Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo IX - Cotidiano e um pouco de Jornalismo
Três homens entram na lotérica. Usam moletons largos, falsificados, chamativos e amedrontadores. Chegam até a caixa, uma pobre moça, se chama Luisa. A coitada sabe o que virá em seguida, a moça pensa “vou ser assaltada”. Acontece como o previsto... Eles puxam, cada um deles, de dentro de seus casacos suas armas. Um 38, uma 9mm e uma 22. Não há sons em suas vozes, apenas gestos brutos, grosseiros nessa cena embaçada.
Uma sombra adentra no recinto, é dia, então sua imagem deveria ser nítida... Não passa de um borrão negro se movendo rapidamente. Ataca os homens pelas suas costas! Usa seus moletons a seu favor, dificultando o movimento dos criminosos. Chuta a cabeça de um, que é lançado contra o acrílico que protege a caixa registradora dos curiosos. Golpeia cruelmente os outros dois. Chega a ser humilhação. Um tiro é disparado, propositalmente pelo ser das trevas. A bala acerta o pé de um dos homens. Há dor em seus olhares. O monstro sem rosto não para até que os três estejam desacordados. Em seguida, da algumas considerações para a pobre Luisa e amarra os meliantes, com qualquer coisa que seja possível.
Uma hora depois, a polícia chega.
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Leo sabe que não devia vender essas merdas. Ele gosta de usar, da uma “onda”. Assim como o garoto sabe que é errado fazer isso, ele sabe que isso da uma graninha boa! Já pegou umas quatro “cremosas” em menos de uma semana. Ele “ta no lucro”. Já faz um ano que isso é sua profissão. A mesada do seu pai não é suficiente, um homem ambicioso, ele precisa de mais!
“Classe média” esse é seu rótulo. Está famoso lá no morro. A playboyzada compra muito! Leo tem passe livre para subir até o “homem”. Pena que está prestes a se ferrar bonito.
A transação “vai ser pesada hoje”, pensa. “Culpa do Jack Built, desde que aquele filha da mãe tá na área, a galera ta vendendo tudo que tem, de uma vez só. Ainda bem que o maldito num pega gente como eu. Fica só lá na favela”.
Leo avista seus fornecedores. Comprimentam-se. São velhos conhecidos. Enchem a sua mochila, ela vai voltar mais pesada hoje.
Tudo acontece à luz do dia, na esquina de um bar vagabundo. Lotado em plena quinta-feira à tarde.
Quando o zíper se fecha, um homem mascarado pula em cima do garoto. Ele aguardava esse momento em cima do telhado. Pulou em cima do garoto! Sem pensar duas vezes! Leo está apagado, com alguns ossos quebrados. Seus fornecedores estão paralisados. O ninja, vestido como um membro da Swat olha para cada um e ri debaixo da máscara. Em apenas quatro segundos estão todos no chão.
Surgem policiais a paisana de todas as partes, esbravejando. “Você estragou três meses de investigação”, grita um deles. O homem mascarado responde colocando fogo na mochila do garoto. Uns bons quilos do que tinha ali dentro se perde.
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Arnaldo grita com sua esposa, antes de acertar o rosto da mulher com sua mão fechada. Nada se quebra, a não ser a dignidade. Viviane com medo e raiva revida, só que o macho é mais forte! E responde a altura, agora com sua mão aberta. Ao contrário do primeiro golpe, o segundo vem acompanhado por outros. A mulher sabe que é inútil gritar. Só chora, não a nada mais o que fazer. As lágrimas são sua única defesa, que por sinal, são inúteis também. Enquanto ele quebra seu maxilar, a pobre moça lembra do dia do seu casamento, prestes a recordar o momento em que assinou o papel no cartório sua cabeça bate na mesa. Um corte se abre, sujando de vermelho o forro de mesa.
Já é tarde da noite. É também a terceira vez que Arnaldo a espanca. Foi aconselhada a largá-lo, quando apanhou da segunda vez. Na primeira falaram para perdoá-lo, “são os problemas no trabalho, sabe como ele ganha pouco e trabalha muito” falou sua mãe. Por isso ela só chora.
O fato é que... Arnaldo não teria problemas financeiros se não gastasse tudo no bar. Ele se sente superior quando sua esposa está assim. Sangrando, cheirando seu bafo de álcool.
Viviane não reza mais... Pra quê? Ela pensa. Só que por uma última vez seus pensamentos vão até Deus. Não para Jesus, para alguém que possa escutá-la. Esse alguém não existe...
Arnaldo pega uma faca e gargalha. Agora o desespero vem à tona. De algum modo ela sabe que esse tipo de dor, seu corpo jovem, de apenas vinte e seis anos, não agüentará. O pranto fica mais triste. Seus olhos se fecham.
Os sons dos móveis se quebrando. Pratos estilhaçados. A mesa que a feriu se partindo. “Arnaldo está destruindo nossa casa também”. Viviane está errada e só descobre quando abre os olhos, após o barulho cessar. Um ser iluminado, pela aura incandescente que paira sobre sua cabeça. Ela sorri. O homem sem forma estende sua mão, e aconselha “ligue para a policia e conte tudo, ele não vai mais te incomodar”.
Ela procura o marido em meio a sua sala destruída. Sua visão o encontra... Espancado! Ferido gravemente, talvez! Semimorto. Chega a sentir pena. Sem saber o motivo procura a faca também, não a encontra, então desiste de procurá-la, “melhor nem saber”. Se sente aliviada, só pelo tempo que Arnaldo passará no hospital.
Volta o rosto para o homem... Ele não estava mais lá. “Obrigada”, ela agradece em voz alta. O homem consegue escutar, quando parte em meio ao escuro da noite.
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Quem quer subir reluta, discute, argumenta. Acrônico do Mercadinho é candidato a vereador. Precisa dar continuidade a sua campanha, só que além dos traficantes, agora as milícias, ou apóiam certos candidatos “do meio”, ou cobram R$ 30.000,00 para quem quer fazer campanha. Ronoverto Gélix, candidato pelo PT paga a quantia e os homens abrem passagem.
Acrônico vê sua candidatura como à saída para a pindaíba. Seu mercado vai mal. É mal administrado, ele chega a dar calote em alguns fornecedores, enrola outros. Nunca paga suas dívidas. Ser vereador é a melhor saída! Só que sem campanha é impossível! E pagar esse dinheiro... Nem cogita a opção.
O mesmo fato atinge outros sete vereadores da mesma coligação. Levaram um bom pessoal para tentar coibir o bloqueio, pena que ninguém ali é a prova de balas.
O pretenso vereador abaixa a cabeça e pensa em suas dívidas, somente nelas. Na sua liberdade individual? “Que se foda”, ele quer é o dinheiro. A policial não vai ali nem por decreto... O exército... Nenhum juiz libera nenhuma liminar. Até que escuta um homem gritando. “Todo mundo vai subir ai hoje!”. Sua voz é cavernosa, gutural. Acrônico se vira e vê um homem com um colante preto, protegido por uma espécie de armadura, ou algo do tipo. “É Jack Built!”, pensa o homem. Nunca viu ele de perto, todos ficam calados, ou apenas cochicham, enquanto Jack se aproxima dos miliciados. Um deles chega a tentar discutir, mas é detido pelos outros. Só a presença dele ali garantiu a campanha, ao menos por um dia.
Acrônico não esquece da última e segunda fala de Jack naquele dia, “vão, subam e contem suas mentiras, eu estarei vigiando”. Isso deu medo no devedor contumaz, o quê não o fará impedir de se endividar e mentir novamente.
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O velho e bom policial militar, o senhor José das Luzes se prepara para mais um dia de caridade. Aos fins de semana o caridoso oficial “perde” algumas horas de sua vida fazendo trabalhos comunitários. Desde o famoso sopão para os desabrigados, nas solitárias madrugadas, até grupos de ajuda para pessoas depressivas. José também da palestras sobre segurança pública. Seu coração é bom, gosta de ajudar a todos. Mas quem ele realmente gosta de agradar é a professora de uma singela Escola Municipal, situada bem no meio da guerra civil carioca.
Todos na comunidade gostam dele, principalmente a humilde professorinha. Essa semana a PM vai visitar a singela escola, e José não pode deixar de ir! A idade leva consigo a beleza, a barriga cresce, a única vaidade passa a ser o bigode. Até sua careca o ameaça, aumentando a ausência de cabelo a cada dia que passa. Mesmo assim, José das Luzes é um homem confiante! Seu objetivo principal na brincadeira com a molecada: arrancar um sorriso de sua amada.
Ambos, a professora e o policial, já foram casados. Ambos, se encontram sozinhos, ela divorciada, ele viúvo. Par perfeito. Amor certo. Se não fosse a propensa admiração pelo amor platônico, aquela bobagem que cultivamos quando adolescentes. Entretanto, Jack Built irá mudar tudo...
Sábado, a escola está lotada! A molecada corre feliz, brinca com o bonecão da PM. Coitado do homem que tem que vestir tal fantasia, cada tapa que leva em sua cabeça gigante, ecoa como um sino da Santa Sé em seu ouvido. Todos estão felizes! Menos a professorinha, que não para de se perguntar “aonde está José das Luzes?”. “Ele tinha plantão ontem, pode ter acontecido algo ruim. Com esse louco vindo de Minas Gerais todos policiais estão trabalhando dobrado. O quê será que aconteceu? Aí.”. Algo realmente atormenta a pobre mulher, só que ela nem imagina o quê irá acontecer.
“Todos no chão!”. Um grito grosso ecoa pela quadra esportiva. Os meninos se assustam. O homem está armado, isso é normal em certas partes do Rio de Janeiro, e em todo o Brasil. Não é normal apontarem para você a arma. A professorinha toma a frente para defender seus alunos. “Não tem nada para você aqui seu marginal”, esbraveja a mulher. Ela é corajosa, por fora. Por dentro morre de medo, coisa que o bandido não tem. O criminoso se prepara para atacar... Outra pessoa grita. “Não temam, meus queridos cidadãos! Crianças vão para perto de suas mamães! Vou pegar esse moço malvado! Vamos mostrar para esse maléfico homem que o crime não compensa!”. E aquele homem, mascarado, o vigilante, o protetor, aparece em cima do muro! As crianças vibram! É Jack Built, com sua máscara de pano, seu moletom preto, sua calça preta surrada e suas luvas de motoqueiro. E também sua barriga de cerveja, que insiste em aparecer por debaixo da fantasia! O herói salta e quase cai ao aterrissar no chão. Arruma sua calça, já que o seu “cofrinho” resolveu dar as caras. Ajeita a roupa. Agora corre em direção ao bandido. Puxa de seu bolso um pedaço de madeira, e fala: “Agora você verá o pode da justiça! Não podemos fazer mal a ninguém. Devemos respeitar o próximo, estudar, comer tudo que nossa mamãe pede e rezar para o Papai do Céu todos os dias!”. O criminoso responde, largando a arma de plástico no chão, “me perdoe senhor Jack Biuty”. O super-herói responde “Está perdoado”. Se vira e cumprimenta o bonecão da Polícia Militar, “eu sou amigo da Polícia, eles sabem o que é bom para vocês, assim como Jack eles também nos protegem”. As crianças e todas vibram!
A professorinha sorri. Debaixo da máscara José das Luzes também.
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RIO DE JANEIRO – 03 DE AGOSTO DE 2008
21:30 AM
- Meu Deus! Já vi esse vídeo um milhão de vezes. Só o Jornal Nacional já passou três vezes essa semana. – falo em voz alta para ninguém. – Agora o Fantástico!
Eu não fiz nada demais, só peguei uns ladrõezinhos mequetrefes. Agora todos estão falando disso. Bem, era isso que eu queria, mas já chega não é senhora imprensa? Só no youtube o maldito vídeo foi visto mais de duas milhões de vezes, só em uma semana! Podiam falar de outras coisas que eu fiz. Sei lá. Tudo bem... Está tudo como o previsto. Estou em todos os canais, ao menos uma vez por dia. Tem que continuar assim.
A reação está sendo positiva. Menos homicídios, tráfico recuando, corruptos amedrontados. A Globo me apóia quase que unanimemente. Por que será? Foi bom ter salvado aquela gordinha. Existe também quem senta o pau em meu humilde alter-ego. Eu entendo essas pessoas. Não gostaria que ninguém saísse por ai achando que é o salvador do mundo, ou coisa parecida, só que esse alguém sou eu... E eu confio em mim! Gostaria que eles soubessem disso.
Não vou caçar hoje, a semana já foi produtiva, muito nego ruim no hospital e na cadeia. Tem um programa especial para o Jack na televisão. Convidaram um psicólogo para falar sobre como “influencio” o meio social, a atitude das pessoas, a economia, a política eleitoral. Pura bobagem... Vai valer a pena assistir esse programa.






