RIO DE JANEIRO – 03 DE AGOSTO DE 2008
22:15 AM
A apresentação é bacana. Cheia de efeitos computadorizados. Coloridos, dramatizados, a voz do Cid Moreira da um tom ainda mais especial a esse programa. O cara que leu a Bíblia vai falar sobre o garotão aqui, entre outros jornalistas globais.
Liguei para o serviço de quarto do Copacabana Palace para pedir uma pipoca. A atendente soltou uma risada tímida, só então fui entender o porquê. Estou em um dos melhores hotéis do país, e fui pedir... Pipoca! Fui bem atendido, só que me informaram que não servem pipoca, o quê não impediu a eficiência da funcionária, após alguns minutos ela já me oferecia vários... Sabores de pipoca, de várias marcas diferentes! Hotel é realmente o supra-sumo de como tratar um cliente. Achei curioso um dos sabores, era de uma fruta típica da Grécia. Só em uma pequena cidade, situada nas encostas rochosas do perigoso mar grego, que tal fruta era encontrada. Pedi esse sabor! Na hora! Só imaginando o local, me veio o sabor desconhecido dessa pipoca, enchendo minha boca de saliva. Não há nada mais exótico do que a Grécia.
Relaxado em frente à televisão, quem diria? Há alguns dias eu estava tão furioso. Talvez essa sensação seja normal, sei lá, uma ressaca pós-fúria. Também não é todo dia que tenho um programa só meu na tv. Remexo um pouco na poltrona macia, apenas para ajeitá-la ao meu corpo, que por sinal está um pouco dolorido. Trabalhei muito, nesses dias. Muita gente foi mandada pro xadrez e pro hospital. Isso é bom! Não posso esquecer de ligar para minha mãe. As aulas começam amanhã, vou faltar uma semana, nada irrecuperável. Esse período promete!
O som da estática toma conta do quarto. É um pequeno rádio que me permite interceptar a freqüência da policia. Não é um grampo, propriamente dito, funciona somente para ondas de rádio. O que não quer dizer que não tenho algo para os telefones também.
- Droga! Onde está você? - tateio a minha bagagem, não o encontro. – Já sei! – procuro perto dos meus equipamentos. – Achei!
-click-
"Um casal precisa de ajuda na rodovia. Alguém disponível? Parece que o marido da mulher que ligou teve uma crise diabética, acabaram arrancando algumas placas, nada fatal. O problema é que a moça não sabe dirigir, e o homem está muito mal”.
-click-
“Eu vou, pode deixar comigo amorzinho”.
-click-
Isso não me cheira bem. Principalmente porque conheço essa voz. Programei esse “radinho” para interceptar somente as transmissões para policiais corruptos. Como? Nem eu entendo muito bem como funciona. Só pego o nome dos “supostos”, mando para um amigo meu nos Estados Unidos, e tudo se resolve como um passe de mágica. Magia tecnológica, a evolução magnífica da humanidade!
O nome do safado é Moreira. Colega do Toninho, um filho da mãe que vai ver sua sorte acabar daqui a uns dias.
Meu programa ficará para depois, hora de trabalhar. Visto o uniforme. Saio pela janela.
RIO DE JANEIRO – 03 DE AGOSTO DE 2008
22: 37 PM
Essa parte da estrada é escura. Imagino o desespero da mulher, dentro de seu carro, com a cabeça do marido em seu colo. A única luz que o casal pode contar é um tímido led, pregado no teto do seu Gol bolinha. A viatura se aproxima. Sua chegada não é discreta, trazendo consigo o vermelho e o amarelo alternado do giroflex.
A mulher desce do carro, seu rosto demonstra um alívio. O policial também desce.
- Ainda bem que o senhor chegou. Meu marido não está bem! Ele é diabético... – a fala da pobre mulher é embolada.
- Tudo bem senhora. Eu cuido de tudo. – um sorriso aparece no rosto de Moreira.
Ela o leva até o carro, aponta para o marido. O casal é jovem, parecem universitários prestes a se formarem. O policial parece não dar importância, seus olhos ficam percorrendo todo o veículo. Ele chuta de leve o pneu com seu coturno.
- O golzinho não tá mal, né? – pergunta o homem.
- Nós demos sorte. Jorge conseguiu conduzir o carro até o acostamento, assim que sentiu seu corpo ficar fraco. Só chegou a perder o controle já no acostamento, por isso acertamos aquelas placas, mais nada. – suspira a jovem. – Graças a Deus.
O policial faz uma careta, balança a cabeça para frente e para trás, e começa a falar aquilo que eu já esperava.
- Olha senhorita. Vou ter que te revistar.
- Pra que senhor?
- Procedimento, apenas procedimento.
- O senhor não pode me revistar! – ela protesta.
- Claro que posso! Está vendo isso aqui? – aponta para o uniforme. – Autoridade mocinha. Ou você prefere que eu mande seu maridão ficar de pé para ser revistado?
- Jorge nem consegue ficar em pé, isso é um absurdo.
- A vida é um absurdo. Vamos lá, chega de papo! Anda, anda! – o ignorante nem sabe que sua primeira frase era uma corrente filosófica, mas sabe que o que está fazendo é errado. Muito errado!
Enquanto apalpa a coitada, que treme sem ter o que fazer, ele profere seu discurso.
- Eu tenho que cuidar da segurança do meu povo, entende? – passa a mão pela coxa. – Vocês jovens só querem saber de sexo e drogas, fazem esse país uma bagunça. Quem sabe vocês dois não estão drogados. – agora suas mãos nojentas apalpam as nádegas, ele demora quando chega nessa parte, vejo a ereção surgir entre suas pernas. Não posso interferir agora, perdoe-me. – Quem sabe também seu marido não está alcoolizado. Ou então estão transportando algum presentinho para mim. – a revista acaba com todo o corpo da garota tateado.
A coitada chega a chorar. O filho da puta continua.
- Agora abre o porta-malas pra mim. Quero ver o que posso encontrar.
O momento está chegando... O porta-malas se abre. Moreira fuça mala por mala, não poupa nem ao menos a nessecer. Pega um dinheiro reservado em um compartimento da pequena bolsa, conta quanto tem. Duzentos reais. Coloca no bolso. Depois de chafurdar mais um pouco, como um porco na lama, ele joga um pacote branco no porta-malas. O pacote não é pequeno, nem tão grande, apenas o suficiente para enquadra o casal como traficantes. O policial sabe que ser subornado por usuários hoje em dia não leva a nada, afinal, são tratados com mel pela nova legislação.
- Senhorita! Venha aqui um minuto.
Ela obedece.
- Está vendo isso daqui. – aponta para o papelote.
- De onde saiu isso? – pergunta a mulher, agora mais assustada do que na revista.
- Espero que você possa me responder. – como o desgraçado é cínico.
- Eu não... – a moça de esvai em lágrimas.
- Calma, não precisa chorar. Vamos fazer assim, eu sei que não tem muita escapatória para você e seu marido, vou tentar ajudar. Terei que levar o carro apreendido, sabe como é... É o procedimento. – ele gesticula com os braços. – Se vocês me passarem umas verdinhas, um capilé... Sabe como é...
- Vou pegar minha bolsa. – responde friamente, envolvida pela humilhação e pela raiva.
O corrupto assobia uma música, tranqüilo, calmo, como se aquilo fosse rotina. Não duvido que seja. Ele abaixa para pegar o papelote, coloca quase metade do seu corpo gordo dentro do porta-malas. Agora eu entro em cena. Chega de ficar escondido escutando tudo!
Chego bem perto da bunda do policial, empinada para o alto enquanto pega sua ferramenta ardil. Não penso duas vezes, não demoro para chutar com força o traseiro desse filho da puta! Ele grita com o susto, enquanto cai dentro do porta-malas! Apenas suas pernas estão do lado de fora. Rapidamente retiro seu 38 do coldre, não quero resistência alguma.
- Peça desculpa para a mulher, agora! – eu grito!
Não sei se é o medo, ou então ele não quer pedir. Fica em silêncio, com aquela cara de susto, suando igual um porco!
- Não vai pedir? – eu ameaço.
- Eu sou um policial seu doente! – o coitado tenta me enfrentar.
- Você é policial? – momento do cinismo.
Seguro a porta do porta-malas com uma das mãos, começo a gargalhar, então fecho bruscamente, acertando em cheio as pernas do boçal! Quase como uma guilhotina... Quase... Apenas uma perna se quebra. O homem grita de dor.
- O que está acontecendo? - surge a mulher, com os olhos mais esbugalhados que um peixe morto.
- Desculpe não aparecer antes. Eu gravei tudo. Toma. – jogo um pequeno gravador em suas mãos. – Precisava de algo mais do que uma revista indevida pra usar como prova. O suborno vai dar conta de deixar esse desgraçado longe das ruas. Já chamei a ambulância, devem chegar a qualquer momento. Aqui a arma dele. – desmonto o revólver com facilidade, entrego os pedaços do brinquedo para ela.
Seus olhos vão do gravador, para a arma desmontada e para mim. O movimento dos globos oculares se repete quarto vezes.
- Delegado! Porra! O Jack me atacou aqui na estrada. Vim ajudar um casal acidentado e ele me atacou... Quê? Ele também colocou droga no carro chefe! Manda todos pra cá, vamos pegar esse filho da puta! – mal percebi que o idiota tinha um celular no bolso, ele está chamando a policia enquanto chora de dor.
Volto minha atenção para o porta-malas, à cena é ridícula, um policial gordo com a perna quebrada e a outra sangrando, da para sentir latejando daqui, chorando como uma mocinha para o chefe dele. Apenas fico assistindo, ele continua...
- Manda logo os homens aqui! Ele ta olhando para mim... Acho que vai me matar... Como? Não... O quê? Você ta falando sério? Porra chefe! Tô morrendo aqui caralho... Não vou fazer isso... É ridículo! – isso está ficando curioso. Moreira para de esbravejar, o silêncio toma conta da cena. – Jack o delegado quer falar com você. – o safado está falando comigo? Me pegou de surpresa.
- Como? – pergunto.
- Quer que eu desenhe? Pega aqui ô. – estende o celular, só esse movimento provocou um espasmo de dor no homem, que já se encontra pálido.
Fico olhando para o celular, para o homem sofrendo no porta-malas e para a mulher com cara de quem não está entendendo nada. Eu também não. Era para ser simples, eu bato no homem, a ambulância chega leva o casal embora, a moça processa o policial, e todos felizes para sempre!
- Quem fala? – pergunto, mal espero pelo que me aguarda.
- Aqui é Thiago Firmato, sou Delegado da 13°. Preciso de sua ajuda. – o homem parece falar sério, ou é uma brincadeira da grossa.
- Escuta aqui. É bom você ir se explicando, se isso for brincadeira, eu não vou gostar!
- Não, não... Eu realmente preciso. Sei que pode parecer mentira, mas não é! Confie em mim, por favor. – o homem parece realmente desesperado, vamos ver o que tem a dizer.
- Não confio! Desembucha, não quero perder meu tempo!
- Claro, desculpe. É que tenho sido ameaçado...
- Mude de profissão.
- Eu sei, são ossos do ofício. É que...
- Quer proteção? Você tem muitos homens MUITO disponíveis em sua delegacia. Bando de gordo que deveria proteger a população e não reclamar de seus salários.
- Eu entendo... É que...
- Você não confia em ninguém. – afirmo.
- Isso! Acho que alguém daqui de dentro vai me...
- Provavelmente.
- Então Jack! Estou precisando...
- Mude de profissão. Vá vender livros.
O homem parece desolado no outro lado da linha, não posso ajudá-lo, não dessa forma.
- Você já falou sobre essa “ameaça” nesse telefone? – indago, para obter a resposta prevista, será um “não, até hoje”. Homens desesperados fazem merda. É fato.
- É a primeira vez que conto para alguém... Não agüento mais viver nessa paranóia! Acho que vão me matar amanhã! O bilhete continha a data de amanhã!
- Sem querer piorar as coisas... Seu telefone está grampeado. Escuta esse barulhinho ao fundo. Te grampearam delegado. Estão vigiando seus passos, seja como for, não saia de casa amanhã!
- Mas...
Desligo o telefone. Jogo o aparelho em cima do seu dono, acerto sua cabeça de propósito.
Em instantes a ambulância chega, todos são socorridos. Tudo acaba bem para o casal. Menos para o corrupto safado e para o Delegado. Provavelmente vão matar o homem. Vou salvá-lo? É claro que vou!
Capítulo X – Nadando Com Tubarões (Parte 2 de 2)
RIO DE JANEIRO – 04 DE AGOSTO DE 2008
12:10 PM
Descobri muito sobre o delegado Firmato. Homem honesto. Sua virtude o pune com pena capital, a morte. O homem será morto à luz do dia por ser honesto. Irônico. Morrer por não pecar. Se esse mundo é justo? Não sei.
Thiago foi o responsável pela saída do tal Toninho Pereira da polícia. O atual traficante, já era traficante, só que ao mesmo tempo também era um policial. Firmato por anos a fio investigou Toninho. Ano passado conseguiu pegar o filha da puta! Pena que não possuía provas o suficiente para prendê-lo, pelo menos longe da polícia ele está. Esse é o mérito do delegado, além de ser a maior pedra no sapato para qualquer criminoso daqui do Rio. Homens como ele, são diamantes em meio ao barro nojento da polícia carioca.
O delegado pega seus filhos no colégio, dois garotos, um pequeno outro já adolescente. Cumprimentam o pai, parecem conversar de maneira animada. O único que não parece animado é o próprio Firmato, suas olheiras são grandes e negras. Sua aparência é de um homem velho, abatido, eu diria calejado, essa é a palavra correta.
Criminosos brasileiros nunca são criativos. Talvez ousados, mas nunca criativos. Erram como a máfia italiana errava no meio do século passado, crimes copiados, iguais, sempre com o mesmo método. Não é difícil de prever a ação desses calhordas. A luz do dia é o momento perfeito para colocar um pouco de terror, as pessoas se sentem seguras durante o dia, protegidos pelo sol, ao fazê-las temer também o dia, a vitória é certa. Por isso o delegado está tão preocupado, o melhor momento para sua morte será na frente de seus filhos. A verdadeira punição. Toninho deve ter pensado assim, aquele famigerado! Isso é ousadia, desrespeito, nada criativo.
Vim preparado, quase todas as minhas armas estão espalhadas em meu corpo, tenho lâminas guardadas na coxa, na panturrilha, as pequenas foices nas costas e o meu favorito, o exoesqueleto no braço direito. Tal equipamento me permite brincar de super-herói, é uma espécie de armação metálica que envolve meu braço, com ligações do ombro até a coluna. Na altura do meu antebraço fica enrolado aproximadamente trinta metros de um cabo de aço, digamos, diferente. No pulso há um pequeno arpão, disparado a uma velocidade considerável ao simples apertar de um botão, é similar aos usado na pesca de baleias, só que em uma versão minimizada. A ponta do arpão parece uma flecha, é pontiaguda, quando adentra no concreto dos prédios, por exemplo, aciono outro dispositivo que faz a ponta se transformar em um “ouriço” de aço, podendo assim dar a segurança necessária para meu balançar nas alturas. A desvantagem de tal equipamento é seu peso. Atrapalha nas lutas, na movimentação, nada que eu não consiga me virar.
O carro segue até parar em um semáforo. Tudo normal, até surgir aquele limpador de vidro, com sua garrafinha contendo uma água porca misturada ao sabão e um pequeno rodo nas mãos. O delegado gesticula, negando o serviço daquele, “aparente”, sem-teto. Não adianta, o homem joga o líquido de natureza duvidosa no vidro, na tentativa de limpa-lo. O delegado se incomoda no primeiro momento, não há anda o que fazer.
Aqui do alto do prédio a visão é panorâmica, vigio todo o ambiente, inclusive aquela moto que segue o delegado desde as sete horas da manhã. São dois homens, um pilotando e outro na garupa, por força do óbvio. Hora de agir!
A motocicleta avança em direção ao carro do delegado, o semáforo causou um pequeno acúmulo de automóveis, o quê não é empecilho para a moto que segue costurando o trânsito. Atiro o arpão no topo do prédio em que me encontro, e salto! Como um bungee jump eu deixo a gravidade me puxar, no momento correto eu travo o cabo de aço, para liberá-lo em seguida, permitindo uma queda tranqüila e sem seqüelas. Caio em meio a um grupo de pessoas, todos se assustam, ficando excitados, em menos de poucos segundos todos estão gritando e apontando para mim. Não me deixo distrair e começo a correr para salvar o delegado. Pulo no teto do primeiro carro, um Honda Civic novinho. Salto para o teto de outro, um Brava, nem tão novo assim. O limpador de vidros se assusta ao me ver, os filhos do delegado gritam felizes apontando para mim enquanto vou em sua direção ao saltos. Firmato assusta, também olha para mim. Com as mãos gesticulo mandando-o se abaixar. Os homens na moto também notam minha presença, só que tarde demais, ao se aproximarem do carro do Firmato, o garupa já com uma arma em punho, tenciono minha perna para o grande salto! Me encontro no carro “vizinho” ao do delegado, na faixa paralela. Pulo usando toda a minha força. Ao saltar, passo por cima de toda a extensão do veículo que será alvo dos disparos, armo minhas pernas e consigo acertar em cheio o meliante na garupa! Acerto sua cabeça e seu ombro, voamos em direção a um Uno estacionado, causando um amassado feio na porta do passageiro, como também o estilhaçar das janelas. Este não causará mais problemas, ficará agonizando com os dois ombros fora do lugar. Levanto-me rapidamente, o piloto da motocicleta se prontifica a fugir, pena que não é tão rápido quanto eu sou para levantar. Seguro a parte traseira da moto, onde normalmente o garupa fica com as mãos. Isso deveria servir só para amarrar o capacete! Vou ensiná-lo sobre o perigo de andar sobre duas rodas. O criminoso tenta arrancar, só que eu levanto a parte de trás da moto. Como isso é pesado! Meu bíceps parece que vai estourar! Como o arranque da motocicleta fica na roda de trás, o palhaço se vê acelerando inutilmente. A roda gira de forma feroz logo abaixo das minhas pernas, a fumaça toma conta do ar. Ele olha para trás, está desesperado. Não sabe o quê fazer, noto sua hiper-atividade. Tudo acontece em poucos segundos, antes mesmo dele pensar em parar de acelerar.
- Quer fugir? – agora seguro a moto com apenas uma mão. Nossa! Meu antebraço quer sair do meu corpo, amanhã isso vai doer muito!
Pego uma das adagas, a da coxa direita, e estouro o pneu. Um pequeno estouro ecoa entre os prédios. Solto a moto, que ao encostar a roda traseira no chão, faz liberar faíscas do atrito metal e asfalto, a borracha não passa de uma camada quase vazia. Isso não impede da motocicleta ganhar certo movimento, este por sua vez inútil, o veículo sai cambaleando, arrancando alguns retrovisores, até capotar logo à frente.
O peso da moto sobre a perna do homem não o deixa continuar a fuga destrambelhada. Ao tentar amortecer sua queda com o braço, o coitado teve uma pequena fratura exposta, e eu espero que esteja doendo muito! Caminho calmamente ao som de aplausos arrepiados. Chego até o “acidente” que causei, pego a moto e a retiro de cima da perna do motoqueiro, ela está um pouco machucada, nada sério. Infelizmente. Levanto o homem pelo colarinho, ele é magro, levíssimo comparado a sua motoquinha fajuta. Agora deixarei tudo a cargo do delegado, ele saberá o que fazer.
Antes deu me virar, escuto um outro estrondo ecoando pelo ar. É um tiro! Como? Deixei um inconsciente e o outro está aqui em meus braços! Merda! O maldito limpador! Mendigo desgraçado!
Consigo ver a cara do assassino. Medo, e certeza do trabalho cumprido, é isso que está sentindo. Ele larga a arma e parte em disparada pela calçada. Ainda com o motoqueiro em meus braços, começo a correr, passo pelos gritos agonizantes, um pranto triste pelo pai baleado. Largo o lixo humano ao lado de seu parceiro. E grito para os garotos. “Peguem à arma no chão e vigiem esse aí!”. Um deles me obedece, e eu prossigo a perseguição.
Agora me encontro desviando de cada curioso, querendo suprir sua lascívia. O miserável é veloz! Não se preocupa em derrubar as pessoas que estão no seu caminho. Uma garota é mandada longe, após um encontrão com o infeliz. Não tenho tempo de ajudá-la. Minhas pernas agora começam a reclamar, tantas armas e esse maldito exoesqueleto no braço direito! Estou no mínimo uns vinte quilos mais pesado, e sou obrigado a correr o mais rápido possível. O cara está ganhando vantagem, caralho! Quase o perco de vista, quando ele entra em um quarteirão fechado, cheio de lojas exóticas, do tipo que vende incenso e baranguisses indianas. Há poucos transeuntes aqui, posso acompanhar seus movimentos com mais clareza, mesmo assim estou correndo um sério risco de perdê-lo. Isso não pode acontecer!
Em movimento, pego as foices em minhas costas. Duas armas de tamanho médio, ligadas por uma corrente que pode chegar a dois metros de comprimento. A corrente fica guardada dentro do cabo de uma das armas. Libero somente o necessário, menos de um metro. Começo a girá-las. Elas cortam o ar, cantando para meus ouvidos. Então as lanço em direção ao desprezível! As foices vão girando graciosamente, uma precisão cirúrgica, até a corrente atingir seu alvo. Sinto-me um caçador! Ele é minha presa! Uma presa frágil. O metal enrosca em sua perna, ao tentar continuar a corrida, as lâminas cravam em sua panturrilha, levando-o a queda certa. De queixo no chão! Um corte se abre, sujando os paralelepípedos de vermelho.
Paro de correr e diminuo o ritmo até o enfermo moral. Faço questão de amarrar ainda mais as correntes. Agora é só arrastá-lo até a cena do crime, a polícia que se vire com esses lixos. Começo a puxá-lo pela corrente, ele começa a se debater. Isso me irritou! E muito! Chego bem perto do ouvido desse desgraçado.
- Você acabou de matar um pai de família. É melhor ficar quietinho.
Ele tenta esbravejar algo, não lhe essa chance, aperto seu pescoço com uma das minhas mãos. Continuo apertando, esmagando-o nos paralelepípedos. Não consigo parar de apertar! Há força em meus dedos, uma força incontrolável que quer punir esse filho da puta! Ele está engasgando com a própria saliva, chega a babar. Não percebo um garotinho me olhando, até sua mãe fazer um comentário, atingindo meu ego. “São todos iguais, meu filho”. Afrouxo meus dedos. O assassino busca fôlego desesperadamente. Continuo a arrastá-lo até a cena do crime.
- Você é um cara de sorte! Não sou tão bonzinho a ponto de te matar. Seria muito fácil. – me viro. – Queria passar alguns dias com você... E no final você estaria implorando para voltar a limpar vidros de carros. Se ainda estiver mãos é claro. – agora é só medo em sua face. E eu gosto disso!
Meu coração aperta ao me aproximar do carro. Encosto o meliante perto dos outros. Vejo o garoto apontando a arma para os assassinos de seu pai, sua mão é firme, mesmo com o choro incontrolável em seus olhos. Gostaria de entender a sua dor, não... Espero nunca sentir uma dor como essa.
- Obrigado garoto. Você fez um bom trabalho. – tiro a arma da mão da criança.
- Ja... Ck... – uma voz tremula, é Firmato!
- Delegado! Você está vivo? – só depois percebo a idiotice dessa pergunta. É claro que está vivo! E falando comigo!
- Digamos... – ele tosse. – Que esse safado ai não sabia atirar. – ainda consegue dar uma risada, ele está bem. – Meu filho já chamou a ambulância... – mais uma tosse. – Não vai ser dessa vez que... Essa escória se livrará de mim.
Assinto com a cabeça.
- Tenho mais um trabalho pra você... – agora sai um espasmo de dor.
Esbanjo curiosidade. O moribundo agora deu para fazer pedidos. Vamos ver o que ele tem a dizer. Pelo visto nada. No rádio de seu carro, obtenho a minha resposta.
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Todas as unidades, preciso de vocês agora! Acabam de assaltar diversas agências bancárias! São duas quadrilhas! Uma estava disfarçada de seguranças, e fugiram com um carro-forte, a outra está em dois carros, Fiat Bravo! O carro forte está indo em direção a ponte para Rio-Niterói, segundo testemunhas. Os outros estão indo para a Linha Vermelha, na altura da favela de Ramos, próximo ao aeroporto! O quê faremos? Alguém? Respondam! Alguém!
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O delegado me olha. Seu olhar diz tudo que precisa. “Ajude-me mais uma vez!”. Esses assaltantes pegaram pesado, são profissionais, pelo visto. Apostaram tudo numa segunda feira! Policia desocupada e despreparada, e ainda se dividiram em dois grupos. Não há previsão tática para agir nessas situações. Irão parar todos os carro-forte, todos os Fiat Bravo, e nada! Preciso agir agora! Pego o rádio.
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Aqui quem fala é Jack Built! Escute-me com atenção. Não discuta e obedeça. Mande todos disponíveis em direção a Linha Vermelha. Façam o que foram treinados para fazer! Eu cuido do carro-forte!
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- Vou precisar do seu carro. – falo ao delegado.
- Claro... Tire-me daqui. – ele responde.
Com a ajuda de seus filhos, tiro o ferido cuidadosamente do banco do motorista, colocando-o deitado no asfalto. Tento ignorar o fedor de sangue impregnado no banco. Dou a partida no Siena prata. O motor não é dos melhores, mas servirá. Acelero um pouco para aquecê-lo. “Você irá correr como nunca antes amigão”, falo baixinho para o automóvel.
- Jack... – Firmato se esforça para falar. – Obrigado!
Dou a partida cantando os pneus, ignorando qualquer sinal e lei de trânsito. Vou a cem quilômetros por hora, e aumentando a velocidade. Sinto meu corpo um pouco cansado. Que se foda!