Mente De Um Zé Que Se Chama Pedro

Este é um espaço para expor meus pontos de vista sobre os mais variados assuntos, desde política até a nova banda que começou a tocar nas rádios. Espero que gostem e que também comecem a despertar seus espíritos para a crítica! Beijos para as mocinhas e abraços para os mocinhos!

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Nome: Pedro Augusto

Um Zé que se chama Pedro.

Sexta-feira, Novembro 14, 2008

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIII – Morte, Você Me Deixaria Ficar?

RIO DE JANEIRO – 04 DE AGOSTO DE 2008
18:00 PM

A chuva ainda cai lá fora. Feroz. Impiedosa. O nublado tímido das nuvens deu lugar às trevas da noite e das águas. Já se passaram horas. Não sei quantas. Muitas com certeza. Já analisei cada centímetro do teto. Cada mísero detalhe. Estou deitado observando o quarto do Copacabana Palace Hotel. Não fazendo nada. Não pensando em nada. Também não sinto. Essa sensação de frieza me assusta. Continuo a olhar para o teto.
Quando cheguei me forcei a descansar. Fechava meus olhos e nada. Meu corpo está cansado, por que não dorme? Fechei as cortinas. Desliguei a televisão, que não ligarei tão cedo. Nada do sono vir. Um raio marca o céu iluminando o quarto escuro. Já me banhei. Tentei comer alguma coisa, embora não esteja com a mínima vontade de me alimentar. Passo a olhar os pingos que escorrem na janela. Outro raio cai das mãos de Zeus, ou quem sabe foi Thor digladiando com seu irmão?
No caminho de volta para o hotel acabei pensando em Angélica. Não sei o porquê de ela ter aparecido em minha mente. Afinal, tudo aconteceu em uma noite e só. Nada mais, nada menos. Sinto falta de sua pele era macia. Seu perfume era tão gracioso, uma verdadeira flor. Mesmo assim... Uma noite e nada mais. Claro que quando algo espontâneo, do jeito que aconteceu, nunca passa como uma simples brisa em nossas vidas. É uma tempestade, similar a que cai lá fora! Uma tormenta de sentimentos que põe em cheque o resto de humanidade que tenho. Amor. Carinho. Ternura. Eu tenho família, que me ama e me quer ao seu lado. Mas o que realmente eu quero? Há, há, há. Juro que pensei em passar a vida ao lado de Angélica. Foi por um momento apenas, mas pensei. Imaginei por alguns instantes. Não foi tão ruim. Já pensei a mesma coisa com outras mulheres. Já amei uma vez, só que isso é história pra outro momento. Acho que todos querem alguém para isso. Não é? Há, há, há. Que ridículo! Mais um clarão fotografa as águas negras que caem do céu. Levanto meu tronco, e sento na beirada da cama.
Eu matei um homem hoje. Um tiro certeiro. Bem no olho esquerdo! Fui rápido. Mortal. Cruel. Respiro fundo, passo a mão pelos meus cabelos. Abaixo a cabeça. Não desejo eliminar meus oponentes. Carrego armas brancas para isso, evito ao máximo armas de fogo. Sabia que esse momento chegaria... Eu me justificando para mim mesmo! Vamos lá então! Compre um livro de auto-ajuda, procure a igreja, faça caridade, se redima de seus pecados! Quer se condenar? Deixe isso para a imprensa, que deve pipocar imagens na tela de você explodindo a cabeça daquele bandido. Bandido! Esses são seus oponentes! Aqueles que estupram a lei! Cospem na cara da civilização, aqueles marcados pelo mal! Os vilões! Esses são meus oponentes? Oponentes? Isso é uma espécie de briga, algum jogo? Respiro fundo mais uma vez. Eu sei que fiz o certo! É isso que me separa daquele tipo de lixo humano... Eu faço a coisa certa. Certa para quem? Ora! Nesse mundo existe o certo e o errado, não existe? O que fiz encontra respaldo na razão, e na lei, quando eu defendi legitimamente um terceiro. Legítima Defesa de Terceiro. MERDA! Tudo foi um erro meu, eu poderia ter impedido isso quando derrubei o desgraçado, se eu tivesse usado só mais um pouco de força eu o apagaria! Um erro por uma vida! MERDA!
Me levanto e caminho até a televisão, antes de ligá-la, hesito por um momento. Se eu ligar a imprensa vai bombardear ainda mais minha culpa. Prefiro guardá-la só para mim, deixe a demonização do que fiz para mais tarde. A mídia não sobe o morro, não salva ninguém! Não tira a arma da cabeça de nenhum inocente. Nenhuma ONG faz isso! Nesse país ninguém faz! Nem a polícia, nem as Forças Armadas, quem dirá então esses porcos engravatados. Burocratas devotos de um Maquiavel de boteco! Corruptos! Fora a ideologia que vitimiza os criminosos e deixa as verdadeiras vítimas a mercê de qualquer mau caráter! Filhos da puta! Desgraçados! Cretinos!
- AAARRRGGGHHH!!! – grito como se exorcizassem algum demônio.
Pego a televisão e a arremesso na parede. Quebrando-se por completo. Mais um raio ganha vida na escuridão! Os trovões jamais se calam. A luz do rádio comunicador começa a piscar insistentemente. Os militares devem ter ligado a televisão.

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- Pode falar. – atendo a chamada.
- Você acha que tudo isso é uma brincadeira? Não vejo outra razão. Ah! É um joguinho seu não é? Senhor super-herói. – para tamanha ironia, só uma boca se encaixa... Coronel Manuel Belloto!
- Eu não estou de bom humor Belloto. Fale logo. – respondo friamente.
- Bom humor? Você meteu a imprensa no seu espetáculo, agora fica de mal humorzinho? Costa Machado foi claro, não vou entrar mais nesse assunto. E por sinal, aquele tiro que você deu... – ele desiste da sua fala. – Não entrei em contato para isso.
- O que você quer? – pergunto.
- O que quero? Meu jovem. O que todos nós queremos! Incluo Oswaldo, e principalmente, Costa Machado. Todos nós queremos os cinco traficantes do tribunal do tráfico! – ele eleva o tom de voz. – Achei que você seria capaz de produzir resultados celeremente, por trabalhar a margem da lei. Me enganei não é? Parece que você veio para cá para brincar de salvador! E o nosso pacto? Como fica? Não queremos os parias. Queremos os mandantes.
- Eu já entreguei dois deles. – afirmo.
- Agora quero os outros três. – retruca.
- Belloto...
- Fale.
- Amanhã de manhã todos os três, Cleison Jesus, o “Bombinha”, João Batista, o “Joãozinho” e Toninho Pereira, estarão tomando café com você!

- E como você pretende fazer isso? – o Coronel debocha.
- Como você acha? Comandando as Forças Armadas que não vai ser. – agora peguei pesado!

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Parece que desligamos ao mesmo tempo. Antipatia é contagiante. Pego o uniforme, começo a me vestir. Meu corpo ainda dói. Alongo um pouco cada músculo. Não vou carregar tanta coisa dessa vez, depois de hoje nada pode ser pior. Pego um kit básico: as foices ligadas pela corrente; algumas granadas de efeito moral e de fumaça. Só isso será o suficiente. E só. Levarei também o binóculo de visão noturna, esse vai ser útil para uma eventual escuridão. Quando chove as luzes tendem a se apagar.

RIO DE JANEIRO – 04 DE AGOSTO DE 2008
23:56 PM

Nenhum vestígio dos irmãos “inha”. Rodei quase toda a Rocinha e nada! Não quero confrontar nenhum pé de chinelo, quero os dois. Parei de monitorar os desgraçados há apenas alguns dias e eles já sumiram! Estou sendo vítima da minha própria estratégia. Um ponto positivo é que os vapores estão todos de “férias”. Continuo a vigia pelos telhados e lajes da favela.
Mais um possível esconderijo e nada! Onde estão esses viados? Porra! Vou ser rápido quando achar esses ratos de esgoto! Se eu pegar um o outro é garantido, ele vai falar querendo ou não. Toninho é o mais indiscreto de todos, freqüentador assíduo de festas e baladas universitárias. É isso que acontece quando um coroa entra para a Universidade, ele volta a ser jovem, fica menos cuidadoso. Se bem que de cuidadoso esses canalhas não tem nem um pingo. A polícia só não desmantela isso por pura incompetência e corrupção interna. A solução em si não é difícil, o problema são as conseqüências políticas. Todo revolucionário tem uma pitada de maconheiro. Fazer o quê? Dar porrada em quem merece! Sou inteligente demais para aceitar isso, enfiar a mão, socar, espancar... Esse não é o fim. Ou é? Foda-se! Para o inferno a sutileza! Cansei. Hora de partir para a “entrevista”. Preciso de informações. Por sorte logo a minha frente tem um fogueteiro debaixo de um telhado mal acabado.
O movimento é rápido. Pego o garoto pelo colarinho e o prenso na parede. Não, ele não vai gritar. Minha mão aperta seu pescoço e o elevo do chão. O garoto engasga. Vou ser direto e objetivo.
- Por que essa favela está quieta? – pergunto.
Alivio um pouco a pressão da sua garganta.
- É a chuva! Pó, ninguém que fica na chuva não. – o fogueteiro responde.
- E você faz o que na chuva? – aperto um pouco mais.
- Ai! Relaxa ai rapá. Tô só garantinu o pão dos molequi. – o garoto está cooperando.
Devolvo o chão para seus pés. Suas mãos agora acariciam o pescoço outrora esmagado.
- Você não sabe de nada não é? – indago.
- Sei não. – sua cara é de choro. – Ninguém do comando tá podendo trampa mermão. Terror tá geral aqui. Eu cansei de fica na rua pedindo grana e vendendo bala porra! – o fogueteiro se irrita. – A vadia fico prenha de novo e é mais leite. Isso ta me fudendo.
A luz azul do relâmpago ilumina a cara do coitado, seguida pelo estrondo que ressoa pelo céu.
- Você não sabe de nada? – pergunto mais uma vez.
- Não. – ele responde.
- Você trabalha para eles e não sabe de nada? – insisto.
- Já falei mermão. Sô novo na parada. – estou sendo leve demais.
Instintivamente minhas mãos vão até as foices. Desembainho as duas. As lâminas soltam um som letal ao rasparem uma na outra.
- Eu não sei de nada não! Juro! – agora o garoto está com medo. – Não me machuca não, por favor. Por favor. Nem foi o Joãozinho que me contrato. Aí meu Deus! – ele chora. – Só quero compra comida pro rebento. Pó mermão, alivia...
O garoto é novo. No máximo dezenove anos, nem tem barba na cara, só esse bigode disfarçado de sujeira, e já é pai. Estereotipo. Nada, além disso. Posso arrancar a verdade dele agora! Em menos de cinco minutos. MERDA! Golpeio a pilastra de madeira ao meu lado, ela se parte, e as telhas caem como a chuva, despedaçando-se ao tocar o chão. Corro e salto para a próxima laje. Concentre-se nos três! Não perca seu tempo com lixo.
Quem eu quero enganar? A história fajuta me comoveu. Sua bicha sensível! Vai chorar pelo irresponsável marginal? Não estou me sentindo bem. Algo aqui dentro sabe que não estou bem, e fica me incomodando, martelando um calafrio na minha barriga.

RIO DE JANEIRO – 05 DE AGOSTO DE 2008
01:21 AM

Isso já virou piada. Estou aqui brincando de mico de barraco em barraco e nada! Não estou com estômago para ser o cara mau, vou apelar para fontes mais fáceis. Essa região é renomada. A zona. O prostíbulo pecaminoso das profissionais do sexo. Não vou entrar, se eu fizer isso cago mais ainda a situação. Aquela mulher, embaixo da marquise de uma padaria se encaixa em meu preconceito. Roupas curtas nessa chuva, uma bolsa pequena que leva o essencial, um canivete e preservativos, e salto alto. Seu corpo é bonito, pernas bem torneadas, e uma bunda de dar inveja. O cabelo é castanho bem claro, desce até a cintura. Seu ombro é muito largo, não faz meu tipo, abaixo seus braços são musculosos demais. Vou até a marquise que a protege da chuva sem ser notado.
Tiro do bolso uma nota de cinqüenta reais. Nunca ando sem dinheiro, nunca se sabe. Largo a nota, que acompanha a coreografia vertical dos pingos d’ água. A puta vê o dinheiro que acaba de cair do céu, olha para todos os lados, em seguida, se permite molhar um pouco e agacha para apanhar a nota.
- Tem mais de onde caiu essa. – afirmo engrossando a minha voz.
- AI MEU DEUS! QUE SUSTO! – a voz é grossa demais.
É um traveco. Puta merda é um traveco! Não tenho nada contra homossexuais, que fiquem longe da minha opção hétera. Me enganei, como ele, ou ela, sei lá!, se parece com uma mulher. A voz sempre condena.
- Oh amor, não precisava dar um susto... – que voz irritante.
- Não quero nada com você, apenas responda minhas perguntas e pagarei o tempo perdido.
- Você me deixou com tesão sabia? – espero que não demore.
- Por que ninguém da turma do Joãozinho está dando as caras? – objetivo, preciso ser objetivo.
- Isso é caro meu amor. Mmmuuuiiitttooo caro. – o homo sei lá o quê começa a fazer um charme, era de se esperar. – Mas para você! Exclusivamente para você! Se mandar outra oncinha e prometer guardar segredo, te conto tudinho.
Jogo mais cinqüenta reais.
- Agora fale!
- Oh meu bem, vou resumir a história. Tem certeza que não quer ir para um lugar mais quente? Só eu e você. Sem segredos entre nós. – mais charme.
- Se não começar a falar desço ai e fazemos pelo modo mais difícil! – agora sim eu me irritei.
- Hum, me deixou molhada. – que porra é essa? – Vamos lá então... Eu costumava sair com Toninho sabe, ele é brother do Joãozinho e do anabolizado lá. O Toninho me contava quase tudo, agente era amigo de infância, então temos um vínculo. Sei todos os podres do safado. Todos! – agora o homem fica sério, sua voz engrossa. – Só que o filho da égua me traiu! Saiu com a vaca da Cíntiara! Cansou de comer cu, agora quer buceta. Aquele desgraçado. – a face do homem agora é tomada pela tristeza, seus olhos ficam vermelhos, ele engole seco. – Eu dava tudo pra ele. Eu que apresentei ele pro Joãozinho depois que ele foi expulso da PM. Abri as portas e minhas pernas pro cachorro, e o que ele me deu? HEIN? Sabia que ele já me bateu? Bem aqui ó. – aponta para o rosto grotesco e maquiado. – E perdoei. Milhares de vezes! Até que arruma uma vadia dançarina de funk e me larga aqui. – ele enxuga as lágrimas, e a expressão de seriedade é retomada. – O Toninho... Pro inferno! Quer saber? Vou superar isso e vou dar demais! Pra todos! Ele vai ver!
- Agora que o romance terminou, onde eu posso encontrar o Romeu? – o traveco não gostou da piada.
- Eles retomaram o tribunal. Sua presença assustou o povo um bocado. Cansaram disso e vão matar dois playboys lá do Leblon. Uns burguesinhos filhos de políticos, acho que senador estadual. Ah! Sei lá. Tá o bonde todo reunido no poliesportivo que o governo anda construindo, vai ficar chique meu filho! Por enquanto só serve mesmo pra esconde droga e traficante. Bofe? Amor? Hum, o gostosão foi embora e nem me deu tchau.

RIO DE JANEIRO – 05 DE AGOSTO DE 2008
02:12 AM

Corra! Vamos! Pule esses telhados e lajes mal acabados! Rápido! Esqueça a chuva, o chão escorregadio! Vá pela rua se necessário! Eu sei onde fica esse poliesportivo. Não é tão longe assim. Preciso chegar lá antes que aqueles garotos sejam assassinados. Por essa eu não esperava, retomaram a porcaria do tribunal. Pensei que não ousariam agir enquanto eu estivesse na cidade. Pensei demais! Demorei demais!
Apoio no muro, no poste, e ganho a laje de outro barraco. Do alto todos parecem iguais, com os tijolos a vista, sem reboco, sem nenhum projeto. As antenas remendadas se destacam. As ruelas que cruzam algumas avenidas principais fecham esse cenário. Para alguns, belo, para outros, um inferno. Eu li em uma revista outro dia que apenas dois por cento da população da rocinha acha que a segurança deve melhorar. Da vontade de rir, de cometer um harakiri em defesa da minha honra. É claro que estão seguros! Os próprios traficantes os protegem. Que belo! Que lindo! Ninguém rouba gente da favela. O Estado poderia dar verbas para os traficantes, assim eles poderiam ser legalizados. Os restos dos noventa e oito por cento feliz com seus protetores, só não poderiam cobrar mais saneamento, por exemplo. Iriam direto para o “microondas” da insubordinação!
Droga, eu matei um homem hoje. Tropeço e caio. Sorte que cai ainda em cima do telhado. Procuro ver no que tropecei, um corpo de boneca. Todo velho, sujo, esquecido aqui em cima. Zeus está furioso e bombardeia o céu com seus relâmpagos mais uma vez. Não. São apenas nuvens em atrito. Meio segundo de eletrização que ilumina todo o horizonte. Não haverão deuses essa noite, somente eu e minha espada caçando esses desgraçados!
Avisto o poliesportivo, está tudo apagado. Nenhuma luz. Vou me valer do binóculo de visão noturna. Minha visão se torna verde, tudo fica mais claro agora. Por um instante eu penso que deveria atacar no escuro, sem ver o que acabei de ver. Um galpão com aproximadamente trinta vagabundos, mais da metade segura armas nas mãos, dois garotos acorrentados no centro. Um ponto luminoso brinca com o rosto dos rapazes. É uma lanterna. A luz do galpão ascende, minhas pupilas retraem de maneira brusca, desligo a visão noturna. Meus olhos doem, ao menos posso ver “a cores”. É gente pra cacete reunida! Os garotos estão presos, cada um em uma cadeira. Estão muito machucados, um homem a frente deles esbraveja algo que não posso escutar. Bate com a lanterna na cabeça de um deles. O sangue escorre pela testa do coitado. Esse homem se veste como um típico carioca malandro, um pagodeiro, definitivamente, um pagodeiro. Uma blusa social listrada, de tecido leve, jóias no pescoço e nos pulsos. Esse é o Joãozinho! Aquela montanha de músculos atrás dele deve ser o tal do Cleison Bombinha, e o com óculos na testa e barriga de cerveja é o Antônio Pereira. Pra que tanto diminutivo junto?
É gente demais! Estou com equipamento de menos. Nem em sonho da pra derrubar mais de trinta homens armados com duas faquinhas. O General prometeu reforço, caso eu precisasse, essa é a hora! Vai ser a maior prisão em massa da história do Rio de Janeiro! Todo o grupo, a gangue, a praga presa de uma vez. E em flagrante! Dois filhos de políticos, apoio político garantido. A transmissão demora um pouco, por causa da chuva, enfim sou atendido.

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- O quê você quer há essa hora Jack? Espero que tenha boas notícias. – Belloto atende.
- Ótimas notícias! Traga toda a força armada que você conseguir aqui pra Rocinha. Já estou enviando o sinal no GPS, vai ser fácil me localizar. Acione o BOPE, e qualquer um que não seja incompetente. Vai ser a operação mais rápida da história! – estou excitado, acabar com esse lixo de uma vez só! – Mais de trinta homens armados, torturando e aguardando o momento adequado para matar dois garotos! O tribunal foi restabelecido hoje. Os garotos são filhos de políticos! Ligue para todos que conseguir, rápido! Chame todos!
- Não vou chamar ninguém. Quem vai acreditar nessa história? – não acredito! – E mais, vincular você as Forças Armadas? Um estorvo?
- Que se foda isso! Temos que salvar os garotos! Você não se importa com isso? – questiono.
- Como você é ingênuo. Essa não é minha função. E por outro lado, o herói aqui é você, não eu.
- SEU FILHO DA PUTA! Só preciso da porra de um telefonema! Chame todos aqui! Isso poderia suavizar a guerra contra o trafico! Pessoas ficariam mais seguras.
- Eu também quero acabar com esses abjetos da sociedade, tanto quanto você. É estupidez o que está me pedindo. Não ligarei para ninguém. Nem polícia, nem guarda nacional, nem mesmo a alguma ajuda humanitária.
- Belotto seu desgraçado! Você é a porra de um Coronel! Temos que salvar aquelas pessoas! Não entendeu até agora!
- JÁ FALEI GAROTO! MINHA RESPOSTA É NÃO!
- Quero falar com o General Costa Machado! AGORA!
- Você não vai falar com ninguém, agora se me permite...
- São vidas! Será que você não entende isso! É burrice ficar de braços cruzados. Eu...
- Você é o herói aqui, vai até lá, salve-os.

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O Coronel desliga na minha cara. Sem direito a resposta.

RIO DE JANEIRO – 05 DE AGOSTO DE 2008
02:25 AM

As únicas granadas de fumaça que tenho quebram o vidro frágil da janela. Quando tocam o chão explodem. A sala é tomada por uma neblina artificial.
- Que isso?
- São os alemão?
- Atividade porra! Sem medo caralho! – grita uma das vozes da liderança.
- Pô chefe, num tô vendo nada!
O desespero toma conta do lugar. Primeiro os garotos, são a prioridade! Assim como as granadas meu corpo estilhaça o vidro ferido. Uma entrada triunfal, preciso manter o nível. Os cacos me acompanham na queda, cintilam com o resto de luz que insiste em aparecer na fumaça. Saco as foices, não libero a corrente, o combate será a curta distância. Memorizei o ambiente, momentos antes de invadi-lo, só seguir reto e chego aos pobres garotos. Pobres? Malditos viciados de língua grande. Em meio ao nevoeiro que armei, surgem alguns meliantes no meu caminho. Não conto quantos, nem ao menos olho para eles. Apenas faço questão de quebrar o máximo de ossos possíveis, na maneira mais rápida que consigo.
Tenho sucesso! Agora são os torturados que aparecem em minha frente, junto com eles Joãozinho gritando algo que não quero escutar, blasfêmias, xingamentos, ofensas! Tenta coordenar o desespero de seus homens. Ouço alguns tiros, nenhum me acerta então não me importo. Após os tiros, seguem alguns gritos. A mira no meio das trevas que proporcionei é magnífica. Se matem seus vermes! Como não notei? João segura uma espada medieval em sua mão. Uma espada de médio porte, mal feita, detalhes grotescos, com uma lâmina suja e desgastada, do tipo que se compra na internet. Nunca serviria para um combate... Ele a usa como ferramenta de tortura! Ao chegar perto de quem eu preciso salvar, entro no campo de visão do desprezível. Ele me vê. Esbraveja algo que ignoro. Isso se chama concentração. Suas jóias douradas se agitam, seus braços se elevam para desferir um golpe vertical. Não vou lhe dar ao luxo de me ver esquivando, seguro as foices e me defendo do golpe. O metal ao se chocar estala! Chuto sua barriga apenas para afastá-lo, e golpeio de forma similar a dele, verticalmente. O imbecil tenta defender, como eu queria. A lâmina do seu brinquedo se parte ao conhecer o verdadeiro aço de uma arma, e a força de quem é digno de desembainhá-la. Libero a corrente que se encontra no cabo de uma das foices, enrolo no pescoço do famigerado e aperto. Em questão de segundos ele apaga. Preciosos segundos, perdidos por capricho. Concentre-se. Mais tiros ecoam. Tenho que aproveitar o desespero! Hora de salvar o dia.
- Muito bom meninada! Agora já sabem porque a porra da maconha não pode ser descriminalizada. É questão de segurança pública, viram?
Vejo a angústia na face dos moleques. Não são moleques. Já são homens! Homens com dezoito anos. Mexeram com lixo, agora estão fedendo. Essa lógica se aplica ao salvador aqui. Não estão muito machucados, cheguei a tempo, esse estado ia mudar com certeza.
- Tira agente daqui, por favor! – implora um dos garotos.
- Vou salvar vocês, mas só se pararem de comprar essa merda! – momento pedagógico.
- Eu paro!
- Eu também!
- Muito bom!
Arrebento as correntes junto com as cadeiras.
- Agora corram nessa direção. – aponto para a saída que memorizei. – Liguem para quem puderem! Qualquer um! VAMOS! CORRAM!
São obedientes. Somem em meio a fumaça. Torço para que acertem o caminho. Não desperdicem meu trabalho, por favor. Até aqui foi muito fácil... Os tiros se calam. A bandidagem está se organizando, perdendo aos poucos o medo. Se agrupando. O número não é pequeno. A festa começa agora!
Tento aproveitar o resto de camuflagem que me resta para atacar qualquer um que encontro. Não há rostos, não há detalhes descritivos, somente a fumaça e minhas lâminas. Meus alvos são indivíduos sem face, sem identidade, um ser humano amorfo. Sem formas. Eu só preciso derrubar o máximo que conseguir antes que o nevoeiro se disperse. Já caíram doze! São muitos, e ainda para piorar vim despreparado. Não esperava um pequeno exército verminoso e bem armado. Quando conseguem me ver disparam com suas armas de calibre grosso, por sorte, e uma pitada de habilidade, consigo me esquivar. A mira torpe dos atiradores ajuda bastante, não conseguiriam acertar um elefante com uma bazuca. Merda! A fumaça está se tornando mais rala. Me tornei um alvo fácil. Não me importo e continuo batendo no que encontro! Meus inimigos são fracos, fáceis de quebrar como varetas, fáceis de cortar como carne no açougue. Começo a ter esperança. Avanço rosnando para cima de um grupo de seis, que conseguiu certa coordenação. Agarro um deles pelos joelhos e o uso como escudo para os socos e chutes que me ameaçam. À medida que os golpes falham, os meus são certos! Nariz, estômago, garganta os alvos mais fáceis. Por fim, brinco de bate estaca com as costas do magrelo em minhas mãos, batendo-as no chão até que ele desmaie.
Não há mais camuflagem. Toda a furtividade que eu me valer não adiantará. A fumaça se foi. O vento a levou, o próprio ar se tornou meu inimigo, assassinando minha única aliada. A porra dos músculos voltam a doer, meus olhos pesam. O ambiente se torna completamente visível agora. Vejo os corpos dos derrotados, dormindo no chão gelado. Em cima de uma mesa estão quilos e mais quilos do mais puro veneno para o cérebro. A chaga que vicia. O mestre das marionetes. O caminho mais prazeroso para o suicídio. Cocaína. Um soco acerta meu rosto, me distraí! Seu burro! Dou graças aos meus reflexos, que respondem com voracidade ao ataque. Meu inimigo cai a minha frente, com a boca sangrando. Me viro para os... Um saco da droga explode em meu rosto! Outro me acerta nas costas. Mais um vem em minha direção, uso as foices para atingi-lo, só então percebo a minha burrice, o pó impregna o ar a minha volta. O tecido da minha máscara é tomado pela farinha! O mesmo acontece com toda a minha roupa molhada. Tento respirar. Merda! Inalo o psicotrópico! O pó entra queimando em minhas narizas. Não posso tirar a máscara! Não posso! A cada absorção do ar pelos meus pulmões, mais da farinha branca ganha meu corpo. Respiro pela boca. Tomo outro soco na cara! Soco poderoso. Forte. Uma brutalidade tamanha. Meus pés se desprendem do chão, caio no chão frio e úmido. O polvilho do diabo atrapalha até a minha visão, que se torna embaçada após o segundo ataque que me acerta. Chuto a esmo, para afastar quem quer que seja. Levanto todo desengonçado. Levo um bicudo nos pés. Tropeço e caio de cabeça no solo. Quanto mais fôlego eu busco, mais droga eu inalo. O desespero agora é meu! Estou praticamente cego, sem nenhuma noção de espaço. Minhas mãos buscam o tato com algo que nem mesmo consigo saber o quê é. O brutamonte me levanta com facilidade. Fala algo que não passa de uns gemidos para meus ouvidos adormecidos. Ao me levantar tenho vertigem. Meu cérebro não consegue coordenar nada! VAMOS NEURÔNIOS DESGRAÇADOS! E sou arremessado até a mesa das drogas. Com meu peso e a força do arremesso ela se parte. Estou envolto aos tóxicos. Que bom. Meus músculos não doem mais. O pé do meu oponente esmaga meu abdômen. Que bom. Nada dói. Sou golpeado por todos os lados. Acho que estou sangrando. Que sensação diferente. O sangue eu sinto. Seu gosto azedo, meio amargo. Meu rosto é vítima de algum punho, nada se quebra. Que pena. A montanha de músculos continua batendo e batendo. Agora o gigante parece cansado. Hum... Que alívio. O vento da chuva lambe meu corpo com seu frescor. AS FERIDAS PASSAM A DOER! Um grito infernal sai de minha boca. Apenas para se silenciar, engasgada com um mata leão. Meu pescoço é alvo de uma pressão descomunal. O braço do bombado está em volta da minha garganta. Que amador. No máximo um faixa amarela meia boca. Um gigante sem disciplina. Isso não é jiu-jitsu. É só força mais nada. Pena que não sinto meus braços. Conheço seis métodos que poderiam aleijar o filho da puta. Pena que... Bom. Meus ouvidos voltam a funcionar. Escuto risadas, eles estão desdenhando da minha pessoa. O anabolisado também zomba. Fico ofendido. Por que fazem isso? Por quê? Hein? Me respondam!
- POR QUÊ? – solto gutural cavernoso.
O Bombinha aperta ainda mais minha garganta. Engasgo com minha própria saliva. O quê não impede que eu continue a exorcizar o que há dentro de mim.
- EU MATEI UM HOMEM! MATEI UM HOMEM HOJE! HÁ, HÁ, HÁ! – gargalho para o demônio. – NÃO PENSEI DUAS VEZES! EU MATARIA TODOS VOCÊS AQUI MESMO! HÁ, HÁ, HÁ. SERIA MAIS FÁCIL QUE FODER A MÃE DE VOCÊS!
Meu pescoço é pressionado, isso não é o suficiente para me calar.
- EU MATEI! EU! MATEI! MAIS UMA VEZ! HÁ, HÁ, HÁ! – como isso é bom!
Minhas mãos tateiam o rosto do meu algoz. Quando encontro algo macio... Meu Deus! Há, há, há! Enfio meu dedo com vontade no seu olho! Uma gosma misturada com sangue me suja, acho que explodi seu globo ocular. O maldito sente a dor. Me debato em busca da liberdade. Preciso de ar! Mesmo urrando de dor, o desgraçado segura minha máscara, a medida que vou me libertando. Sua mão arranca meu disfarce! Nãããooo! Meu disfarce! Minha identidade secreta! MEU ROSTO! Minha face exposta! NÃÃÃOOO!
Agora livre minhas pernas entram em atividade. Corro! Corro como o diabo! Minha visão ainda está embaçada, sorte que logo na frente há uma saída, nada de porta, apenas uma abertura na parede. Transpasso o vidro como se ele não existisse. Vários cortes insignificantes maltratam meu rosto. A bandidagem esbraveja nas minhas costas! Queria que fossem somente palavras. Suas armas imitam seus donos e cospem o que tem. Os tijolos são estraçalhados. Alguns acertam meu kevlar. Não posso cair. Continuo a correr ganhando a rua que parece infinita a minha frente. Meu ouvido volta a falhar, os disparos agora são sons ocos. Isso não os torna menos mortal. Vamos seu maldito amador, fuja! Escape! Uma bala vara minha perna. O chão não me reclamará novamente! Não caio! Mesmo mancando continuo a escapar. COVARDE! Outro disparo corta meu ombro, ainda bem que de raspão. Mais sangue. MEDROSO! Sua mocinha corra! Viro a esquina. Não há nenhum morador na rua, ninguém, somente a chuva que castiga meu corpo.
Um homem sai das trevas. É o fogueteiro! O fogueteiro que eu aliviei a barra. Olho dentro dos seus olhos. Peço ajuda com o olhar. Então desvendo sua expressão. Ele não sofreu! Ele não tem os olhos de um favelado. É uma frieza sem calor. O desgraçado saca uma pistola, não perco tempo em ver qual é. Apenas continuo a fugir. A arma dispara! Meu abdômen sangra. Mais sangue. Avisto um matagal. A mãe natureza está pronta, somente ela irá me ajudar! Entro na mata, não sei se é um lote vago ou uma floresta.
As armas de fogo reclamam a meu corpo! Os tiros desbravam o mato melhor do que os bandeirantes. Consegui uma distancia boa. Pena que não acima de dez quilômetros! Os fuzis ainda me alcançam. A vertigem volta. Luzes brilhantes piscam a minha frente. São fogos de artifício. Me lembra quatro de julho nos Estados Unidos. Pisco. A beleza se foi. Pisco mais uma vez. Está ficando tudo escuro. Pisco repetidas vezes. Maldito frio. Deve ser a chuva. O negro do meu uniforme está vermelho. Gostei do visual mórbido. Tem um buraco na minha barriga. O frio aumenta. Minhas pernas ficam bambas. FORÇA! Seu viadinho! FORÇA! Tropeço. Meu rosto cai em meio ao barro. Sinto o gosto arenoso da terra molhada. Levanto. Continuo a mancar. Não sinto meus pés. O gélido frio aumenta. Então é a sensação. Assim que se...

7 Comments:

Anonymous guts said...

o nível subiu...pacas.

10:43 PM  
Blogger Amanda said...

...
sem palavras pra esse capítulo!

6:40 PM  
Blogger Danielle Kimura said...

olá amigunhu!!
Tô meio sem tempo e te devendo trocentas visitas , mas, tem uma paradinha lá no ficta pra vc tá?
Eu comecei a ler o post alí em baixo, mas toda hora chega gente chata me interrompendo ¬¬
droga!
mas tá engraçado pra caramba, tô na metade! meo, eu adooooro o conselheiro amoroso! =D
depois eu volto pra falar contigo!!

bjuuuuu!!!
*-*

1:09 PM  
Blogger Danielle Kimura said...

depois me dá teu msn se quiser!
fui~~

1:10 PM  
Anonymous Anônimo said...

gostei do seu blog.

8:36 PM  
Anonymous Anônimo said...

Vou continuar lendo peguei o link pelo blog do professor

8:37 PM  
Anonymous Leal said...

ta muito foda zé...

esses 2 últimos foram MUITO foda...

so melhorando...

abraço...

10:42 PM  

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