Nós
Brasília, 5 de outubro de 1988.
- Kurt Cobain é o maior ícone da nova geração!
- Como é que é?
- Sério! Sem dúvida.
- Uhun. E os Mamonas Assassinas a maior banda do Brasil.
- Calma, não é por ai. Eu falo que Kurt Cobain foi o maior ícone de nossa geração, porque ele é o melhor reflexo dela.
- O cara deu um tiro na boca! Um suicida.
- Você está chegando onde eu quero. Kurt foi definitivamente uma pessoa de personalidade frágil. Atingiu o sucesso rapidamente, se tornou uma Cristo temporário para a mídia. Sua guitarra grunhenta era escutada em todo canto do planeta! Essa escalada repentina, vem junto com pressões de todos os lados, inclusive dele para com ele mesmo. Sua rebeldia era direcionada para o nada. Logo, logo, toda essa energia ia acabar se esgotando. Daí a sua fuga para as drogas. Que também acabariam por se tornar insuficientes! Nesse “marasmo” angustiante, qual foi à solução encontrada?
- Um tiro na cabeça?
- Não. Fuga. Não é novidade para ninguém que os jovens de uns vinte anos para cá são, em sua maioria, alienados. Encontraram um mundo já com mudanças sólidas. Um mundo feito e pronto para se viver. Não há contra o que lutar. Nada para se reivindicar. No Brasil por exemplo, desde o caso Collor ninguém mais pinta a cara e sai defendendo seus direitos. Estão todos entregues aos prazeres da grande mídia. Sendo levados por tendências e modismos.
- É por ai sim. E é uma tendência que se perpetua já a um bom tempo. Politicamente falando o jovem se tornou insignificante. Não é visto mais como um participante na mudança. É somente um beneficiário dela. O exemplo do Nirvana é perfeito! Tudo se baseia na diversão. Política, filosofia, e outras coisas do ramo do saber, são assuntos chatos. Há uma aversão ao espírito verdadeiramente rebelde, que não se acomoda. Bill Clinton é outro retrato dessa geração.
- Com certeza! Ainda mais depois do...
- Esse é só um detalhe, que também confirma o que estou dizendo. Há uma relativização de certos valores na mente dos jovens. Um Presidente ganhar um boquete na Casa Branca, foi no mínimo, admirável! Pela mente jovem atual. Digo atual, de uns vinte anos pra cá.
- Ninguém se tornou antiamericano por isso!
- E, sinceramente, deveriam.
- Você fala de relativização de quais valores?
- Antigamente não acontecia desse jeito. Tínhamos valores fixos e determinados. O pudor seria um deles. O rock, o sexo e as drogas, são as únicas coisas que atraem os jovens. Pela sua facilidade de envolvimento e prazeres rápidos. Basta ver a comunidade universitária. Como se não houvesse mais uma necessidade de revolução! Chega a ser ultrajante.
- Vamos, responda a minha pergunta. Quais valores?
- Já falei um deles, o pudor. A moral também é um deles. Vamos pegar o Brasil. Vivemos em uma ditadura ferrenha por vários anos, de sessenta e quatro até meados dos anos oitenta. Nesse período, com a liberdade sendo engasgada pelos coturnos militares, os jovens eram a única chance de mudança. Jovens que lutavam por aquilo que achavam certo! Que defendiam a democracia! E hoje? Quando virá a próxima etapa? Temos uma democracia mal aproveitada, essa liberdade sem sentindo, sendo usada somente para a subversão de valores e de uma diversão desmedida.- Quem lutava pela democracia em sessenta e quatro? Ninguém! Isso é mito.
- Não mesmo! Os jovens eram ativos! Não se entregavam. Hoje o nível de percepção é limitado à televisão e internet.
- Então, o que faz um jovem ativo, não apático, é querer fazer parte de uma revolução armada comunista?
- Que seja. Desde que ele se movimente, queira abrir suas asas e se lançar no mundo como um fator modificador. Esse espírito morreu nos anos noventa. Musas siliconadas. Músicas com anencefalias sonoras. Drogas sintéticas. Estamos entregue às traças do tempo. Ainda vamos nos dar um tiro.
- Mudando um pouco o foco do assunto, quando se fala em 11 de Setembro, o quê você pensa?
- Bem... Foram conseqüências de uma política externa...
- Do Bush? Não. Do Bill Clinton. Concordo com alguns pontos, como a relativização de valores, mas ter uma postura saudosista não é a melhor das opções. Colocar a culpa do que não ocorre hoje, naqueles que vivem hoje, é correto, no primeiro momento. Sinto informar, mas a juventude sempre foi alienada.
- Como assim?
- Nas revoluções do século dezenove, era alienada pelo Iluminismo. No século vinte pelo espírito revolucionário. Atualmente, nesses “anos negros” e apáticos que você coloca... Pelo niilismo aparente, que deriva da palavra latina nihil. Podemos conceituar isso como uma condição cultural em que os indivíduos não valorizam nada, nada parece certo ou errado, bom ou ruim, bonito ou feio. Falo aparente, porque há certa insatisfação dos jovens com mundo, pequena mas ainda há. Ou seja, os jovens ainda são jovens... Só que possuem um paradigma diferenciado de tratar com o mundo.
- Claro! Estão apáticos. Inertes.
- Segundo você, porque já conquistaram a tão desejada liberdade. Já estão inseridos em um mundo democrático, falando das nações ocidentais, obviamente, e não há mais o que reivindicar.
- Não é tão simples. Há o que reivindicar.
- Com certeza! Mas essa apatia não é totalmente condenável. Pela sua lógica alguém que nasceu em 1986, hoje em 2009, terminando sua vida acadêmica, querer somente constituir uma família, ter um emprego, paga suas contas e só, estaria cometendo um “crime”. Transgredindo uma “lei”, de que os jovens não devem estar satisfeitos. Sei que a satisfação pode ser perigosa, e até concordo que ainda há o que reivindicar. Mas não podemos condenar quem está feliz pela sua situação.
- E o mundo que se foda, não é assim?
- Estamos nesse “buraco”, considerando o antes melhor que o agora, justamente por termos pessoas querendo mudar este mundo. Também vou me valer de um ícone de nossa geração, um pouco mais antigo, e mais condenável, o famoso Che Guevara.
- Um símbolo de luta e revolução definitivamente.
- O oposto do Kurt Cobain?
- Podemos dizer que sim.
- Pois eu falo que não. São extremos da mesma porcaria que existe. Um é a personificação cult da fragilidade, do culto ao suicídio, o outro um assassino guerrilheiro, transformado em herói. Duas caras para vender chaveiros.
- Onde você quer chegar?
- Peguemos o que esses dois ícones da modernidade representam. Não quero utilizar Barack Obama, o único é conseguiu ser ícone por ser ele mesmo, não irá servir para o que demonstrarei. Um o ápice da revolução, o outro o representante da fragilidade juvenil dos anos noventa. Estou aliviado por você não ter usado o Rap como exemplo, nem o funk, dariam mais clamor para a discussão. Esses dois indivíduos, viveram épocas distintas, em circunstâncias distintas, um Guerra Fria, o outro a recente queda do Comunismo soviético, mas sua influencia incide sobre a mesma, digamos, geração. Somos filhos de um mundo onde não há mais guerras significativas. Nem frias, nem ideológicas. O mundo não está em paz. Mas o viés de combate ao status quo, não tem mais consistência. Os jovens atualmente não devem brandir armas e fazer revoluções. Afinal, revolução para que? Já temos liberdade.- Liberdade a que preço?
- Ao preço das leis. Nossa Constituição por exemplo. É um verdadeiro marco de nossa geração. Direitos Fundamentais, princípios constitucionais, para não falar no próprio artigo quinto.
- E mesmo assim, ela ainda é tratada como piada...
- Seguindo suas palavras, ai a “relativização dos valores”. A China se tornou uma potência econômica, aliando economia de mercado e comunismo. Quer maior relativização do que isso? O quê esse fato implica na mentalidade jovem? A relativização do valor democrático. Já conquistado.
Utilizo esse exemplo porque não me importo com, por exemplo, a qualidade da música que é escutada hoje. Isso é insignificante. Apesar de que, poderiam elevá-la um pouco. Nem com qual programa passa na televisão, se ele é ou não uma descarga mental para cérebros. Presumir que esses instrumentos do entretenimento, alienam o indivíduo, sacrificar o próprio indivíduo e sua vontade, sua inteligência.
Concentro minha preocupação no que concerne à visão política e moral do mundo. Fenômenos como o ONGuismo governamental, a auto determinação dos povos confundida com terrorismo, a volta do populismo como arma política. Essas são as mazelas que os jovens devem tomar cuidado. O mundo não é uma piada. Muito menos algo que se pode mudar através da luta, de uma revolução. Jovens não tem poder para tanto. É complexo. A melhor ferramenta para nos libertarmos do nosso niilismo, é o conhecimento.
Uma postura saudosista não leva a nada. Não trás nenhuma vantagem. Somente obscurece o debate. O mundo hoje é diferente. Possui suas crises, como sempre possuiu, e há de superá-las. Um futuro negro nos espera? É papel da juventude mudar essa ordem caótica e apocalíptica na qual nós caminhamos? Não poluir mais. Combater o aquecimento global. Ficar firme durante a crise econômica. Assistir a pequenas guerras ao redor do globo, por motivos, na maioria das vezes, ausentes de razão. Ter uma opinião. Se divertir. Se indignar com os verdadeiros apáticos, os nossos congressistas. Nos preocuparmos com o crescente protecionismo europeu. Saber o que é Bovespa, Dow Jones, Nasdaq. Entender o motivo da euforia pré-sal! Conseguir diferenciar o político oportunista/populista/charlatão/calhorda/peculatista, do apedeuta, do competente. Entender a TPM da namorada. Decifrar o espírito simplista masculino. Aceitar o Complexo de Édipo. Resistir, ou ignorar, o fato de que o tráfico de drogas cresce, mata, e destrói mais vidas do que uma Alemanha Nazista. Conseguir um emprego. Entrar para Universidade. Saber quem foi Voltaire. Pescar uma mensagem subliminar em um outdoor publicitário. Operar o Windows. Usar o Google. Chorar pela África. Diferenciar civilidade de fundamentalismo. Escolher uma religião. Visitar asilos. Fazer caridade. Declarar imposto de renda, é necessário? Ler livros. Blogs. Jornais. Revistas. Informativos. Jurisprudências. Leis. Decretos. Resoluções. Java. COBOL. Teorias administrativas. Burocracia. Escrever um diário. Querer mudar o mundo é só a ponta do iceberg de uma mente jovem!
Um maluco e auto-intitulado mago, falou uma vez que assimilamos informações demais, em número “x” de segundos, e a cada instante, esse número de informações aumenta “y”... A nova geração tem um papel tão importante que é maior do que querer mudar o mundo... È não deixar que acabem com ele.


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