso... Não servem para nada! Absolutamente nada. Inúteis. Desprezíveis. Nojentos. Porcos alados. O que fazemos com eles? Brincamos. Damos alimento... Até eles começarem a nos incomodar, ai nós os... Matamos.
- Doutor... Me ajuda! Por favor! – grita um pombo no corredor.
- Argh! – geme mais um pombo.
- Porra! Dói pra caralho! Alguém me atende nessa merda! Tô avisando, se demorar eu vô passa geral mermão! – eis o foco da praga.
- Onde dói? – pergunto.
- Num tá vendo não pray?Minha perna ta quebrada... – esbraveja o inútil.
- Aqui? – aperto onde está inchado.
Ele grita.
- Entendi. Onde mais?
- Faz isso de novo doutor e você ta morto! Minha barriga também dói pra caralho...
Costelas quebradas, dois dedos cortados, o indicador e o polecar, hematomas e hermatroses...
- Está vendo essa seringa?
- Que?
- Apenas relaxe.
Enfio a agulha em seu braço.
- Isso arde...
- Eu sei. Você vai morrer em...
Olho para meu relógio, conto os exatos dois minutos, enquanto o ferido esbraveja “eu vou morrer”. Em um hospital... Todos podem morrer. Fico olhando em seus olhos, aguardando o momento em que ele deixa de me odiar, e começará a me venerar como sua única saída... Aí sim... Ele morre.
Eu não ligo para os inúteis, só não suporto aqueles que atrapalham. Repito o procedimento...

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIV: Deus, o Homem Morcego e a Menina Morta (Parte III)

Apaguei mais uma vez. Estou começando a me acostumar com isso. Logo na saída da caverna, justo quando começava a discernir o preto do branco... BUM. Eu apago. Queria ter mais palavras para descrever minhas desventuras na escuridão, mas não tenho. É escuridão e pronto. Talvez eu tenha algum sinônimo para esse substantivo... Sejamos diretos, preciso de mais alguma palavra para descrever?
Acordo. Abro meus olhos cautelosamente, não quero nenhuma surpresa. Preciso recuperar algum senso de lógica. Minha cautela não adiantou. Estou sem meu uniforme. As roupas que me vestem são comuns. Um casaco marrom semi novo, uma calça jeans cinza escuro, e uma camisa social básica. Tudo básico... Menos o cenário. Começo a dar meus primeiros passos e constato que este lugar está abandonado. Me encontro no terraço de alguma casa. Acima somente vejo estrelas silenciosas. Vejo o passado. O piso está empoeirado, cheio de rachaduras e com cheiro de esquecimento. Caminho até a sacada, projetada para apreciarem a lagoa. Me perco por um instante contemplando essa imensidão de água, refletindo também... O passado e as estrelas. Um píer abandonado e desgastado pelo tempo enfeita a superfície indo de encontro à lua, minha única luz neste lugar.
Olho para os lados em busca de alguma saída. Noto que não estou sozinho. Uma menina dorme tranquilamente em meio às colunas de cimento que adornam um alpendre no outro extremo do terraço. Vou até lá em buscar de respostas.
Como ela está em paz. Olhos fechados e quietos. Suas mãos são seu travesseiro. O único macio. Um conforto caprichoso que separa seu lindo rosto do chão velho e mal educado. Sua beleza é tão... Tão apaixonante. Pele branca, cabelos castanhos ondulados, com um aspecto de propaganda de shampoo. Está usando uma camisola, deixando transparecer os primeiros sinais da puberdade. Ela se mexe. Fico paralisado, recuo um instante. Prendo minha respiração, não sei por que, mas não quero acordá-la. Seu sono prossegue, devia estar sonhando. Com o quê? Uma cama confortável talvez. Uma família. Cadê a família dessa garota? Me aproximo pela segunda vez. E de novo me perco em sua beleza inocente. Desvendo mais um mistério de seus atributos, um mísero detalhe que completa sua perfeição... Duas pequenas pintas perto da boca. Tiro meu casaco. Se é que posso chamá-lo de meu. Cubro a menina, tentando protegê-la do sereno. Fazendo a única coisa que posso nesse momento, além de esperar. Não vou acordá-la. Deixarei a mocinha descansar em paz.
Retorno para a sacada. Encosto meu corpo num pila de cimento. Fico feliz por sentir o frio do silicato de cálcio, misturado com aluminato de cálcio. Observo o movimento lento das águas, indo para lá e para cá, seguindo a vontade do vento. Alguns pontos surgem uma vez ou outra, criando pequenas ondas que aumentam paulatinamente até desaparecerem por completo. São peixes, insetos, ou alguém invisível caminhando em minha direção. Deito. Mais uma vez contemplando aquilo que não existe mais, sendo enganado pelos meus sentidos e pela minha insignificância. Sem perceber, adormeço querendo sonhar com aquela menina.

“Por favor, não fique triste. Isso pode ser impossível, eu sei, sofremos quando coisas assim acontecem, mas você!, aquele que é capaz de coisas impossíveis, pode não ficar triste. Sempre te vi como alguém invencível, mesmo não estando aqui. Eu sabia! Sentia você me observando de longe. Por isso me contou seu segredo. Ou melhor, me deixou descobri-lo. Agora é minha vez de lhe contar um segredo. Sei de algo que você não irá fazer. E peço, mais uma vez, não fique triste. Você é o homem mais forte desse mundo, o que mais me amou. Desde o momento que escutei seu nome, sabia que era um Super-herói. O meu. Antes da máscara e do colante. Não chore, faça isso por mim... Não fique triste... Faça o impossível.”

- NÃO! – acordo assustado, suando e tremendo.
Meus olhos procuram a menina. Aonde ela foi? Meu casaco está lá, cobrindo a poeira. Deus, não! Por favor! Não! A lagoa! Lá está a garota, andando no píer, indo em direção a lua. Salto da sacada, são apenas quatro metros. Mal toco o chão e começo a correr. A madeira do píer é velha e está desgastada, sinto sua dor quando pisoteio seus restos. Ouço seu rangido.
- Não faça isso! – grito.
A menina para no final do píer. Ela me escutou! Eu a conheço. Eu a amo! Como nunca amei ninguém. Preciso... Eu preciso... Eu tenho...
- Eu estou chegando! Não vá! – grito, agora engasgado com as lágrimas.
Seu rosto se vira lentamente em minha direção. Deus como ela é linda! Perfeita! Um anjo... É alguém que deveria ser imortal. Ela sorri tristemente...
- EU NÃO SOU INVENCÍVEL! VOCÊ TEM QUE SER! VOCÊ! NÃO EU!
É tudo que consigo gritar antes de cair ajoelhado, segurando meu peito que explode em dor... Meu coração não dói... Ele está chorando! Enquanto a menina afunda como pedra nas águas escuras da lagoa. Indo para onde a luz que reflete na lua não a alcançará.
Rasgo a camisa. Tenho... Eu devo... Salvá-la! Eu vou! Pulo na água. Ignoro qualquer tipo de sensação, me concentro no ponto branco que é consumido pela escuridão. Concentro-me em seus olhos. Ela. Tudo que me importa... Eles se fecham e ela volta a dormir. Em uma cama mais fria e indiferente. Lágrimas saem dos meus olhos, como se alguma diferença fizesse... Não consigo... NÃO POSSO FAZER O IMPOSSÍVEL!
Grito onde o som não é nada. Totalmente afogado é tudo que faço. Tudo que sei fazer.
Silêncio e eu, já estamos íntimos. Não vou deixá-la sozinha nesse mundo. Alguém avise os filhos-da-puta! Avise-os que foram liberados do inferno! Estou voltando.

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIV: Deus, o Homem Morcego e a Menina Morta (Parte II)

Trevas. Nada além da pura escuridão. O negro consome minha visão, não consigo ver nada. Começo a andar. Cada passo que dou é calculado. Tateio o chão rochoso com os pés, torcendo para não encontrar um abismo. Se bem que um abismo seria sorte, não quero encontrar Virgílio e encenar minha comédia pelo Inferno. Encontro uma parede, examino-a como um corpo de mulher. Carinhosamente. São rochas úmidas. Sinto o cheio de lodo. Com a mão direita na parede continuo minha caminhada através do limbo que me encontro. Um vento misterioso acaricia minha face. Uma corrente de ar! Deve haver uma saída por aqui. A felicidade em escapar do escuro leva embora minha cautela. Apreço o passo. Avisto uma luz, bem fraca. Começo a correr. Meus sentidos estão anestesiados, devo estar em desespero. A medida que aproximo do ponto solitário e luminoso meu coração volta a bater, se mexe como criança, como um novato no mundo.
“- Olha mãe! Sou mais rápido que um coelho! – escuto a voz de uma criança.
- Ele corre muito bem! Nós temos um atleta na família! – fala um pai orgulhoso.”
Não entre no buraco. Não entre Bruce! Caio como uma fruta madura. O chão se desfaz aos meus pés. Agarro-me nas rochas que imitam minha queda. Elas se desprendem, e caímos.
A queda é longa. O impacto é bruto. Nada se quebra por um milagre. Meu joelho dói um pouco, nada que eu não agüente. Consigo enxergar parcialmente, minhas pupilas devem ter se adaptado a escuridão. Isso é uma caverna. Mal notei que estou de máscara. Estou vestindo o uniforme completo. Intacto. Nenhuma marca de bala. Nenhum buraco no kevlar. Pensei que tivessem levado minha máscara. Ao está saindo das trevas. Milhares de asas batendo aleatoriamente.
“Então... algo se move oculto... algo que aspira o ar viciado... e siliba. Planando com graça milenar... Ele se recusa a se afastar de seus irmãos. De olhos radiantes, sem alegria ou tristeza... seu hálito é quente e tem sabor dos inimigos vencidos... o odor de coisas malditas. Com certeza, ele é o mais feroz sobrevivente... o mais puro guerreiro... brilhando, odiando... possuindo minha pessoa.
Sonhando, talvez... Eu tenho vinte e cinco anos e isso está acontecendo agora... Encontrei uma caverna... enorme, silenciosa como uma igreja... sequiosa como o morcego.”
Algo me diz que não deveria estar aqui. É o medo que fala. Os morcegos se foram, mas há algo na escuridão. Algo que vigia. Atento. Posso sentir o bater de suas asas negras. Sua respiração. Estou em seu território. Desembainho duas lâminas, ao retirá-las o som ecoa pela caverna. A fera se enfurece. Agora ela caminha pelo teto. No escuro vejo a sombra caminhar acima da minha cabeça. O monstro desprega do teto e cai em minha direção. Pulo para trás. O peso da fera faz o chão estremecer. Fico imóvel, aguardando. O leviatã se ergue lentamente, quase dois metros de treva. Seu rugido é cavernoso. Queria poder não demonstrar medo. Se eu morri, esse deve ser Lúcifer, e eu não vou recuar. Com as armas em punho vou em direção a fera, meus golpes são rápidos, precisos. Treinei para isso! Sou FEITO para isso! Ela recua com graça e leveza. Desfiro um corte vertical. ACERTEI! Burro! A lâmina toca a pedra, soltando uma pequena faísca. A sombra agora se encontra atrás de mim, existem várias maneiras de atacá-la, vou usar a mais dolorida!
- RRRUUUYYYAAA!!! – grito me valendo do diafragma para me dar força.
A lâmina acerta a fera! A essa distância isso deve bastar. Rasgo a escuridão sem piedade, fazendo-a recuar.
- Amador. – é um homem?
Meu coração gela. Eu aceitei! Juro! Mãos grossas amassam meu pescoço, mas antes me desarma sem nenhuma dificuldade aparente. Sou jogado contra as rochas. Não consigo respirar. Engasgo com minha própria saliva. Então o diabo mostra sua face. Um homem. Seguro em seu antebraço, tendo me livrar de suas garras. Ele aperta mais. Falta-me ar, me desespero engolindo meu próprio sangue, até que sou jogado no chão com violência. Derrotado. Humilhado. Respiro aliviado.
- Não passa de um amador. Vou lhe dar dez segundos para contar como chegou aqui.
Olhos brancos e puros me ameaçam nas trevas. Ao meu lado vejo um pedaço de pano cortado. Uma capa! Eu acertei a capa.
- Dez.
- Olha...
- Nove.
- Calma aí...
- Oito. Você não vai querer esperar até o fim da contagem.
Começo a tossir.
- Sete. Minha paciência está acabando.
- Escuta, vou tentar explicar...
- Seis.
- O PORRA! EU VOU EXPLICAR CARALHO!
Um silêncio me faz arrepender.
- Cinco.
- Eu não sei como vim chegar aqui. Realmente eu não sei.
- Quatro. Não duvido disso. Seu jeito de lutar é desastroso, sem habilidade, obtuso. Um amador.
- Então desculpa, está bem? Não quis acordar você do seu sono... Seja lá o quê for que faça aqui.
- Três. Sua história seria mais fácil de acreditar, se não estivesse usando kevlar militar, armas japonesas, e uma máscara.
- Essa já é outra história, eu realmente uso isso. – aponto para o meu uniforme. – Só que no momento eu não faço idéia de como eu o vesti.
- Dois. Eu te doparia e largaria em um beco qualquer, mas você usa colante. E ninguém entra na minha caverna.
- Eu caço bandidos! Pronto! Falei! Não faço idéia de como vim para aqui! Por isso eu uso uniforme!
- Um. Como entrou aqui? Escolha bem suas próximas palavras amador.
- Eu morri.
- O quê?
- Sério! Levei um tiro aqui. – aponto para o abdômen. – Outro aqui. – mostro a perna. – Isso depois de espancar uns trinta homens, e ser espancado pelos outros vinte.
Ganho silêncio como resposta.
- Eu não faço idéia, juro. – me sinto um covarde.
- Por quê? Por que você faz isso? – sua voz tende para o diálogo, isso é bom, ao menos pra mim.
- Meu trabalho? Não existe um motivo específico. Eu só acho que existem filhos-da-puta demais, e alguém tem que fazer algo pelo mundo.
- E você conseguiu?
- O quê?
- Fazer algo pelo mundo.
- Digamos que eu tinha alguns planos, o Brasil não é lugar para pessoas honestas, ou que queiram realmente fazer o bem. Ia ser difícil, mas eu tinha esperança.
- Tinha?
- Eu morri, esqueceu.
Ele ri. O homem gargalha. Sua risada é louca, não é longa, dura alguns segundos. Ele não é normal.
- Você é tão ingênuo. Tão despreparado, inocente e débil. Me lembra Dick quando o conheci, vontade e raiva genuína, mas sem preparo.
- Qual é? Vai ficar me ofendendo assim?
- Se você quer fazer parte desse trabalho você precisa saber se é um homem ou uma doença! Criminosos também usam máscaras. Eles são a doença desse mundo! Escolha um lado. Se decidir ser um homem, é hora de ser mais do que isso. Doenças matam os homens. Então ser um também não é o bastante! Ao colocar uma máscara você desenha um alvo em sua testa.
- Mas eu já morri.
- Morte é para amadores! Para homens! Para doenças! Ao vestir esse colante a morte não passa de uma brincadeira. “Isso que meus pais me ensinaram. Caídos na rua... sangrando muito... morrendo sem razão nenhuma... eles me mostraram que o mundo só faz sentido quando você o força a fazer.”

Empatia. Deve ser isso. Alguém para se vestir de morcego deve ter seus problemas. Só que esse homem é mais do que um... Homem em uma fantasia. Sua voz me mostra isso. É incrível como podemos captar certas coisas quando aprendemos a escutar. A verdade através de ondas sonoras. Por isso ele acreditou em mim. Por isso eu leio tristeza em suas palavras. Mais do que isso eu sinto esperança, arrisco dizer... Otimismo. Nunca imaginei que haveria alguém tão grande. A fera que me fez temê-la, e transformou o medo em... Veneração.
- A saída é por ali. – ele aponta para um canto escuro. – É só ter cuidado com os morcegos, não de assuste, não farão nenhum mal, é só ficar imóvel.
Vou em direção as trevas mais uma vez.
- Qual o seu nome amador?
- Augusto.
- Bruce. Não volte mais aqui.
- Senão o quê? Vai me matar?
- Você já está morto esqueceu?
- Então terei de renascer.
Silêncio e escuro. Tudo que tenho.
“O vento sopra libertando folhas mortas. Os sapos coaxam sem parar e os grilos entram no coro. Um lobo uiva. Eu sei como ele se sente”.

NOTA: Trechos em itálico foram adaptados da obra máxima dos quadrinhos, O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.


Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIV: Deus, o Homem Morcego e a Menina Morta

- Oi, Eu sou Deus.
Abro meus olhos.
Meu corpo não está dolorido. Pelo contrário. Nunca me senti tão bem. Alguém está falando comigo, tento enxergar, a luz do local é ofuscante. A voz é profunda, serena, e ao mesmo tempo imponente. É absurdo! Por que não? Vamos lá...
- Sentes bem, meu querido? Eu sou...
- Eu sei. Já entendi. Eu morri não é?
O buraco em meu abdômen sumiu. Minha perna não está sangrando. Meu rosto não está inchado. A claridade vai diminuindo paulatinamente. Tateio mais uma vez meu corpo, incrédulo. Ainda bem que sou uma pessoa realista. Realmente eu estou morto.
- Sempre achei a palavra morte, um signo lingüístico muito dramático. - fala o Senhor, o qual possui o “s” maiúsculo.
- Como assim?
- A palavra flerta com extremos existenciais.
- Parabéns, Você... – merda! Chamar Deus de Você. Cacete.
Ele percebe minha auto censura e sorri levemente, com aquele ar superior, dispensando palavras, ou até um consolo me inocentando de tal pecado. Honestamente, e espero que o Alpha não leia estes pensamentos, a última coisa que eu quero é o Todo Poderoso na minha cola, o Homem, se é que posso chamá-lo assim, que está na minha frente é tão comum como qualquer outro. Longe de mim retirar sua magnificência, mas Deus é a cara do Robert Downey Junior! Um cavanhaque charmoso, mal feito, cabelos castanhos propositalmente atrapalhados, e é claro, esse sorriso achando graça da minha, utilizando aspas, “timidez”.
O Senhor vai até uma mesa, pega um livro com capa de couro, abre na página marcada por um fio escarlate, e começa a ler.
- E vi um novo céu e uma nova terra. Porque já se foram o primeiro céu e a primeira terra, e o mar já não existe. E vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que descia do céu da parte de Deus, pronta como uma esposa preparada para o seu marido. E ouvi uma grande voz, vinda do trono, que dizia: "Eis que o tabernáculo de Deus está com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas." E o que estava assentado sobre o trono disse: "Eis que faço novas todas as coisas." E acrescentou: "Escreve; porque estas palavras são fiéis e verdadeiras." . Disse-me ainda: "Está realizado: eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. A quem tiver sede, de graça lhe darei a beber da fonte da água da vida. Aquele que vencer herdará estas coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho".
Ao terminar a leitura, uma pausa proposital se segue. Deus olha para cima, fecha os olhos, e fala com uma emocionada.
- Apocalipse de São João (21,1-21,7).
Mordendo seus lábios, transparecendo preocupação, Ele gesticula oferecendo-me um acento. Obviamente, obedeço.
- Jovem... – agora olhando em meus olhos. – Você levará seu povo. Os levará sem distinção. Eu digo TODOS. Leve-os para a aurora dos tempos. Desça o monte e lhes entregue a revelação.
- E como eu faço isso? – pergunto com a voz trêmula.
- Construa uma arca.
Fico em silêncio apenas olhando em seus olhos. Será isso mesmo? O Cara lê a Bíblia e me manda construir uma arca? Esfrego meus olhos. Coço a cabeça. A risada não demora a vir. Ele ri de mim.
- Vocês são muito criativos! E como são! Leia novamente o que acabei de lhe recitar. Dramático. Poético. E olha que foi um singelo parágrafo. Perdoe-me a brincadeira, apenas gostaria que você se sentisse a vontade. Vamos, relaxe. Não paire seus pensamentos sob as nuvens cinzentas da existência. Como disse, morte em si, digo, a palavra, já é dramática demais. De um lado o “fim”, para alguns, do outro, o “começo”. Eu não fiz isso. Morte é apenas... Morte. E acredite meu querido, há mais belezas em um sistema circulatório do que em uma ressurreição.
- Eu não estava, podemos dizer, desconfortável porque eu morri. Essas coisas acontecem. Não penso em criar asas e sair voando logo após receber um tiro no abdômen...
- Depois de ser brutalmente espancado, severamente, por vários malfeitores. – por qual motivo Deus parece caçoar de mim? – Perdão o excesso de advérbios, não queria te interromper.
- Isso. Esqueci dessa parte. Eu não duvidaria da Sua existência, não na Sua frente. É que se houvesse um Céu, e concluindo que é para lá que vou, ou aqui estou, eu o imaginava mais...
- Colorido?
- Não utilizaria essa palavra, apesar dela resumir a minha idéia de céu. Eu esperava ver conhecidos antigos, pessoas que perdemos, amigos, quem sabe até meus inimigos. Um ambiente o oposto dessa sala de reuniões, com essa mesa de madeira e essas enormes janelas, escondidas por cortinas frias. Havia pessoas voando, castelos dourados, um rio imenso, todo azul e imponente. Ou com sorte, setenta virgens a minha espera e um palácio?
Rimos juntos. Continuo.
- A única coisa que confirmou a expectativa foi a luz. Sua voz, eu acho. E esse vazio dentro de mim. Não se veste um colante e sai pulando em prédios achando que irá viver para sempre. Ao menos não é assim comigo. Eu sabia que iria morrer algum dia. É lógico que todos nós morremos, deixe-me expressar melhor...
- Você já previa que seu trabalho o mataria.
- É. Afinal, é isso que eu faço. Viver a caçando a morte de beco em beco. Já faz sete anos.
- Pensei que você lutava contra o crime.
- É a mesma coisa! Pelo menos no Brasil. Eu arrisco falar que no mundo todo é assim.
Rimos mais uma vez. Retomo o bate papo.
- Perdão se isso de ofender, mas esse mundo não é dos melhores. São filhos da puta demais nascendo todo dia! Mesmo se você for otimista, ou alguém feliz com a vida, sabe que ir ao supermercado em alguma cidade do México proporciona mais medo do que um filme de terror. Que a África é um caso perdido, até mesmo para o século XXI. Ou que o Oriente Médio já é incapaz de comportar a vida humana. São coisas ruins. Só isso. Coisas ruins demais nesse mundo!
- Até agora não achei a conexão lógica de sua argumentação...
- A bomba atômica! Que porra foi aquela! Não dava para botar o dedinho divino e impedir que uma cidade inteira virasse pó? Era muito difícil? Hein?
- Sem isso os japoneses não se renderiam e a guerra continuaria.
- O quê você disse?
- Sem isso os japoneses não se renderiam e a guerra continuaria.
Minhas mãos voam em direção ao colarinho de Deus, levanto-o do chão e jogo seu corpo em uma direção qualquer, de encontro às cortinas e acerta o vidro por de trás delas, assim se parte uma janela no Céu.
- Como você pode? TER TODO ESSE PODER E NÃO FAZER NADA!
- Você chorou pelos bárbaros mortos pelos romanos? Chorou ao ver o Império Maia massacrar as tribos mais fracas? Quando cabeças revoltosas rolaram na França? Foram pais, filhos, mães, irmãs. No feudalismo japonês, morrer era uma honra sabia. Você já lamentou alguma vida aborígene morrendo de gripe européia. O regime comunista assassinou direta e indiretamente milhões. Eu não escutei lágrimas suas por Nuria Monfort, mulher que sofreu por um amor impossível, morreu velha na companhia de suas rugas, com uma faca cravada no peito. Foi assassinada por um Inspetor de Policia. Na sua terra, seu país, seu pranto é tão dolorido a cada dia que um doente é deixado a esmo de sua própria e triste sorte? Um flagelado nordestino talvez? Um índio queimado?
- Por que você só pergunta? Dê-me algo! Uma resposta! É claro que não choro por todos! Eu só quero...
- Não me venha com milhões em cadáveres. Não traga a morte para nossa conversa. É para isso que eu serviria? Para você minha função é salvar vidas.
- Você nos dá a vida!
- Eu criei vocês.
- Então nos salve!
- Do quê Augusto?
- De nós mesmos.
- Seus olhos são verdadeiros, não há dúvida disso. Quer expugnar o sofrimento alheio, só que você não tem poderes para isso. Então a raiva o leva a solução mais próxima, ao menos simbolicamente, que é utilizar a força. No seu caso peculiar, a força bruta.
- Então Deus é um psicólogo.
- Eu sou Tudo Augusto.
- Você é tudo! Menos justo!
- Defina justiça.
Começo a preparar algum tipo de discurso, sem perceber sou interrompido.
- Isso não é justiça. Nossa conversa começou bem, agora você me ataca. Isso não é uma batalha. Não digladiaremos verbalmente. Você não poderia vencer.
- Déspota egoísta! Você nos colocou nessa merda! Agora nos tire de lá!
- Isso dói Augusto. Mais do que você pode imaginar. Fique em silêncio. Vamos nos calar por alguns instantes. O quê você escuta?
- Nada. É só o silêncio. Isso é alguma meditação ou coisa do tipo?
- Você morreu.
- Eu sei! Pra que isso?
- E estou te escutando. Eu ouço tudo Augusto. Cada pequena formiga erguendo um grão miserável de terra. O copular de um casal apaixonado. O som da bala atravessando a carne macia, transpassando camadas de tecidos, atingindo um intestino, deixando vazar o quê era um belo jantar. Um jantar comido às pressas. A pessoa se esqueceu de degustar aquele milho fresco e amarelo, colhido pelas garras monstruosas de um trator movido a diesel. Eu ouço sua irmã rezando por você. Seu pai indo trabalhar, reclamando a sua falta de responsabilidade. “Praia e gandaia durante o período letivo! Um absurdo!”. Mal o homem sabe que seu filho está morto, atacando Deus com palavras clichês usadas a milhares de anos. Não é possível apontar o dedo para mim Augusto, e me chamar de déspota. Qual tirano é capaz de escutar de escutar tudo? Conceitos humanos não se aplicam ao que não é humano. Você deveria saber disso, é um homem inteligente. Um homem bom. Não se ofenda por favor. Não quero ser evasivo. Venha, deixe-me lhe mostrar minha criação.
Suas mãos agarram as cortinas frias, com um movimento suave elas são abertas. Através do vidro quebrado eu contemplo aquilo que as palavras não aprenderam a descrever. São nebulosas, constelações, estrelas, planetas, sóis, luas! São tantos detalhes que me perco. Eu nunca tinha visto um sol azul. As chamas não são revoltosas, elas dançam uniformemente, um movimento espalhafatoso.
“Este universo que contemplamos, não é mais do que uma ínfima e quase ridícula fração de todo um Universo-Mestre (também chamado de Universo dos Universos) e que reúne a totalidade do espaço astronômico. Este Universo-Mestre está conformado, de um lado, pelo que qualifico de Grande Universo (habitado ou habitável) e, por outra parte, do Espaço Exterior, ainda inabitável, com suas zonas anulares de espaço “impenetrado”, alternando com outras áreas de espaço “penetrado” por múltiplos circuitos energéticos.
Essas zonas “penetradas” são formadas por imensos universos em formação, que os telescópios e radiotelescópios vão aos poucos descobrindo. Neste Universo-Mestre, como lhe dizia, existe o chamado Grande Universo que é, em realidade, o verdadeiro objetivo dessa formação. O referido Grande Universo encontra-se, por sua vez, subdividido em departamentos administrativos. Quero acentuar-lhe este conceito: “departamentos administrativos”, para que você não caia no engano de associá-los com divisões puramente astronômicas. Pois bem, depois do parêntese, continuo: esses departamentos puramente administrativos estão organizados segundo o sistema decimal, com uma exceção septenária no vértice.
Resumindo ao extremo, dir-lhe-ei que este Grande Universo em que vivemos é formado por um Universo Central, e um total de sete superuniversos que giram ao redor do Universo Central, seguindo uma trajetória elítica enormemente alongada e muito plana.
Se me permite, falar-lhe-ei agora desses sete superuniversos que gravitam em torno do Universo Central. Cada um deles se acha dividido, ad-mi-nis-tra-ti-va-men-te falando, da seguinte forma:
10 setores maiores, cada um deles com 100 setores menores. Cada setor menor, por sua vez, com um total de 100 universos locais, criados ou por criar.
Cada universo local consta de 100 constelações (criadas ou por criar) e, por sua parte, cada constelação é integrada por 100 sistemas.
Finalmente, cada sistema reúne cerca de 1000 planetas, criados ou por criar.
Se dispusermos em números, cada um dos sete superuniversos conta com:
10 setores maiores;
1000 setores menores;
100000 universos locais;
10000000 de constelações;
1000000000 de sistemas e, aproximadamente, um bilhão de planetas habitados ou habitáveis no futuro.
Pois bem, seu planeta acha-se situado no sétimo superuniverso. O núcleo central desse sétimo superuniverso é a sua Via Láctea...”
- Minha?
Rimos mais uma vez. Meu cérebro formiga. Não consigo assimilar essas cifras enfadonhas. Meu abdômen retrai em dor. Grito sem perceber.
- Perdoe-me Augusto, por não corresponder as suas expectativas em tempo.
Estou com a sensação de estar sendo arrastado. Pisco uma vez e tudo parece uma eternidade. Um flash salta aos meus olhos, e não faço idéia de onde veio. O abdômen incomoda muito! Olho para ele e não há nenhum ferimento. Agora é a vez da perna. Cambaleio até me apoiar na mesa, mal consigo ficar em pé. Outra piscadela e mais trevas me consomem. Caio no chão. Ergo a mão em busca de ajuda, minha visão embaça, só consigo ver a luz incandescente que ilumina meu rosto, alguém a segura. Uma mão firme. Tudo que posso perceber nesse momento.
- Vou salvar você. – alguém sussurra em meu ouvido.
As trevas me tomam.

NOTA: O trecho em itálico foi adaptado da obra Rebelião de Lúcifer, J. J. Benítez.

"Aprendamos a sonhar, senhores, e então, pode ser que encontremos a Verdade."
J. J. Benítez

Segunda-feira, Dezembro 22, 2008

Aquilo Que Eu Realmente Gostaria

Queria ter algo melhor para oferecer do que esse texto medíocre. É a falta de criatividade. Mentira! Não é não! Idéias tenho de sobra, pena que nenhuma digna desse momento. O fim. Aquilo que acaba. O último. Como lhes dar algo a altura? É uma tortura e tanto.
Venho preparando esse texto desde janeiro deste ano. Quantas coisas viverei em 2008? Quantas experiências magníficas terei? Eu estava excitado. Amo essa espontaneidade. Pena que não estou conseguindo expressá-la em palavras. Portanto, a única coisa que posso lhes presentear é a minha mais pura sinceridade. Nenhum texto longo, demasiadamente prolixo. Somente aquilo que passa em meu íntimo. Tudo aquilo que tenho. Minha sinceridade.
No fundo eu desejo ser um homem melhor. Sei daquilo que me falta. Essa loucura insana que não larga do meu pé! Seria a falta de algo? É fato que caminho para frente, sempre tentando fazer o certo. Eu sei o que é certo! Juro! Posso falar o que seria tal misterioso instituto que nos divide, separando-os dos errados. Só não entendo como eu não consigo ser... Melhor.
Pessoas ainda se machucam perto de mim. Eu não quero mais isso. Não mesmo! Será que cabe a mim enfiar minha vontade na mente alheia, e esperar que eu não a machuque? "Não se machuque viu? Eu não quero isso". Não é simples, por isso sofro.
Além de não machucar as pessoas, gostaria de protegê-las. De tudo e de todos. Desses vilões e malfeitores que rodeam nosso mundo! E esses malditos são muitos! Queria ter poder para chutar-lhes o traseiro, para não falar um palavrão - que evitarei usar nesse texto. Mas eu posso querer isso? Te proteger? Você quer ser protegido? Existe essa possibilidade? Desejaria ter te segurado mais forte, para que você não fosse tão cedo. A vida é feita de momentos, e eu sei de cada um deles... Cada singelo lapso. Me lembrarei que eu sempre ganhava. Menos agora, em que você seguiu viagem, me deixando para trás. Bem aqui nessa inquietação, gostaria de não chorar. Tentei ser forte. Homem! E como um menino eu chorei, mas só depois de ter sonhado com você naquela manhã. Isso é frustrante, querer proteger alguém... Egoísmo. Mas assim que traço meu caminho, assim que construo quem eu sou.
Perdão pela falta de concordância. Quando os sentimentos ditam, não há mão que defenda a gramática. Muito menos, dedos que queiram salvar a lógica.
Não há política, não há O Cavaleiro das Trevas, nem Death Magnetic. Nada do que previ para 2008. Para esse texto. Aqui estou enquanto você se vai... 2008. Inútil. Sem nada melhor... Eu... Só comigo mesmo. Desejando sempre ser um homem melhor. Um homem bom. Nada mais.

A todos que me acompanharam, aos que ainda caminham comigo, e aos que não estão mais aqui... Prometo! Esse homem "não morrerá cheio de arrependimentos". Esse homem será bom. Por vocês, por mim, por eles.

Pedro Augusto


Quinta-feira, Dezembro 18, 2008

Os Caprichos

No início eu não sabia nem como cheguei aqui. Não fazia idéia de quem eram meus algozes. Meus torturadores. Quando você é seqüestrado, a psicologia inventou uma dependência nas costas da vítima. Comigo isso não acontece. Não aqui nesse lugar pútrido. Meu cativeiro cheira a fezes. A acidez do local arde meus olhos no começo da manhã. Por isso senhores psicólogos, a única coisa que quero é arrancar os olhos daqueles que me torturam... Então... Por que eu não fugi até agora?
Eu estava em Moscou. Minha bagagem, minhas armas, meu uniforme, tudo foi extraviado para não sei onde, antes mesmo deu embarcar. Pensei que era um erro comum, companhias aéreas são desorganizadas em sua essência. Foi ai que apaguei. A já conhecida dor na nuca, que paralisa cada articulação, cada músculo, cada conexão nervosa. Sempre uma bela e clássica pancada na nuca. Então acordei aqui. No meu lar de bosta e mijo. Grogue. Totalmente drogado. Acho que babei por uns dez dias, não tem como saber. Não há luz aqui. Somente a pequeno feixe incandescente que escapa por debaixo da porta de aço. Parei de babar quando comecei a sangrar.
No começo tudo é mais difícil, os choques doíam mais. As chicotadas rasgavam minha pele com mais facilidade. Quando arrancaram minhas unhas eu quase apaguei. Quase. Eu precisava ficar acordado, eu precisava da minha visão de volta!
Quando meus olhos voltaram a funcionar passei a entender melhor o que havia ocorrido. Entendi a escuridão do meu cativeiro. Descobri que estou vivendo em um buraco no subsolo. Ah! Meu olfato também voltou, para o paradoxo do que eu senti. Felicidade ou tristeza? Esse lugar fede. Um odor seco. Empoeirado. Esse ar rarefeito sem chuva tateia meus pêlos nasais. Mas eu só descobri que estou no Afeganistão quando a papoula começou a florir. Também é claro, como pude me esquecer, quando deixei de olhar nos olhos de um dos meus torturadores, pedindo clemência, e passei a observar suas vestimentas. O turbante negro denunciou sua origem. Talibã. Talebã. Taliban. Já até aprendi um pouco de farsi.
Já faz um mês e meio, com exceção dos dias que fiquei grogue igual a uma puta bêbada. Deu para sacar muita coisa nesse tempo. Principalmente o porquê deu estar aqui. Eu posso ter sido confundido com um repórter? Não. Eles gravariam uma fita de vídeo e mandariam pela internet. Não me filmaram nem nada. Um soldado estrangeiro? Muito menos. As torturas são feitas sem perguntas. São executadas por prazer. Eles riram quando colocaram aqueles fios desencapados no meu saco. Pisei no calo daqueles russos safados! Pisei com força. Aquela merda clichê de KGB mandou muita gente embora. Gente que sabe matar facilmente. E esse tipo de pessoa desempregada faz fortuna com o ópio e com a heroína. Entendeu tudo agora? Eu entendi. Estou sendo punido. Pelo menos estão me alimentando. Nem ligo se cospem na minha comida. Apenas como, pior que um cachorro sarnento. Eles querem me manter vivo. Tudo se encaixa. Papoula. Talibã. Russos. E eu servindo de entretenimento para os sádicos.
Só uma pergunta eu não consegui responder. Por que eu ainda não escapei? Já faz dois anos que sai de casa para brincar de andarilho pelo globo. Já sei lutar. Já passei por muita coisa escrota por aí. Incomodei muita gente. Há, há, há. Isso é prova. Minha sorte deve ter acabado. Por isso ainda não escapei. Estou esperando o acaso. Aquele deslize do meu algoz. Uma amarra frouxa. Uma pausa na seção de espancamento. Uma abertura. Nada disso aparece. Aguardo pelo conveniente, nada mais. Apenas uma chance de mostrar o que sei fazer quando não estou amarrado. Quando mais eu rezo, mais eu sangro. Há, há, há. Passei tempo demais estudando o Tao. Ser fluído. Como a água que vence a pedra sem lutar. Isso não está funcionando. Não quando descargas elétricas percorrem todo meu corpo. Será que alguém vem me salvar?
Um mês e meio. Sofrendo todos os dias. Minha sanidade está intacta. Ainda somo dois mais dois, sem ter que fritar o cérebro. Minha irmã deve ter nascido. E eu estou aqui... Aguardando. Esperando. A porta de metal se abre, iluminando o meu chiqueiro. Estou nu. Como vim ao mundo. Sempre me envergonho um pouco quando eles vêm até mim. Gritam algo em farsi, a língua persa. Os malditos nem dão bom dia, já chegam me chutando. Suas pernas são fracas. Os chutes mal me ferem. Esses talibãs são tão fracos, poderia quebrá-los em quatro. Mas o rifle soviético que ele segura não é nada carinhoso, e agora ele é usado como porrete. Acerta minha cabeça. Isso sim doeu. Sangro mais um pouco. Nem me debato mais. Pra quê? Desperdiçar energia.
Eles não entendem nada do que falo. Tentei negociar uma vez em inglês, ai sim eles entenderam. Eu apanhei feito moleque mal criado. Todos eles são iguaizinhos. Vestidos de panos velhos, e uma toalha preta na cabeça. Chamam isso de turbante. Todos são barbados. Até os menos afortunados com a testosterona, deixam crescer por anos a fio aquela pelugem rala na cara. São necessários três homens para me levar, dois seguram meus braços, o outro somente supervisiona. E lá vou eu pelos corredores mal iluminados. Isso é realmente um buraco incrustado na face da terra. A fiação foi feita por um amador. Não há rede de esgoto, cagam em qualquer lugar. Há muitos armamentos jogados a esmo pelo chão. Por que eu não escapei? Por quê? Meu corpo fica mole. Quase desmaio. Os afegãos têm dificuldade em me sustentar, o supervisor se volta para mim. Segura meu queixo e levanta minha cabeça. Me força a olhar mais uma vez em seus olhos. Olhos frios. Olho de quem mata. Sinto minhas sobrancelhas darem um aspecto tristonho ao meu rosto. Ele gosta. O verme sorri. Não! Não implore! Minha vontade não é maior do que meu instinto. Lágrimas caem dos meus olhos. Como chuva. Como uma comporta aberta. Choro mais do que um bebê. Minha garganta aperta. Os músculos faciais se contraem. Alguém! Alguém tem que me escutar. Meu pranto... Qualquer um... Esperneio. Não tenho forças nem para falar. A saliva inunda minha boca. O catarro desce do meu nariz. E meus olhos fazem brotar a fonte da vida... Lágrimas caem... E eles riem. Riem. Gargalham, enquanto me batem.
Colocam-me em pé numa sala rodeada por azulejos brancos. No teto está presa uma roldana. Na roldana uma corrente. Na corrente minhas mãos. Puxam a corrente, meus pés deixam de tocar o chão. Escuto o barulho de uma trava. O cenário está completo. Eu pendurado no meio da sala, cinco homens com nada para fazer, e a vítima aqui chorando, como nunca chorou antes. Não sei que tristeza é essa. Não é só a dor física. Como essa do chicote que estala em minhas costas. É algo mais profundo. Misterioso. Enigmático. Será a saudade de casa? De tomar um banho quente? Não. Não é tão superficial assim. Já disse! É mais enigmático do que isso. A falta de um corpo feminino? De um carinho? Não sei... Estou tão aflito. Ai! Como isso dói aqui dentro do peito.
A água bate violentamente no meu rosto. Acordo em um susto! Isso é um pesadelo? Meu coração bate de forma acelerada. Vem para minha garganta. Respiro ofegante. Ainda estou na mesma sala. Os homens parecem cansados. Cansaram do seu brinquedinho. O azulejo branco agora é vermelho. Escarlate! Olho ao redor. As lágrimas secaram. Me sinto aliviado. Chego a sorrir levemente. O coração volta a bombear levemente, controlo seus batimentos com a respiração. Inspira. Expira.
- Cachorro. – minha voz sai engasgada, quase inaudível.
Um deles vem até mim, eu sei que ele questiona meu atrevimento. Então olho em seus olhos. E repito.
- Cachorro. – agora sim ele escutou.
O burro não entende português. Retardado. Afegão imbecil. Talibã ignóbil. Aproximo meu rosto do dele. Seu rosto de enche de fúria com meu desdém. Vou enfatizar bem a mensagem. Quero que doa em seu ego.
- Soviet Dog!
Ele entendeu! Está indignado! Como isso é cômico! Os cinco famigerados armam suas Ak’s, apontando-as para mim e blasfemando algo que não entendo. Passo a gangorrar meu corpo, para frente e para trás. Os “tali-filhos-da-puta” passam a gritar mais alto! Um deles chega a babar de raiva. Às vezes me esqueço o quanto isso é divertido. Quando atinjo o balançar adequado meus braços puxam meu corpo para perto da roldana. Forço meus bíceps para sustentarem meu peso. Agora os músculos das costas clamam para participar da brincadeira, como em uma palhaçada de circo jogo meus pés alcançando o teto. E fico de pé. Isso mesmo. De pé no teto. Me sustento apenas pelas mãos amarradas. Uma rajada de tiros estilhaça os azulejos a minha volta. Foi um aviso. Eu estou pouco me fodendo. A trupe esbraveja sem parar. Devo admitir que esses fariseus têm fôlego.
Fecho meus olhos. Respiro lentamente. Tudo ao meu redor deve ser esquecido. Paralisado. Concentre-se em alocar a distração no limbo. Ignore o sangue. A água. O sabor salgado do suor. Atraio-me para próximo do teto. Passe a escutar o mundo a sua volta, preste atenção somente nas coisas ínfimas. Absorva o que a terra tem para lhe dar. Até a fria cerâmica do azulejo possui algo para lhe dar. Medite. Faça do minuto um século se for preciso. Flerte com o nirvana. Clame pelos espíritos moribundos e inúteis que rondam o local. Compre suas almas! Agora meu corpo está leve, relaxado, não há tensão. Libero o ar pela boca lentamente. O diafragma está vivo em meu abdômen. Aguardo a gota de sangue que cai. Espero a porção escarlate atingir o chão... Então...
- RUUUUUUHHHHYYYYYYYAAAAAAAAA!!!!! – lanço meus demônios para o céu!
Em um só movimento brusco, me valendo de todo meu conjunto muscular, com os pés apoiados no teto, agarro a corrente com as mãos, e tomo a postura ereta. O objetivo? Quebrar a roldana que me prende! Com os braços próximos ao meu tronco, puxo o metal, minhas veias parecem que vão explodir. O mesmo acontece com meus bíceps! Minha mandíbula trava, rezo para que meus dentes agüentem. A morte roça minha nuca. Eles vão atirar.
As paredes começam a rachar. Toda a sala começa a tremer! Pedaços do teto se quebram quando tocam o chão. As migalhas dos tais pulam como se viva estivessem. O tremor faz um dos homens errar seus disparos. A galeria é golpeada novamente, um estrondo seguido de outro chaqualar. Uma trinca enorme passa a rasgar o teto, o que faz um rochedo cair, esmagando aquele que outrora ria da minha situação. Não. Não há tempo para remorso. O sujeito agora é um pedaço esmigalhado de carne. A roldana se parte. Meu coração volta a bater como um animal selvagem! Frenesi! Os três metros de queda são o suficiente para rodar meu corpo e cair como um felino. O silêncio toma conta da sala. Aquilo que parece um terremoto da uma folga. E eu... Eu estou livre. Os quatro me olham. Estão assustados. Três deles não sabe usar o coldre. Devem achar que serve somente para enfeite. Agora suas Ak’s estão em uma distância confortável... Ao menos para mim. O outro? Não passa de um nada.
Mãos e pés do chão. Coberto de sangue. Respiro fundo na tentativa de acalmar aquilo que quer fugir do meu peito. É inútil. Ele sabe o que quer! Sabe o sabor disso. Isso é algo além do instinto. Além da razão. Maior que qualquer desejo. Isso se chama supremacia! Ver suas presas bem armadas, em maior número, em melhores condições, e ainda assim... COM MEDO!
Meus dedos sentem um pequeno tremer de terras, que vem crescendo, é o diabo em pessoa esbravejando no inferno. AVANÇO! Salto como um predador. Todo o estabelecimento volta a estremecer. Os azulejos caem similares aos pingos de uma chuva sólida. Uma lasca se desprende da parece. Tudo começa a ruir. Antes mesmo do talibã apertar o gatilho, ele sente meu punho esmagar sua cabeça. Não vá desmaia, não agora. Seus olhos viram. Parece que algo dentro do seu crânio começou a vazar. Mas só noto isso depois de arrancar seu turbante com um belo chute na sua cara. O mais magro deles tenta se equilibrar enquanto a terra mexe, vai à direção a seu rifle. Pego a arma da minha primeira vítima, não sou bom com armas de fogo. Não vou negar sua utilidade. Aperto o gatilho, deixo a ferramenta se debater em minhas mãos. As balas atravessam as pernas do coitado. Ele grita. Dessa vez... Ele grita de dor. O homem cai de cabeça na rocha. Ainda está acordado. Um fragmento de pedra despenca do teto, bem na barriga do magrelo. Mal noto que os outros dois saíram correndo. A estrutura do lugar já era! Tudo vai desabar. Perco tempo com um pequeno adeus. Apenas um olhar frio para o ser que sofre, sentindo, literalmente, o peso da morte. Corro em direção aos outros dois. Sigo pelo corredor que me atormentou. Livre. Nu. Em êxtase. Vejo os vermes logo a frente, correm destrambelhadamente, quase tropeçam um no outro. Na verdade, um deles chega a cair, e começa a escapar de quatro, tentando ficar em pé. Esse eu alcanço fácil. Seguro no pano comprido de sua vestimenta. Suas pernas tentam me chutar. Em um desses chutes, me dou o capricho de usar uma técnica não muito eficiente... Mas muito dolorosa. Grite para mim seu desgraçado! Vamos! GRITE! Quebro sua perna em três lugares, com um rápido movimento. Levanto e vou à busca do último. Deixo para trás uma carcaça viva envolto de dor.
Me dirijo até uma escada velha e enferrujada. A única saída para esse calabouço. Olho para cima. O desgraçado já está longe. Não tenho pressa. Subo calmamente. A escada range com meu peso. Seu aço corroído se incomoda comigo. Os tremores pararam. Chego ao topo.
Saio de um buraco e me deparo com uma reles cabana. Destruída pelo tempo e pelo descaso. A engenharia usada é mais do que precária, praticamente todas as pareces estão rachadas. Não há nenhuma mobília, só algumas armas velhas no canto. Portas e janelas estão fechadas. Está tudo empoeirado. Vou até a porta. Antes deu poder abri-la, o último dos torturadores faz o serviço por mim. Vindo de fora com o rosto assustado, tentando perseguir com o olhar algum animal que o segue. Ele bate em meu peito. Sua face denota medo. Não de mim. Acerto o topo de sua cabeça com meu cotovelo. É o bastante para apagá-lo.
Em menos de um segundo uma nuvem de poeira invade a cabana. Tento como posso proteger meus olhos. Os grãos e cascalhos arranham minha pele! Um estrondo ensurdecedor ecoa pelo ar, que se desloca como uma massa de concreto atingindo meu corpo. Sou arremessado para uma das paredes. Por um milagre nada se quebra. Meu tímpano sangra, posso sentir. O telhado da cabana se vai em meio a tempestade! A terra volta a tremer. Seguem mais quatro estrondos. Em meio à confusão permaneço imóvel, abraço meus joelhos e aguardo. É tudo que posso fazer.
Escuto sinos. Por quem eles dobram? Deve ser meu ouvido tentando voltar ao normal. Me levanto em meio a escombros, poeira e sangue. Somente agora notei que é noite. Onde estão as estrelas? Estão ofuscadas pelo fogo. As chamas consomem toda a plantação de papoula que ali existia. Sabia! Podia sentir seu cheiro. Agora misturado a cinzas, pólvora e fumaça. Dois pontos prateados cortam os céus. F-18. Os caças americanos bombardearam a plantação. Transformaram um belo jardim extenso, escondido entre as montanhas do Afeganistão, em um inferno. Na melhor concepção dantesca da palavra. Fogo. Nada além dele.
Pego algumas vestimentas sujas, um rifle soviético empoeirado, um turbante negro. Caminho entre o vermelho das chamas rumo ao Paquistão, ou a qualquer outro lugar. Agora estou a salvo. A salvo no inferno!

Sábado, Dezembro 06, 2008

As Massas


Alguém duvida que devemos ensinar mais matemática e mais português para as crianças? Ou que deveriamos ensiná-las mais sobre Sócrates? Deixar claro o quê é Democracia desde de pequenininhos, para que quando cheguem a idade adulta não passem a ter fé no controle, na censura, na relativização de todos os valores? Tudo bem. Você sabe que não sou nenhum educador. Eu só peço que não julgue meu ponto de vista, por eu não querer me colocar no "lugar do outro". Detesto esse tipo de coisa. Aprendi com as coisas que leio que isso é puro obscurantismo. Sou dotado de razão, de autonomia da vontade (chique né? isso é um princípio contratual), e mais do que isso... Eu tenho um ponto de vista! E falo de boca cheia! Cultura das massas, cultura de periferia, subir ao morro para ser feliz, é um monte de balela mal criada que leva o indivíduo para o buraco, para as trevas da asneira e da marginalidade intelectual. Em suma, eu odeio tudo que vem do telecoteco, do mexe o traseiro, de Niterói, e de onde o respeito ainda não encontrou lugar.
Como um homem sensato, eu aceito cada um escutar o quê quiser. Escute funk. Samba. Pagode. Rebole. Fale obscenidades, e finja que sua voz produz uma melodia. Envergonhe os verdadeiros rappers, e brinque de fazer rimas com duplo sentido. Tudo bem! Eu aceito. A imbecilidade agrada mais do que muita coisa. Se isso faz bem aos seus ouvidos, calo-me e defendo o seu direito de escutar o que quiser. Só não me obrigue a escutar junto! Não me coloque no estandarte da chatisse, da caretisse, pois apenas não quero torturar meu cérebro com aquele tipo de som, esse gemido de dor musical, similar ao copular dos gatos.
A quem defenda tal cultura como algo a parte de nossa sociedade. Uma organização com seus próprios ídolos, símbolos, e pasmem, até leis próprias. A quem sustente isso. Com fervor! Afinal, roubar na favela não pode, fora dela tudo bem. Não é? Quantos de nós não escutamos tal asneira. O filme Tropa de Elite tem um ensinamento fervoroso, quando mostra que o traficante "deixa", e vejam o sentido de "deixar", que é permitir, que uma ONG se instale no morro. Qual é o motivo, segundos os maconheiros do curso de Direito, "consciência social". Tais pessoas são os famosos antropólogos, os sociólogos, e esse povinho retrogrado da ideologia "bom selvagem".
Você mesmo, meu querido amigo, já deve ter se indignado ao ver a polícia subir no território "deles". Isso é uma segregação separista de meia tigela. Não existe "eles". O povo da favela. Somos todos um só, não me identifico com eles jamais, mas eles estão sobre a luz da nação brasileira, a cultura deles é a minha, a minha Lei (sentido lato, norma, princípio, mandamento) é a mesma! Todo esse raciocínio em trazer a pobreza para ser sinônimo de virtude, de felicidade, do coitadismo do oprimido, transborda em programas sem pé nem cabeça como as quotas, quando não na própria aceitação da violência.
Os garotos não deviam aprender a batucar, deveriam antes aprender a ler, a pensar, a querer algo melhor do que segurar uma Avtomat Kalashnikova odraztzia 1947 goda. Gostaria que escutassem mais música, e menos gozo libidinoso, pervertido, e mais, totalmente contrário a qualidade mínima admitida por aqueles que... Pensam.

Terça-feira, Dezembro 02, 2008

Um Pouco de Espaguete


Perdão meus amigos. De coração. Eu sei que o título já os fez desistir de ler, eu entendo. O Direito tem esse efeito. Uma repulsa, não é? Ao menos o fato de ser o Direito Italiano isso já ajuda. Pelo menos eu acho. Será? Esquece. Seguem algumas ponderações.
Sou um daqueles brasileiros que sonham em morar no estrangeiro. Pronto! Confessei. Me crucifiquem e joguem na minha cara que pelo menos aqui somos felizes, temos carnaval, e telecoteco e pá e tal. Tudo bem, eu sei, e também gosto disso. Só... Que... Eu sou um fã da trilogia O Poderoso Chefão. Agora sacaram tudo. Sou louco para caminhar por todo o território daquele país. Terra repleta de história. De tragédias. Falas exageradamente gesticulosas. Só de pisar em solo napolitano já me sentirei mais inteligente. Osmose, sabe? A biologia explica. Estarei de terno, não estilo capo, ao melhor estilo Michael Corleone. Elegante, impiedoso, um verdadeiro Godfather. Gangster é para mocinhas, o bicho pega é com a Máfia.

Também sou apaixonado por pizza, e outras massas. De todos os tipos, espécies, sabores. Com a total e absoluta certeza, a culinária italiana é a melhor desse planeta! Perdão arroz e feijão, mas é verdade.
Uma coisa me intriga... Como um país como esse tem como pontos turísticos: 1) um prédio torto; 2) um estádio faltando um pedaço; 3) uma cidade... pasmem meus queridos... na água! Temos isso aos montes do Brasil, valha-me Sérgio Naia.
Segue o texto seríssimo, extraído de uma palestra ministrada por uma italiana legítima! Com direito a português embolado e tudo. Definitivamente, o mais próximo da Itália que já cheguei... Desde aquela vez em... Ops! Segredo da Família.


Processo do Trabalho no Direito Processual Italiano

A palestra ministrada pela Professora e Advogada trabalhista, Maria Rosaria Barbato, colaboradora de cátedra do Direito do Trabalho na Universidade Tor Vergata em Roma, tinha como objetivo expor o Direito Processual italiano no que concerne à matéria trabalhista. Visava proporcionar uma visão sobre as distinções com o Processo Trabalhista brasileiro, como também dar um apanhado histórico da disciplina.
A primeira distinção entre o Direito italiano e o brasileiro, na maneira de regulamentar o processo, é a de que na Itália o procedimento trabalhista está inserido no próprio Código Civil italiano. No Brasil isso não ocorre, há um código separado para tratar sobre o procedimento trabalhista. Por conseqüência, para o Direito italiano não há uma disciplina autônoma, do mesmo modo que não há uma jurisdição especializada.
O Processo do Trabalho foi criado após o Processo Civil, quando a indústria italiana começou a se desenvolver, sendo criados os primeiros grupos em defesa do trabalhador. Paralelamente, surge a necessidade do trabalhador em ser tutelado por uma vertente específica dentro do Direito. Tal necessidade foi fundamentada na compensação da desigualdade entre trabalhador e empregador. Nesse período o processo do trabalho era regido por vários princípios, dentre eles o principio da oralidade, da conciliação obrigatória, da especialidade, e da concentração.
Posteriormente a tal período, no Fascismo, sistema político e social totalitário introduzido em Itália por Mussolini, mantém-se o distanciamento entre o processo do trabalho e o processo civil.
Nos anos 40, o processo trabalhista (juiz com prerrogativas específicas, conciliação obrigatória) se torna mais célere do que o próprio processo civil, este vindo posteriormente a ser incorporado pelo processo civil, que perde sua especialidade formal.
Em um momento à frente, elabora-se a Constituição italiana em 1948, encerrando as jurisdições especializadas.
Em meados de 1950, prevalece a idéia de elasticidade, defendendo o distanciamento entre o processo do trabalho e o processo civil.Na década de 60, o processo do trabalho sofre uma reforma, alterando o procedimento de várias maneiras, introduzindo uma norma que disciplina a despedida justificada, como também introduzindo a figura do juiz monocrático, distinto do juízo anterior, que era colegiado.
Nos anos 70, surge o Estatuto dos Trabalhadores, normalizando a presença do sindicato na empresa, e em seu polêmico artigo 18 há a previsão de o trabalhador poder ser reintegrado à empresa, caso ele seja demitido sem justa causa, e mais, ele teria direito a toda a “remuneração” oriunda da despedida até o dia da integração.
Em1973, confirmam-se os princípios trabalhistas, o principio da oralidade, da conciliação obrigatória, da especialidade, e da concentração, dentro do Código de Processo Civil.
O Código de Processo Civil italiano só viria a sofrer outra reforma em 2005, contribuindo com a concentração no Processo do Trabalho, no momento que unificou a audiência de conciliação, entretanto, havia vários pontos “perigosos” a serem considerados. A nova legislação retira a legitimidade de interpretação do juiz para as ditas cláusulas gerais, transforma o juiz em um mero “notário”, somente confirmando e se subordinando a vontade das partes (“certificação”, contrato individual que certifica a vontade das partes, pode prever disposições diversas do “contrato coletivo”); diminui o prazo para o trabalhador entrar com a ação em caso de despedida, o prazo é de quatro a seis meses, em face dos cinco anos anteriormente estabelecidos; há também a previsão do testemunho escrito.

Todas as normas consideradas “perigosas” tinham como objetivo dar celeridade ao processo do trabalho, que na Itália dura em média dois anos. Isso reflete o enfraquecimento de cunho processual do Direito do Trabalho italiano, mesmo sendo tão forte com relação à matéria. Tal vagarosidade nos da a impressão de que no Brasil, o Direito Trabalhista é superior, em face da “tutela” processual. O que não é verdade, uma vez que o Direito italiano enfrenta os mesmo problemas do que o Direito brasileiro, em sua substância, os “direitos” objetivam a efetividade e o respeito às normas. As peculiaridades italianas confirmam a exigência dos destinatários da norma, assim como no Brasil, todos anseiam por uma resposta célere e eficiente do Judiciário.

Quarta-feira, Novembro 19, 2008

Uma Conversa Com Reinaldo Azevedo

Vale a pena ler Reinaldo Azevedo! O sucesso do livro O País dos Petralhas é a maior prova disso. Essa boa resposta para o livro traz consigo uma mensagem otimista, uma dose de esperança para o nosso Brasil. "Nós estamos resistindo". Essa é a mensagem! E esse é um dos pontos principais que me leva a ler esse incrível articulista político. Sempre me achei inteligente, até entrar na faculdade e ver o pouco que eu era, até perder um debate feroz com um petista. Sim! Eu perdi! Admito. Mas já escrevi sobre isso no blog. No fim eu sai ganhando, fui atrás de conhecimentos, livros, sites e constatei, AQUILO NÃO FOI UM DEBATE. Não se pode ganhar, com razão, com raciocínio político, com leis, com Constituição, de um MÉTODO. É esse MÉTODO relativizador de valores que o livro combate. A idéia de que somos geridos por uma luta de classes, por coitadismo do oprimido, e de que a história possui uma justiça, um determinismo, que é buscado na solapação de nossas instituições. Reinaldo resiste a isso! Seus leitores também! Não há que se falar em revolução, em passeatas, em boicotes. Isso é uma resistência pacífica, democrática, racional... Esse é o futuro. O certo, sem ter a pretenção de ser uma verdade universal. Por isso eu leio Reinaldo Azevedo! Por isso eu RESISTO!

"Um cristão acredita em Deus, claro, mas sabe, como reafirmou o papa João Paulo II, que o demônio existe. O que é matéria de crença pode encontrar plena correspondência numa mentalidade agnóstica. Deus é a convicção, o princípio, o norte moral; o demônio é frouxidão da vontade, a ausência de limites, o relativismo sobre todas as coisas."

"Entendi: quando falta talento, o negócio é ir mesmo na malandragem. O comentário é a cara de Lula. E também uma boa síntese de sua biografia, né?
Quem é Lula senão aquele que vive caindo na área e gritando "pênalti"?"

"As imposições politicamente corretas mundo afora (com maior determinação no Brasil) fazem justamente isso: tiram o indivíduo o direito à arbitragem e tentam, o que é grave, perigosos, cassar o direito a opinião."

"Pedro Augusto,

por um Brasil que respeite os mineirinhos.

Reinaldo Azevedo."

Reinaldo Azevedo e eu, o Pedro Augusto, ou o Zé. Olha a cara de sério do Tio Rei.

Viram? Só uma conterrânea de São Paulo aparecer, aí ganhamos um sorriso. Parabéns a todos nós mineiros, ao grande Reinaldo, foi uma conversa e tanto!

Sexta-feira, Novembro 14, 2008

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIII – Morte, Você Me Deixaria Ficar?

RIO DE JANEIRO – 04 DE AGOSTO DE 2008
18:00 PM

A chuva ainda cai lá fora. Feroz. Impiedosa. O nublado tímido das nuvens deu lugar às trevas da noite e das águas. Já se passaram horas. Não sei quantas. Muitas com certeza. Já analisei cada centímetro do teto. Cada mísero detalhe. Estou deitado observando o quarto do Copacabana Palace Hotel. Não fazendo nada. Não pensando em nada. Também não sinto. Essa sensação de frieza me assusta. Continuo a olhar para o teto.
Quando cheguei me forcei a descansar. Fechava meus olhos e nada. Meu corpo está cansado, por que não dorme? Fechei as cortinas. Desliguei a televisão, que não ligarei tão cedo. Nada do sono vir. Um raio marca o céu iluminando o quarto escuro. Já me banhei. Tentei comer alguma coisa, embora não esteja com a mínima vontade de me alimentar. Passo a olhar os pingos que escorrem na janela. Outro raio cai das mãos de Zeus, ou quem sabe foi Thor digladiando com seu irmão?
No caminho de volta para o hotel acabei pensando em Angélica. Não sei o porquê de ela ter aparecido em minha mente. Afinal, tudo aconteceu em uma noite e só. Nada mais, nada menos. Sinto falta de sua pele era macia. Seu perfume era tão gracioso, uma verdadeira flor. Mesmo assim... Uma noite e nada mais. Claro que quando algo espontâneo, do jeito que aconteceu, nunca passa como uma simples brisa em nossas vidas. É uma tempestade, similar a que cai lá fora! Uma tormenta de sentimentos que põe em cheque o resto de humanidade que tenho. Amor. Carinho. Ternura. Eu tenho família, que me ama e me quer ao seu lado. Mas o que realmente eu quero? Há, há, há. Juro que pensei em passar a vida ao lado de Angélica. Foi por um momento apenas, mas pensei. Imaginei por alguns instantes. Não foi tão ruim. Já pensei a mesma coisa com outras mulheres. Já amei uma vez, só que isso é história pra outro momento. Acho que todos querem alguém para isso. Não é? Há, há, há. Que ridículo! Mais um clarão fotografa as águas negras que caem do céu. Levanto meu tronco, e sento na beirada da cama.
Eu matei um homem hoje. Um tiro certeiro. Bem no olho esquerdo! Fui rápido. Mortal. Cruel. Respiro fundo, passo a mão pelos meus cabelos. Abaixo a cabeça. Não desejo eliminar meus oponentes. Carrego armas brancas para isso, evito ao máximo armas de fogo. Sabia que esse momento chegaria... Eu me justificando para mim mesmo! Vamos lá então! Compre um livro de auto-ajuda, procure a igreja, faça caridade, se redima de seus pecados! Quer se condenar? Deixe isso para a imprensa, que deve pipocar imagens na tela de você explodindo a cabeça daquele bandido. Bandido! Esses são seus oponentes! Aqueles que estupram a lei! Cospem na cara da civilização, aqueles marcados pelo mal! Os vilões! Esses são meus oponentes? Oponentes? Isso é uma espécie de briga, algum jogo? Respiro fundo mais uma vez. Eu sei que fiz o certo! É isso que me separa daquele tipo de lixo humano... Eu faço a coisa certa. Certa para quem? Ora! Nesse mundo existe o certo e o errado, não existe? O que fiz encontra respaldo na razão, e na lei, quando eu defendi legitimamente um terceiro. Legítima Defesa de Terceiro. MERDA! Tudo foi um erro meu, eu poderia ter impedido isso quando derrubei o desgraçado, se eu tivesse usado só mais um pouco de força eu o apagaria! Um erro por uma vida! MERDA!
Me levanto e caminho até a televisão, antes de ligá-la, hesito por um momento. Se eu ligar a imprensa vai bombardear ainda mais minha culpa. Prefiro guardá-la só para mim, deixe a demonização do que fiz para mais tarde. A mídia não sobe o morro, não salva ninguém! Não tira a arma da cabeça de nenhum inocente. Nenhuma ONG faz isso! Nesse país ninguém faz! Nem a polícia, nem as Forças Armadas, quem dirá então esses porcos engravatados. Burocratas devotos de um Maquiavel de boteco! Corruptos! Fora a ideologia que vitimiza os criminosos e deixa as verdadeiras vítimas a mercê de qualquer mau caráter! Filhos da puta! Desgraçados! Cretinos!
- AAARRRGGGHHH!!! – grito como se exorcizassem algum demônio.
Pego a televisão e a arremesso na parede. Quebrando-se por completo. Mais um raio ganha vida na escuridão! Os trovões jamais se calam. A luz do rádio comunicador começa a piscar insistentemente. Os militares devem ter ligado a televisão.

-click-

- Pode falar. – atendo a chamada.
- Você acha que tudo isso é uma brincadeira? Não vejo outra razão. Ah! É um joguinho seu não é? Senhor super-herói. – para tamanha ironia, só uma boca se encaixa... Coronel Manuel Belloto!
- Eu não estou de bom humor Belloto. Fale logo. – respondo friamente.
- Bom humor? Você meteu a imprensa no seu espetáculo, agora fica de mal humorzinho? Costa Machado foi claro, não vou entrar mais nesse assunto. E por sinal, aquele tiro que você deu... – ele desiste da sua fala. – Não entrei em contato para isso.
- O que você quer? – pergunto.
- O que quero? Meu jovem. O que todos nós queremos! Incluo Oswaldo, e principalmente, Costa Machado. Todos nós queremos os cinco traficantes do tribunal do tráfico! – ele eleva o tom de voz. – Achei que você seria capaz de produzir resultados celeremente, por trabalhar a margem da lei. Me enganei não é? Parece que você veio para cá para brincar de salvador! E o nosso pacto? Como fica? Não queremos os parias. Queremos os mandantes.
- Eu já entreguei dois deles. – afirmo.
- Agora quero os outros três. – retruca.
- Belloto...
- Fale.
- Amanhã de manhã todos os três, Cleison Jesus, o “Bombinha”, João Batista, o “Joãozinho” e Toninho Pereira, estarão tomando café com você!

- E como você pretende fazer isso? – o Coronel debocha.
- Como você acha? Comandando as Forças Armadas que não vai ser. – agora peguei pesado!

-click-

Parece que desligamos ao mesmo tempo. Antipatia é contagiante. Pego o uniforme, começo a me vestir. Meu corpo ainda dói. Alongo um pouco cada músculo. Não vou carregar tanta coisa dessa vez, depois de hoje nada pode ser pior. Pego um kit básico: as foices ligadas pela corrente; algumas granadas de efeito moral e de fumaça. Só isso será o suficiente. E só. Levarei também o binóculo de visão noturna, esse vai ser útil para uma eventual escuridão. Quando chove as luzes tendem a se apagar.

RIO DE JANEIRO – 04 DE AGOSTO DE 2008
23:56 PM

Nenhum vestígio dos irmãos “inha”. Rodei quase toda a Rocinha e nada! Não quero confrontar nenhum pé de chinelo, quero os dois. Parei de monitorar os desgraçados há apenas alguns dias e eles já sumiram! Estou sendo vítima da minha própria estratégia. Um ponto positivo é que os vapores estão todos de “férias”. Continuo a vigia pelos telhados e lajes da favela.
Mais um possível esconderijo e nada! Onde estão esses viados? Porra! Vou ser rápido quando achar esses ratos de esgoto! Se eu pegar um o outro é garantido, ele vai falar querendo ou não. Toninho é o mais indiscreto de todos, freqüentador assíduo de festas e baladas universitárias. É isso que acontece quando um coroa entra para a Universidade, ele volta a ser jovem, fica menos cuidadoso. Se bem que de cuidadoso esses canalhas não tem nem um pingo. A polícia só não desmantela isso por pura incompetência e corrupção interna. A solução em si não é difícil, o problema são as conseqüências políticas. Todo revolucionário tem uma pitada de maconheiro. Fazer o quê? Dar porrada em quem merece! Sou inteligente demais para aceitar isso, enfiar a mão, socar, espancar... Esse não é o fim. Ou é? Foda-se! Para o inferno a sutileza! Cansei. Hora de partir para a “entrevista”. Preciso de informações. Por sorte logo a minha frente tem um fogueteiro debaixo de um telhado mal acabado.
O movimento é rápido. Pego o garoto pelo colarinho e o prenso na parede. Não, ele não vai gritar. Minha mão aperta seu pescoço e o elevo do chão. O garoto engasga. Vou ser direto e objetivo.
- Por que essa favela está quieta? – pergunto.
Alivio um pouco a pressão da sua garganta.
- É a chuva! Pó, ninguém que fica na chuva não. – o fogueteiro responde.
- E você faz o que na chuva? – aperto um pouco mais.
- Ai! Relaxa ai rapá. Tô só garantinu o pão dos molequi. – o garoto está cooperando.
Devolvo o chão para seus pés. Suas mãos agora acariciam o pescoço outrora esmagado.
- Você não sabe de nada não é? – indago.
- Sei não. – sua cara é de choro. – Ninguém do comando tá podendo trampa mermão. Terror tá geral aqui. Eu cansei de fica na rua pedindo grana e vendendo bala porra! – o fogueteiro se irrita. – A vadia fico prenha de novo e é mais leite. Isso ta me fudendo.
A luz azul do relâmpago ilumina a cara do coitado, seguida pelo estrondo que ressoa pelo céu.
- Você não sabe de nada? – pergunto mais uma vez.
- Não. – ele responde.
- Você trabalha para eles e não sabe de nada? – insisto.
- Já falei mermão. Sô novo na parada. – estou sendo leve demais.
Instintivamente minhas mãos vão até as foices. Desembainho as duas. As lâminas soltam um som letal ao rasparem uma na outra.
- Eu não sei de nada não! Juro! – agora o garoto está com medo. – Não me machuca não, por favor. Por favor. Nem foi o Joãozinho que me contrato. Aí meu Deus! – ele chora. – Só quero compra comida pro rebento. Pó mermão, alivia...
O garoto é novo. No máximo dezenove anos, nem tem barba na cara, só esse bigode disfarçado de sujeira, e já é pai. Estereotipo. Nada, além disso. Posso arrancar a verdade dele agora! Em menos de cinco minutos. MERDA! Golpeio a pilastra de madeira ao meu lado, ela se parte, e as telhas caem como a chuva, despedaçando-se ao tocar o chão. Corro e salto para a próxima laje. Concentre-se nos três! Não perca seu tempo com lixo.
Quem eu quero enganar? A história fajuta me comoveu. Sua bicha sensível! Vai chorar pelo irresponsável marginal? Não estou me sentindo bem. Algo aqui dentro sabe que não estou bem, e fica me incomodando, martelando um calafrio na minha barriga.

RIO DE JANEIRO – 05 DE AGOSTO DE 2008
01:21 AM

Isso já virou piada. Estou aqui brincando de mico de barraco em barraco e nada! Não estou com estômago para ser o cara mau, vou apelar para fontes mais fáceis. Essa região é renomada. A zona. O prostíbulo pecaminoso das profissionais do sexo. Não vou entrar, se eu fizer isso cago mais ainda a situação. Aquela mulher, embaixo da marquise de uma padaria se encaixa em meu preconceito. Roupas curtas nessa chuva, uma bolsa pequena que leva o essencial, um canivete e preservativos, e salto alto. Seu corpo é bonito, pernas bem torneadas, e uma bunda de dar inveja. O cabelo é castanho bem claro, desce até a cintura. Seu ombro é muito largo, não faz meu tipo, abaixo seus braços são musculosos demais. Vou até a marquise que a protege da chuva sem ser notado.
Tiro do bolso uma nota de cinqüenta reais. Nunca ando sem dinheiro, nunca se sabe. Largo a nota, que acompanha a coreografia vertical dos pingos d’ água. A puta vê o dinheiro que acaba de cair do céu, olha para todos os lados, em seguida, se permite molhar um pouco e agacha para apanhar a nota.
- Tem mais de onde caiu essa. – afirmo engrossando a minha voz.
- AI MEU DEUS! QUE SUSTO! – a voz é grossa demais.
É um traveco. Puta merda é um traveco! Não tenho nada contra homossexuais, que fiquem longe da minha opção hétera. Me enganei, como ele, ou ela, sei lá!, se parece com uma mulher. A voz sempre condena.
- Oh amor, não precisava dar um susto... – que voz irritante.
- Não quero nada com você, apenas responda minhas perguntas e pagarei o tempo perdido.
- Você me deixou com tesão sabia? – espero que não demore.
- Por que ninguém da turma do Joãozinho está dando as caras? – objetivo, preciso ser objetivo.
- Isso é caro meu amor. Mmmuuuiiitttooo caro. – o homo sei lá o quê começa a fazer um charme, era de se esperar. – Mas para você! Exclusivamente para você! Se mandar outra oncinha e prometer guardar segredo, te conto tudinho.
Jogo mais cinqüenta reais.
- Agora fale!
- Oh meu bem, vou resumir a história. Tem certeza que não quer ir para um lugar mais quente? Só eu e você. Sem segredos entre nós. – mais charme.
- Se não começar a falar desço ai e fazemos pelo modo mais difícil! – agora sim eu me irritei.
- Hum, me deixou molhada. – que porra é essa? – Vamos lá então... Eu costumava sair com Toninho sabe, ele é brother do Joãozinho e do anabolizado lá. O Toninho me contava quase tudo, agente era amigo de infância, então temos um vínculo. Sei todos os podres do safado. Todos! – agora o homem fica sério, sua voz engrossa. – Só que o filho da égua me traiu! Saiu com a vaca da Cíntiara! Cansou de comer cu, agora quer buceta. Aquele desgraçado. – a face do homem agora é tomada pela tristeza, seus olhos ficam vermelhos, ele engole seco. – Eu dava tudo pra ele. Eu que apresentei ele pro Joãozinho depois que ele foi expulso da PM. Abri as portas e minhas pernas pro cachorro, e o que ele me deu? HEIN? Sabia que ele já me bateu? Bem aqui ó. – aponta para o rosto grotesco e maquiado. – E perdoei. Milhares de vezes! Até que arruma uma vadia dançarina de funk e me larga aqui. – ele enxuga as lágrimas, e a expressão de seriedade é retomada. – O Toninho... Pro inferno! Quer saber? Vou superar isso e vou dar demais! Pra todos! Ele vai ver!
- Agora que o romance terminou, onde eu posso encontrar o Romeu? – o traveco não gostou da piada.
- Eles retomaram o tribunal. Sua presença assustou o povo um bocado. Cansaram disso e vão matar dois playboys lá do Leblon. Uns burguesinhos filhos de políticos, acho que senador estadual. Ah! Sei lá. Tá o bonde todo reunido no poliesportivo que o governo anda construindo, vai ficar chique meu filho! Por enquanto só serve mesmo pra esconde droga e traficante. Bofe? Amor? Hum, o gostosão foi embora e nem me deu tchau.

RIO DE JANEIRO – 05 DE AGOSTO DE 2008
02:12 AM

Corra! Vamos! Pule esses telhados e lajes mal acabados! Rápido! Esqueça a chuva, o chão escorregadio! Vá pela rua se necessário! Eu sei onde fica esse poliesportivo. Não é tão longe assim. Preciso chegar lá antes que aqueles garotos sejam assassinados. Por essa eu não esperava, retomaram a porcaria do tribunal. Pensei que não ousariam agir enquanto eu estivesse na cidade. Pensei demais! Demorei demais!
Apoio no muro, no poste, e ganho a laje de outro barraco. Do alto todos parecem iguais, com os tijolos a vista, sem reboco, sem nenhum projeto. As antenas remendadas se destacam. As ruelas que cruzam algumas avenidas principais fecham esse cenário. Para alguns, belo, para outros, um inferno. Eu li em uma revista outro dia que apenas dois por cento da população da rocinha acha que a segurança deve melhorar. Da vontade de rir, de cometer um harakiri em defesa da minha honra. É claro que estão seguros! Os próprios traficantes os protegem. Que belo! Que lindo! Ninguém rouba gente da favela. O Estado poderia dar verbas para os traficantes, assim eles poderiam ser legalizados. Os restos dos noventa e oito por cento feliz com seus protetores, só não poderiam cobrar mais saneamento, por exemplo. Iriam direto para o “microondas” da insubordinação!
Droga, eu matei um homem hoje. Tropeço e caio. Sorte que cai ainda em cima do telhado. Procuro ver no que tropecei, um corpo de boneca. Todo velho, sujo, esquecido aqui em cima. Zeus está furioso e bombardeia o céu com seus relâmpagos mais uma vez. Não. São apenas nuvens em atrito. Meio segundo de eletrização que ilumina todo o horizonte. Não haverão deuses essa noite, somente eu e minha espada caçando esses desgraçados!
Avisto o poliesportivo, está tudo apagado. Nenhuma luz. Vou me valer do binóculo de visão noturna. Minha visão se torna verde, tudo fica mais claro agora. Por um instante eu penso que deveria atacar no escuro, sem ver o que acabei de ver. Um galpão com aproximadamente trinta vagabundos, mais da metade segura armas nas mãos, dois garotos acorrentados no centro. Um ponto luminoso brinca com o rosto dos rapazes. É uma lanterna. A luz do galpão ascende, minhas pupilas retraem de maneira brusca, desligo a visão noturna. Meus olhos doem, ao menos posso ver “a cores”. É gente pra cacete reunida! Os garotos estão presos, cada um em uma cadeira. Estão muito machucados, um homem a frente deles esbraveja algo que não posso escutar. Bate com a lanterna na cabeça de um deles. O sangue escorre pela testa do coitado. Esse homem se veste como um típico carioca malandro, um pagodeiro, definitivamente, um pagodeiro. Uma blusa social listrada, de tecido leve, jóias no pescoço e nos pulsos. Esse é o Joãozinho! Aquela montanha de músculos atrás dele deve ser o tal do Cleison Bombinha, e o com óculos na testa e barriga de cerveja é o Antônio Pereira. Pra que tanto diminutivo junto?
É gente demais! Estou com equipamento de menos. Nem em sonho da pra derrubar mais de trinta homens armados com duas faquinhas. O General prometeu reforço, caso eu precisasse, essa é a hora! Vai ser a maior prisão em massa da história do Rio de Janeiro! Todo o grupo, a gangue, a praga presa de uma vez. E em flagrante! Dois filhos de políticos, apoio político garantido. A transmissão demora um pouco, por causa da chuva, enfim sou atendido.

-click-

- O quê você quer há essa hora Jack? Espero que tenha boas notícias. – Belloto atende.
- Ótimas notícias! Traga toda a força armada que você conseguir aqui pra Rocinha. Já estou enviando o sinal no GPS, vai ser fácil me localizar. Acione o BOPE, e qualquer um que não seja incompetente. Vai ser a operação mais rápida da história! – estou excitado, acabar com esse lixo de uma vez só! – Mais de trinta homens armados, torturando e aguardando o momento adequado para matar dois garotos! O tribunal foi restabelecido hoje. Os garotos são filhos de políticos! Ligue para todos que conseguir, rápido! Chame todos!
- Não vou chamar ninguém. Quem vai acreditar nessa história? – não acredito! – E mais, vincular você as Forças Armadas? Um estorvo?
- Que se foda isso! Temos que salvar os garotos! Você não se importa com isso? – questiono.
- Como você é ingênuo. Essa não é minha função. E por outro lado, o herói aqui é você, não eu.
- SEU FILHO DA PUTA! Só preciso da porra de um telefonema! Chame todos aqui! Isso poderia suavizar a guerra contra o trafico! Pessoas ficariam mais seguras.
- Eu também quero acabar com esses abjetos da sociedade, tanto quanto você. É estupidez o que está me pedindo. Não ligarei para ninguém. Nem polícia, nem guarda nacional, nem mesmo a alguma ajuda humanitária.
- Belotto seu desgraçado! Você é a porra de um Coronel! Temos que salvar aquelas pessoas! Não entendeu até agora!
- JÁ FALEI GAROTO! MINHA RESPOSTA É NÃO!
- Quero falar com o General Costa Machado! AGORA!
- Você não vai falar com ninguém, agora se me permite...
- São vidas! Será que você não entende isso! É burrice ficar de braços cruzados. Eu...
- Você é o herói aqui, vai até lá, salve-os.

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O Coronel desliga na minha cara. Sem direito a resposta.

RIO DE JANEIRO – 05 DE AGOSTO DE 2008
02:25 AM

As únicas granadas de fumaça que tenho quebram o vidro frágil da janela. Quando tocam o chão explodem. A sala é tomada por uma neblina artificial.
- Que isso?
- São os alemão?
- Atividade porra! Sem medo caralho! – grita uma das vozes da liderança.
- Pô chefe, num tô vendo nada!
O desespero toma conta do lugar. Primeiro os garotos, são a prioridade! Assim como as granadas meu corpo estilhaça o vidro ferido. Uma entrada triunfal, preciso manter o nível. Os cacos me acompanham na queda, cintilam com o resto de luz que insiste em aparecer na fumaça. Saco as foices, não libero a corrente, o combate será a curta distância. Memorizei o ambiente, momentos antes de invadi-lo, só seguir reto e chego aos pobres garotos. Pobres? Malditos viciados de língua grande. Em meio ao nevoeiro que armei, surgem alguns meliantes no meu caminho. Não conto quantos, nem ao menos olho para eles. Apenas faço questão de quebrar o máximo de ossos possíveis, na maneira mais rápida que consigo.
Tenho sucesso! Agora são os torturados que aparecem em minha frente, junto com eles Joãozinho gritando algo que não quero escutar, blasfêmias, xingamentos, ofensas! Tenta coordenar o desespero de seus homens. Ouço alguns tiros, nenhum me acerta então não me importo. Após os tiros, seguem alguns gritos. A mira no meio das trevas que proporcionei é magnífica. Se matem seus vermes! Como não notei? João segura uma espada medieval em sua mão. Uma espada de médio porte, mal feita, detalhes grotescos, com uma lâmina suja e desgastada, do tipo que se compra na internet. Nunca serviria para um combate... Ele a usa como ferramenta de tortura! Ao chegar perto de quem eu preciso salvar, entro no campo de visão do desprezível. Ele me vê. Esbraveja algo que ignoro. Isso se chama concentração. Suas jóias douradas se agitam, seus braços se elevam para desferir um golpe vertical. Não vou lhe dar ao luxo de me ver esquivando, seguro as foices e me defendo do golpe. O metal ao se chocar estala! Chuto sua barriga apenas para afastá-lo, e golpeio de forma similar a dele, verticalmente. O imbecil tenta defender, como eu queria. A lâmina do seu brinquedo se parte ao conhecer o verdadeiro aço de uma arma, e a força de quem é digno de desembainhá-la. Libero a corrente que se encontra no cabo de uma das foices, enrolo no pescoço do famigerado e aperto. Em questão de segundos ele apaga. Preciosos segundos, perdidos por capricho. Concentre-se. Mais tiros ecoam. Tenho que aproveitar o desespero! Hora de salvar o dia.
- Muito bom meninada! Agora já sabem porque a porra da maconha não pode ser descriminalizada. É questão de segurança pública, viram?
Vejo a angústia na face dos moleques. Não são moleques. Já são homens! Homens com dezoito anos. Mexeram com lixo, agora estão fedendo. Essa lógica se aplica ao salvador aqui. Não estão muito machucados, cheguei a tempo, esse estado ia mudar com certeza.
- Tira agente daqui, por favor! – implora um dos garotos.
- Vou salvar vocês, mas só se pararem de comprar essa merda! – momento pedagógico.
- Eu paro!
- Eu também!
- Muito bom!
Arrebento as correntes junto com as cadeiras.
- Agora corram nessa direção. – aponto para a saída que memorizei. – Liguem para quem puderem! Qualquer um! VAMOS! CORRAM!
São obedientes. Somem em meio a fumaça. Torço para que acertem o caminho. Não desperdicem meu trabalho, por favor. Até aqui foi muito fácil... Os tiros se calam. A bandidagem está se organizando, perdendo aos poucos o medo. Se agrupando. O número não é pequeno. A festa começa agora!
Tento aproveitar o resto de camuflagem que me resta para atacar qualquer um que encontro. Não há rostos, não há detalhes descritivos, somente a fumaça e minhas lâminas. Meus alvos são indivíduos sem face, sem identidade, um ser humano amorfo. Sem formas. Eu só preciso derrubar o máximo que conseguir antes que o nevoeiro se disperse. Já caíram doze! São muitos, e ainda para piorar vim despreparado. Não esperava um pequeno exército verminoso e bem armado. Quando conseguem me ver disparam com suas armas de calibre grosso, por sorte, e uma pitada de habilidade, consigo me esquivar. A mira torpe dos atiradores ajuda bastante, não conseguiriam acertar um elefante com uma bazuca. Merda! A fumaça está se tornando mais rala. Me tornei um alvo fácil. Não me importo e continuo batendo no que encontro! Meus inimigos são fracos, fáceis de quebrar como varetas, fáceis de cortar como carne no açougue. Começo a ter esperança. Avanço rosnando para cima de um grupo de seis, que conseguiu certa coordenação. Agarro um deles pelos joelhos e o uso como escudo para os socos e chutes que me ameaçam. À medida que os golpes falham, os meus são certos! Nariz, estômago, garganta os alvos mais fáceis. Por fim, brinco de bate estaca com as costas do magrelo em minhas mãos, batendo-as no chão até que ele desmaie.
Não há mais camuflagem. Toda a furtividade que eu me valer não adiantará. A fumaça se foi. O vento a levou, o próprio ar se tornou meu inimigo, assassinando minha única aliada. A porra dos músculos voltam a doer, meus olhos pesam. O ambiente se torna completamente visível agora. Vejo os corpos dos derrotados, dormindo no chão gelado. Em cima de uma mesa estão quilos e mais quilos do mais puro veneno para o cérebro. A chaga que vicia. O mestre das marionetes. O caminho mais prazeroso para o suicídio. Cocaína. Um soco acerta meu rosto, me distraí! Seu burro! Dou graças aos meus reflexos, que respondem com voracidade ao ataque. Meu inimigo cai a minha frente, com a boca sangrando. Me viro para os... Um saco da droga explode em meu rosto! Outro me acerta nas costas. Mais um vem em minha direção, uso as foices para atingi-lo, só então percebo a minha burrice, o pó impregna o ar a minha volta. O tecido da minha máscara é tomado pela farinha! O mesmo acontece com toda a minha roupa molhada. Tento respirar. Merda! Inalo o psicotrópico! O pó entra queimando em minhas narizas. Não posso tirar a máscara! Não posso! A cada absorção do ar pelos meus pulmões, mais da farinha branca ganha meu corpo. Respiro pela boca. Tomo outro soco na cara! Soco poderoso. Forte. Uma brutalidade tamanha. Meus pés se desprendem do chão, caio no chão frio e úmido. O polvilho do diabo atrapalha até a minha visão, que se torna embaçada após o segundo ataque que me acerta. Chuto a esmo, para afastar quem quer que seja. Levanto todo desengonçado. Levo um bicudo nos pés. Tropeço e caio de cabeça no solo. Quanto mais fôlego eu busco, mais droga eu inalo. O desespero agora é meu! Estou praticamente cego, sem nenhuma noção de espaço. Minhas mãos buscam o tato com algo que nem mesmo consigo saber o quê é. O brutamonte me levanta com facilidade. Fala algo que não passa de uns gemidos para meus ouvidos adormecidos. Ao me levantar tenho vertigem. Meu cérebro não consegue coordenar nada! VAMOS NEURÔNIOS DESGRAÇADOS! E sou arremessado até a mesa das drogas. Com meu peso e a força do arremesso ela se parte. Estou envolto aos tóxicos. Que bom. Meus músculos não doem mais. O pé do meu oponente esmaga meu abdômen. Que bom. Nada dói. Sou golpeado por todos os lados. Acho que estou sangrando. Que sensação diferente. O sangue eu sinto. Seu gosto azedo, meio amargo. Meu rosto é vítima de algum punho, nada se quebra. Que pena. A montanha de músculos continua batendo e batendo. Agora o gigante parece cansado. Hum... Que alívio. O vento da chuva lambe meu corpo com seu frescor. AS FERIDAS PASSAM A DOER! Um grito infernal sai de minha boca. Apenas para se silenciar, engasgada com um mata leão. Meu pescoço é alvo de uma pressão descomunal. O braço do bombado está em volta da minha garganta. Que amador. No máximo um faixa amarela meia boca. Um gigante sem disciplina. Isso não é jiu-jitsu. É só força mais nada. Pena que não sinto meus braços. Conheço seis métodos que poderiam aleijar o filho da puta. Pena que... Bom. Meus ouvidos voltam a funcionar. Escuto risadas, eles estão desdenhando da minha pessoa. O anabolisado também zomba. Fico ofendido. Por que fazem isso? Por quê? Hein? Me respondam!
- POR QUÊ? – solto gutural cavernoso.
O Bombinha aperta ainda mais minha garganta. Engasgo com minha própria saliva. O quê não impede que eu continue a exorcizar o que há dentro de mim.
- EU MATEI UM HOMEM! MATEI UM HOMEM HOJE! HÁ, HÁ, HÁ! – gargalho para o demônio. – NÃO PENSEI DUAS VEZES! EU MATARIA TODOS VOCÊS AQUI MESMO! HÁ, HÁ, HÁ. SERIA MAIS FÁCIL QUE FODER A MÃE DE VOCÊS!
Meu pescoço é pressionado, isso não é o suficiente para me calar.
- EU MATEI! EU! MATEI! MAIS UMA VEZ! HÁ, HÁ, HÁ! – como isso é bom!
Minhas mãos tateiam o rosto do meu algoz. Quando encontro algo macio... Meu Deus! Há, há, há! Enfio meu dedo com vontade no seu olho! Uma gosma misturada com sangue me suja, acho que explodi seu globo ocular. O maldito sente a dor. Me debato em busca da liberdade. Preciso de ar! Mesmo urrando de dor, o desgraçado segura minha máscara, a medida que vou me libertando. Sua mão arranca meu disfarce! Nãããooo! Meu disfarce! Minha identidade secreta! MEU ROSTO! Minha face exposta! NÃÃÃOOO!
Agora livre minhas pernas entram em atividade. Corro! Corro como o diabo! Minha visão ainda está embaçada, sorte que logo na frente há uma saída, nada de porta, apenas uma abertura na parede. Transpasso o vidro como se ele não existisse. Vários cortes insignificantes maltratam meu rosto. A bandidagem esbraveja nas minhas costas! Queria que fossem somente palavras. Suas armas imitam seus donos e cospem o que tem. Os tijolos são estraçalhados. Alguns acertam meu kevlar. Não posso cair. Continuo a correr ganhando a rua que parece infinita a minha frente. Meu ouvido volta a falhar, os disparos agora são sons ocos. Isso não os torna menos mortal. Vamos seu maldito amador, fuja! Escape! Uma bala vara minha perna. O chão não me reclamará novamente! Não caio! Mesmo mancando continuo a escapar. COVARDE! Outro disparo corta meu ombro, ainda bem que de raspão. Mais sangue. MEDROSO! Sua mocinha corra! Viro a esquina. Não há nenhum morador na rua, ninguém, somente a chuva que castiga meu corpo.
Um homem sai das trevas. É o fogueteiro! O fogueteiro que eu aliviei a barra. Olho dentro dos seus olhos. Peço ajuda com o olhar. Então desvendo sua expressão. Ele não sofreu! Ele não tem os olhos de um favelado. É uma frieza sem calor. O desgraçado saca uma pistola, não perco tempo em ver qual é. Apenas continuo a fugir. A arma dispara! Meu abdômen sangra. Mais sangue. Avisto um matagal. A mãe natureza está pronta, somente ela irá me ajudar! Entro na mata, não sei se é um lote vago ou uma floresta.
As armas de fogo reclamam a meu corpo! Os tiros desbravam o mato melhor do que os bandeirantes. Consegui uma distancia boa. Pena que não acima de dez quilômetros! Os fuzis ainda me alcançam. A vertigem volta. Luzes brilhantes piscam a minha frente. São fogos de artifício. Me lembra quatro de julho nos Estados Unidos. Pisco. A beleza se foi. Pisco mais uma vez. Está ficando tudo escuro. Pisco repetidas vezes. Maldito frio. Deve ser a chuva. O negro do meu uniforme está vermelho. Gostei do visual mórbido. Tem um buraco na minha barriga. O frio aumenta. Minhas pernas ficam bambas. FORÇA! Seu viadinho! FORÇA! Tropeço. Meu rosto cai em meio ao barro. Sinto o gosto arenoso da terra molhada. Levanto. Continuo a mancar. Não sinto meus pés. O gélido frio aumenta. Então é a sensação. Assim que se...

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

Para os Homens – O quê precisa ser feito para não morrer encalhado

Agora eu sei o porquê de o Augusto Cury ganhar dinheiro. O que mais tem no mundo é gente precisando de... Auto-ajuda! Eu brinco com isso, mas é um assunto sério, afinal, psico-coisas são... Coisas sérias! E esse lance de auto-ajuda eu acho o top da bacanesa. Sério. Dizem que Breuer cuida de Nietzsche, Lacan e pá e tal, Freud explica tudo, mentira! Esse povo muito competente, inteligentes de primeira categoria, nos da o caminho para o auto-conhecimento. Algo difícil e raro, que levam as pessoas a criarem blogs, escreverem diários, compor músicas, cometer suicídio, fazer merda. E como eu sei que você, sim, o senhor ai que está lendo essas humildes e descoladas linhas, não tem a paciência, ou na pior das hipóteses acha esse lance de "se conhecer" muito homossexual, ou quem sabe não possui recursos para encarar uma análise, eu, Pedro Augusto, no codinome (eufemismo para apelido) Zé, tenho a resposta para seus problemas! Sentiu aí né? Estou atrevido hoje. Adiante. E qual é o único, o maior, o mais importante, o central, a designação de satisfação, o essencial... (respirando) ... o mais estupendo fator que move o mundo masculino? A mulher! E como bons heterossexuais não podemos viver sem essa obra de arte da natureza, logo, nosso fardo é conquistar! Amá-las, flertar com o que de mais belo há nesse globo rodante, é nosso objetivo, para isso papai do céu nos fez machos! Aos que não gostem de tal missão, juntem-se aos seus semelhantes e vão para São Paulo, desfilar na Avenida Paulista, sob a édge do arco-íris. Aos que gostam... E infelizmente... Vivem... (choro) ... sozinhos, não entendem como podem estar sábado anoite vendo cine peitinhos com a mão "nele". Buscam o que há de mais sofrido, quando abrem suas listas telefônicas em seus celulares super moderninhos, com bluetooth e tecnologia G3, e seguem os contados: André facul, Anderson facul, Bruno do futebol, Bêbe Mecânico, Cris Ksa, Cris cel 1, Cris cel 2, Celinho atleticano, Daniel Sempere, Danilinho segunda, Mãe, Tia Gil, Preta Gil... Seguido de toda a ordem alfabética, nomes de homens, e sim!, Cris era um homem. Para o senhor não morrer encalhado, não ter que ser taxado de tiozão, abaixo segue dicas comprovadas empiricamente, para você se tornar "O Homem da Ondinha".
Antes de prosseguir um ensinamento profundo, intrigante: "Mulher é como a eletricidade, você não precisa saber como funciona para tomar um choque".
Primeiro passo que deverá ser seguido, sob pena de se sentir um idiota caso não venha a cumpri-lo, é reconhecer que existem homens mais capacitados, mais bonitos, mais inteligentes, e mais "conversa mole" que você! Reconheça a inferioridade, sua incapacidade ao tentar conquistar uma mulher. Para assim começar do zero a escalada para o sucesso. Afinal, é o papai aí que está solteiro, no sentido de sozinho, simplificando, pegando ninguém.
Reconhecido seu estado depreciativo, a próxima atitude é alugar os seguintes filmes: Hitch, o Conselheiro Amoroso; Alfie, o Sedutor; e por fim, Do Que As Mulheres Gostam. Não pense que isso é ridículo! Se achar que é, volte a ler Augusto Cury, ou "Porque Os Homens Fazem Sexo? E As Mulheres Fazem Amor?", já li ambos e os filmes ajudam muito mais, por poucos e preciosos motivos. (1) Will Smith nos da dicas importantes, como o princípio máximo da conquista, "qualquer um pode ser um príncipe encantado, basta usar o cavalo certo", magnífico! (2) Jude Law é bonitão, tem classe e é refinado ao melhor estilo galã inglês, portanto, é um ótimo exemplo de macho a ser seguido. (3) Mel Gibson fez o mundo chorar em Paixão de Cristo e fez Máquina Mortífera, logo, alugue o terceiro filme indicado, ou morra.
Visto os filmes e reconhecida a fraqueza, tome cuidado com suas relações sociais. Revise seu modus operandi. Não seja o amigo delas! Se quer conquistá-las evite a amizade. Mulher adora jogar a desculpa esfarrapada do milênio, que perde só para o lavar de mãos de Pôncio Pilates, "não rola, vai estragar nossa amizade". Besteira. Falácia pior que a luz de razão do Zeitgeist. É eufemismo para, "não rola, com você não fico nem trêbada, você é fofo, pena que só isso". Viu? Concentre-se meu rapaz, se a garota está triste não chore com ela! Mostre força e apoio, nada de melação. Um bom amigo é sempre sensível, ou bruto demais. Tome cuidado com os extremos, volto mais tarde para o "extremo".

Vamos revisar agora o vestuário. Nada de roupas desbotadas ou muito repetidas. Usar camisa coladinha só se você estiver com o corpo bacana, se bem que o panceps masculino é menos condenável do que o da mulher, mesmo assim certifique-se que não seja nada medonho. Calças agarradas nem pense! A não ser que você seja um cantor de sertanejo, aí feio, bonito, burro, inteligente, você sempre terá aquelas fansetes "Vitor e Leo me come". Por compromisso com minha integridade moral, eu condeno calças de couro para pessoas comuns, como você. Eu? Eu tenho um blog, sou descolado ;-).

Viram como homem não tem mistério com relação ao vestuário? Continuemos.

Você já se concentrou em descartar a amizade, depois disso você deverá revisar por uma segunda vez seu modus operandi. Certifique-se de que você não é um "fogãozinho de ouro", a nomeclatura "microondas" também serve para o caso. O que vem a ser o fogãozinho de ouro? É aquele cara que somente "esquenta", não sai do lugar, só masca, só chicleta e não finaliza. Só isso? Não. Ele "esquenta" para outro! Porque enquanto ele gasta toda sua energia flertando, outro mais capacitado vem e... O final todos sabem.

Neste momento do texto você já é outro homem! Alguém novo, com conhecimentos para conquistar até a Cleo Pires, ou a Ana Paula Arósio, e isso sem ser governador de Minas! Chegou a hora de enquadrar a garota-objetivo em um nível. O nível 5 é o máximo (beleza de uma deusa, olhos que refletem o infinito do universo e um corpo de fazer inveja à Mulher Maravilha), o médio é 3 (as lindas, bonitas, as flores que colorem o jardim), e o 0 (as portas do inferno estão abertas, ou é a Terceira Guerra Mundial) é desespero total. Qual o motivo de tal classificação? A medida que o nível sobe a dificuldade vai aumentando, isso tomando as chicas pela sua generalidade é claro. Uma global pode chegar até o nível 4,5, aquela sua colega de faculdade pode ser encaixada no nível 3, quando arrumada na melhor das hípóteses um nível 3,5. A Preta Gil se encontra no patamar 2, para os que gostam de gordinha dou uma colher de chá e vamos para o 2,5. Mas lembrem-se, tais níveis são calculados com base em critérios estritamente objetivos, se a mocinha é gente boa, legal pra caramba, é um fator subjetivo não passível de "nivelância".

Aqui abrirei um parêntese importante. Os extremos podem ter sua dificuldade alterada, não se esqueçam. Uma mulher do nível 5, coisa que nunca vi na minha vida, apesar de existirem boas candidatas para tal, sofrem de um mal que chamo de "eu intimido a todos", ou "pegarei o primeiro corajoso que chegar em mim". Tal mal é explicado pela quantidade enorme de mulheres lindas com homens feios. E isso é bom para você, que é feio! Eu? Tenho um blog esqueceu? O mesmo ocorre para a lanterna da tabela, a mulher horrorosa, feia, a tal da "cremosa", sua dificuldade também pode ser aumentada para um nível superior ao do esperado, de dificuldade nula, para o PIOR TOCO DA SUA VIDA. Não se arrisque tanto meu caro, o auto-estima é uma jóia preciosa demais para ser lançada ao mar das aventuras desmedidas.

Tá. Chegamos ao ponto de dicas práticas. Faça-a rir. Mulheres adoram rir, não precisa pegar os canudinhos do refrigerante e colocar no nariz, existem meios mais eficazes. Quer um exemplo? Critique a roupa de outra do sexo feminino, se mostre leigo com isso, mas denote sua aversão a roupa da "concorrente" (todas mulheres se enxergam como concorrentes em potêncial). Faça-a gosta da sua presença. Você é um homem bacana, educado, descontraido, pelo amor do santo Hicht, não arrote, não peide! Seja, sendo prolixo, EDUCADO. Se for o primeiro encontro, passe perfume e faça a barba! Deixe a possibilidade de você ser "diferente" para um momento... diferente, mais introspectivo. NÃO RECITE NENHUM POEMA! Não, como já disse, no primeiro encontro, poemas são para momentos mais apaixonantes, coisa de namorados, coisa que você não é porque está solteiro, sozinho, abandonado. De Shakespeare ninguém precisa, não nos primeiros contatos. Se mostre letrado, não ao ponto da chatisse acadêmica, somente a dose certa para a mocinha ter a certeza que não conversa com um homem das cavernas. E por fim, PRATIQUE! O máximo que conseguir. Esqueça essa pseudo-aversão que elas tem do homem galinha, uma vez que, quando o homem é considerado galinha é porque ele "pega geral", se é geral é um número grande de pessoas do sexo feminino, então, PRATIQUE! Quem fala isso não sou eu, é Aristóteles. É somente com a prática que poderá ser alcançado o patamar de um homem conquistador, não existem conquistadores inatos, gênios da lábia de ouro, até os mais aptos tiveram que praticar, fazer daquilo um costume, sabendo o quê é certo fazer e também o quê é errado fazer.
Peço atenção máxima para o que se segue. Não faço alusão, muito menos apologia ao mau caratismo, à cafagestagem. Caras assim não merecem o respeito. Pessoas de baixo calão que não tem respeito pelo sentimento alheio, enganam, mentem DEMASIADAMENTE e DESMEDIDAMENTE. Não seja um cafageste, seja um solteiro eficiente!
Para os politicamente corretos que estão se remoendo por dentro, não venham cobrar exclusividade do "inexclusico", esse texto é para homens solteiros, livres e desempedidos. E mais ainda! Sabem o porquê de serem necessárias tais dicas, tais joguetes conquistatórios? O único motivo de precisarmos nos fazer valer de um teatro, nem que minimamente ensaiado, é de que VOCÊS seres femininos nunca abririam a cabeça para um, "eu gosto de você". É fato de que um simples "eu gosto de você" nunca é o bastante. Não quando um homem nem ao menos sabe o nome da mulher, pela qual seu coração bate com mais força, e até mesmo quando sabe. Chegar e se declarar com um simples e verdadeiro "eu gosto de você", é o primeiro passo para o rótulo de inexperiente, bobão, besta, infantil, disfarçado de um "ai que fofo, mas não rola". Essa é a triste realidade masculina, na qual os garotões encalhados sofrem, o medo de ser sincero e poder falar para quem ele gosta: "eu gosto de você".








O cavalo é o método, a busca infinita pela Técnica Perfeita, ser Príncipe Encantado depende mesmo é do coração.



Ontem






"Todo homem pode ser um principe encantado, só basta usar o cavalo certo".



Hoje

Sexta-feira, Novembro 07, 2008

Obama e McCain - Uma lição de civilidade

Arte encontrada no blog Matheus Sá Motta
Eu nunca vi o mundo tão eufórico como vi nesta última quarta-feira. Me lembrou a queda do muro de Berlim!
Tá certo, não me lembrou porcaria nenhuma. E sim! Eu ri por dentro, cada vez que aparecia alguém para defender a questão racial da eleição americana. E nem vou entrar nos ataques à Sarah Palin, vice do McCain. O próprio Obama driblou o tanto quanto pode tal rotulação. Volto nesse ponto daqui a pouco. Quem acompanhou a cobertura da Rede Globo, em especial o Jornal da Globo, e de vários outros meios de comunicação puderam perceber a seguinte particularidade: TODU MUNDO PASSOU A SER ANALISTA POLÍTICO. Não estou sendo elitista, apesar de gostar um pouco dessa posição, contudo a burrice é a característica mais anti-racial do planeta (ela não escolhe cor, nem bolso para dar as caras), não quero me justificar, portanto, contenham-se. Também não estou chorando as mágoas do benefício que temos na democracia, a liberdade de expressão. Acontece que com relação às eleições do maior Estado democrático do planeta, existem coisas mais bacanas, mais "conteudescas" (olha o neologismo aê!), e até mais relevantes a serem ponderadas, do que as sandices porcas e anti-americanas que vemos por ai. Abaixo tratarei de algumas. Juro que não é um texto muito longo.
Ser anti-americano é como ser comunista na adolescência. É lei! Todos falavam "o socialismo de verdade não foi implementado", era a verdade suprema da idade áurea. Outra verdade suprema é de que os americanos são um império cruel, consumista, em suma, grandes capitalistas fomentadores da pobreza no mundo. Eles jogaram uma bomba atômica, melhor, duas! Eu sei. Condeno isso desde os meus 12 anos de idade, quando filosofei a respeito em uma aula de história. Outra coisa, esse texto não é destinado à santificação dos americanos, então, continuemos.
Falo das bobagens anti-americanas porque elas são erradas, falsas ou desmedidas. Primeiro o capitalismo é o melhor modelo econômico que já existiu. Não há dúvidas. Não é o "céu" na terra, como promete o Comunismo. Funciona, gera renda, saúde, distribui riquezas, melhor do que ninguém. Está em crise? Claro que está. Faz parte. Não é uma volta as estatizações, nem o fim do, NINGUÉM define, neoliberalismo. Analisando de maneira singela, o excesso de confiança, o inadimplemento, a entrada de países emergentes como potências econômicas (China e Índia), até o grande crescimento econômico americano dos anos anteriores (daí o excesso de confiança que, posteriormente, culminou da falta da mesma) contribuem para crise. Farei um apanhado histórico da bomba. Tudo começou quando deram crédito em excesso ao mercado imobiliário americano, e crédito excessivo - e essa é uma opinião pessoal com respaldo na realidade - é sinônimo de superindividamento e inadimplemento. Lembrem-se o crédito não é, digamos, din-din vivo. Nunca se esqueçam disso. Com o grande número de financiamentos não sendo pagos, o mercado se tornou temeroso, vários fundos de investimento estão sendo "garantidos" por tais financiamentos. Tentando simplificar o insimplificável, "não paga pra mim, não pagarei, ou terei dificuldades em pagar, o outro". Não conseguindo pagar suas dívidas, para qualquer cidadão com o mínimo de inteligência, qual a primeira medida? Vender tudo e sumir do mapa? Dar o cano? "Devo e não nego"? Não, não! Reduzir o consumo moçada. E como conseqüência disso aconteceria uma retração na economia americana, e está acontecendo. Outras conseqüências desse temor são: a venda desenfreada de ações e outro títulos mobiliários no mercado financeiro, daí a queda das bolsas; e ainda com esse foco, os investimentos caem, e a galerinha empresarial, ou falirá, ou tentará algum outro meio para isso não acontecer, como a concordata no caso americano (não existe mais esse instituto no Brasil desde 2005, com a Lei 11.101/05, que trata da Recuperação Judicial e da Falência), e até, em casos extremos, irá chorar uma intervenção estatal. Se alguém ai falar algo do tipo "tá vendo, voltemos a ler Marx, o capitalismo acabou", lhe darei aquele chapeuzinho de burro do texto "Para Tudo Melhorar, e te deixarei no canto da sala. O Estado sim deve intervir, afinal o Estado Liberal não funcionou, nem o Social, mas somente em momentos como esses, extremos, de crise. Sua função é regulamentadora. Pagamos tributos e fizemos o tão queridinho "contrato social" para que?
Se alguém ainda duvida da força do capitalismo, dêem uma sacada no dólar. A moeda americana. Por que ele sobe? Não houve um "stop" geral nos investimentos, essa leva foi direcionada para o dólar, que é um investimento mais seguro e não têm uma desvalorização tão volátil como as ações de alguma companhia.
Entendida a crise, voltando dessa viagem astral ao mercado financeiro, hora de concentrar no anti-americanismo do lixão. A questão racial. Ah! Um negro na presidência. Tudo que os americanos não querem, ou repudiaram, negro, nome muçulmano, um representante das minorias categóricas. Ah! Que lindo. Enfim, eles tiveram juízo! Só faltou ele ser gay. Esse é o tipo de discurso que me fazer pensar no suicídio. Obama não é Nelson Mandela! A mãe dele era branca sabiam? O próprio evitou, ao longo de sua campanha, sustentar tal discurso. É uma babaquice tamanha. Um filosófo brasileiro, não lembro o nome, falou ao Jornal da Globo, a seguinte pérola: "agora sim acabou a Guerra Civil americana". Pronto. Explodi minha cabeça, cortei meus pulsos. Primeiro quem ganhou a tal guerra era quem condenava a escravidão. Retomando. Toda a imprensa, de forma bem geral mesmo!, tinha a idéia de que não votar em Barack Obama era uma atitude racista. Essa idéia é implícita, confirmada no dia da vitória por certos comentários e modo de tratar a vitória. "Não vai votar em um negro? Seu branquelo safado, republicano da Ku Klus Kan!". Não é por ai minha gente, o voto foi tratado por muitos como um revanchismo racial, a famosa justiça histórica, se lembram? A mesma que matou judeus na Segunda Guerra, "eles crucificaram Jesus uai!", ou então os terremotos na China, como já abria a boca para explicar a nossa pseudo-pensadora Sharon Stone, "é karma".
Se a sociedade americana ERA tão racista - como alguns defenderam - e HOJE não é mais, por que no cinema (isso Hollywood!) apareceram uns bons presidentes negros? Alguém reclamou disso? Alguém impediu isso? Alguém SEQUER chegou a fazer um raciocínio racial a respeito? Claro que não! Porque não precisamos fazer isso! Uns bons leitores do Pato Donald o monstro capitalista podem ter pensado a respeito, esse time gosta disso. Tem até um filme O Presidente Negro (The Man), lançado em 1972 - eta traduçãozinha porca desse Brasil, estão vendo, ELES eram racistas. Antes desse temos Rufus Jones for President, de 1933, com Sammy Davis Jr. O grande Morgan Freeman papel do presidente Tom Beck em Impacto Profundo, de 1998. Tommy Tiny Lister também foi o presidente Lindberg em O Quinto Elemento (filme bem bacana!). E muitos outros! Na televisão também temos um presidente afro-americano, alguém ai assistiu 24 horas?
Falar em questão racial como um ponto definidor, elevar esse discurso à justiça história é ser mais racistas do que as cotas para negros que temos no Brasil!
Chega disso, passaremos para outro ponto. O messianismo do Osama, ops, Obama. Eu nunca dou atenção para os grandes salvadores da humanidade. Nunca mesmo! Gosto disso só nos quadrinhos, nos filmes, nos romances que leio. Na vida real esse papinho mequetrefe não cola. Entretando, se eu fosse americano, votaria no Barack Obama. "Uai Zé, está se contradizendo-se?". Não estou não, votaria nele porque acredito na alternância do poder, os republicanos ficaram oito anos, hora de mudar (CHANGE!). Não no sentido de reviravolta milagrosa, apenas uma mudança democrática. Voltemos. Salvadores sempre matam mais do que salvam, quando não cagam a merda toda. Exemplos, eu sei que vocês querem exemplos, não é? Getúlio Vargas foi um desses. Naquela época nem sabíamos direito, êta povinho atrasado, o que era a Democracia. O cara era um demagogo de marca maior, leiam o texto "Fudendo, Flertando e Explicando a Democracia - Parte 3", lá poderá ser encontrado um trecho da carta que "ele" escreveu antes de morrer. Jesus era um poeta chinfrim rapaz, perto de Vargas! Ainda no Brasil, temos Lula, o Alibabá da Terra dos Macaquitos. Remexam a memória para o dia da sua posse, não conseguindo fazer isso, entrem no Youtube, lá deve ter. "Atravessando o Atlântico", caímos na Rússia, quantos morreram por lá? Muitos, milhares, milhões! E quem estava lá para salvar os oprimidos e botar o proletariado no poder? Lênin, Stálin, Tróstski. E que tal Cuba? "Fidel, o fumador de charuto", e seu colega do grêmio universitário no curso de Marxismo e Revolução, "Che, el safadon". Esse povo mata mesmo! Ou os cubanos queriam fugir de Cuba no Pan porque lá é o primeiro mundo? Viajei demais, vocês que queriam exemplos pô. Obama é diferente destes por força do óbvio, mas ainda assim discursava como um Messias. Promete milagres, "espalhar a riqueza", como se isso já estivesse acontecido! Como se fizesse isso num passe de mágica. Calma, peço calma e pé na realidade, mais nada.
Outro tópico é a tal vitória massiva do candidato. Esperem um pouco... Ele não foi eleito com 100% dos votos. É o que acreditam os ANALISTAS que opinaram sobre sua vitória para o Jornal da Globo, e para onde quer que eu olhava. No Programa do Jô, joguei uns bons minutos da minha vida fora vendo a entrevista do, SEI LÁ O QUÊ que esse homem faz, Tom Zé. Esbravejando de forma teatral baboseiras diversas, das notas musicais no funk carioca, até demonizando George W. Bush. Queria ver alguém demonizar o Putin! Só por aqui opiniões como essas são relevantes, o auditório do Jô foi ao delírio! E eu cá, sentado na minha cama, pensando "que coisa ridícula". E detalhe, o auditório é composto por estudantes. Estou com uma vontade enorme de falar mal do Tom Zé, mas o que falo serve para qualquer um, inclusive Chico Buarque, com suas ilusões comunistas pró-Cuba. Mais a respeito desse tipo de retórica, leiam outro texto meu "Retórica das Falsas Verdades".
Cansei. Já meti a bordoada, vamos para os elogios, e reparem, acredito que os Estados Unidos são uma das maiores democracias do globo. Prova disso foi o discurso da vitória de Obama, e o da "derrota" de McCain. Invejável! Magnífico! Aquilo que é um país unido, mesmo nas disputas. Um país sem censura. Aonde a imprensa é livre para ter um "lado", isso mesmo, coisa que aqui na América das Bananeiras não é permitido. A campanha americana foi abrangente, não escolheu raça, nem cor, nem categoria! Foi uma vitória do indivíduo, do americano! Das leis e da Constituição! Latinos, Negros, Brancos, Amarelos, Verdes, confiando em uma instituição, essa sim a chave para a civilidade. Uma instituição que se perdura no tempo. Homens morrem, são apagados, as instituições permanecem! Os princípios também. Liberdade e tolerância. Citarei aqui o "derrotado", o "vencido" John McCain, a melhor frase que escutei esse ano (sim eu vi esse discurso), com relação à política. Tal dizer carrega uma virtude máxima da democracia, deixa transparecer o que a de mais civilizado na humanidade, e foi dita sem nenhum rancor, muito pelo contrário. Pedirei a vocês que leiam com os olhos de quem acredita no que chamamos de ser humano.
"Ele era meu adversário, agora é meu presidente".

Quinta-feira, Novembro 06, 2008

Rodada Doha e a Política Externa Brasileira

Algumas ponderações:

Eu sei que o tema é antigo. Pasmem! Agosto de 2008. Passado! E esse texto foi feito naquela época. É chato! Eu sei! Falar sobre vestidos e sobre meus sentimentos é muitooo mais legal, bacana, gostoso de ler, e até, acreditem, mais construtivo. Como nem tudo no jardim são flores, vamos falar sobre economia (não econômia, fiquem tranquilos -" ¨" esse ai foi abolido - defensores da gramática) e política. O "artigo" que se segue também é tema do meu trabalho para a disciplina Direito Internacional Público. O que é a Rodada Doha? Leia e você saberá. Quem sabe aparecerá algo aqui sobre a crise financeira, ou sobre Obama, quero guardar para a retrospectiva de praxe.

Beijos e abraços a todos.

Rodada Doha e Absurdos na Política Externa Em 2008

O ano de 2008 marca vários acontecimentos com grande relevância internacional. Além de um evento mundialmente querido, as Olimpíadas, temos outro evento de menor cobertura por parte dos meios de comunicação comparado aos tão queridos jogos, a Rodada Doha. Internacionalmente, vivemos momentos interessantes. Descoberta de petróleo da camada pré-sal no Estado do Espírito Santo, acompanhada com a declaração do Presidente, "em setembro deste ano vamos começar a fazer exploração experimental no Espírito Santo, numa área que foi descoberta recentemente pela Petrobras". Um suposto interesse americano nessa descoberta, como se pode ver em notícia da enviada especial da BBC Brasil a San Miguel de Tucumán – “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira que quer explicações dos Estados Unidos sobre a Quarta Frota da marinha americana, que reapareceu nas águas da América Latina quase 60 anos após ter sido desativada”. A guerra na Geórgia, que merece sérias reflexões a respeito, principalmente com o foco direcionado aos princípios do Direito Internacional. Tal guerra que terá ainda muitas conseqüências, facilmente perceptíveis pelas declarações americanas, com apoio da União Européia, que condenam a ocupação russa em território da Geórgia. Junto com a tentativa frustrada da ONU em buscar um cessar fogo, e até tendo a OTAN congelado relações com Moscou. A suposta ligação entre indivíduos do governo brasileiro com as FARC - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. O resgate de Ingrid Betancourt, seqüestrada pelas Farc, em uma operação coordenada pelo presidente colombiano Álvaro Uribe. A recente crise econômica que deixou de ser somente “americana”. Certas eleições (admiráveis democraticamente) e o mais novo salvador do mundo (eleito pelo mundo e pelos americanos): Barack Osama, ops, Obama.
Em meio a esse cenário global destacarei a já referida Rodada Doha e a fala infeliz do nosso Ministro Celso Amorim no término das negociações.

Rodada Doha e Celso Amorim

A “Agenda Doha de Desenvolvimento” é o nome da conhecida Rodada Doha, basicamente é uma abrangente negociação promovida pela Organização Mundial do Comercio (OMC) com o objetivo de flexibilizar barreiras econômicas. Acompanhando a necessidade de redução das tarifas e subsídios no comercio internacional, tal rodada foi aberta em 2001 e não possui uma conclusão concreta até os dias de hoje.
É clara a dificuldade encontrada em se alcançar o objetivo proposto pelo evento que reúne 153 países do globo em Genebra, na Suíça. As negociações envolvem interesses tanto de países desenvolvidos quanto os dos chamados países em desenvolvimento. Enquanto esses querem aumentar suas exportações de produtos agrícolas, os ditos países ricos anseiam maior acesso ao mercado de produtos industriais dos emergentes. Segundo Ronaldo França na revista Veja, “
é isso que torna a discussão tão complexa, além do fato de que o arsenal de instrumentos criados para proteger mercados ou incentivar produtores é vasto. O rol inclui tarifas à importação (algumas chegam a 900% do preço dos produtos), subsídios (domésticos, dados diretamente aos produtores, ou à exportação), cotas de importação, medidas sanitárias e até expedientes inacreditáveis, como o uso intencional da morosidade na aplicação de medidas sanitárias”. É nesse “conflito de interesses” que está a fonte do fracasso de tais negociações, países como Índia e China, diferente do Brasil, não concordaram com o pacote de soluções apresentadas pelo diretor-geral da organização internacional Pascal Lamy. Pacote esse também rejeitado pelos Estados Unidos.
No desenrolar do não entendimento entre as nações, ficou claro que o assunto “quebra de fronteiras” é algo ainda polêmico para o comercio mundial. Declarações como do Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, que declarou que a Rodada de Doha não tem maior importância, uma vez que tudo se resolverá independentemente do que for tratado ali.


Outro ponto de discórdia é a respeito do Etanol, segundo o Jornal da Globo, o galão de etanol paga uma taxa de US$ 0,54 para entrar no mercado americano, o que inviabiliza as exportações do álcool brasileiro. Tema que os americanos resistiram em debater.
Há também, ainda conforme o Jornal da Globo, uma política protecionista por parte da Europa, que se recusam a baixar tarifas justamente nos produtos em que os países em desenvolvimento são mais competitivos: como o frango e o açúcar.
O fracasso da Rodada Doha foi confirmado com o fim das negociações. Mesmo com o mérito de ter desmascarado as divergências que impedem um real desenvolvimento comercial no mundo, não houve nenhum acordo real que beneficiasse o Brasil. Tal insucesso culminou em falas infelizes por parte do Ministro das Relações Exteriores do Brasil, que chegou a comparar o discurso dos países ricos as técnicas de desinformação nazista, usadas por Joseph Goebbels na Segunda Guerra.
"Goebbels sempre dizia que quando se repete uma mentira muitas vezes, ela se torna verdade", afirmou o chanceler. Em reportagem de Jamil Chade no Estadão, podemos ver que o Ministro abandonou as sutilezas diplomáticas causando espanto nos outros negociadores, "quando eu vejo o que é dito sobre a liberalização no setor agrícola e no setor industrial, não tenho como não me lembrar de Goebbels. Isso precisa ser desmascarado e não podemos ter um acordo baseado na desinformação". A fala foi deselegante, provocando até a reação do porta voz da representante americana Susan Shwab, judia. O porta-voz classificou a fala de “inacreditavelmente errada, além de qualquer imaginação”.
O colunista da revista Veja, Reinaldo Azevedo, criticou fortemente a fala do Ministro, como também outras atuações no campo internacional, listando no que, ao seu ver, são “desastres” nas relações externas de nosso país:

- Amorim tentou emplacar Luís Felipe de Seixas Corrêa na Organização Mundial do Comércio em 2005. Perdeu. Sabem qual foi o único país latino-americano que votou no Brasil? O Panamá!!!

- Também em 2005, o Brasil tentou emplacar João Sayad na presidência do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Deu errado outra vez. Dos nove membros, só quatro votaram no Brasil — do Mercosul, apenas um: a Argentina.

- O Brasil tenta, como obsessão, a ampliação (e uma vaga permanente) do Conselho de Segurança da ONU. Quem não quer? Parte da resistência ativa à pretensão está justamente no continente: México, Argentina e, por motivos óbvios e justificados, a Colômbia.

- Sob o reinado dos trapalhões do Itamaraty, Lula fez um périplo pelas ditaduras árabes do Oriente Médio. O Babalorixá deixou de visitar a única democracia da região: Israel.

- Em maio de 2005, no extremo da ridicularia, o Brasil realizou a cúpula América do Sul-Países Árabes. Era Lula estreando como rival de George W. Bush, se é que vocês me entendem. Falando a um bando de ditadores, alguns deles financiadores do terrorismo, o Apedeuta celebrou o exercício de democracia e de tolerância.

- A política externa brasileira tem sido de um ridículo sem fim. Em 2006, país votou contra Israel no Conselho de Direitos Humanos da ONU, mas, no ano anterior, negara-se a condenar o governo do Sudão por proteger uma milícia genocida, que praticou os massacres de Darfur. Por que o Brasil quer tanto uma vaga no Conselho de Segurança da ONU? Que senso tão atilado de justiça exibe para fazer tal pleito?

- E tudo isso por quê? Antiamericanismo tosco; complexo de inferioridade vertido em arrogância de gente recalcada. O governo que tem a pretensão de dar lições ao mundo não consegue ter uma voz minimamente ativa no conflito Colômbia-Farc, que está naquela que deveria ser a sua área de influência. Pior do que isso: é descaradamente leniente com o terrorismo.

No caso da Colômbia, se bem se lembram, Amorim foi quem liderou o esforço para condenar Álvaro Uribe na OEA por conta do que chamava “invasão do território do Equador”, país que, deixaram claros os documentos encontrados no computador de Raúl Reyes, dava apoio aos narcoterroristas.”

Houve outra declaração do Ministro capaz de provocar certa inquietação intelectual. “Deus queira que não seja preciso um outro 11 de Setembro”. Essa declaração pode ser conferida em diversos meios de comunicação, como O Globo, revista Veja e CBN. Essa fala acompanha a lógica usada pelo Presidente brasileiro: "tenho dito que sou o mais otimista dos mais dirigentes do mundo sobre a possibilidade de fazer um acordo na rodada de Doha até porque estou convencido que se nós quisermos ter paz no mundo e combatermos o terrorismo, evitar essa perseguição existe aos imigrantes no mundo inteiro". O presidente afirma que "nós temos de ajudar a desenvolver os países mais pobres (...). Em que os europeus flexibilizem no mercado de agricultura para que os países pobres possam vender seus produtos, e para que os Estados Unidos reduzam seus subsídios e que nós, do G20, façamos uma flexibilização dos produtos industriais.”, noticiado por Renata Giraldi, na Folha On Line. Tal lógica não pode ser considerada de outra maneira a não ser infeliz. Ela traz a culpa de atentados terroristas para as próprias vítimas e para os desarranjos comerciais. Chega a ser difícil traçar um paralelo “comércio mundial justo” com o “fundamentalismo islâmico”, por exemplo.
Tais declarações mostram a frágil ideologia daqueles que representam o Brasil no exterior. Enfocar um “marqueteiro” nazista em comparação ao comportamento de países chaves na Rodada Doha, importante negociação aonde participaram várias nações econômica e politicamente relevantes, e colocar os Estados Unidos, pela sua política protecionista, como culpados do atentado terrorista em 11 de Setembro é, como já afirmei, no mínimo deselegante. “Retira” o Brasil de uma posição, tão aclamada por alguns, de “neutralidade”, e nos coloca na contra-mão do progresso e do status de uma nação relevante internacionalmente.


Referências:

- Jornal O Globo, http://oglobo.globo.com/.

- Estadão On Line, http://www.estadao.com.br/home.shtm.

- Folha On Line, http://www.folha.uol.com.br/.

- Agência Efe,
http://www.efe.com/principal.asp?opcion=0&idioma=PORTUGUES
.

- Laços Explosivos, reportagem da edição 1896 da revista Veja,
http://veja.abril.com.br/160305/p_044.html.

- Reinaldo Azevedo http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2008/05/as-farc-no-brasil-e-olivrio-medina-um.html.

- Diogo Mainardi http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/040608/mainardi.shtml.

- Jornal El Tiempo, http://www.eltiempo.com/archivo/documento/CMS-4157739.

- Revista Cambio, http://www.cambio.com.co/portadacambio/787/ARTICULO-WEB-NOTA_INTERIOR_CAMBIO-4418592.html.

- Reuters, http://br.reuters.com/.

- Portal G1, http://g1.globo.com/.

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XII – A Diferença Entre Heróis e Vilões

Fico tenso só de imaginar. Vai dar merda! Policiais despreparados, bandidos bem armados e um túnel. Para piorar, um túnel engarrafado! Milhares de pessoas desesperadas, no meio de uma saraiva de tiros. Vai dar merda! Acelero ainda mais.
- Vai ser o vídeo mais assistido do ano! – comemora o garoto.
- Quantos anos você tem? – pergunto.
- Dezoito. Já sou de maior! – a fala termina com um sorriso.
- Maior! Não DE maior. Agora escute com atenção... – sou interrompido pelo seu celular, que toca uma música de gosto bastante duvidoso. Um hip-hop americano. Desses filmes acéfalos, aonde o rapper é o herói. Uma atuação ridícula, mas isso não importa, não é?
- Alô? – fala o garoto. – Não conta pro papai viu mãe... Isso. Pô mãe! Tá bom... Ahan... Não esqueço. Aonde eu estou? O lance é o seguinte... Calma! Eu to falando! Tá tudo bem sim. É que o Jack Built, sabe, aquele que veio de Minas Gerais e ta espancando neguim a rodo por ai... Porra mãe! Calma aí, ele num me bateu não! – agora o garoto faz uma cara de quem está com problemas, preparando para dar a notícia para sua mamãe. – Ele pego o Porsche do papai. – ele fecha os olhos, a mamãe está gritando, até eu posso escutar.
O celular quase cai de sua mão, quando sou obrigado a ultrapassar três carros de uma só vez. Freio um pouco, passo apertado no meio de dois. Os restos da explosão não passa de uma nuvem negra tomando o céu atrás de mim. As viaturas da policia e a segurança nem me notam dentro do Porsche, passam desapercebidas na pista contrária. A discussão familiar continua ao meu lado.
- Relaxa mãe. Agente só vai pegar alguns bandidos, né não? – o filhinho da mamãe olha para mim e pisca. – Iii mãe. Tá. Ok. Certo. Tudo bem. Ela quer falar com você. – sua mão se estende para me entregar o telefone.
- O quê? – indago.
- Ela quer falar com você.
- Que merda! Passa logo esse telefone. – pego o celular. – Alô? Escute aqui senhora... Como? Não espere aí... – o garoto zomba de mim, fazendo gestos de “você se fudeu” com a mão. – Pode deixar! - a velha continua a falar, eu retiro o celular dos meus ouvidos.
Enquanto sou obrigado a desviar de carros e mais carros a duzentos quilômetros por hora, agora virei babá! Que mulher chata. Abro o vidro da minha janela, o vento entra de forma violenta, alguns papéis começam a voar. Coloco o celular na boca no garoto.
- Da um tchauzinho para a mamãe, júnior!
Ele não entende. Jogo o celular fora, como se fosse um papel de bala.
- Porra cara! Que caralho! Esse era um Nokia N81! – o bebê quase chora, ao ver seu brinquedo ser estraçalhado ao se chocar com o asfalto, espalhando seus micros pedaços para todo o lado.
- Se segura. – aviso.
Ele entende o recado quando vê logo à frente a guarita do pedágio. A visão está embaçada, a velocidade provoca esse efeito. Ali há uma guarita vazia. Se eu tentar parar vou capotar. Se eu parar terei de responder mais perguntas do que para uma mãe preocupada. Atravesso toda a pista, da esquerda à direita, ignorando qualquer regra de trânsito. Seta? Não há como se lembrar dessa porcaria neste momento. Passo vazado na guarida, estourando a cancela, o Porsche chega a sair alguns centímetros do chão devido a um elevado na pista. Os pneus voltam a atritar com o chão em questão de segundos. Continuo meu caminho, deixando para trás um quase infarto para a caixa do pedágio.
- Uooouuu! – festeja o júnior. Eu sei como ele se sente.

RIO DE JANEIRO – 04 DE AGOSTO DE 2008
12:39 PM

Meus músculos doem. O caminho está tranqüilo. Daqui a um minuto já avistarei o túnel. O problema é que meu corpo inteiro está doendo. Não durmo bem faz uma cara. Esse trabalho ainda vai acabar comigo. O garoto ao meu lado não para de falar, eu por sinal, parei de escutar desde seu último grito lá na ponte. Ele fala algo sobre mulheres. Que eu devo, como ele fala, “azarar aos montes”. Não sou tão mais velho que ele, e realmente nesse assunto eu não posso reclamar. Meus olhos querem fechar. Meus músculos doem.
- Será que você não precisa de um parceiro? – pergunta o sujeito com ar de curiosidade.
Eu caio na gargalhada. Riu bastante, deixo o pobre coitado sem graça. Mas isso é muito engraçado! Cacete! Como isso é engraçado! Avisto o túnel, já era de se prever que estou perto, o trânsito está denso, engarrafamento logo à frente. Nem por isso diminuo a velocidade. Acho que arranquei um retrovisor logo ali atrás.
Termino a curva e lá está. Odeio congestionamentos. Quem não odeia essa merda? Usando uma filosofia de moto-boy, são as veias da cidade estão entupidas pelo volume excessivo de veículos. Hora de desacelerar. Breco com força! Com vontade! Todos a nossa volta se assustam. Já posso escutar o tiroteio dentro do túnel. O Porsche chega a derrapar por um instante, as dores se foram. Penso nas pessoas. Abaixadas entre os bancos rezando para que a lataria de seu carro agüente. Isso tem que acabar rápido. O Porsche parou. Abro a porta, me preparo para sair.
- Obrigado Robin! – não espero resposta.
Sigo correndo para o túnel, em meio a carros, motos, caminhões, ônibus, e dedos apontados para mim.

RIO DE JANEIRO – 04 DE AGOSTO DE 2008
12:41 PM

Avisto uma viatura recebendo tiros. Um policial militar está sangrando. Tenta se proteger encostado na roda de sua viatura. O outro está bem, com seu 38 na mão, enfrentando os vermes. Curvo um pouco meu corpo, não quero que os bandidos me vejam chegando. Pessoas gritam lá dentro. Posso escutá-las. Cada uma delas. O policial ferido me vê, seus olhos agora denotam esperança. O outro despeja suas seis balas de uma só vez. Vejo para onde ele está atirando, dois Fiats Bravo bem adentro ao túnel. Não consigo contar quantos homens são.
- Vocês são os únicos aqui? – indago.
O PM ferido me responde. Ele respira ofegante, agora vejo seu ferimento. Sua barriga sangra, sua mão tenta inutilmente impedir que o sangue fuja.
- Isso ai. Ninguém mais queria encarar esses viados.
O outro vê que eu cheguei. Carrega suas últimas balas. Apenas seis. Contra as automáticas com milhares de balas.
- Até que enfim você chegou porra! Éramos os únicos que estavam aqui por perto. Esse aí. – aponta para o parceiro. – Insistiu pra vir pegar os meliantes. Falei que não devíamos mexer com isso. Viu no que deu? – grita com o ferido.
- Se acalma ai homem. – tento não piorar a situação. – São quantos lá dentro do túnel?
- Sete. – responde o PM. – E bem armados!
- O reforço deve chegar logo. – eu rezo para que chegue, nunca me espanto quando a Polícia demora ou é incompetente demais. É do jogo.
- Reforço? – grita o policial. – O único reforço que sempre temos é esse aqui ó! – se levanta e gasta toda sua munição, atirando a esmo dentro do túnel.
- Não! – tento segurar o homem. Tarde demais.
Ao se levantar deixou seu corpo exposto. E o pior acontece. Recebe quatro tiros ao longo do tronco, bate em um dos carros ao lado, pintando-o de vermelho. Vermelho! Agora agoniza, tentando sobreviver, com quatro buracos no peito. Seu colete a prova de balas é vagabundo. Além de não segurar os tiros, diminuem sua força, deixando as balas incrustadas entre seus órgãos. O policial já ferido se desespera.
- Você ainda tem munição? – pergunto.
Ele confirma com a cabeça, que está toda suada.
- Preciso chegar até a entrada do túnel. Lá vou tentar arranjar um caminho para surpreender a bandidagem. Eles sabem que estão sem saída. Vão tentar armar uma. Você vai me dar cobertura. Relaxe, são poucos metros. Atraia a atenção deles por alguns segundos, depois fuja, corra, faça o que quiser! Você consegue atirar ainda?
- Claro. – a resposta sai trêmula.
Seus olhos me olham com seriedade. Ele prende a respiração. Fecha os olhos por dois segundos. Uma pequena prece.
- Pronto? – pergunto.
Ele confirma com a cabeça.
- AGORA! – grito.
O homem levanta e começa a atirar! Corro! Corro como nunca! Pulo em cima do capo de um carro, caio com a técnica de rolamento, continuo a correr! Não posso parar! O policial tem seis disparos. Já foram três. Chego na entrada do túnel. Agacho perto de uma caminhonete. O quarto disparo corta o ar. Pense rápido sua mula! São sete homens. Preciso surpreendê-los. O túnel tem duas entradas, logo, eles já prevêem que um ataque pode... Isso! Atacarei pelo alto. Escuto o quinto disparo. Olho para o teto do túnel, as luzes são segmentadas, todas presas a uma espécie de trilho. Um emaranhado de ferro. Uma linha. Que liga lâmpada em lâmpada. Ali passam os fios. É o mesmo suporte para os exaustores, que retiram o ar quente de dentro do túnel. Isso tem que dar certo. O sexto disparo encerra minha cobertura. Os bandidos respondem ao ataque do policial. Não são nada carinhosos! Suas automáticas atingem a viatura, e também outros carros. As pessoas gritam! Balas perdidas, aos montes! Isso tem que acabar! Miro o gancho do meu exoesqueleto no teto. Direciono-o para o tal “trilho” da luz. Atiro. O pequeno arpão segue seu caminho com perfeição, e fixa no teto. Aciono o carretel e sou puxado para cima, ninguém viu isso acontecendo. O barulho, não passou de mais um dos milhares. Os bandidos se concentram na viatura. Agarro-me ao “lustre” que enfeita esse buraco infernal. Destravo o gancho.
Como um macaco, vou me movimentando nesses suportes de aço. São alguns metros até os carros dos desgraçados, eu agüento! A dor se foi. Deve ser a adrenalina. Já passei por coisa pior. Vai ser fácil! Isso. Continue se enganando seu asno, são no mínimo uns cem carros ali embaixo, a mercê de uns filhos da puta armados até os dentes... E você está sozinho! Pelo menos a dor se foi. Meus bíceps são obrigados a agüentar o peso do meu corpo mais uma vez. São minhas pernas no teto. A cada “passo” eles ardem. Não doem, apenas ardem!
Agora posso ver claramente quem serão meus alvos. Sete homens. Vestidos casualmente. Isso aqui deve ser um passeio no shopping para eles. Só que deu errado! Todos usam coletes a prova de balas. Noto que a qualidade é superior ao do pobre policial. A obviedade é mortal nesses casos. Eles estão espalhados em torno dos dois Fiats Bravo. Abriram suas portas, para servir de escudo. Também usa os demais veículos como proteção. Um dos sete homens, grita com os demais, coordenando-os. Esse será o primeiro a cair. Provavelmente o mais inteligente, o líder. Está um pouco afobado, deve estar maquinando um meio de sair desse túnel. Não vou dar esse tempo ao marginal!
Mais uma vez usarei o arpão. Miro no centro do teto, balançarei ao modo Tarzan, preciso cair no meio dos desgraçados. Assim evitarão de usar suas armas em curta distância. Espero. O exoesqueleto é pesado, está incomodando desde a ponte. Vinte quilos a mais no meu corpo, fora as armas brancas que trago. Foda-se! O bagulho é útil! Atiro bem aonde preciso, o gancho se prende. Hora de balançar! Agora sim eles me viram! Salto e me concentro! Caio em cima de um Bravo, as janelas explodem pelo peso inesperado no teto do carro. Todos os sete se preparam para atacar. Saco minhas lâminas. Dou uma cambalhota para trás, escapando de uma rajada de tiros. Caio no meio de dois! É a hora de passar a faca na galera! Um dos homens aponta sua arma para mim, acerto-a e os tiros vão direto para o Bravo, salpicando na lataria, atinjo-o com um chute na barriga, seguido de golpes com as lâminas cortando sua pele. Não dou tempo para o outro reagir, lanço meu pé até sua boca, um belo chute giratório, sua mandíbula sai do lugar em razão do golpe violento, jogando sua cabeça na traseira de um Gol! São mais cinco. Um branquelo sobe em cima do Bravo que usei para aterrissar, esse vai conseguir me acertar, que merda! Me escondo como posso no meio dos carros. Torcendo para que nenhum desses estalos de cada bala me atinja. Respiro por um instante. Subo no automóvel que uso como escudo. Agora seguro a lâmina, não pelo cabo, mas no próprio metal afiado, e lanço-a em direção ao branquelo. A arma faz seu papel, vai de encontro do ombro do meliante. O impacto faz com que caia de cima do carro. De cabeça! Faltam quatro agora. Avanço sem pensar nas conseqüências! Salto mais uma vez para atacar dois deles. Eles atiram! Erram a maioria. Os que acertaram meu kevlar deu conta! Aterriso em cima dos dois. Eles se debatem, enquanto rasgo sua carne! Nada fatal! Apenas para deixá-los no hospital por muito tempo! Pego suas armas e as jogo longe.
- Você vai morrer seu filho de um puta! – grita alguém atrás de mim.
Escuto uma arma sendo recarregada. Aquele “clac-clac”. Me viro depressa. O famigerado não pode puxar o gatilho! Chega! Por sorte ele está próximo. É o líder! Aquele que julguei mais inteligente! Careca, branquelo como outro que derrubei logo ali atrás. Seus olhos jorram perversidade! Queria que visse os meus garotão. Antes que ele possa levantar sua automática, seguro o cano dela, apontando-o para baixo. Mesmo assim ele atira. Gruda o dedo no gatilho! As balas arrebentam o asfalto, fazendo saltar pedaços como se fosse pipoca. O careca olha para mim e sorri. O cano esquenta, queimando minha mão. E recebo uma cabeçada. Ao menos suas balas acabaram. No mano-a-mano eu ganho! Eu sempre ganho!
O homem bate no peito, me desafia, e vem para cima! Correndo. Isso é desespero. É corajoso não é? Seu punho vem em direção ao meu rosto, me abaixo. Seu joelho também deseja me acertar, desvio novamente. O careca passa vazado, agora está de costas para mim. Ele olha para o outro companheiro, o último que resta, como se pedisse ajuda. Esse outro está amedrontado, eu causo esse efeito na maioria das vezes. O covarde corre. Foge com o rabo entre as pernas! Vai para a saída do túnel, totalmente acovardado.
- Seu viado! Volta aqui! Caralho! – grita o cabeça de bola de bilhar.
- Fica tranqüilinho ai aeroporto de mosquito, eu vou pegá-lo também! – provoco. – Só que você primeiro.

Ele se vira, e agora sou eu que avanço! Sem a menor dificuldade faço o careca beijar o asfalto com os dentes.
Procuro o fujão. Como o viado corre! Que merda! Já está longe. Por um instante sou tomado pela preguiça, como se a adrenalina tivesse se exaurido por completo. A distância é grande. Porra! Não pense seu idiota, apenas corra! E assim eu obedeço. Corro com esse corpo pesado e cansado. A cada veículo que vai passando, os olhos me acompanham, olhos amedrontados se enchem de esperança. “Estamos salvos”. É isso que vejo! A cada rosto, cada face, cada... Pessoa! Me agradecem em seu íntimo, assistindo o último momento do show. O momento em que pegarei o bandido fujão. Os feridos não são a prioridade para tais espectadores, e sim o show!
Chego na entrada do túnel. Não da mais. Minhas pernas não querem responder. O covarde olha para trás, ele tem uma arma na mão. Não vai usá-la. Prefere correr, é mais fácil do que me enfrentar. Nunca vou alcançá-lo correndo. Carro? Moto? Nada a minha volta será útil. Maldito engarrafamento!
- VOCÊ NÃO VAI FUGIR! – grito!
Levando meu braço. Armo o exoesqueleto. Direciono o gancho. E atiro! O cabo de aço assobia se deslocando pelo ar, até que... O gancho atravessa o ombro do filho da puta! De pequeno arpão, passa para a forma de um ouriço metálico. O homem urra de dor! Isso é pior do que tiro, o cabo de aço está dentro da ferida, e vai doer ainda mais. Aciono o carretel. Que vem trazendo meu prêmio. Meu peixe! O safado não larga sua 9mm. Ao se debater a ferida sangra mais, e também dói mais! Ele descobre isso da pior forma. Não há escapatória. Esse é meu mar e você está nadando nele! Eu sou o tubarão! Você a presa! Sofra com isso.
Em poucos segundos ele está em meus pés. Totalmente pálido pela perda de sangue e pela dor. Está praticamente imóvel. Pego sua beretta 9mm. Acabou. Enfim, acabou. O último calhorda está praticamente desmaiado aos meus pés. Respiro aliviado pela primeira vez em muitos dias. Meus músculos relaxam, minha cabeça está mais leve. Não tinha reparado, começou a chover. Poucos pingos, uma chuva leve, dando um frescor para o ambiente. Eu a agradeço por isso. Vários repórteres surgem do nada. Como praga. Como gafanhotos. Segurando suas câmeras e fotografando tudo que podem. Mídia. Imprensa. Façam sua festa. Vamos lá senhores “isentos”. “Imparciais”, informem! Comecem o espetáculo! Avise todos os malditos ratos dessa cidade que eu estou caçando! Um helicóptero paira sobre o céu, tirando a chuva de seu cair natural. Uma visão panorâmica. Vamos lá, filme tudo. Ainda assim... Estou aliviado. Respiro fundo, solto o ar vagarosamente, à medida que a chuva molha meu corpo. Acabou.
- TODO MUNDO QUETINHO! NINGUÉM SE MEXE PORRA!!! – alguém grita atrás de mim.
Careca roedor, porco, inútil, mau caráter, covarde! Filho da puta!
- Você também aí Jack! Não ouse se mover! Eu passo essa muié! Duvida? Vai arrisca, seu viado?! Eu mato! – ele ameaça, não duvido.
Ele a segura pelo cabelo. Uma mulher. Inocente! Ela não quer morrer, vejo em seus olhos encharcados de lágrimas. Seu rosto de desespero. O metal frio da pistola é apertado contra seu rosto macio.
- O lance é simples, eu vô andando até a outra pista, ta sabendo! Ninguém vai fazer nada. – eu me viro para o careca. – PARADO AÍ PORRA! Não se mexa Jack. Heroizinho de merda. Fica queto rapá! Eu mato essa piranha bem na sua frente! Vai querer ver os miolinhos dela no asfalto? Vai? Eu mato! Ta sabendo! – ele puxa o cabelo da pobre coitada, ela grita. – Eu vô pegar um carro e não quero ninguém atrás de mim! NINGUÉM! Eu passo essa vadia! PASSO com gosto! – ela a exibe como se fosse um prêmio, dou um passo para frente. – FICA AÍ CARALHO! Tu tá duvidando de mim? Eu mato rapá! Vai arriscar vai? Hein? Vai? Vem pra cima então! Esse caratê de bambi aí! Vem! Anda! Salva a mocinha em perigo! Vem! Filho da puta! Vou matar essa cachorra na sua frente!!! VEM!!! Covarde. Viadinho. Vai arris...
Agora ele não pode falar mais nada. Atravessei uma bala bem no seu olho! Nunca dei um tiro tão perfeito. Seu corpo cai. Mole, sem força, sem vida. A mulher para de gritar, e chora ainda mais. Trêmula. Aliviada. Em choque. Seus olhos estão vidrados em mim. Trêmula, sem nenhum equilíbrio. Nenhuma condição de dar um passo se quer... Ela vem até mim... E me abraça. Me aperta com força. Ainda chora. Suas lágrimas escorrem para meu peito... Não posso senti-las... O kevlar não permite. A chuva aumenta. Me esqueço da imprensa, dos carros a minha volta, de seus motoristas e passageiros, dos bandidos, do meu objetivo. Não sinto nada... Não faço nada, além de abraçar a mulher. Trêmula... Em meus braços.

Sábado, Outubro 25, 2008

Uma Tragédia - Se o Filme Fosse Meu

Não sou especialista em nada! Só gostaria de mostrar o quê eu penso a respeito da recentre tragédia brasileira. Me sinto meio mal porque vou fazer parte da espetacularização. Eu supero, fiquem tranquilos. Muitas vezes, na maioria delas, colocam a culpa da tragédia nos bendidos Direitos Humanos. Muita gente boa, inteligente, bem intencionada, acaba falando asneiras do tipo, "isso é culpa dos Direitos Humanos", ou então, "viu? São os Direitos Humanos". Sinto muito galerinha. O criminoso é criminoso e que seja punido, não coloquem a culpa em quem não estava naquele momento! Foi justamente a falta dos cândidos que acabaram em tragédia. Não é novidade para quem me conhece, se o "filme" fosse meu, todos sabem como isso terminaria. É só ler o Jack Built, o Louco.
Existe um caso semelhante, dentre vários, "sequestros terminados em morte" - não é a terminologia científica penal adequada, mas... Foda-se! O importante é a compreensão. Todos se lembram do drama de uma certa tragédia carioca (das várias!). Um garoto que sobreviveu a Chacina da Candelária, e futuramente veio a sequestrar um ônibus, causando assim a morte de uma professora. E o quê acabou acontecendo, e o quê acontece na mentalidade de alguns cineastas e pseudo-intelectuais, que amam uma antropologia dos quatro membros no chão, e disseminam uma sociologia animal, a vitimização do criminoso! Como produto do meio. Aqui vai um recadinho para essa turma, que de bem intencionada o escambal! Quem puxa o gatilho sabe que puxa o gatilho, o fato do meio, ou de alguma emoção influenciar, repito, INFLUENCIAR, não o torna inimputável. É criminoso, é filho da puta! E a tragédia? Virou a porra de um filme! Canditado a Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Esses quadrúpedes adoram uma meleira sem qualidade, e o pior! Justificam um crime com outro. Assim não dá. Quem lia meus e-mails, lembram-se da vontade tentadora do suicídio? Ela some, o que vem a tona é a vontade de matar. Só a vontade...
NOTA: Abaixo segue um comentário meu a um texto do jornalista Reinaldo Azevedo, dono do maio Blog de política do país e autor do País Dos Petralhas. Em seu blog os comentários são mediados, ou seja, só aparecem os previamente aprovados. Fiquei com medo de não ser aprovado, por fim eu fui. Vale ler o comentário, sintetisa muita coisa em poucas linhas.
"Fiz um comentário sobre se essa tragédia fosse um filme, como eu terminaria com ele. Está em um post mais recente do que este. Sempre leio "descendo" o mouse na tela. Lembrei do filme que representa o Brasil no Oscar, Linha alguma coisa, não sei ao certo. Indicarei aqui um viés cinematográfico, semelhante ao do sequestrador de um certo ônibus, em um certo Rio de Janeiro. A história é de um garoto inseguro, meio pertubado e possessivo, que no fundo queria é ter a sua namorada ao seu lado. Nem que fosse para mantê-la amarrada, ou sob a mira do revolver. Mas coitadinho não? Vítima dessa sociedade cruel que o motivou a buscar um relacionamento, cobrando-o saber cuidar de seus sentimentos, trabalho arduo, não exigível a qualquer pessoa. Esse pobre rapaz, inseguro, ciumento, vítima da insegurança, do amor não realizado pelo término do namoro! "Lindemberg, o Romeu que não morreu!" Cantidatíssimo a Oscar! Como o carinha lá do Rio, também fez reféns anos atrás. De quem foi o tiro? Não me pergunte, vá ao cinema.Tenho saudade de quando os criminosos eram legais e matavam sem escrúpulos, Tony Montana, Michael Corleone. Isso só no cinema!"

Terça-feira, Outubro 21, 2008

Uma Pergunta Para o Vento


Isso não era para ser um texto. Muito menos estar aqui, aos olhos de quem quer ver. Então resolvi deixar tudo rolar, botar a cara a tapa, ou melhor, colocar o quê sinto perante o julgamento alheio. O que importa? Você não lembrará de nada mesmo daqui a alguns minutos.
Acho que todos pensaram a mesma coisa que eu na sexta-feira. Quando aquele temporal invadiu nossa cidade sem ser convidado. Eram ventos ferozes! Não chegava a uma tempestade tropical, mesmo assim já estava dando alguns estragos consideráveis. Placas e outdoors balançando loucamente, galhos quebrados voando, como se assim pudessem agir. Como trabalho próximo a lagoa central, tive um assento privilegiado para ver esse espetáculo. As águas revoltodas empurradas pelo vento, folhas lançadas ao ar. A barba do hippie criando vida. Tudo que todos viram, aonde quer que estivessem. Todos pensaram por um instante, ou até comentaram, nem que fosse de brincadeira: "o mundo está acabando".
Não ele não está. Eu, você, e os et's que deram bolo na velhinha no 14 de outubro, temos a certeza de que nada acabará. Pelo menos não o mundo. Por isso essa minha inquietação, esse "tudo acabar" latejando na caxola. No meio do temporal, enquanto estava assistindo de camorote, tive uma vontade imensa de ligar para quem eu me importo, tranquilizá-los, dar um aconchego a distância, falar o quanto eu gostaria de estar ao seu lado no momento do fim. Nem que fosse para repetir o que já disse para vocês leitores, "relaxe, o mundo não vai acabar", e completaria, "eu estou aqui, do seu lado". É arrogante pensar assim, essa pitada de carência que tenho camuflada com a preocupação por quem amo. Que seja! Eu me preocupo, se é egoísmo ou não, que se foda! Se o mundo acabasse, gostaria de segurar a mão de alguém e tentar protegê-la até a escuridão final! Como já disse, "se".
Aqui vai uma pergunta, ao lado de quem você gostaria de estar, instantes antes do mundo acabar? Cabe a você responder. Não escondo quase nada nessas linhas escritas, quase nada. Esconderei minha resposta. Deixo apenas um viés. Naquela mesma sexta-feira, após a ventania e a chuva, nunca vi o céu tão lindo. O amarelo vencia o céu nublado, refletia entre as nuvens, mostrando sua beleza sem nenhum pudor. Repito. Nunca vi o céu tão maravilhoso, como aquele após a tempestade.

NOTA: A foto que uso para ilustrar esse pequeno desabafo, foi tirada pelo meu irmão, Victor Augusto, naquela mesma sexta-feira.

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XI - Uma Ponte Para Atravessar

RIO DE JANEIRO – 04 DE AGOSTO DE 2008
12:29 PM

Droga! Desvio rapidamente para a esquerda, deixando um arranhado enorme do ônibus. Dirigir em alta velocidade é realmente muito perigoso! Ainda mais em plena segunda-feira. Vou costurando carro por carro. Vendo os prédios passarem ao meu lado, alguns chegam a me amaldiçoar, xingam com toda a sua raiva. Não espero que eles entendam, e espero que eles não achem que vou tirar o pé do acelerador.
Merda! Um sinal vermelho! O automóvel a minha frente freia, as luzes do freio mal ascendem e eu já estou colado em sua traseira. Aperto o pedal do freio, diminuo a velocidade, verifico se vem alguém na esquerda, e o pior que tem uma maldita caminhonete! Olho para a direita, um carro azul que não especifico o modelo, tem que dar tempo, é a única solução. Jogo o Siena para a direita, o veículo azul faz cantar seus pneus, eu escapo ileso. Atravesso a avenida num piscar de olhos, e mesmo assim sinto o deslocamento de ar dos outros carros no cruzamento, quase morri. Quase.
Este Siena está dando o seu máximo, seu motor esgoela como uma puta louca, enquanto brinco de corrida com um adversário imaginário. Não me dou o luxo nem de reduzir quando vejo uma curva. Chega a ser emocionante. Pena que não posso aproveitar, estou preocupado demais para não ter nenhum inocente embaixo desses pneus.
Uma placa, “Ponte Pres. Costa e Silva”. Essa mesmo! Vou aonde à seta me manda ir. Tudo está tranqüilo por aqui, ainda não posso avistar a ponte, só que minhas narinas já sentem a maresia vinda do Oceano Atlântico. Nenhum policial na área. De duas uma, ou eles me obedeceram, ou então são lentos demais. O assalto acabou de acontecer, é sempre assim no Brasil, vagarosidade é a regra. Ainda mais no Rio de Janeiro. Matam gente aqui igual bebem água. O exército nas ruas seria uma boa. Sem dúvida! O narcotráfico já é uma espécie de quarto poder, um ente paralelo ou até mais forte do que o governo. Analisei alguns candidatos a vereador, uma boa parte da galerinha da periferia ou é condizente com o tráfico, ou faz parte do mesmo! É triste. O que me dá mais enjoou é como a televisão trata isso. Maldita cultura de massas, exaltando os bailes funks, os raps. Ridículo! É como a imprensa americana e européia trata o islamismo, com doce, com melzinho na boquinha! Filhos da puta! Não existe bom islamismo! Maomé que me perdoe, mas o Alcorão é uma sacolada de besteiras! “O islamismo é bom, os terroristas que são maus”. Meu cu! Eu já estive no Iraque, e fui torturado no Afeganistão. Eu sei do que falo. Faço um paralelo com o Rio de Janeiro, aqui não está tão fudido, a merda é que o caminho é o mesmo, e ainda bem que esses traficantes do caralho sabem que se matar com bombas no peito não é nada lucrativo. Cacete! Quase acerto aquela Kombi! Preciso me concentrar. Ali está... A Ponte Rio - Niterói.

Como é grande! É monumental! Uma das maiores pontes de todo o mundo! São treze quilômetros de extensão e até setenta metros de altura no trecho do Vão Central. Primeira vez que eu a atravesso, gostaria de estar em uma situação mais... Tranquila. Assim poderia observar melhor essa obra-prima da engenharia. Aprenda senhor arquiteto que fez Brasília!
Nunca gostei de pedágio, mas aqui é necessário, esse tipo de edificação merece uma manutenção descente. Como uma segurança adequada também. Há muitas câmeras de segurança, monitoramento on-line, o problema é que já sabemos que é um carro forte, o veículo usado na fuga, e que ele está na indo para ponte. Câmeras auxiliam. Mas o que ela pode me dar eu já sei! E ali está... Parado no pedágio aguardando na fila, calmamente, como se nada tivesse acontecido. Será que é esse carro forte?
Hora de fazer algumas previsões. Esses criminosos se forem profissionais, tanto os que foram em direção a Linha Vermelha, quanto esses supostos ali na frente, devem pertencer à mesma quadrilha. Chega a ser muita sorte assaltos ousados ao mesmo tempo! Sendo eles profissionais, devem ter acesso ao rádio de polícia, ou pelo menos uns gaiatos dentro dela. Devem estar bem armados. É muito dinheiro, para tanta ousadia. Esse é o foco! O atrevimento, a criatividade. Só que eles não contam que o papai aqui esta na cidade! Provavelmente sabem que estou aqui, só não sabem que estou bem na traseira deles.
Vou calmamente a uma fila para pagar a tal tarifa. E aguardo. O carro forte é amarelo, chamativo, tem uma palavra escrita na sua lateral, algo derivado da palavra proteção, misturado com um inglês, brasileiro gosta! Ainda não é a vez do bufão enfrentar a caixa, que conta o troco do veículo a sua frente. Um pobre fusquinha separa o carro forte da guarita. Na minha frente há quatro carros, ou seja, estou a dois automóveis de distância do carro forte, o que não é muito. O que acontece em seguida é ridículo! Boçal! Minha burrice superou qualquer expectativa! Não que um Siena prata seja chamativo. A merda está no motorista. Que está... Mascarado! Quem em sã consciência dirigia em plena luz do sol, com uma máscara preta na cara? E de quem é a máscara que está na capa de todas as revistas e jornais da cidade? A raiva é maior que a vergonha, quando o motorista do fusca a frente do carro forte, olha para trás e grita! Alto, bem alto com sua voz aguda! “OLHA LÁ GENTE, O JACK BUILT!”, eu sei o que é ter vontade de matar alguém, e sei que esmagaria o pescoço desse inconveniente, só para descontar a minha burrice!
Como mágica, todos os motoristas começam a apontar e sorrir, tiram os celulares dos bolsos, a criançada bate palma, a caixa que atendia o escandaloso, da um sorriso tão grande que a luz do sol reflete em seu aparelho, e começa a dar um tchauzinho. Alguns chegam a descer do carro. Tento não me distrair, o motorista do carro forte fica incomodado com minha presença, isso confirma tudo! Não sei quantos homens estão ali dentro, seu motorista acabou de dar a maior bandeira, fechou a cara quando me viu e verificou algo em seu colo, olhando novamente para meu carro, com ódio em seus olhos. Queria que visse meu sorriso, a como eu queria. Ele sabe que sou eu, sabe que não tiro os olhos dele! O motorista do fusca desde do carro, todo serelepe, como se tivesse visto um artista, o assaltante disfarçado de segurança, o maldito do carro forte, se irrita! Isso é bom! Minha idiotice vai ser suprimida pela idiotice dele. Acelero o carro, apenas acelero, fazendo o motor gritar! Ele entende o recado, e começa a suar. Vamos lá, vamos! Desespere-se! Imagine tudo em câmera lenta, assim que gosto de analisar um momento. O assaltante, que vê seu disfarce inutilizado pela minha presença, olha para frente, olha para trás, olha para mim, para a guarita, esbraveja algo, e faz o quê eu quero! Acelera o carro forte, arrancando com brutalidade em cima do fusca, o escandaloso solta um grito histérico ao ver aquele brutamontes de aço acertar a traseira do seu carro, empurrando-o para frente, como se fosse de brinquedo! O carro forte abre caminho com facilidade, quebrando a cancela e seguindo em alta velocidade pela ponte. Faço o mesmo, só que sou obrigado a ir para a faixa paralela a minha, raspando o Siena nos demais, causando alguns prejuízos consideráveis. Aproveito o vácuo deixado pelo meu inimigo. E assim como ele, parto em velocidade máxima!
O céu está parcialmente nublado, deve chover daqui a alguns dias. Ironicamente em cima da ponte, um azul exuberante força passagem entre as nuvens, deixando o sol iluminar tudo com seu calor. O asfalto está quente! Posso sentir! Nessa ponte não há curvas! Somente uma reta, uma reta de treze quilômetros para nós brincarmos de gato e rato. Acelero o máximo que posso antes de mudar cada marcha. Devo encerrar essa perseguição antes que os seguranças da Ponte S/A cismem de aparecer. Ele está em vantagem, conseguiu uma boa distância do meu carro. Só que este carrinho aqui anda mais do que o deles! É questão de tempo até eu me aproximar. O pepino é outro! Como eu vou parar um carro forte? Com minhas espadinhas? No braço? Saco! Estou fudido.
Abro o porta-luvas na esperança de encontrar uma arma. Não gosto de armas. Torna tudo tão sujo. E também é muito mais difícil acertar acidentalmente um inocente com uma espada, do que com uma arma. Achei! Delegados sempre andam armados, eles precisam! Se eu fosse um delegado e morasse no Rio, eu andaria com uma bazuca no carro, e não com uma simples Glock. Vai servir. Seguro o volante com uma mão, com a outra confiro o pente, quinze balas e uma no canhão. Deve servir. Tomará!
O carro forte ignora os outros veículos a sua frente. Sai abrindo caminho como se fosse o dono da estrada, deixando alguns carros batidos no percurso. O que não é nada bom. Tenho que ficar desviando de cada coitado que acaba rodando no meio da rodovia. Cada acidente tem seu próprio som, seja um grito, ou o amassar do metal, seu próprio cheiro, da fumaça e felizmente, não farejo sangue.
Consigo me aproxima, estamos a alguns metros de distância um do outro. Meus olhos saltam do carro forte, para o trânsito. Não quero acabar preso em nenhuma ferragem. E uma batida a cento e sessenta por hora não seria nada agradável! A porta traseira do carro forte se abre! Vejo malas e mais malas negras, provavelmente com o objeto do roubo! Três homens ao todo aparecem no meu campo de visão, excetuando o motorista, todos com roupas de segurança. Dois deles estão armados! Uma mini Uzi é ostentada nas mãos de um deles, essa pequena arma é capaz de causar um bom estrago! Uma maldita submetralhadora! O outro segura um fuzil de assalto automático! Agora sim tenho algo para me preocupar, além do tráfego a minha frente! Eles começam a atirar! Os tiros salpicam no capô do carro, alguns atingem o vidro, fazendo pequenos buracos seqüenciais. Piso forte no freio! Os pneus reclamam, e exalam uma fumaça atrevida! Quase rodo, ainda bem que acelero logo em seguida para não piorar a minha situação. Os desgraçados nem pensam em mirar, podem até ser profissionais o bastante para planejar o assalto, mas atirar em movimento não é nada fácil. A maioria dos disparos atinge o asfalto e a lataria do Siena. Também são burros o bastante, para não alternarem os turnos de disparo. Quando seus pentes se esvaziam, é a minha vez! Sou ruim com a esquerda, fazer o quê? É o jeito! Coloco uma parte do meu corpo para fora da janela, continuo dirigindo com o braço direito e atiro! Tenho dezesseis tiros! Cada um deles é precioso. Erro os três primeiros, quando vejo faíscas surgirem próximos à porta traseira do carro forte. Merda! Acerta pelo menos um seu asno! Repito a seqüência de três disparos. Isso! Acerto a perna do garotão da Uzi, duas vezes! No joelho direito e na coxa esquerda, ele cai, gritando de dor. Com sorte poderá consertar o joelho estraçalhado pela bala. O outro tiro acerta dentro do carro forte, mas não atinge ninguém. Tenho mais dez disparos. O outro homem, o do fuzil, termina de recarregar a sua arma. Ele a aponta, agora vai tentar mirar, cacete! E ele é bem sucedido, sua rajada de tiros acerta o vidro a minha frente, fazendo-o explodir em pequeno cacos. Agora o vento vem direto em meu rosto, chega a ser refrescante! Tento fazer um zig-zag para escapar, a porcaria do Siena já está muito avariado! Parece um queijo suíço! Ele continua atirando, e eu começo a ficar com raiva! Filho da puta! Agora sem o vidro, pego a Glock com a mão direita, a esquerda vai ao volante! O que acha disso agora hein? Filho da puta! Dou cinco disparos a esmo, mas todos bem direcionados, em todos tive sucesso. Três acertaram o “atirador de elite”, tornozelo, canela, joelho, um bom lugar para mirar. Com sorte um atinge o ombro do mesmo! O quinto disparo vai no outro desarmado, nada fatal, nada que não vá doer também. Como eu vou para o carro forte? A Glock foi útil para neutrazilá-los, mas é como ferrão de abelha em elefante, se eu tentar atirar no carro forte. E o pior, essa merda de Siena, começa a reclamar dos tiros que levou. Preciso pensar!


Os pneus! Isso! Preciso acertar os pneus do carro forte. Só tenho cinco balas, merda! Não posso errar. Concentro ao máximo a minha mira, os traseiros serão mais fáceis. O vai e vem do meu automóvel não ajuda, a movimentação do carro forte também não. Pronto! Agora! Segundos antes deu apertar o gatilho, sou forçado a desviar de um Ford K, a minha frente, no susto aperto o gatilho e o tiro vai para qualquer lugar, menos para o pneu! Xingo todos os santos e demônios possíveis. Sou obrigado a aumentar a velocidade para me aproximar novamente do carro forte. Mais uma tentativa, não posso errar... Prendo a respiração... Tive um bom professor de tiro, nunca gostei, mas fui bom aluno... É só ter a mão firme, dominar a arma, e o... Resto... Ela... Faz... Sozinha! A Glock cospe o fogo! Por alguns segundos eu rezo... Caralho! Merda! Buceta! Desgraça! Cacete! Caralho! PORRA! Erro o tiro! Tenho só mais três, sorte a minha que essa ponte é enorme. Acertar os pneus foi uma péssima idéia! Clichê burro! Idiota! Imbecil! Boçal! Asno! Como foi parar essa porra?

Os homens lá dentro estão feridos, nada fatal. Talvez eu devesse segui-los simplesmente. Isso seu retardado, estão feridos e bem armados! Você quer um tiroteio no meio da rua, sorte sua que está na ponte! Imagine em uma área central, o número de cadáveres para o seu caderninho. Saco! O rádio começa a chiar, recebo a mensagem.


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Jack? Responda Jack!
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Aqui é o Jack! Fale rápido, estou ocupado!
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Precisamos de você na Linha Vermelha! Na altura do túnel! O trânsito está todo paralisado! Um engarrafamento dentro do túnel, uma obra da prefeitura parou tudo! Os assaltantes estão em tiroteio com a polícia, dentro do túnel! Os reforços estão com dificuldade para chegar! Três policiais estão feridos! O pessoal está em pânico!
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Não respondo nada! A coisa está feia, e esse povo já se acostumou comigo! Não posso culpá-los, eu não tenho mordaças como eles. Eu sei que represento um pingo de esperança. O foda é que sou apenas um, e não muito sortudo! Agora preciso parar esse trambolho de aço amarelo! E salvar o pessoal no túnel! Deixo por conta do instinto, da raiva, da minha experiência! Esgoelo o Siena! O máximo que ele agüenta! Acelero! Meu pé está no fundo do acelerador! O carro responde! Vai ser sua última viagem...
Ultrapasso o carro forte, pelo canto do meu olho vejo o motorista acompanhar meu carro, que agora se encontra em sua frente. Não olho para trás, não penso, não calculo, apenas vou em frente, o mais veloz possível! Ainda firme olhando para frente, reduzo a marcha, o motor geme de dor, a velocidade diminui, e dou um cavalo de pau bem no meio da Ponte Rio - Niterói. Os pneus cantam a sinfonia que devem cantar, desafinados e escandalosos. A fumaça toma conta do ar. Então, o Siena prata para atravessado na pista. O motorista do carro forte está feliz agora, pega algo em seu colo, uma Magnum 357, americana, um boi em forma de arma. Ele a põe para fora da janela e começa a atirar, enquanto vem em direção ao meu automóvel parado bem no meio da pista. Me abaixo, e vou me entrelaçando até sair na porta do passageiro, os tiros atingem o que resta do Siena. Um disparo chega a atravessar a lataria e quase me pegar de raspão. Sorte! Estou abaixado do lado de fora do carro, conto com meus ouvidos, se eu brincar de bicar a distância do carro forte posso levar um tiro no meio da cabeça. O trambolho amarelo é escandaloso, a medida que seu rugido vai aumentando, vou agachado até a ponta do Siena, quando o monstro parece gritar no meu ouvido, eu pulo para frente! O carro forte arrebenta o Siena que agora está com os pneus voltados para cima, e agarrado ao monstro amarelo. Quase não diminui sua velocidade, tratando o automóvel como um simples animal frágil agarrado no seu pára-choque, sangrando faíscas junto ao asfalto. Agora é minha vez. São três disparos! Tenho que ser rápido. Fico em pé, em posição de tiro, agora estou parado, tudo vai ser mais fácil! Dou os três disparos em seqüência. Bang, Bang, Bang! Os três acertam seu alvo... O tanque de gasolina do Siena! Que explode! Trazendo a fúria das chamas! O negro sabor da gasolina em combustão! Que faça o calor infernal dentro daquele carro forte, expulse-os, pare-os! Agora estou parado, rezando para que o deus do fogo faça seu trabalho.
Como o previsto, veículo inimigo para. Vou andando até ele. Faço sinal para os outros motoristas pararem, eles obedecem. Continuo andando. Os homens saem desesperados do carro forte. O motorista que ainda tem pernas consegue correr, os outros tenta carregar uns aos outros, enquanto seus ferimentos latejam. Vejo suas faces. O desespero que queria. Paro de andar e aguardo... Penso em contar... Um... Dois... O grande ser de aço amarelo também explode! O estrondo é ensurdecedor! Faço questão de não me mover, isso intimida, ainda mais quando todos se assustam ou se escondem do barulho. A força da explosão atinge os assaltantes, que agora gemem no asfalto quente. Só assim, continuo a andar.
Os quatro estão em choque. A sirene da segurança da Ponte aponta no horizonte. Meu trabalho está feio aqui. Corro até a mureta central e pulo. Vou para o meio da pista sentido Rio de Janeiro, um Porsche vem em alta velocidade. Ele é azul. É esse que eu quero! Paro na sua frente e abro meus braços. Um teste para seus freios. Os malditos respondem como o esperado, agora o Porsche está parado bem a minha frente. Vou até o motorista. Um garotão com a cara assustada. O playboy tem gel no cabelo, perfume caro exalando do seu corpo, e uma música de qualidade duvidosa no volume máximo.
- Preciso do seu carro. – falo calmamente.
- Mas é um Porsche... – o meninão responde com a voz trêmula.
- Preciso do seu carro senhor. Pessoas estão correndo perigo. – insisto.
- É um Porsche... – repete, agora com cara de criança pidona.
Fico em silêncio, enquanto as chamas da explosão estalam. Viro-me para olhar o carro forte e o Siena totalmente destruídos pelo fogo. O playboyzinho faz o mesmo, e volta seu olhar para mim. Pula para o banco do passageiro e começa a falar.
- Pode levar Jack. – sua voz muda de tom. – Mas você eu vô contigo brother! Pode ser?
- Como quiser! – sento no lugar do motorista.
Não posso perder meu tempo socando qualquer um, se ele quer ir tudo bem. Só preciso chegar até o túnel antes que seja tarde demais! O garoto pega o celular.
- O quê está fazendo? – pergunto.
- Pô rapá, você acha que eu não vou gravar isso? O esse vídeo vai bombar no youtube!
Mudo o câmbio para o manual. Bato a chave e escuto o motor. Não é um Siena, é um Porsche! Bombo o acelerador uma vez, só uma. Olho para o garoto.
- Como quiser! A partir de agora, o problema é seu! – ameaço sorrindo debaixo da máscara. – Coloque o sinto.
- O quê? Desculpe, estava configurando a câ... ARGH!
Arranco fazendo os pneus cantarem. O carro não responde bem, ele simplesmente responde aos meus pensamentos! Dei um susto no cara, que mesmo assim não larga o celular, filmando tudo que acontece. Espero que tenha pixels o suficiente para captar imagens a duzentos quilômetros por hora!

Sexta-feira, Outubro 17, 2008