Mente De Um Zé Que Se Chama Pedro

Este é um espaço para expor meus pontos de vista sobre os mais variados assuntos, desde política até a nova banda que começou a tocar nas rádios. Espero que gostem e que também comecem a despertar seus espíritos para a crítica! Beijos para as mocinhas e abraços para os mocinhos!

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Nome: Pedro Augusto

Um Zé que se chama Pedro.

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo IX - Cotidiano e um pouco de Jornalismo

Três homens entram na lotérica. Usam moletons largos, falsificados, chamativos e amedrontadores. Chegam até a caixa, uma pobre moça, se chama Luisa. A coitada sabe o que virá em seguida, a moça pensa “vou ser assaltada”. Acontece como o previsto... Eles puxam, cada um deles, de dentro de seus casacos suas armas. Um 38, uma 9mm e uma 22. Não há sons em suas vozes, apenas gestos brutos, grosseiros nessa cena embaçada.
Uma sombra adentra no recinto, é dia, então sua imagem deveria ser nítida... Não passa de um borrão negro se movendo rapidamente. Ataca os homens pelas suas costas! Usa seus moletons a seu favor, dificultando o movimento dos criminosos. Chuta a cabeça de um, que é lançado contra o acrílico que protege a caixa registradora dos curiosos. Golpeia cruelmente os outros dois. Chega a ser humilhação. Um tiro é disparado, propositalmente pelo ser das trevas. A bala acerta o pé de um dos homens. Há dor em seus olhares. O monstro sem rosto não para até que os três estejam desacordados. Em seguida, da algumas considerações para a pobre Luisa e amarra os meliantes, com qualquer coisa que seja possível.
Uma hora depois, a polícia chega.

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Leo sabe que não devia vender essas merdas. Ele gosta de usar, da uma “onda”. Assim como o garoto sabe que é errado fazer isso, ele sabe que isso da uma graninha boa! Já pegou umas quatro “cremosas” em menos de uma semana. Ele “ta no lucro”. Já faz um ano que isso é sua profissão. A mesada do seu pai não é suficiente, um homem ambicioso, ele precisa de mais!
“Classe média” esse é seu rótulo. Está famoso lá no morro. A playboyzada compra muito! Leo tem passe livre para subir até o “homem”. Pena que está prestes a se ferrar bonito.
A transação “vai ser pesada hoje”, pensa. “Culpa do Jack Built, desde que aquele filha da mãe tá na área, a galera ta vendendo tudo que tem, de uma vez só. Ainda bem que o maldito num pega gente como eu. Fica só lá na favela”.
Leo avista seus fornecedores. Comprimentam-se. São velhos conhecidos. Enchem a sua mochila, ela vai voltar mais pesada hoje.
Tudo acontece à luz do dia, na esquina de um bar vagabundo. Lotado em plena quinta-feira à tarde.
Quando o zíper se fecha, um homem mascarado pula em cima do garoto. Ele aguardava esse momento em cima do telhado. Pulou em cima do garoto! Sem pensar duas vezes! Leo está apagado, com alguns ossos quebrados. Seus fornecedores estão paralisados. O ninja, vestido como um membro da Swat olha para cada um e ri debaixo da máscara. Em apenas quatro segundos estão todos no chão.
Surgem policiais a paisana de todas as partes, esbravejando. “Você estragou três meses de investigação”, grita um deles. O homem mascarado responde colocando fogo na mochila do garoto. Uns bons quilos do que tinha ali dentro se perde.

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Arnaldo grita com sua esposa, antes de acertar o rosto da mulher com sua mão fechada. Nada se quebra, a não ser a dignidade. Viviane com medo e raiva revida, só que o macho é mais forte! E responde a altura, agora com sua mão aberta. Ao contrário do primeiro golpe, o segundo vem acompanhado por outros. A mulher sabe que é inútil gritar. Só chora, não a nada mais o que fazer. As lágrimas são sua única defesa, que por sinal, são inúteis também. Enquanto ele quebra seu maxilar, a pobre moça lembra do dia do seu casamento, prestes a recordar o momento em que assinou o papel no cartório sua cabeça bate na mesa. Um corte se abre, sujando de vermelho o forro de mesa.
Já é tarde da noite. É também a terceira vez que Arnaldo a espanca. Foi aconselhada a largá-lo, quando apanhou da segunda vez. Na primeira falaram para perdoá-lo, “são os problemas no trabalho, sabe como ele ganha pouco e trabalha muito” falou sua mãe. Por isso ela só chora.
O fato é que... Arnaldo não teria problemas financeiros se não gastasse tudo no bar. Ele se sente superior quando sua esposa está assim. Sangrando, cheirando seu bafo de álcool.
Viviane não reza mais... Pra quê? Ela pensa. Só que por uma última vez seus pensamentos vão até Deus. Não para Jesus, para alguém que possa escutá-la. Esse alguém não existe...
Arnaldo pega uma faca e gargalha. Agora o desespero vem à tona. De algum modo ela sabe que esse tipo de dor, seu corpo jovem, de apenas vinte e seis anos, não agüentará. O pranto fica mais triste. Seus olhos se fecham.
Os sons dos móveis se quebrando. Pratos estilhaçados. A mesa que a feriu se partindo. “Arnaldo está destruindo nossa casa também”. Viviane está errada e só descobre quando abre os olhos, após o barulho cessar. Um ser iluminado, pela aura incandescente que paira sobre sua cabeça. Ela sorri. O homem sem forma estende sua mão, e aconselha “ligue para a policia e conte tudo, ele não vai mais te incomodar”.
Ela procura o marido em meio a sua sala destruída. Sua visão o encontra... Espancado! Ferido gravemente, talvez! Semimorto. Chega a sentir pena. Sem saber o motivo procura a faca também, não a encontra, então desiste de procurá-la, “melhor nem saber”. Se sente aliviada, só pelo tempo que Arnaldo passará no hospital.
Volta o rosto para o homem... Ele não estava mais lá. “Obrigada”, ela agradece em voz alta. O homem consegue escutar, quando parte em meio ao escuro da noite.

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“Vocês não vão subir aqui”, grita um homem mascarado por uma toca, cortada nos olhos e na boca. Várias pessoas discutem. Há cinco pessoas bem armadas, impedindo o acesso à favela. São milícias, que vieram trazer a paz para os moradores daquele bairro.
Quem quer subir reluta, discute, argumenta. Acrônico do Mercadinho é candidato a vereador. Precisa dar continuidade a sua campanha, só que além dos traficantes, agora as milícias, ou apóiam certos candidatos “do meio”, ou cobram R$ 30.000,00 para quem quer fazer campanha. Ronoverto Gélix, candidato pelo PT paga a quantia e os homens abrem passagem.
Acrônico vê sua candidatura como à saída para a pindaíba. Seu mercado vai mal. É mal administrado, ele chega a dar calote em alguns fornecedores, enrola outros. Nunca paga suas dívidas. Ser vereador é a melhor saída! Só que sem campanha é impossível! E pagar esse dinheiro... Nem cogita a opção.
O mesmo fato atinge outros sete vereadores da mesma coligação. Levaram um bom pessoal para tentar coibir o bloqueio, pena que ninguém ali é a prova de balas.
O pretenso vereador abaixa a cabeça e pensa em suas dívidas, somente nelas. Na sua liberdade individual? “Que se foda”, ele quer é o dinheiro. A policial não vai ali nem por decreto... O exército... Nenhum juiz libera nenhuma liminar. Até que escuta um homem gritando. “Todo mundo vai subir ai hoje!”. Sua voz é cavernosa, gutural. Acrônico se vira e vê um homem com um colante preto, protegido por uma espécie de armadura, ou algo do tipo. “É Jack Built!”, pensa o homem. Nunca viu ele de perto, todos ficam calados, ou apenas cochicham, enquanto Jack se aproxima dos miliciados. Um deles chega a tentar discutir, mas é detido pelos outros. Só a presença dele ali garantiu a campanha, ao menos por um dia.
Acrônico não esquece da última e segunda fala de Jack naquele dia, “vão, subam e contem suas mentiras, eu estarei vigiando”. Isso deu medo no devedor contumaz, o quê não o fará impedir de se endividar e mentir novamente.


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O velho e bom policial militar, o senhor José das Luzes se prepara para mais um dia de caridade. Aos fins de semana o caridoso oficial “perde” algumas horas de sua vida fazendo trabalhos comunitários. Desde o famoso sopão para os desabrigados, nas solitárias madrugadas, até grupos de ajuda para pessoas depressivas. José também da palestras sobre segurança pública. Seu coração é bom, gosta de ajudar a todos. Mas quem ele realmente gosta de agradar é a professora de uma singela Escola Municipal, situada bem no meio da guerra civil carioca.
Todos na comunidade gostam dele, principalmente a humilde professorinha. Essa semana a PM vai visitar a singela escola, e José não pode deixar de ir! A idade leva consigo a beleza, a barriga cresce, a única vaidade passa a ser o bigode. Até sua careca o ameaça, aumentando a ausência de cabelo a cada dia que passa. Mesmo assim, José das Luzes é um homem confiante! Seu objetivo principal na brincadeira com a molecada: arrancar um sorriso de sua amada.
Ambos, a professora e o policial, já foram casados. Ambos, se encontram sozinhos, ela divorciada, ele viúvo. Par perfeito. Amor certo. Se não fosse a propensa admiração pelo amor platônico, aquela bobagem que cultivamos quando adolescentes. Entretanto, Jack Built irá mudar tudo...
Sábado, a escola está lotada! A molecada corre feliz, brinca com o bonecão da PM. Coitado do homem que tem que vestir tal fantasia, cada tapa que leva em sua cabeça gigante, ecoa como um sino da Santa Sé em seu ouvido. Todos estão felizes! Menos a professorinha, que não para de se perguntar “aonde está José das Luzes?”. “Ele tinha plantão ontem, pode ter acontecido algo ruim. Com esse louco vindo de Minas Gerais todos policiais estão trabalhando dobrado. O quê será que aconteceu? Aí.”. Algo realmente atormenta a pobre mulher, só que ela nem imagina o quê irá acontecer.
“Todos no chão!”. Um grito grosso ecoa pela quadra esportiva. Os meninos se assustam. O homem está armado, isso é normal em certas partes do Rio de Janeiro, e em todo o Brasil. Não é normal apontarem para você a arma. A professorinha toma a frente para defender seus alunos. “Não tem nada para você aqui seu marginal”, esbraveja a mulher. Ela é corajosa, por fora. Por dentro morre de medo, coisa que o bandido não tem. O criminoso se prepara para atacar... Outra pessoa grita. “Não temam, meus queridos cidadãos! Crianças vão para perto de suas mamães! Vou pegar esse moço malvado! Vamos mostrar para esse maléfico homem que o crime não compensa!”. E aquele homem, mascarado, o vigilante, o protetor, aparece em cima do muro! As crianças vibram! É Jack Built, com sua máscara de pano, seu moletom preto, sua calça preta surrada e suas luvas de motoqueiro. E também sua barriga de cerveja, que insiste em aparecer por debaixo da fantasia! O herói salta e quase cai ao aterrissar no chão. Arruma sua calça, já que o seu “cofrinho” resolveu dar as caras. Ajeita a roupa. Agora corre em direção ao bandido. Puxa de seu bolso um pedaço de madeira, e fala: “Agora você verá o pode da justiça! Não podemos fazer mal a ninguém. Devemos respeitar o próximo, estudar, comer tudo que nossa mamãe pede e rezar para o Papai do Céu todos os dias!”. O criminoso responde, largando a arma de plástico no chão, “me perdoe senhor Jack Biuty”. O super-herói responde “Está perdoado”. Se vira e cumprimenta o bonecão da Polícia Militar, “eu sou amigo da Polícia, eles sabem o que é bom para vocês, assim como Jack eles também nos protegem”. As crianças e todas vibram!
A professorinha sorri. Debaixo da máscara José das Luzes também.

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RIO DE JANEIRO – 03 DE AGOSTO DE 2008

21:30 AM


- Meu Deus! Já vi esse vídeo um milhão de vezes. Só o Jornal Nacional já passou três vezes essa semana. – falo em voz alta para ninguém. – Agora o Fantástico!
Eu não fiz nada demais, só peguei uns ladrõezinhos mequetrefes. Agora todos estão falando disso. Bem, era isso que eu queria, mas já chega não é senhora imprensa? Só no youtube o maldito vídeo foi visto mais de duas milhões de vezes, só em uma semana! Podiam falar de outras coisas que eu fiz. Sei lá. Tudo bem... Está tudo como o previsto. Estou em todos os canais, ao menos uma vez por dia. Tem que continuar assim.
A reação está sendo positiva. Menos homicídios, tráfico recuando, corruptos amedrontados. A Globo me apóia quase que unanimemente. Por que será? Foi bom ter salvado aquela gordinha. Existe também quem senta o pau em meu humilde alter-ego. Eu entendo essas pessoas. Não gostaria que ninguém saísse por ai achando que é o salvador do mundo, ou coisa parecida, só que esse alguém sou eu... E eu confio em mim! Gostaria que eles soubessem disso.
Não vou caçar hoje, a semana já foi produtiva, muito nego ruim no hospital e na cadeia. Tem um programa especial para o Jack na televisão. Convidaram um psicólogo para falar sobre como “influencio” o meio social, a atitude das pessoas, a economia, a política eleitoral. Pura bobagem... Vai valer a pena assistir esse programa.

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo VIII - A Verdade Através Dos Seus Olhos


RIO DE JANEIRO – 31 DE JULHO DE 2008
00:11 AM


Já estou na festa há quase uma hora. Tudo aconteceu como manda o figurino. Entramos na mansão, que por força do óbvio é grande! Muitos carros, alguns nacionais, outros importados. O casão é lindo! Angélica me contou que foi o pai o cabeça desse projeto. Parabéns!
A festa acontece tanto dentro quanto fora da casa. Dentro temos uma sala típica, grande, sofás enormes, pessoas bêbadas, televisores que mais se parecem com a tela de cinema. Do lado de fora, a piscina da um clima tropicalesco a festa. Nada convencional, um formato oval, com um bar a sua margem. Luzes brincam com os sentidos dos convidados, enquanto a música toca. O que mais me surpreende é que hoje é quinta-feira! Indaguei a Angélica o porquê dessa festa. “É aniversário do Bruninho”. Segundo ela o cara é o maior festeiro do Estado! Todos devem ir a suas festas, dando a elas um caráter VIP, logo, nem todos vão a sua festa.
Vejo alguns rostos conhecidos. Alguns artistas da Globo, SBT e Record. Me sinto até lisonjeado quando uma daquelas atrizes bonitas e gostosas, que não lembramos de qual novela elas participaram, olha para mim e sorri. Levo um beliscão de Angélica. A noite promete ser divertida. Vou relaxar.
Sou apresentado a várias pessoas, não procuro gravar os nomes. É impossível lembrar de todos. Fui obrigado a fazer uma piadinha com minha companheira. Perguntei se ela tinha uma pinta na perna direita, ela fez uma cara de nojo, mas aceitou a brincadeira. Estou me sentindo feliz. Isso é bom.
Pegamos algumas bebidas, começamos a dançar. Fecho um pouco meus olhos, meu corpo está leve. Sentia falta dessa sensação. Eu, aqui, longe de casa e de todos. Gosto de me sentir sozinho, ainda mais quando bem acompanhado. Contradição maravilhosa! O cheiro de cigarro me incomoda um pouco quando a fumaça invade minhas narinas. Penso na impossibilidade de reclamar, afinal, é uma festa, pessoas fumam em festas... Pena que quando abro os olhos, é a Angélica que ostenta a chama suicida entre seus dedos. É o segundo está noite.
- Angelina, minha linda! – uma voz aguda grita.
- Bruninho! – Angélica responde.
- Você está demais! Linda de arrasar Mary! – esse Bruninho está mais para Xuxinha.
- Oh meu amor, você que está maravilhoso com essa roupa. – pegue todas as marcas caras possíveis, agora vista um viado, pronto, esse é o Bruninho.
- Estão comentando que você veio com um bofe misteriosérrimo. Cadê ele? – ela aponta para mim. Não há como não sentir vergonha.
Comprimento com a cabeça e estendo minhas mãos. Ele é recíproco. Cochicha algo nos ouvidos de Angélica, ela cai na gargalhada e da uma tragada no cigarro. Eles se despedem, combinam de conversar depois. A festa continua.
Percebo uma garota isolada. Gordinha, cheia de pircings, com mais acessórios nos braços do que um clero do Vaticano. Seu olhar está caído, abatido. Fico olhando para a garota, penso nos possíveis problemas que ela pode ter. Aqueles internos que todos temos a solução... Menos a própria dona deles. Ela percebe que olho. Nossos olhos se encontram. Fico envergonhado, entretanto não paro de olhar. Não posso deixar que sua tristeza vença. Angélica percebe, olha para a garota. Elas se conhecem, sorriem uma para a outra. Acena após o comprimento, a gordinha vai embora. Provavelmente procurar outro canto para remoer seus sentimentos.
- Não liga pra ela meu bem. – fala Angélica, como ela está maravilhosa hoje. – Acho que ela tem depressão.
- Você a conhece?
- Ahan. Éramos amigas no colégio. Saíamos juntas e tudo mais. Ela é era magrinha, mais bonita que eu. – duvido, Angélica acende outro cigarro, terceiro da noite. – Tudo começou quando ela arrumou um namorado. Ele era o traficantezinho da nossa escola. Descolava as coisas de graça pra gente, sabe, as meninas sempre ganham de graça.
Queria que ela parasse a história, me bateu um desejo de não conhecê-la.
Vamos lá... Não posso parar agora.
- O nome dela é Alice. Naquela época ela tentou parar sabe. É difícil. Muita pouca gente consegue, você entende não entende? – agora sim me arrependi, mas a bomba ainda está por vir. – Eles terminaram porque o tio dela proibiu o namoro. Te falei que ela vivi com os tios? O tio dela é um dos diretores da Globo! Legal não é?
- Muito... – aonde essa conversa vai parar?
- Então, nem preciso falar que ela continuou a usar, e está ai até hoje. Usa, para, volta. Coitadinha.
Concordo balançando a cabeça. Eu sei de que “coisas” ela está falando. Drogas não escolhem classe, nem idade, muito menos intelecto. A bichona do Bruninho volta.
- Angelina minha fofa. Sabe quem está pa-tro-ci-nan-do a festinha hoje? – essa fala sai quase como um escândalo.
- Quem? – ela pergunta.
- “Joãozinho”! – ele faz uma pausa e balança a cabeça como se isso fosse a coisa mais legal do mundo.

- O quê? – Angélica se espanta. – Isso não é perigoso? O cara é sujeira!
- Relaxa baby, eu sei que você deve ter trago a “sua”, mas se quiser temos de tudo hoje! Da pura, da boa. Tem bala, doce também. Fiz um preço finérrimo. Ta tudo liberado hoje! Toninho já deu um jeitinho para Polícia nem passar aqui.
Eu já não fui com a cara desse viado, agora ele coloca, em uma mesma frase, os nomes dos filhos da puta que eu vim pegar! Toda a magia da festa se vai, ao menos para mim. Estou em território inimigo. Malditos financiadores! Confortáveis em suas orgias, ao som de MPB’s e músicas eletrônicas. Meus olhos rastreiam todo o ambiente pervertido. Homens, mulheres, todos jovens, alguns cheirando, fumando, “chupando” balinhas como se fossem doces inofensivos que se vende em padarias. Agora Angélica termina de estragar tudo. Ela ascende um quarto cigarro. Seu aroma é conhecido. Cheira a
Cannabis sativa, tetrahidrocanabinol. Maconha. Pura. Nada e orégano, ou outros produtos como veneno de rato e merda de cavalo, para baratear o custo. Um mísero cigarrinho responsável pelas sensações de relaxamento e desinibição.
Ela percebe o quão fico incomodado. Sua mão segura meu braço, que mãos reconfortantes. Quase me sinto aliviado, até que ela da mais uma tragada. Meu inimigo flerta com os lábios de minha parceira. Angélica beija a ceda com vontade, sede de alguém perdido no deserto. Ela quer se divertir e brincar...
Dou as costas para Angélica. Pego uma bebida e vou até uma área mais afastada. Sento na grama e contemplo a bela vista para a cidade do Rio de Janeiro. Começa a tocar uma música agradável, deito no vegetal úmido pelo sereno. Ela não veio atrás de mim, fico apenas deitado. O tempo passa. Olho para os céus, vejo as nuvens tomando as estrelas. Daqui a pouco o dia amanhecerá nublado, perfeito. Cenário mais do que adequado para a decepção mais rápida da minha vida. Não há o que fazer, não quero fazer mais nada, apenas fecho meus olhos. Enquanto outros milhares se divertem, lembro o custo de cada risada, cada baforada de fumaça, cada tiro que tomei lutando contra a escória do narcotráfico, toda vida perdida. Tudo isso aqui perto. Perto da minha casa, perto do meu país. Morro do Papagaio em Belo Horizonte, bairro Santos Dummont em Lagoa Santa, Vidigal aqui no Rio de Janeiro, floresta amazônica na fronteira com a Colômbia, África. Quem lhe deu essa responsabilidade? Quem? Responda Jack! Responda! Tudo é tão lindo, a decoração, as pessoas, a cidade maravilhosa... Que se foda! Será que fui muito grosso com Angélica? Droga...
- Ta fraquinho demais hein tigrão? – sua voz é tão harmônica.
- Estou pensando... Só isso. – respondo de forma fria.
Angélica deita ao meu lado, encosta sua cabeça no meu peito. Levo minha mão até seus cabelos macios, acaricio sua cabeça, descendo a mão e massageando sua nuca. Sinto um pouco de tristeza nela. Seus braços me abraçam com força. Muito bem Augusto, você acaba de estragar a festa de outra pessoa. Nos beijamos, e ficamos ali... Parados... Sentindo o calor de nossos corpos, enquanto o frio trazido pelas nuvens ganha o clima da madrugada. Não sei quanto tempo passou. Isso não importa. Quero me sentir bem... Eu tento... Mas é impossível.
Angélica adormece em meus braços, já é tarde da noite, a melodia frenética das músicas é trocada por uma roda de amigos tocando violão. Alguns convidados se foram, outros estão adormecidos ao redor da casa. Carrego o corpo de Angélica, como se casados fossemos. Tomo cuidado para suas pernas não ficarem ao relento. Arrumo seu vestido. Meu Deus como ela parece tão graciosa quando dorme. Tão pura. Nem acordada nem dormindo, ela percebe que está sendo carregada, seus braços dão a volta em minha nuca para dar-lhe mais apoio.
Levo a bela adormecida até um sofá. Lá ela descansará. O móvel é grande, não o bastante para nós dois, fico sentado e coloco sua cabeça em meu colo. Apoio à cabeça na parte superior do sofá, pensar realmente cansa. Ainda mais quando não se pensou em nada. Minhas pálpebras brigam comigo, insistindo em se fechar... No fim, sou derrotado. Adormeço.
- Quanto tempo eu dormi? – acordo no susto, já é dia.
Ninguém escutou. A sala está repleta de corpos. Todos dormindo. Alguns chegam a estar nus. Outros abraçados uns no outros. Verifico o recanto do sono da minha companheira, está intacto, Angélica dorme como um anjo. Levanto sua cabecinha com cuidado para não acorda-la. Preciso mijar! Estou realmente apertado.
- Aonde é a porra do banheiro? – pergunto em voz alta. Ninguém responde.
Lá está Bruninho purpurina, deitado no chão com outros dois homens. Chego até ele. Totalmente apagado. Dou uns tapas em sua cara, nada da bicha acordar. Vou ter que procurar o banheiro.

Vasculho uns dois cômodos, chego até a cozinha e percebo que é o caminho errado. Entro numa espécie de escritório, mixado com um salão de jogos. Uma porta de vidro permite que a luz desse dia nublado invada todo o ambiente. Vejo alguém dormindo em cima da mesa de sinuca. É a gordinha! A tal da tristinha. Alice o nome dela. Coitada deve ter exagerado, pobre de seus tios. Aonde mesmo o tio dela trabalha? Deixa pra lá... Achei um toalete.
O alívio é imediato, quase um orgasmo. O momento perfeito para qualquer abstração. O momento da mijada! Lavo minhas mãos logo em seguida, higiene é tudo hoje em dia. O que nos separa dos séculos passados. Penso novamente da fofinha dormindo ali no outro cômodo. Lembrei! O tio dela trabalha na Globo! Isso! Espera um instante... Ela é alvo do tribunal do tráfico! Que merda! Como pude esquecer! Mas por quê? É apenas uma pobre e depressiva viciada... Já sei... Pobre, depressiva, e ex-namorada de um filho da puta traficante que deve ter se fudido! O tio dela tem algum dedo ai. Se ela parasse, o namoradinho devia ter ficar puto, sabendo demais, logo, se é para apoiar a menina, corte o mal pela raiz. Como homem adora falar pelos cotovelos para suas namoradas... Pronto, o palco está armado! Analisei ao fundo quem eram os alvos antes de vir para cá, ela era a única que eu não sabia o nome, nem o porquê. Ainda está muito confuso, isso não importa! Ela é alvo, isso eu tenho certeza. Fica tranqüila mocinha vou pegar os safados antes de fazerem algum mal para você. Dou a última olhada do espelho, me preparo para sair do banheiro.
- ... – engulo minha voz.
Um cara está bolinando a garota! Passando a mão em sua bunda e em outros lugares. Ele está doidão, ela mais apagada do que luz em dia de temporal. O olhar do maníaco é amedrontador. O desgraçado sabe que ela não vai reagir. Um gozo fácil, rápido. Doenças transmissíveis, que se fodam! Suas mãos covardes apalpam a carne branca de sua pele. Ele vai fuder Alice ali mesmo, em cima da mesa de sinuca. O zíper se abre, seu instrumento medíocre vem à tona, faminto, lascivo! A calça da moça é abaixada... Eu assisto todo o teatro, só por um motivo... Alimentar minha raiva! É assim que terminam festas como essas... Com alguém se fudendo. E não vai ser a garota!
Dou um tapa com todas as minhas forças na orelha do covarde! O som sai estalado e alto!
- Que porra brother? – grita o palhaço. Aparentemente forte, não o bastante.
- Porra o cacete, seu filho da puta! – grito! Não estou com o uniforme, totalmente desprotegido e sem arma... Como isso é excitante! – Você está fudido!
Acerto sua cabeça, ele cambaleia. Quase cai, cata um cavaco até chegar em frente a porta de vidro. Perfeito! Agarro sua cabeça enquanto ele se debate. Uma pancada não foi o suficiente para quebrar a vidraça. O vidro está trincado. Pego mais impulso e uso a cabeça do homem para estraçalhar a vidraça! Lanço o maldito para o gramado. Ele mal consegue se levantar em meio aos meus chutes. Suas calças estão no meio do joelho, terminaram de se desabotoar enquanto eu o espanco. Pego o idiota pela cueca, o famoso “cuecão”. Levantando-o pelo elástico da roupa de baixo, em seguida, o jogo na piscina. A água ganha os céus quando seu corpo a acerta.
Outros convidados vêm para o socorro do amigo. Tem o mesmo destino... A piscina e uns dentes quebrados.
A bichona acorda eufórica, vem gritando com o celular na mão. Fala que vai ligar para não sei quem, grita que eu estou ferrado ou algo do tipo. Isso me irrita! Vou até “ela”, dou-lhe um tapa na cara. Pego o celular e falo com quem quer que seja na outra linha. “A mocinha está muito ocupada tomando umas porradas”, em seguida eu desligo. As mulheres gritam, os homens não são corajosos o suficiente para me enfrentar, apenas amaldiçoam minha mãe e a mim com seus palavrões. Angélica aparece.
- Você é louco? – ela grita.
- Sou sim. Acabo de salvar sua amiga de ser violentada. Só isso. – sou frio, nesse momento é tudo que posso ser.
- Trouxe você aqui para se divertir, não para espancar seus amigos! Some daqui! – ela acerta alguns socos no meu peito, eles doem, não fisicamente.
Dou de costas e sigo até a porta quebrada. A gordinha vai embora comigo! Angélica me segue, escuto seus passos. Ela continua gritando. Viro-me... Meu olhar basta para fazê-la calar.
Entramos no cômodo. Alice ainda está apagada, nem sente eu arrumar suas roupas. Angélica assiste a cena e vê que falei a verdade. Seu rosto é tomado pela vergonha, e por algo mais que não consigo descrever. Então sua boca começa a se mexer, meio trêmula...
- Eu não sabia que iam fazer isso com ela... – caí uma lágrima de seus olhos.
- Eu sei. – não estou para conversa no momento.
- Sério Augusto, me desculpa por ter te batido, te xingado... – o choro vem a tona. – Eu não sou...
- Não é o quê? – grito!
- Como eles... – sua voz está trêmula.
Me aproximo... Coloco a mão dentro de sua bolsa. Tiro uma pequena almofadinha com o “tempero” da desinibição. Amasso com minhas mãos e jogo o resto no chão. Acaricio seu rosto, enxugo uma gota de lágrima retardatária...
- Ou você não é igual a eles... – falo calmamente. – Ou é burra o bastante para fingir ser.
Carrego os oitenta quilos de mulher, saio pela porta da frente. Ninguém ousa me incomodar. Angélica só chora. Eu sei porque ela chora. Eu sei...


RIO DE JANEIRO – 31 DE JULHO DE 2008
06:00 AM


- Bom dia. – o homem se assusta, tateia o criado mudo até ascender o abajur.
A luz ilumina de forma porca o ambiente. Mantém a sombra em meu uniforme. O velho esfrega os olhos, talvez pense que isso é um sonho... Ou um pesadelo. Há um homem, ou melhor, a sombra de um homem. Toda negra, sem face, no pé de sua cama.
- Não se desespere. Não tente ligar para a policia. Seu celular está aqui. – mostro o aparelho em minhas mãos. – Também desconectei o cabo do telefone, até você conseguir conectá-lo eu já vou estar sentindo seu hálito fedorento.
O quarto é grande, confortável. Aconchegante. Sua esposa dorme tranquilamente. O homem está amedrontado, que bom.
- Não vamos querer acordar a sua patroa não é? – pergunto. – Vamos conversar baixinho.
Ele concorda com a cabeça.
- Sua sobrinha...
- O quê você fez com ela? Não a machuque. – ele desespera.
- Calmo ai velhinho. Até parece que você não ouviu falar de mim... Ainda mais alguém na sua posição. Vou direto ao assunto... Sua sobrinha é alvo dos traficantes! Ela sabe demais e eles sabem disso! Sabem também quem é você, e vão tirar proveito disso! Talvez te chantagear ou algo do tipo... Use sua criatividade. – continuo a explicação. – Acabei de trazer-la de uma arruaça, quase foi violentada...
- Eu a proibi de sair... Não acredito... – suas mãos vão até sua cabeça, o coitado faz o possível, da para perceber.
- Agora já é tarde. A menina está bem. Já esta dormindo tranqüila em seu quarto. O aviso está dado. Cuide dela, contrate uns seguranças de confiança. Nada de policiais, não confie em quem ganhe pouco. Procure profissionais. Espero pegar os filhos da puta antes, mas não podemos arriscar. – sou incisivo na argumentação.
- Você está certo... Jack não é?
- Isso mesmo. Mais uma coisa...
- O quê? – seus olhos se arregalam.
- Matricule Alice em uma academia, ela precisa.
Aproximo-me do abajur, o temor volta para seus olhos. Pego o interruptor.
- Volte a dormi. – desligo a luz, deixando as trevas dominarem o quarto e vou embora.

Não sei ao certo o que fazer agora... Só sei que quero espancar alguém.

Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Vítima de um Deus – O dia em que venci o Google

Ontem eu morri. Semana passada também. Fui ceifado de minha vida virtual duas vezes. Foi uma situação interessante, o que não descartava a angústia. Fui avisado por amigos: “onde você está?”; “abriu mão de sua existência?”. Minha reação foi desesperadora. “Não! Eu não me matei”, minhas mãos tremiam dominadas pelo nervosismo, tentava inutilmente responder meus estimados amigos, “ainda estou aqui, como isso é possível”. E nada... Eu tinha sido excluído do direito de existir no mundo virtual. Apagaram minha conta do Orkut.
Foram quatro anos. Quatro longos anos. Posso falar que foram os mais significativos de minha vida. Tudo começou aos 17 anos, ou seja, me tornei um adulto responsável nesse meio tempo. Aprendi o que era o amor, pois namorei. Aprendi o que era a dor, já que terminei. Comecei a descobrir os verdadeiros mistérios da natureza, quando libertado das garras alienantes da educação brasileira. Conheci o prazer em dirigir sobre o asfalto. A liberdade!
Conheci e desconheci uma série de pessoas em minha existência. Eu lá, ostentando o trono de um dos mais antigos daquele novo mundo. “Um dos primeiros”. Acompanhei todas as evoluções desse software, desde as infidelidades eletrônicas, como xingavam as cornas e os cornos virtuais, aos recentes “pokémons”. Era uma Terra cruel. Inicialmente sem leis. Não havia normatização. O que culminou no abuso de certos vilões, das montagens comprometedoras, aos falsos cidadãos, aos clones. Acompanhei tudo.
Era um mundo perfeito. Existiam outras pessoas, mas você só se relacionava com quem queria. Haviam comunidades entre pessoas com interesse em comum. Depois vieram os mediadores, os justiceiros para controlar os abusos, os conflitos. Chegou-se até cogitar cada cidadão como vigilante do outro.
Havia o perigo de contágio. Vírus mortais atacavam a nossa fala e ouvidos. E eu estava lá, assistindo a degradação do meu mundo. A sociedade que eu ajudei a construir. Desculpe, a emoção provoca esse exagero em minhas falas.
Em meio a essas turbulências, que nem atrapalhavam tanto, afinal, a maioria de meus amigos e companheiros naquela existência, só queriam... Se comunicar. Que os bandidos fossem punidos! Ainda bem que eles eram poucos. Até que um dia, nossa rede relacionamental, atraiu a atenção do Deus Virtual, aquele que “tudo sabe”, o conhecedor de todos os segredos existentes, o condensador de todo conhecimento humano, o indispensável, o onipresente, o alpha e o omega, algo além do bem e do mal, um ser amoral capaz de tudo... O todo poderoso Google.
Logo fomos obrigados a nos apresentar perante tal entidade. Criamos a chama conta. Sem passar pela sua aprovação, não poderíamos mais existir aonde anteriormente nós dominávamos. Esse Deus forasteiro veio e falou “esse mundo agora é meu, apresentai-vos”. E nós nos registramos. Considerava algo bom, afinal ele era moderno, a voz no novo milênio, estaríamos em boas mãos.
Tudo ficou em paz. Criou-se mecanismos para proteger nossa privacidade. Apareceram as primeiras leis. “Não fuçarás seu próximo, a não ser que lhe seja amigo ou que ele permita”. “Tu poderás ver quem lhe fuçarás, mas somente se deixar-te transparecer para quem fuçares”. Tudo em paz.
Novos recursos nos deram a luz para outro mundo, também governado pelo Google, o mundo dos vídeos. Lá também não existia a Lei. O todo poderoso trouxe.
Até mesmo outro poderoso ser do Olimpo, a Asgard Virtual, viu-se ceifado do monopólio em proporcionar nosso contato com esse mundo virtual. A deusa-mãe Microsoft. Google fez duplicar um semi-deus melhor que o Explorer, a Raposa de Fogo, o Mozzila. Tudo para nós, seus adoradores.
Como disse, tudo estava em paz, até que... Eu morri. Sim, eu não existia mais. Sem nenhum motivo, sem nenhuma explicação. Simples como uma conta de adição, eu simplesmente não existia mais. Era inquietante. Eu perguntava “Por quê? Logo eu, um dos primeiros! Um dos filhos do milênio!”. Não havia resposta. Fiquei triste. Não haveria mais aquele número de amigos, alguns tão distantes quanto as estrelas no céu. Perdi aquele meio rápido, fácil e barato de me comunicar. Minhas fotos! Aquele local narcisista só meu! Um culto ao meu próprio ser. Minhas comunidades, as mais originais, escolhidas a dedo, todas as trezentas e poucas!
Foi uma noite longa, até eu poder chegar, e tentar... Sim, eu tentaria me ressuscitar. Escrevi meu nome, não o original, aquele pelo qual eu seria reconhecido pelo Lorde Supremo. Digitei as palavras secretas. E como num passe de mágica, assim como a morte, eu estava vivo! Ressuscitado! Eu morri e voltei a viver no mesmo dia! Minha conta estava salva!
Fui perdoado! Pelo que? Não importava, eu fui perdoado. Até a semana seguinte.

Novamente havia desaparecido. “Este usuário não existe mais”. As sensações voltaram, todas as descritas acima, cada uma delas em sua singular característica. Tive raiva! Não! Eu não posso morrer, não de novo! Tentei esbravejar perante o tempo de ajuda do Google, fui respondido. Só que a resposta era aquela padrão para todos. Era automática e fria. Abaixei a cabeça, estava derrotado. Quem sou eu perante aquele que “tudo sabe”. Um ínfimo ser nesse conglomerado de kbytes, no oceano dos megabytes, desaguando no continente dos gigabytes. Quem era eu? Nada. Para ele eu não era nada.
“Qual pecado cometi?”, não tive resposta. Especulei. Talvez por me expressar livremente, promover certos questionamentos a cerca de certos fatos históricos ou divindades. Poderei ter causado a ira de meus semelhantes, estes então poderiam se valer da “denúncia”. Não gostava da fornicação com crianças, não cometi o pecado da Pedofilia Internetal. Tudo não passava de especulação. A verdade era a que eu nunca saberia o porquê da minha morte. Súbita pela segunda vez. Talvez eu fosse um ser privilegiado... Quem morreu duas vezes em duas semanas?
Minha amada me ligou a noite, e me trouxe a notícia, “você voltou”. Fui tomado pela alegria, ressuscitei! Sem ao menos fazer nada para isso! Eu estava de volta! Confirmei quando repeti o ritual de escrever meu nome perante Google, digitei todas as letras mágicas secretas com cuidado, e acionei o “Enter”, e lá estava... Meu perfil, salvo! Voltei à vida pela segunda vez! “Google eu venci”!
Agora sei o quanto sou forte, não importa quantas vezes você, Senhor do espaço, me matar! Eu sempre voltarei! Nem que comece do zero um novo perfil... Eu voltarei!

Sexta-feira, Setembro 12, 2008

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! - Capítulo VII - Rock 'n Roll

RIO DE JANEIRO – 30 DE JULHO DE 2008

19:05 AM

Quase duas horas de chopp e empatia, somente agora tomamos coragem para encerrar a conversa e pedir a conta.
Foram cento e vinte minutos, aproximadamente, em que pude conhecer melhor essa garota. É fato que na maioria das vezes eu me ative a simples perguntas, algumas clichês, outras nem tanto. Ela fala muito. Afinal, que mulher não fala pelos cotovelos? Darwin deveria criar uma espécie específica, ou algo do tipo. Não que eu me incomode com isso. Na maioria das vezes eu me incomodo, dessa vez não, e isso é bom!
Eu descobri que a mocinha dos olhos radiantes faz Arquitetura, seu pai é um arquiteto fodão. Ela mora aqui por perto, não sou bom com nomes de ruas e bairros em Belo Horizonte, não é no Rio que vou lembrar deles. Imagine quando estive no Japão. Sua comida favorita é a francesa, não me pergunte qual, estava muito ocupado observando seus lábios se mexerem. Curte muito Chico Buarque, algumas músicas eletrônicas também. É uma pessoa boa, feliz e autentica. Não se embriaga fácil, diferente do garotão aqui, que no terceiro chopp tava chamando mamãe de meu loiro.
O papo foi agradável. Uma conversa gostosa, que deixa uma tristeza quando se encerra. Não tive vontade de beijá-la, mesmo querendo muito. Um paradoxo eu acho. Não sei explicar... Só não queria que a conversa terminasse. O Rio tem suas belezas, suas surpresas. O pôr-do-sol em Copacabana é uma delas. Sinto-me tranqüilo. Como se não tivesse que chutar algumas bundas do dia seguinte. Eu faço porque quero, não há como reclamar. Chega a ser divertido, quando não é cruel.

O garçom chega com a conta. Tateio meus bolsos, e pela milésima vez no dia, me sinto uma besta. Ela não esqueceu que não tenho dinheiro aqui comigo, esperou o momento certo para rir de mim... O momento em que fui fingir ser um cavaleiro. Fico vermelho, não tem espelho aqui, mas eu sei. Rimos muito. Esquecemos de um detalhe...
- Qual é o seu nome? – perguntamos juntos.
Rimos mais um pouco.
- Eu sou Angélica, e você? – qual nome devo dar? Estou aqui há três dias sem ninguém me chamar pelo meu nome, estranho essa sensação.
- Augusto, prazer. Conversamos por duas horas sem nos apresentar... Engraçado, não?
- É... Acho que falei demais também. – seu rosto fica com uma expressão engraçada, envergonhada.
- Eu gosto de escutar. – mentira. – Sem problema.
- O que você veio fazer aqui no Rio, senhor Augusto?
- Bem... – droga, não sei o que falar. – Estou a trabalho. – boa saída, agora mais mentiras a caminho.
- Qual trabalho? – curiosa a menina.
- Um monte de coisa chata, nada tão interessante quanto seus projetos arquitetônicos.
- Homem misterioso. – a expressão curiosa se mantém. – Eu gosto disso. Vai fazer o que hoje à noite?
- Hoje eu estou de folga, então, nada. – estou gostando ainda mais do fim da conversa. – Você tem algo em mente?
- Tenho sim! Meus amigos vão fazer uma festinha hoje a noite, é aniversário do Bruninho. – ela fala como se eu soubesse quem é Bruninho. – Vamos?
- Bem, são seus amigos... Eu mal te conheço...
- Ta com medinho de mim? – ela ri um pouco.
- Claro que não! É que...
- O quê? – sai uma expressão “nada que você me disser me convence”. Vou ceder.
- Nada. Eu vou com você!
- Isso ai garotão! – ela ri. – Nunca conversei tanto tempo com alguém sem enjoar da cara dela... Por isso quero te levar comigo.
Fico envergonhado, e o sorriso não sai do meu rosto.
- Aonde você está hospedado mineirinho?
- No Copacabana Palace. – Angélica se espanta.
- Num é peixe pequeno mesmo hein tigrão? – sai uma piscadela.
A idéia de Angélica é a seguinte: passamos no hotel, me arrumo, pegamos um táxi, vamos para a casa dela, ela se arruma, vamos para a festa. Simples, rápido e fácil. Chego a duvidar que estou com uma mulher. Parece aquele amigão que te chama para sair de última hora. Só que esse “amigão” é a coisinha mais gostosa dessa região.

Nos beijamos no hotel. Só nos beijamos. Em meu quarto. Queria jogá-la na cama, arrancar a sua roupa e fazer valer meu prazer. Fingi ter paciência. Agora estou dentro do táxi. As luzes passam vagarosamente, me perco em pensamentos como de costume. Estamos no banco de trás. Angélica deita a cabeça em meu ombro. Estamos namorando. Com certeza, sem falar nada temos um compromisso selado. Não esquecer o dia de hoje. Somos mais namorados nessas horas do que muitos casais em sua vida inteira. No silêncio do motor do Corsa e do papo furado do taxista, que conta como seu filho é ótimo, se formou em Educação Física e está fazendo Fisioterapia. Bom para ele. Pagamos a corrida.
- Então aqui que você mora? – pergunta retórica.
- Isso ai. – ela agarra meu braço, para depois soltá-lo antes que o porteiro veja. Eu entendo.
O prédio é bonito. Design arrojado, presumo que foi o pai dela que projetou. Não é muito alto, entretanto é sofisticado. Ela é rica, com certeza. Câmeras, grades, porteiro atento. Tudo que é por direito dela. Direito de se proteger. Odeio quem abomina condomínios. Cada um faz o que quer, desde que não faça merda com ninguém. Condomínios não estão na minha lista de merdas.
Subimos de elevador. Penso por um longo instante, ao subir os quatro andares, em pará-lo, para nos amarmos ali mesmo. A idéia é interessante. Não passa disso. A câmera do Grande Irmão está de olho. Contenho meus instintos.
São apenas três apartamentos por andar, ou seja, são grandes. Confirmo quando adentro a sua residência. Muitos metros quadrados de decoração moderna. Sofás coloridos, nada extravagantes. Uma televisão de plasma, de muitas polegadas. Acho que quarenta e duas. Quadros e mais quadros de pintores que nunca ouvi falar, alguns realmente bons, outros não passam de um borrão vermelho no branco da tela. Isso é arte? Se vende, é. Angélica conta como é seu dia a dia, mostra cada cômodo, a foto de seu pai com Niemeyer. Era de se esperar. Nesse país todos adoram um comunista que faz coisa extravagante. Viu? Quando entro em seu quarto vejo a pintura do maior ícone pop do século. Mickey Mouse? Não, Che Guevara.
- Você gosta do Che? – pergunto.
- Quem não gosta. – sua fala é orgulhosa. – Ele é o maior revolucionário de todos os tempos! Libertou Cuba dos poderosos que a maltratavam. Falando nisso, você viu o Diário de Motocicleta?
Não vi, nem tenho curiosidade. Queria lembrá-la de certos fatos históricos, e do que é feito essa turminha. Eu vivi isso na Rússia há alguns anos. Ela ia mal, quando você olhava para a mesa, achava que era água, não passava de uma garrafa de vodka.
- Não. – respondo secamente. Ela não nota.
- Adoro a cena em que ele desafia as freiras para salvar os doentes. – seus olhos brilham. Daqui a pouco ela vai falar que Fidel não é um ditador.
Mudo logo de assunto. Começamos a falar da festa. Hoje é quarta-feira, um dos dias mais animados segundo ela. Aquecimento para quinta-feira, acabando na sexta, que tem a ressaca no sábado e a rebarba no domingo. Isso sim é ter fôlego. Bater em bandido é fácil.
Por falar nisso... O assunto do Jack Built vem à tona. Ela gosta dele. Fala que é um herói. Que luta contra as pessoas certas. Que adorou vê-lo queimar a bandeira americana no Iraque. Ninguém entende o porquê deu ter feito isso, tudo bem, isso me deu popularidade. Todos estão empolgados com a presença do “vigilante” no Rio, segundo ela. Fui informado de algo que não sabia... Vai ter um especial sobre “ele” na Globo. Uma espécie de todos os relatos ao longo dos anos. Com comentários de vários especialistas, criminais e psicólogos. Isso eu não posso perder!
- Aqui meu bem, vou tomar um banho. Fique bonzinho ai. Fique a vontade também. Pode ligar a televisão, pegar algo para comer, que não demoro. – sua mão me empurra levemente para fora do quarto, como isso é empolgante, que vontade de segurar a sua mão e mostrá-la o quanto a desejo. Não é assim que trabalho. Vou aguardar.
- Sim senhora! – bato continência. Levo um tapinha carinhoso.
Sento no sofá, nossa! Como é confortável! Chego a ter um orgasmo, brincadeira. Ligo a televisão. Está passando o jornal. Vamos ver o que nosso amigão Jack Built andou aprontando. “Policiais estão dobrando o número de viaturas em regiões de possível atuação do justiceiro Jack Built”. Que bom. “A ajuda militar oferecida pelo General Costa Machado ainda não é necessária”, fala o Prefeito. Bem... Os militas não devem ter gostado disso. Estão doidos para entrar e fazer valer sua inércia, nesses tempos de “paz”. Eu os entendo. Uma coisa eu sei, a coisa aqui no Rio ta feia. Esses traficantes e essas milícias safadas daqui a pouco vão começar a pedir pedágio para entrar em favela!
Uma mão acaricia minha nuca. Fui pego de surpresa. Belo super-herói. Viro e vejo Angélica, com o corpo coberto só pela toalha. Sinto a umidade da água quente que sai de seu corpo, ainda tomado por alguns pingos d’ água rebeldes. Nos beijamos calorosamente. Isso é calor. È fogo. Combustão Instantânea. Somos dominados pelo desejo, deixo o controle remoto cair no chão. Ela sobe em cima de mim. Passo as mãos em suas coxas umedecidas pelo banho, indo até o que há de mais precioso no corpo da mulher. Suas mãos puxam meu cabelo. Não há como segurar, a paixão é mais forte do que qualquer inimigo que já enfrentei... Sou facilmente derrotado... Eu me deixo derrotar. E como em uma batalha mortal, acabo esgotado, triste, e querendo mais!
Encontramos-nos deitados no tapete, este parece ter sido feito com cuidado pelas freiras cegas manetas do Tibet, de tantos detalhes e refinamentos. Acaricio seu rosto, vejo o quão linda uma mulher pode ser sem maquiagem, sem nenhum enfeite, apenas a beleza pura dada pela genética.
- De onde você saiu? – ela pergunta.
- Da barriga da mamãe. – nós rimos.
- Sério... Você não existe.
- Você também não.

RIO DE JANEIRO – 30 DE JULHO DE 2008

22:25 AM

Levantamo-nos, me pergunto como nem seu sotaque carioca me incomoda. Nada nela me incomoda. Até... Ela acender o cigarro. Disfarço a minha reprovação... Ninguém é perfeito, certo?

Sábado, Setembro 06, 2008

Jack Built, o Louco – Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo VI - Operação Super-homem

RIO DE JANEIRO – 30 DE JULHO DE 2008

10:47 AM


Quase não dormi esta noite. Aliás, eu não dormi. Estou totalmente excitado com o que aconteceu. Excitação misturada com o horror dramático que esse povo vive, e meu papel aqui. Era isso que eu precisava! Os militares estavam errados! Todos devem saber que eu estou aqui!
Entro na Base Naval pela entrada “exclusiva”. Ser VIP... Algumas regalias para quem está sendo vista como uma marionete. Primeiro passo para a manipulação: bajule.
Usar meu uniforme com o sol a pino é uma tortura. O preto absorve a luz do sol, não é? Deve ser. Estou assando aqui dentro.
Chego à sala de reuniões. Belloto ligou bufando esta manhã, “Quero falar com você agora! Agora! Seu...” e seguem alguns palavrões. Nunca gostei de palavrões, eu falo um bocado, quem não fala? O ambiente da sala é quase divino. As cortinas estão abertas, o que permite a entrada do sol amarelo brilhante, dando cor viva aos uniformes azuis de Belloto e Oswaldo, e ao verde do General Costa Machado. Tal luz imponente ofusca meus olhos, consigo enxergar somente as silhuetas dos homens. Essa imagem daria um bom quadro. “As Forças Armadas”. Minha cabeça dói um pouco por causa do cansaço, ainda bem que estou empolgado. Eu adoro estar empolgado!
- Bom dia. – comprimento. – Será que dava para fechar a cortina? – provoco propositalmente, tenho o resultado que queria.
- Vou fechar seu caixão! Seu inconseqüente! Louco! Maníaco! Terrorista! O que você pensa que fez? – grita Belloto.
Oswaldo só balança a cabeça, mostrando desaprovação. Costa Machado permanece em pé, olhando para a paisagem que se forma através da janela. Ele está calado, não mexeu um músculo, nada.
- Calma aí, eu sei o que estou fazendo... – o graúdo da aeronáutica não me deixa terminar.
- Operação Super-homem! Sabe o que isso significava? Um homem! Você! Capaz de fazer o trabalho sozinho... Mais rápido que uma bala! De forma eficiente! – ele toma fôlego. – Primeiro você não entrega o maldito traficante para a nossa guarda, não sei aonde você o deixou...
- Entreguei para a policia antes de vir para cá. É só ligar a televisão, deve estar nos noticiários daqui a pouco. – queria que ele me visse sorrir.
- O quê? Você acabou de ferrar com tudo! O maldito vai ser solto hoje ainda, quer apostar? Essa porra da policia é corrupta! Achei que você saberia disso! – ele quase baba sobre a mesa. – Isso deveria ser discreto! Dis-cre-to porra! Foi o combinado. Você tinha condições a cumprir. Quem você pensa que é? Terão inúmeras conseqüências... – ele abre a mão para contar cada uma delas, balança cada dedo quando fala o que já sei. – Imprensa! Isso vai virar um espetáculo! Por acaso você acha que isso é um show? A política! O governador, o prefeito, o Presidente, até o Papa, vai chiar com o que você fez com o infeliz nessa madrugada. Demos a você liberdade para pegá-los usando todos os meios possíveis. Não me importa se você cortasse a perna de um deles. Só não mostre isso na imprensa! Essa merda de Mídia! Temos também a polícia! Tínhamos o apoio tácito do BOPE. As merdas da PM e da Civil, nunca deviriam saber que você está aqui. Agora vão te caçar como cachorro, a mando de delegado chifrudo e traficante! Esse Rio vai virar um caos.
- Você perde a compostura quando está com raiva, sabia? – eu o alfineto.
- Eu... – agora é minha vez, elevo meu tom de voz para abafá-lo.
- Olha aqui! Eu vou deixar claro uma coisa nessa reunião. Eu vim para o Rio para salvar pessoas! Salvar vidas! Entendeu? Não para fazer trabalho sujo do governo! Eu sei que não faço isso de graça. Mas meu trabalho é salvar vidas! Eu aprecio a discrição, mas não agora. Não nesses tempos! Eu posso pegar esses filhos da puta em uma semana, peguei dois deles em três dias. Sem trabalho algum! Mas o que acontecerá depois? – aguardo uma resposta durante três segundos. – Outros virão! Essas merdas de traficantes são pior que barata! Você mata uns e nascem outros. São vermes. Praga! Porque essa desgraça dá dinheiro! Eu ficar na surdinha é tapar sol com a peneira. Eu preciso desse show! Desse espetáculo! Eu quero que todos saibam! Eu estou rondando e vou pega-los! As ruas agora vão ter o dobro do número de policiais, seja me caçando ou protegendo bandidos, a imprensa vai estar em cima, e os corruptos não são loucos de deixar a máscara cair. Os políticos gordos e fedorentos agora olharão para cá e vão pensar, “que merda, agora vão me encher o saco para fazer alguma coisa”. A bandidagem deve estar histérica. São uns selvagens, são maus! Só que são burros que se beneficiam desse sistema falido! Agora eles vão ter um motivo para pensar... Função pedagógica! Eu sei o que faço...
Diminuo o tom da minha voz, mas continuo firme!
- E vocês três... Esconderam suas reais intenções...
Nesse momento Costa Machado que se encontrava de costas para a discussão, se vira e aguarda o que falarei. Belloto arregala os olhos. O gordo da marinha quase cai da cadeira.
Volto a gritar!
- Me chamaram aqui para desmantelar o Tribunal do Tráfico não é? Um dos alvos desse tribunal narcótico é filho de um Senador, outros dois são filhos de Deputados Estaduais, uma garota é sobrinha de um graúdo da Globo. Esse é um ano eleitoral, os candidatos querem fazer suas campanhas em paz, afinal, favela também vota. O Toninho e o “Laser” já na estão no xadrez, ou melhor, no hospital. Com os policiais nas ruas a campanha eleitoral poderá seguir seu teatro. Faltam só mais três vendedores de psicotrópicos. E pronto! Podem usar essa hipócrita maquiagem de “segurança nacional”! Vocês também não estão nem aí para esse Rio de Janeiro... Essa guerra civil é grande demais, já está aqui a tempo demais para alguém ter a solução! Só quando esse problema cutuca a bunda do poderoso, vocês tomam essa atitude desesperada de telefonar para o único que vai entrar sem medo naquele emaranhado de casas!
Coronel Belloto se prepara para falar algo, quando o General leva uma de suas mãos ao peito do colega e o olha severamente. Preciso manter a posição de ataque. Se Machado decidir partir para algum tipo de confrontação isso não vai ser brincadeira. Ele exala autoridade.
- Você está certo. – fala o homem.
Oswaldo e Belloto se surpreendem. Eu também.
- É disso que precisamos! Posição firme e decidida. Nada dessa esculhambação social que nos empurram todos os dias. Precisamos de alguém imune a liminares. Precisamos de você Jack Built.
Realmente estou de queixo caído.
- Mas General... – tenta argumentar o Coronel.
- Ele não é burro Manuel. Ele buscou a imprensa apenas no que lhe foi interessante. Não há nenhuma ligação entre ele e as Forças Armadas. A discrição continua. Para a mídia, ele é apenas um louco fantasiado batendo nas pessoas, e eles explorarão isso. É isso que este jovem quer. Nós não seremos ligados a tais atos... Não é mesmo? – seu rosto se vira para mim, seus olhos demonstram certeza, convicção... Autoridade!
- Isso mesmo. Não há vantagem em me ligar com vocês... Não para isso.
- Viu Manuel? – ele se volta para Belloto. – A Operação Super-homem continua! Faremos a sua maneira meu jovem. Vamos acabar com eles. – sua fala realmente é inspiradora, me sinto maior que do eu já me sentia.
Oswaldo só balança a cabeça, agora aprovando os dizeres do General, que se aproxima de mim. Ele estende a mão. Eu correspondo ao comprimento.
- Tire o dia de folga. Hoje é quarta feira ainda. Descanse. – enquanto aperta forte a minha mão, ele dá dois tapinhas em minhas costas.
Bato continência. Não sei ao certo por que. Ele gosta do gesto. Sorri e diz algo parecido com “você tem futuro meu filho, tem um papel importante a desempenhar”.

RIO DE JANEIRO – 30 DE JULHO DE 2008

16:00 AM

Já são quatro horas? Nossa! Dormi a tarde inteira. Precisava descansar. Estico meus braços, sinto cada músculo voltar à vida em meio a uma dor gostosa de sentir. Ligo para o serviço de quarto e me alimento merecidamente. Hora de aproveitar a beleza desse Rio.


RIO DE JANEIRO – 30 DE JULHO DE 2008

17:31 AM


Fazer barras é um bom exercício. Nunca deixo de fazê-las. Estico totalmente meus braços, e tenciono meu bíceps ao puxar todo meu peso, encostando a barra no peito. Repito novamente a execução. Ao contrário dos exibidos a minha volta, esses caras do tamanho de um touro e de masculinidade duvidosa, prefiro fazer os exercícios voltado para a calçada e não para a praia. Por dois motivos: 1) para olhar as mulheres... 2) bem... É o mesmo motivo.
Não uso anabolisantes. De nenhuma espécie. Nem daqueles que fazem “pouco” mal, e de resultado mais demorado, até aqueles de resultado imediato. As conseqüências virão... Cedo ou tarde. Não quero me justificar por ser menor do que aquele acéfalo de 120 quilos, eu sou forte! Mais do que ele. Meu corpo foi cultivado com dedicação e afinco, não pareço um bombado, digamos que sou mais atlético. Não o para ser modelo, posso me considerar um homem, fisicamente falando, acima da média. E elas sabem disso...
Finalizando meu treino, falta pouco, fui surpreendido por uma linda garota. Meu Deus! Ela passa em frente a área de exercícios, em um ritmo pouco exagerado. Roupas leves, de cores claras, e é claro... O shortinho! Não é de lycra, é um pano mais leve que mesmo não revelando o contorno de seu corpo, deixa um ar misterioso ao balançar no vento. Tudo acontece em câmera lenta. Seu rosto, escondido pelos óculos de lentes grandes, mas delicadas e por um boné, se vira para me olhar, enquanto eu simplesmente paro o movimento e acompanho com meus olhos. Ambos sorrindo. Toda essa eternidade de alguns segundos se acaba, quando ela retoma seu trajeto. Eu deveria ir atrás dela? Afinal, ela “faz meu tipo”. Só pelo fato de ser mulher, eu sei. Entretanto ela é bonita, seu corpo parece ter sido moldado com cuidado, sem exageros, de longe vejo o quão sua pele é similar a um pêssego, macia e saborosa. O importante não é isso! É verdade que possui seu valor, mas ela olhou para mim! Não há correntes do feminismo idiota naquela mulher. A moça sabe o que quer e o que gosta! Olhar para mim sem vergonha demonstrou isso! Vou atrás dela!
Tenho que acelerar o ritmo para alcançá-la. Quase esqueço minha camisa pendurada na coluna da barra. Desvio de alguns idosos que estão em busca do tempo perdido e da saúde que não voltará. Consigo emparelhar com a mocinha linda. Olho para ela e sorrio, como me sinto ridículo. Qual o próximo passo? Sua fronte de vira, demonstrando que ela me notou. E agora? O quê faço? Surge um sorrisinho simpático em sua face. Ai Deus...
- Desculpa te incomodar, sei que está concentrada em seu exercício. Longe de mim querer ser tão inconveniente... – dou uma pausa para tomar fôlego, correr e flertar não são coisas que deveriam ser feitas juntas. – Acontece que existem momentos em nossa vida, instantes, segundos, que surgem para nos lembrar o quão o mundo pode ser surpreendente. Nunca vi você, nem você sabe quem sou. O que isso importa? Eu não imaginava encontrar uma pessoa como você hoje, e isso aconteceu! Essa espontaneidade é que nos move! Pode parecer idiota, mas você chamou minha atenção... – outra pausa proposital para o “gran finale”. – E prefiro receber um não ao te chamar para sair agora, do que permanecer o resto da minha com essa dúvida. Posso te conhecer melhor?
- Como? – ela responde, me desarmando totalmente. – Perdão, não escutei o que você falou, a música estava muito alta. – ela retira um dos fones do seu ouvido. Droga!
- É... – todo aquele discurso por nada, nem sei o que falar.
- Cuidado! Você vai... – o aviso vem em forma de um grito. Será algum assaltante? Algum bandido atacando em pleno pôr do sol! Me viro...
Não há como ser mais ridículo do que isso. Noto o carrinho de picolés, só que tarde demais! Atropelo o recipiente que contém a alegria da criançada! Caio de forma desengonçada, embolado ao carrinho, os picolés saem voando quando a tampa é arrancada do orifício na parte superior do “veículo”. Uma bagunça. Uma pagação de mico das grandes! Não há machucados. Pelo menos não em meu corpo. Gostaria de dizer o mesmo do meu ego. Uma queimação toma conta do meu rosto, ela se chama vergonha. Fico ali deitado, a esperar o fim de um pesadelo.
- Seu tonto. Vamos, levante antes que o moço dos picolés arranque sua pele. – ela estende sua mão para me ajudar, sinto-me aliviado, não menos envergonhado. Aceito a ajuda.
Em meio aos mais terríveis palavrões, “filho-da-puta retardado” foi o mais suave, o picolezeiro me xinga e me amaldiçoa.
- Me desculpe, sério! Foi sem querer. Vou pagar tudo. – tento remediar a situação. A moça tenta segurar sua gargalhada. Ela não foi embora, isso é bom.
- É bom pagar mesmo! – e seguem mais uns palavrões.
Tateio minha bermuda em busca da carteira. E aquela queimação surge novamente, com muito mais força, ainda se chamando vergonha. Eu não trouxe carteira!
- Como é que é rapa? Vai pagá ou não vai? Eu alimento meus filhos com isso! – queria gritar na cara dele “eu sei”.
- Teria como o senhor... – sou interrompido.
- Aqui está seu chato! Não viu que o cara fez isso sem querer? – como ela é linda, apaixonei! – Toma aqui ó! – entrega uma nota de cinqüenta reais para o homem, que olha o dinheiro com tanta ganância que nem agradece e segue seu caminho.
- Não precisava. Eu poderia buscar minha carteira e pagar o homem. E você ainda pagou a mais. – argumento.
- Não esquenta. Aqui não vai me fazer falta. Aliás... – ela retira os óculos, e mostra ao mundo seus belos olhos cor do mar. – A culpa do acidente foi minha. – agora ela não contém sua risada, fico cabisbaixo. – Já falei para não esquentar!
- Mas é que...
- Relaxa tigrão! Hoje é seu dia de sorte. – recupero um pouco a empolgação perdida. – Digamos que foi até fofo ver você caindo em meio aos picolés.
Agora nós rimos juntos. Como essa sensação é boa.
- O quê você acha de nós irmos tomar um açaí ali no quiosque? – taí um convite que dispensou qualquer discurso. Mas açaí? Porra, você odeia isso!
- Não gosto de açaí, isso engorda. O que acha de um chopp? – estou apaixonado!
- Você que manda! – afirmo. – Só uma pergunta, por que você chegou a olhar para mim?
- Não sei. Você me pareceu uma pessoa boa. – ela responde com um tom sério, que não dura uns poucos instantes, voltando a sorrir. – Mentira, é porque você é gatinho! – dá uma piscadinha ao terminar sua fala.

Estou começando a gostar dessa cidade!