Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XVII: Medo e Delírio
* Em um quarto de hotel, em alguma cidade podre e luminosa.- Argh! Que merda! De onde surgiu essa mulher? Larga meu pé sua vaca!
- Calma porra. Ela ta só fritando.
- Onde você arrumou essa piranha?
- No avião.
- Que quadros são esses?
- Ela é fanática religiosa e gosta de pintar a Barbra Streisand. A mocinha pediu um remédio pra dormir na viagem.
- E você batizou a parada?
- Isso. Ela surtou. Ficou louquinha.
- O quê você não faz pra arrumar um sexo. Seu doente.
- E isso foi a mais de vinte quatro horas atrás. A vagabunda não para de fritar! O quê agente vai fazer com ela?
- Agente? Bem... Tenho uma idéia. Fanática religiosa não é? Jesus e tudo mais. Conheço uns policiais. Pagam cenzinho cada pra fazer um grupal. Agente coloca uns quadros de Jesus e uma Bíblia no meio. Enfia um sintético nela. Olha essas coxas, essa aí agüenta o tranco.
- Você é doente?
- Eu? Você dopa a desgraçada, e o doente aqui sou eu? Só estou tentando achar um modo de lucrar com isso.
♦ ♦ ♦
- Por que o preto?
- Camuflagem. Funciona muito bem à noite.
- Mas acaba assustando as pessoas, não? - hoje Aparecida tirou o dia para perguntas.
- A idéia é mais ou menos essa. Se eu pulasse na frente de um criminoso, com colete amarelo e azul, imagina! A intenção não é matar o crime de tanto rir.
- Você não teria um símbolo, algo além do preto?
- Te incomoda tanto assim?
- É meio mórbido. – sua boca se fecha e é levada para o canto esquerdo, como um coelhinho.
- Meu nome também não funciona como deveria.
- Verdade. – ela confirma.
Rimos juntos.
- No começo era pior, pode acreditar. – e como era! – Não planejei a parte publicitária de vestir um colante e sair pelas ruas.
- Eu fiquei pensando Augusto. Qual motivo... – sua pele morena segue perfeitamente cada expressão de dúvida, enquanto a luz incandescente é refletida em seus olhos.
- Se eu falar que não sei. Você acreditaria?
- Vindo de você... – ela morde os lábios, tentando conter um sorriso. – Acreditaria sim!
Rimos mais uma vez. Nos damos bem. Isso é fato! Desde que deixei de ficar grogue com os analgésicos, temos conversado bastante. Não saio da cama há dois dias, preciso repousar, os ferimentos ainda doem. Me recupero bem. Maria Aparecida é uma mulher interessante. Curiosa. Muito curiosa para falar a verdade. Acorda cedo e vai para o trabalho, retorna as seis, arruma minha bagunça, senta na cama e ficamos conversando. Segundo ela, eu a salvei das garras das novelas. Não duvido. Pessoas ainda vêem essa porcaria? Nosso papo acaba desembocando madrugada adentro. Não falamos sobre sua vida, tento descobrir algumas coisas, mas quando o assunto é ela, sempre surge uma pergunta para lubridiar o rumo da conversa. Tive que descobrir algumas coisas sozinho, pelo modo de falar, maneirismos, porta retratos e essa cama de casal. No primeiro dia pensei que ela fosse casada, nenhum homem apareceu, nem ao menos foi citado, conclui que Maria gostava de conforto. Não é porque se vive em uma favela que não pode dar ao luxo de algum conforto. Só que essa cama representa algo mais triste. Esse colchão que me acomoda simboliza sua solidão. Camas de casal não são feitas para dormir no meio delas. Foram feitas para serem divididas. Duas pessoas unidas e abraçadas pelo amor, compartilhando o sono. Maria Aparecida é viúva. A foto de um homem vestido com uniforme da policia dentro da Bíblia me contou. Ele era policial militar. Como morreu? A foto fria não é tão sincera quanto parece. Minha salvadora é evangélica. O rádio vagabundo que usa como despertador toca a mesma música todos os dias às cinco da manhã. Algo sobre misericórdia divina, repetindo e repetindo o tempo todo. Não tenho nada contra religiões, mas isso me soou como uma espécie de lavagem cerebral. E se eu falar que a intenção é essa, posso parecer rude, mas tudo aquilo que se repete constantemente tem um fim. E gruda na porra da cabeça. Me peguei cantando sozinho, enquanto mijava.
- Cida, quantas horas? E que dia é hoje? Preciso diminuir a dose desses remédios.
- Seis de agosto. Só um instante que vou ver as horas. – adoro suas roupas de ficar em casa. Um básico estonteante.
Maria corre na cozinha e grita.
- São nove horas!
- Camuflagem. Funciona muito bem à noite.
- Mas acaba assustando as pessoas, não? - hoje Aparecida tirou o dia para perguntas.
- A idéia é mais ou menos essa. Se eu pulasse na frente de um criminoso, com colete amarelo e azul, imagina! A intenção não é matar o crime de tanto rir.
- Você não teria um símbolo, algo além do preto?
- Te incomoda tanto assim?
- É meio mórbido. – sua boca se fecha e é levada para o canto esquerdo, como um coelhinho.
- Meu nome também não funciona como deveria.
- Verdade. – ela confirma.
Rimos juntos.
- No começo era pior, pode acreditar. – e como era! – Não planejei a parte publicitária de vestir um colante e sair pelas ruas.
- Eu fiquei pensando Augusto. Qual motivo... – sua pele morena segue perfeitamente cada expressão de dúvida, enquanto a luz incandescente é refletida em seus olhos.
- Se eu falar que não sei. Você acreditaria?
- Vindo de você... – ela morde os lábios, tentando conter um sorriso. – Acreditaria sim!
Rimos mais uma vez. Nos damos bem. Isso é fato! Desde que deixei de ficar grogue com os analgésicos, temos conversado bastante. Não saio da cama há dois dias, preciso repousar, os ferimentos ainda doem. Me recupero bem. Maria Aparecida é uma mulher interessante. Curiosa. Muito curiosa para falar a verdade. Acorda cedo e vai para o trabalho, retorna as seis, arruma minha bagunça, senta na cama e ficamos conversando. Segundo ela, eu a salvei das garras das novelas. Não duvido. Pessoas ainda vêem essa porcaria? Nosso papo acaba desembocando madrugada adentro. Não falamos sobre sua vida, tento descobrir algumas coisas, mas quando o assunto é ela, sempre surge uma pergunta para lubridiar o rumo da conversa. Tive que descobrir algumas coisas sozinho, pelo modo de falar, maneirismos, porta retratos e essa cama de casal. No primeiro dia pensei que ela fosse casada, nenhum homem apareceu, nem ao menos foi citado, conclui que Maria gostava de conforto. Não é porque se vive em uma favela que não pode dar ao luxo de algum conforto. Só que essa cama representa algo mais triste. Esse colchão que me acomoda simboliza sua solidão. Camas de casal não são feitas para dormir no meio delas. Foram feitas para serem divididas. Duas pessoas unidas e abraçadas pelo amor, compartilhando o sono. Maria Aparecida é viúva. A foto de um homem vestido com uniforme da policia dentro da Bíblia me contou. Ele era policial militar. Como morreu? A foto fria não é tão sincera quanto parece. Minha salvadora é evangélica. O rádio vagabundo que usa como despertador toca a mesma música todos os dias às cinco da manhã. Algo sobre misericórdia divina, repetindo e repetindo o tempo todo. Não tenho nada contra religiões, mas isso me soou como uma espécie de lavagem cerebral. E se eu falar que a intenção é essa, posso parecer rude, mas tudo aquilo que se repete constantemente tem um fim. E gruda na porra da cabeça. Me peguei cantando sozinho, enquanto mijava.
- Cida, quantas horas? E que dia é hoje? Preciso diminuir a dose desses remédios.
- Seis de agosto. Só um instante que vou ver as horas. – adoro suas roupas de ficar em casa. Um básico estonteante.
Maria corre na cozinha e grita.
- São nove horas!
21:00 PM
- Obrigado! – grito agradecendo.
- Vai querer o quê pra jantar? – momento conversa a grito.
Apesar da situação estou gostando de como estamos nos conhecendo. Maria possui um coração bondoso, e de alguma forma Jack Built despertou algo nela. Não descobri o quê ainda.
Tento me levantar, o abdômen queima. Chega de frescura. Não posso me acomodar. Caminho até a cozinha. Maria se encontra agachada procurando algo em uma das estantes de metal, empurrando panelas e vasilhas de plástico. Já comentei de sua bunda? Sou um homem respeitoso, estou tentando evitar pensamentos sujos. Pena que meus olhos não têm consciência. Malditos. Como ela é linda. Seu sotaque carioca nem chega a me incomodar.
- Não, não! – sou repreendido. – Já de volta pra cama! Nada de ficar se esforçando.
Maria fecha a cara e vem ao meu encontro. Segura no meu braço, e começa a me levar de volta para o quarto. Levo minha mão à sua. Seus olhos encontram os meus. Não sinto nada. Não expresso nada.
- Me solta.
- Mas... – não a deixo argumentar.
- Sente-se. – aponto para a mesa da cozinha. Ela obedece. – Olha Maria, eu agradeço por tudo que fez por mim, mas eu não sou feito de seda. Não sou um graveto.
- Eu sei... – seus dentes mordem sua boca mais uma vez.
- Você me trouxe de volta a vida Aparecida! Eu lhe devo isso. Só não se preocupe tanto comigo. Por favor. Sei que esse lance de máscara empolga muita gente, mas... – uma pausa proposital. – Por que você me salvou? Sei que não trabalha pra ninguém que me quer morto. Em dois dias aprendi muito sobre você, mesmo com suas evasivas ao falar de si mesma. Ou é uma ótima atriz, ou estou sendo muito inocente. E acredite, quando se leva um tiro e é espancado, descuidado é o último adjetivo que se aplica a minha pessoa! Vou repetir... – ambos sérios, nos olhamos. – Por que você me salvou? Por que ao escutar tantos tiros... POR QUE VOCÊ SE ARRISCOU TANTO?
- EU NÃO SEI! – ela responde meu grito!
Silêncio, meu velho companheiro nessa cidade estranha. Ele é expulso por uma voz macia, triste e sincera... A voz de Maria.
- Eu não sei Jack... Quer dizer... Augusto. Não sei mesmo! – suas sobrancelhas contraem, sua cabeça abaixa. – Você acredita em mim?
- Vindo de você...
Rimos juntos. Jantamos falando de coisas boas.
- Agora vá descansar mocinho.
- Quem trabalha aqui é você... Mocinha!
- Vou ver um pouco de televisão. – Cida se levanta, juntando as louças e deixando-as na pia.
- Vamos ver juntos então.
- No sofá duro? Seus ferimentos. Não é nada confortável. – bom aviso.
- Tudo bem.
Ela confirma com a cabeça, se vira e começa a brincar com o detergente, banhando os pratos sujos de feijão e arroz com água corrente. Vou até a sala, tiro a televisão da tomada, pego a antena... Agora a prova da recuperação... Carregar uma televisão de vinte polegadas. Os milhares de machucados reclamam! Minha perna treme. Isso é tão fácil. Debilitado de merda! Tenho sucesso. Levo a televisão para o quarto. Arredo a Bíblia, apoiando o aparelho em uma estante. Ligo, testo e pronto!
- O quê você apronto hein, senhor super-herói? – indaga com as mãos na cintura ao entrar no quarto.
- Vamos ver televisão juntos!
A pele morena enrubesce. O convite é aceito.
RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
- Obrigado! – grito agradecendo.
- Vai querer o quê pra jantar? – momento conversa a grito.
Apesar da situação estou gostando de como estamos nos conhecendo. Maria possui um coração bondoso, e de alguma forma Jack Built despertou algo nela. Não descobri o quê ainda.
Tento me levantar, o abdômen queima. Chega de frescura. Não posso me acomodar. Caminho até a cozinha. Maria se encontra agachada procurando algo em uma das estantes de metal, empurrando panelas e vasilhas de plástico. Já comentei de sua bunda? Sou um homem respeitoso, estou tentando evitar pensamentos sujos. Pena que meus olhos não têm consciência. Malditos. Como ela é linda. Seu sotaque carioca nem chega a me incomodar.
- Não, não! – sou repreendido. – Já de volta pra cama! Nada de ficar se esforçando.
Maria fecha a cara e vem ao meu encontro. Segura no meu braço, e começa a me levar de volta para o quarto. Levo minha mão à sua. Seus olhos encontram os meus. Não sinto nada. Não expresso nada.
- Me solta.
- Mas... – não a deixo argumentar.
- Sente-se. – aponto para a mesa da cozinha. Ela obedece. – Olha Maria, eu agradeço por tudo que fez por mim, mas eu não sou feito de seda. Não sou um graveto.
- Eu sei... – seus dentes mordem sua boca mais uma vez.
- Você me trouxe de volta a vida Aparecida! Eu lhe devo isso. Só não se preocupe tanto comigo. Por favor. Sei que esse lance de máscara empolga muita gente, mas... – uma pausa proposital. – Por que você me salvou? Sei que não trabalha pra ninguém que me quer morto. Em dois dias aprendi muito sobre você, mesmo com suas evasivas ao falar de si mesma. Ou é uma ótima atriz, ou estou sendo muito inocente. E acredite, quando se leva um tiro e é espancado, descuidado é o último adjetivo que se aplica a minha pessoa! Vou repetir... – ambos sérios, nos olhamos. – Por que você me salvou? Por que ao escutar tantos tiros... POR QUE VOCÊ SE ARRISCOU TANTO?
- EU NÃO SEI! – ela responde meu grito!
Silêncio, meu velho companheiro nessa cidade estranha. Ele é expulso por uma voz macia, triste e sincera... A voz de Maria.
- Eu não sei Jack... Quer dizer... Augusto. Não sei mesmo! – suas sobrancelhas contraem, sua cabeça abaixa. – Você acredita em mim?
- Vindo de você...
Rimos juntos. Jantamos falando de coisas boas.
- Agora vá descansar mocinho.
- Quem trabalha aqui é você... Mocinha!
- Vou ver um pouco de televisão. – Cida se levanta, juntando as louças e deixando-as na pia.
- Vamos ver juntos então.
- No sofá duro? Seus ferimentos. Não é nada confortável. – bom aviso.
- Tudo bem.
Ela confirma com a cabeça, se vira e começa a brincar com o detergente, banhando os pratos sujos de feijão e arroz com água corrente. Vou até a sala, tiro a televisão da tomada, pego a antena... Agora a prova da recuperação... Carregar uma televisão de vinte polegadas. Os milhares de machucados reclamam! Minha perna treme. Isso é tão fácil. Debilitado de merda! Tenho sucesso. Levo a televisão para o quarto. Arredo a Bíblia, apoiando o aparelho em uma estante. Ligo, testo e pronto!
- O quê você apronto hein, senhor super-herói? – indaga com as mãos na cintura ao entrar no quarto.
- Vamos ver televisão juntos!
A pele morena enrubesce. O convite é aceito.
RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
00:13 AM
A luz medíocre da tv luta contra a escuridão do quarto.
- Acho que sei por que você me salvou. – lanço a frase no ar, isso a surpreende.
Maria não fala nada.
- Não tem haver com sua religião, tem? – pergunto.
- Religião? – outra pergunta... dessa vez retórica.
- Você não é evangélica? A Bíblia. A rádio.
- Meu marido era. Na verdade eu tenho diploma e tudo mais, dou minha contribuição para o culto, mas nunca levei a sério. Mantenho a rádio só porque foi o Beto que programou. Era nele que meu marido ouvia os jogos do Bota-fogo, e essa rádio. – ela continua olhando para a tela.
- Como ele morreu?
- Bala perdida.
A frieza do momento não me atrapalha. Nem me surpreende. Notícias são jogadas pela televisão no nosso colo, enquanto falamos de morte.
- Não sabia quem você era. Sabia que você existia. – vez de Maria lançar uma frase no ar. – Por que eu te salvei?
- Você precisa cuidar das pessoas. Eu sou o ápice desse desejo. Cuidar de quem cuida dos outros. Por isso casou com um policial, por isso se arriscou tanto para me salvar. – também não tiro os olhos da televisão. – Sem fazer isso você não se completa.
- Eu não casei porque ele era um policial. Como você chegou a essa conclusão?
- É por isso que eu coloco uma máscara e saio à noite.
A morbidez do momento é interrompida. Não. Aumentada pela voz séria da bela jornalista, vestida com seu uniformezinho engomado, protegida por monitores e a redoma de vidro do jornalismo.
“Mais detalhes sobre a reação das autoridades à presença do falecido, e suposto herói Jack Built no Rio de Janeiro. Como também a comoção das pessoas ao redor do país...”.
Maria se levanta correndo e desliga o televisor! Sinto daqui seu coração batendo com força. O meu? Está calmo, quase silencioso, como a moça do jornal falou.
- Você não está morto! Os jornais e revistas dizem que sim! Mas não está!
- Cida, será que realmente precisamos cuidar dos outros? – as trevas tomaram o quarto, não nos incomodamos com ela. Maria e eu. – Há quase oito anos eu... – engulo seco. – VISTO A PORRA DE UMA ROUPA PRETA! Uma merda! Um caralho de um colante preto! PRA QUÊ? É como me falaram! É ridículo! Infantil! Inútil! Combater o crime... Como eu posso reclamar se eu for morto? EU ESTOU MORTO! Em oito anos a melhor coisa que eu sei fazer é como derrubar um homem em combate. Sou uma máquina de matar... Só que nem isso eu consigo fazer... Não consigo matar a porra de um verme sem me sentir culpado! Jack Built está... morto.
Maria corre até mim, me abraça. Ambos solitários nessa cidade. Ambos no escuro.
A luz medíocre da tv luta contra a escuridão do quarto.
- Acho que sei por que você me salvou. – lanço a frase no ar, isso a surpreende.
Maria não fala nada.
- Não tem haver com sua religião, tem? – pergunto.
- Religião? – outra pergunta... dessa vez retórica.
- Você não é evangélica? A Bíblia. A rádio.
- Meu marido era. Na verdade eu tenho diploma e tudo mais, dou minha contribuição para o culto, mas nunca levei a sério. Mantenho a rádio só porque foi o Beto que programou. Era nele que meu marido ouvia os jogos do Bota-fogo, e essa rádio. – ela continua olhando para a tela.
- Como ele morreu?
- Bala perdida.
A frieza do momento não me atrapalha. Nem me surpreende. Notícias são jogadas pela televisão no nosso colo, enquanto falamos de morte.
- Não sabia quem você era. Sabia que você existia. – vez de Maria lançar uma frase no ar. – Por que eu te salvei?
- Você precisa cuidar das pessoas. Eu sou o ápice desse desejo. Cuidar de quem cuida dos outros. Por isso casou com um policial, por isso se arriscou tanto para me salvar. – também não tiro os olhos da televisão. – Sem fazer isso você não se completa.
- Eu não casei porque ele era um policial. Como você chegou a essa conclusão?
- É por isso que eu coloco uma máscara e saio à noite.
A morbidez do momento é interrompida. Não. Aumentada pela voz séria da bela jornalista, vestida com seu uniformezinho engomado, protegida por monitores e a redoma de vidro do jornalismo.
“Mais detalhes sobre a reação das autoridades à presença do falecido, e suposto herói Jack Built no Rio de Janeiro. Como também a comoção das pessoas ao redor do país...”.
Maria se levanta correndo e desliga o televisor! Sinto daqui seu coração batendo com força. O meu? Está calmo, quase silencioso, como a moça do jornal falou.
- Você não está morto! Os jornais e revistas dizem que sim! Mas não está!
- Cida, será que realmente precisamos cuidar dos outros? – as trevas tomaram o quarto, não nos incomodamos com ela. Maria e eu. – Há quase oito anos eu... – engulo seco. – VISTO A PORRA DE UMA ROUPA PRETA! Uma merda! Um caralho de um colante preto! PRA QUÊ? É como me falaram! É ridículo! Infantil! Inútil! Combater o crime... Como eu posso reclamar se eu for morto? EU ESTOU MORTO! Em oito anos a melhor coisa que eu sei fazer é como derrubar um homem em combate. Sou uma máquina de matar... Só que nem isso eu consigo fazer... Não consigo matar a porra de um verme sem me sentir culpado! Jack Built está... morto.
Maria corre até mim, me abraça. Ambos solitários nessa cidade. Ambos no escuro.
*NOTA: Cena adptada do filme homônimo ao título desse capítulo.


1 Comments:
Ei Pedro!
Coloca mais textos, ja li todos hehe
beijo,
nat.
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