Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo V - Animalesco
RIO DE JANEIRO – 29 DE JULHO DE 2008
22:20 AM
Denis “Laser” da Silva, do Vidigal. Esse é o próximo. O filho da puta é difícil de encontrar. Já rodei esse bairro umas três milhões de vezes! Já começo a ficar entediado. Ele era pra estar em casa ou em alguma de suas bocas. Não acho o safado! Seria mais fácil se eu perguntasse para aquele garoto segurando aquela AK. O viadinho a segura como se fosse um troféu. Não! Ninguém pode saber que estou aqui.
Parece que tem algo vivo no meu estômago. Fica se remexendo. Espalhando um frio. Será ansiedade? Ansioso pelo que? Aquela conversa mexeu com minha cabeça. Não fico assim há muito tempo. Pareço uma criança que corre atrás de alguma atenção. Merda! Limpa sua mente seu idiota! Temos trabalho a fazer!
O menino atente o telefone. Ele só tem quinze anos. A arma russa é maior do que ele. Começo a leitura labial. Nunca fui bom em ler os lábios, exige concentração, mais uma pitada de dedução. O interessante é como você se desliga do que existe a sua volta nesse momento. “Tá tudo tranquilasso patrão. Pode continuar a cobrança na moral. Do conta dos alemão aqui”. Fazendo cobrança... Aonde? Vou ter que perguntar, não tem outro jeito. Ele desliga o celular. Outro garoto aparece. Jovem, vinte anos no máximo.
- Chama o bonde! Chama o bonde agora caralho! – isso está ficando interessante. O mocinho ali está assustado, chega a bufar.
- Que rolo rapá? – pergunta o menino.
- É o BOPE porra! Os merda tão subindo aí. O chefe não devia ter dado aquele tapa na cara do bacanão. – fala muito rápido, chega a ser difícil de entender.
- Aquele candidato a vereador?
- Isso! O filha duma égua tem costa quente. Já mataram o foguetero... – escuto um disparo. O garoto caí.
O outro é corajoso. Pega seu companheiro e tenta carregá-lo para o beco. A AK não possui coldre, ele a larga no chão. Quando consegue erguer o desfalecido, escuto outro disparo. A canela do menino se parte e ele também cai. Sua mão apalpa o chão em busca do rifle soviético. Devo interferir? Esse ai daria um bom soldado. Não sabe de onde vem o inimigo, está ferido, ainda assim vai em busca de sua arma. Não vou interferir.
Tento procurar os policiais. Analiso as trajetórias possíveis daquele tiro e os vejo. Cinco agentes, subindo de poste
O garoto avista uma provável sombra e dispara sua arma. Seus braços são fracos e não agüentam o coice. Ele atira para todos os lados menos para o alvo correto. Primeira coisa que tenho que fazer: tirar o brinquedo da mão dele. Levo minha mão para minhas costas, pego as foices. Libero a corrente que fica guardada no cabo de uma das duas lâminas. Dois metros de corrente. Um metro de braço? Tem que ser o suficiente. Em resposta dos disparos, os policiais atiram. Acertam o mais velho, agora sim ele está morto. Dois tiros passam de raspão na cabeça do adolescente, agora ela sangra e ele se desespera! Sortudo. Salto da laje. Caio no chão. Temos agora só a largura da rua. Ele está descontrolado. A munição no pente de sua arma está quase acabando, a dos policiais não. Merda! Amanhã, no mínimo irão duas pessoas para a sala de cirurgia por balas perdidas. Corro atravessando a rua. Sinto o calor dos tiros. Armo a foice a lanço até a AK do garoto. A lâmina oval de minha arma prende no rifle. Eu puxo e o brinquedo de terrorista vem até minha mão. Hora da segunda coisa a fazer: salvar o garoto. Em poucos segundos, ele assusta quando vê sua arma fugir de suas mãos. Assusta mais ainda quando pego ele com meus braços e pulo para dentro do beco, tudo isso ao som de tijolos estilhaçados pelas balas. Ele não para de se debater, ainda bem que é leve, isso facilitaria a fuga. Mas não vou fugir. Preciso saber aonde Laser está!
- Escuta aqui! Antes de qualquer coisa me fala aonde seu patrão está? – tento segurá-lo.
- Não falo nada porra! – não é?
- Escuta aqui seu pivete! Acabei de salvar sua vida. Sacô? A porra da sua vida, enquanto você a estraga brincando de soldadinho do morro! – momento pedagógico. – Tem cinco caveiras subindo a rua. Loucos para arrancarem à mesma coisa que eu quero de você. A diferença é que eu não tive que partir sua canela ao meio para perguntar! – mentindo um pouco, talvez eu faria isso. – Ou você me fala ou te entrego para eles!
- Tá na casa da Lidislâine... – ele se perde em lágrimas e desespero.
- Aonde? – eu grito.
- Fica no bairro aqui... – ele aponta. - Do lado! - mesmo chorando e com dor, sua explicação é de quem conhece bem a região.
Pego o celular no seu bolso. Pode ser útil.
- Mais uma coisa... – falo com um tom ameaçador.
- Eu juro que é verdade! Falei tudo! Me mata não... – agora sim ele está em choque.
- Aonde você mora?
Isso agora não chega a ser um choro, é algo que não sei o nome, mas é muito pior. Aquele agudo inexplicável que acompanha a dor. Pego o endereço do jovem. Dou a ele um analgésico, forte o bastante para derrubar um boi. Ele apaga. Saio do beco com ele nos braços.
- Parado aí! – grita o policial de uniforme preto.
- Que porra é essa? – pergunta o outro, minha máscara sempre chama a atenção. Mesmo sendo negra. Quem sabe não uso uma vermelha com um visor de acrílico, quem sabe?
- O quê você está fazendo aqui no Rio? – um terceiro entra na prosa.
- Isso não é da conta de vocês! Agora escutem! – engrosso minha voz.
- Escuta o caralho! Esse moleque ai vem com agente e você também. – o líder provavelmente, começa a andar em minha direção.
Coloco o garoto no chão. O policial se aproxima, como se desejasse confusão. Os outros apontam suas automáticas. Agora ele está mais próximo. Eu o deixo fazer seu show.
- Escuta aqui você... Se acha que isso daqui é pra neguinho fantasiado...
Eu até tenho simpatia por esses homens. Não são corruptos, como o resto da escória desse lugar. Entretanto são muito violentos. Não que essa bandidagem não mereça. Hoje o trabalho aqui é meu, eles querem o Laser e eu também.
- Fica pianinho, vai curti a praia e deixa agente com o trabalho. – ele saca sua bereta e a coloca em meu queixo.
- Capitão! – um outro toma a palavra. – Vamos só pegar essa lixo aqui e descer. O Jack Built ai está do mesmo lado que agente.
O homem se distraí. Era tudo que eu precisava! Sem que eles vejam saco uma de minhas adagas, desarmo o policial e levo a lâmina até o seu queixo. Todos ficam surpresos. Estão tensos. Arranco a etiqueta com o nome que identifica o policial. Daniel de Andrade.
- Siga o conselho de seu colega. Daniel não é? Daniel do BOPE. Agora sei quem você é e tenho um trabalho para você. Escute com atenção. – agora eu dou as ordens aqui. Tenciono um pouco a lâmina sobre a pele de seu queixo, descendo para o pescoço – Leve esse menino para um hospital. Ele mora aqui perto. – dou o endereço. – Avise sua mãe do lugar que ele costumava brincar. Se caso ela já saber. Providencie para que nunca mais ele volte para esse lugar. Você é capaz de cumprir essa missão? – tenciono mais um pouco, quase chega a sangrar.
RIO DE JANEIRO – 30 DE JULHO DE 2008
05:14 AM
Digamos que... O molequinho me passou a perna. Já se foram horas e nada do Denis Laser. Está tudo bem tranqüilo por aqui. Nenhuma troca de tiros, nenhum corpo esparramado
Pego o caminho de volta para o ponto de ônibus. Estou até começando a gostar dessa lotação. Seria bom escrever algo depois. Não! Deixarei isso como experiência pessoal. São tantos rostos, vidas, expectativas... Tudo isso dentro de uma lata velha que não para de chacoalhar.
Realmente esse bairro está muito tranqüilo. Da até para escutar uma criança chorando. Nossa! Como ela chora. Elas sempre choram. Isso me deixa puto! Tudo é motivo de lágrimas, dramalhão... Tenha dó. Pelo menos elas são bonitinhas. Eu até gosto de criança... Quando não estão chorando. Nossa! Esse ai ta demais. Vai dar até eco. Paro um instante sem perceber. Algo me faz parar, não sei o que é. Presto mais atenção ao pranto. Está
- Qual o problema? – paro em sua frente. É um garotinho de três a quatro anos, são todos iguais nessa idade.
- Buuuááá... – ele não percebe que estou em sua frente, está com as pequenas mãos nos olhos, então se choca contra minha perna e cai.
- Eu perguntei... Qual o problema? – o pego pelos sovacos e o levanto, deixando meu rosto de frente para o dele.
Seus olhos se arregalam. Cessa seu pranto, graças a Deus. Suas mãos diminutas tateiam minha máscara, quase chega a arrancá-la.
- Cê veiu mi salva? – sua voz sai estranha em meio a tanta saliva.
- Sim. Qual o problema? – nunca levei jeito para isso. Deveria soltar uma frase do tipo “não tema, estou aqui para salva-lo”.
- Mamãe ta dormindo e não quer acordar. Injeção feia ta presa no braço dela... Tem um monte de pozinho fedorento espalhado no travesseiro... – mãe viciada, coitado, seus olhos começam a ficar molhados novamente. – Leisi pego a Natinha e levo pro quarto... Fui briga cum ele e ele me jogo pra fora. – seu rosto tente a ficar cabisbaixo, o menino está triste por não poder fazer nada, incrível!
Peraí... Leisi... Denis “Laser”! Filho da puta! Parto em disparada para a casa desse bebê desamparado! Levo-o em meus braços.
Demoro poucos minutos, ele aponta para um pequeno barraco. Desço-o de meus braços.
- Espere aqui, falou? – faço um sinal de “jóia”. Ele faz que sim com a cabeça.
Me preparo para entrar na casa. Foices em punho.
De repente sai um homem. Me escondo. Ele é grande, magricelo, tem um bigode ralo em cima de sua boca. Está suado. Ajeita o zíper. Vira para a casa e grita. “É bom arruma grana se ainda quisé bagulho viu sua safada”. Meu sangue ferve. O que estava preso em mim parece que começa a ser liberado. Aquele frio na barriga se torna um calor por todo o corpo. Denis se distancia da casa. Não quero pegá-lo agora. Primeiro a segurança de suas vítimas.
Entro no barraco. Vejo a mãe deitada na cama. Está acordada, ainda muito grogue para se lembrar de alguma coisa. O lugar fede a sexo. Escuto a água do chuveiro, viro meu rosto e vejo a luz acesa em meio ao vapor. Abro cuidadosamente a porta. O que havia de humano em mim vai embora. A garota, a Natinha que o chorão falou... Deus! É uma criança! Menina! Ela tenta lavar algo que está grudado no cabelo, está com um hematoma horrível no rosto... Ela olha para mim, não vejo vergonha em seus olhos. Ela não tem vergonha de eu vê-la se banhar! Ela só fala... “Mamãe ta te devendo também? Espera só eu me lavar... Já vou...” Não consigo escutar o resto. Soco com força a porta, partindo-a no meio. Meu coração dispara. Minhas veias ficam quentes. Minha perna começa a tremer. Aperto meus dentes, não me importa se eles começarem a trincar! Isso é ódio! Corro até a rua... Corro até Denis!
5:43 AM
- Denis? – ele se vira.
- Que? – acerto seu rosto. Ele voa.
No chão. Isso! Fique aí! Corro e acerto o meio de suas pernas. Escuto o som de algo explodir. Ele grita e eu me sinto bem!
RIO DE JANEIRO – 30 DE JULHO DE 2008
5:45 AM
- Por que você não se perguntou isso há uns minutos atrás quando violentava aquela garotinha?
- Porra cara! Para! Aaaaahhh! A mãe dela não dava pro... Aaaaahhh... – agora amarro as pontas do arame, isso acaba puxando um pouco a carne.
- Eu sei, já entendi tudo. A mãe dela é uma vadia viciada em pó, crack e outras merdas. Certo?
Ele confirma com a cabeça. Sua cara de vagabundo me da raiva só de olhar. Esse cabelo oxigenado, com um desenho do Flamengo, pele morena, uma roupa de marca, corrente pendurada no pescoço. Não pude deixar de notar a tatuagem do “O Comando Comanda”, algo do tipo. Comanda meu saco, seu traficantezinho de merda.
- Ela não tinha mais dinheiro para... Pagar. Pó brother, alivia ai pô... – sua respiração está falha,mal consegue falar. Tentar negociar comigo é inútil, ele já devia ter percebido.
- Escuta aqui seu covarde, eu pareço alguém que negocia com traficante? Eu tenho cara de quem da mole pra um filha-da-puta que destrói a vida das pessoas? – chego bem perto do seu rosto, ele sente meu hálito de menta saindo da máscara.
- Oh doidim... – puxo o arame, ele tem um espasmo de dor.
- Respeito! Isso você não tem não é seu babaca? Vou te ensinar um pouco esta noite.
Coloco o meliante em pé, suas pernas tremem enquanto se esvai em vermelho vivo, com as duas mãos seguro a gola de sua camiseta e o trago novamente para próximo do meu rosto. Exibo minha força levantando-o do chão. Ele tenta falar algo, mas não deixo. Essa noite é minha!
- O que você vai falar eu já sei! Eu não do à mínima se você teve uma infância difícil! Se o Estado não comporta a população daqui, não da uma educação de qualidade, nem um pingo de assistência e os deixa a mercê de marginais, criando uma porra de um círculo vicioso! – ele não entende bem o que falo, é de se esperar, vítima de sua própria ignorância, mas não uma vítima para mim. Que se crie o chamado Direito alternativo para resolver os conflitos aonde o Judiciário não chega, mas não me venha falar que você tem o direito de destruir a vida dos outros! – a confusão e a dor que ele sente fazem queimar sentimentos e sensações em meu interior. Você não tem esse direito! – agora eu grito, algumas luzes se acendem na vizinhança. Você! Não! Entendeu?
- Me mata então carai! Vai cê é tão fodão assim, me mata! – desaforado não?
Jogo-o no chão com toda a força, ele quica uma vez. Coloco o pé em sua garganta, como gostaria de pisar e ver seus olhos pularem para fora do rosto. Mas, não. Eu não faço isso.
- Eu não vou te matar. – seu rosto emite uma expressão de alívio.
Chuto suas pernas amarradas com o metal do arame. Arame enferrujado.
- Está vendo isso? – aponto para a armação que fiz com sua própria carne. Está enferrujado, provavelmente você pegará tétano. Aparecerão sintomas bastante intensificados, causam, com freqüência, aspiração de salivas ou do conteúdo gástrico para as vias aéreas durante as crises de apnéia. Poderá ocorrer também uma rigidez generalizada. Mas você não ira morrer, eu não vou te matar.
O medo volta a seus olhos.
- Eu vou te usar.
Escrevo um pequeno recado para quem vier buscar esse lixo humano. Seja a polícia, sejam os seus comparsas. Eu quero que eles saibam! Todos eles! A imprensa! Todos! Eu vou fazer as coisas do meu jeito agora! Eles esconderam informações, mas eu sabia de tudo. Discrição? Isso não está na moda. Eu preciso estar na moda.
- Me usar? Como? – seus olhos ficam cheios de lágrima.
Os moradores locais começam a acordar com o primeiro sinal do amanhecer. Pessoas que sacrificam seu sono para dar o sustento a seus filhos e aos impostos desse país ingrato, já levantam, e assistem ao show na primeira fila. Isso é para vocês e por vocês!
Me aproximo novamente do excremento de homem a minha frente.
- Você já ouviu falar em “espetacularização”?
Ele esbanja curiosidade. Ele em seguida conhece a sola da minha bota por inteiro, piso com força em sua cara.
RIO DE JANEIRO – 30 DE JULHO DE 2008
08:47 AM
No Folha On Line:
“Jack Built prende traficante acusado de coibir campanha eleitoral no Vidigal”
No O Globo:
“Vigilante mineiro aparece em favela carioca”
No Estadão:
“Dito herói mineiro age com violência no Rio”
No Estado de Minas:
“Jack Built no Rio de Janeiro?”
Na Folha de São Paulo:
"Traficante é torturado por Jack Builto, o Louco”
que conheci esta noite. Meu telefone toca.









