A Crônica do Terno Branco
O terno branco me incomoda. Fico muito visível. Devo confessar que o chapéu branco me deixa charmoso, escondo meus olhos com sua aba. Tento não desfilar enquanto ando, isso é muito anos cinqüenta para mim. A polícia me deu somente um nome... Annie. Filha de um milionário. Tem que ser. Para me chamarem com tanta urgência. Só me deram uma foto, a garota tem dezenove anos, loira dos cabelos dourados e pele rosa. A menina parece um anjo. Pura. Inocente. Foi seqüestrada. É tudo que preciso saber... Se o pai dela tem algum tipo de negócio ilegal, cuido disso depois. Ela está sozinha, com medo, temo pelo pior. Só me avisaram... “Não vá de uniforme, você precisa entrar naquele bar de luzes vermelhas, use esse disfarce”. Um terno branco! Tento amenizar o meu brilho natural com uma camisa azul... Não deu certo.Esse bar é um antro da escória de nossa sociedade. Falo de criminosos, viciados e putas. O lugar é grande, foi um bordel badalado no início do século, mesmo tendo a mesma clientela o lugar é cinza. Exala podridão e mete medo nos curiosos. A policia raramente vem aqui, quando aparecem é para pegar propina. Meus sapatos brilham sob a luz azul da cidade, estão bem engraxados e são desconfortáveis. Espero não ter que lutar.
Venho pela calçada molhada ao relento, algumas cabeças curiosas me acompanham. Ignoro-as e caminho com elegância. “Entre, descubra onde Annie está e saia!”. Foram categóricos. Eu não dou a mínima, só saio do lugar com a loirinha comigo. Abro a porta de madeira velha, o letreiro escarlate me cumprimenta. Que tipo de estabelecimento tem sua entrada em um beco, que parece ter saído de filmes noir? Ajeito o palito branco. Meu sapato brilhoso entra em minha frente.
O interior do bar ainda tem seu toque sinistro, mas não é cinza esfumaçado como seu exterior. A luz chega a incomodar meus olhos.
Outra coisa me incomoda. Ou esse terno branco é realmente oitentista demais, ou tenho um magnetismo incrível exalando. Todos no bar em silêncio, nenhuma música, nada, nem sequer um bêbado cantarolando... Quietos demais! Todos sem exceção reparam minha chegada, até aquela prostituta oriental sendo lambida pelo pescoço. A falta de som me deixa nervoso, mordo meu lábio inferior e analiso o ambiente. O balcão do bar relativamente movimentado, garrafas ao fundo e copos manchando a madeira, enquanto o barman luta contra o suar dos vidros. A jukebox solitária e sem utilidade complementa meu visual, estou no passado. Nostalgia, essa é a palavra. Desfilo dentre as mesas, em direção a jukebox, preciso de alguma música ou foi perder a cabeça. Por falar em cabeça, todas me acompanham em uma coreografia sinistra. Eu jogaria a moeda de um real de longe... Se pudesse.
A moeda tintila dando início a uma música velha. Ritmo dançante, agradável, tem seu charme admito. Sem perceber meus pés começam a seguir a melodia, os braços também. Dou um sorriso pelo canto da boca e parto para cima dos olhares curiosos. Hora de começar a... Entrevista.
O quê eu sei? Primeiro, o homem entrou pela janela de seu apartamento. Sei disso pela mancha de sangue deixada em seu carpete. Segundo, ela o viu. Coitadinha, devia estar apavorada. Tentou se esconder sob a mesa, ele percebeu e quase partiu a madeira em sua cabeça. Em seguida, Annie correu para o quarto e foi golpeada. Foi o seu fim. O dia negro era domingo, faz uma semana. A lua era crescente.
O seqüestrador deve ser forte, mesmo sendo mulher um homem sozinho não a dominaria tão facilmente. Annie você esta bem?
A cortesã oriental vem me dar seu cumprimento, oferece seus serviços – não duvido de sua competência – e afirma que o preço é bom. Dou corda, sorrio e jogo meu charme, levantando de leve o chapéu. Ela se oferece de maneira educada para mostrar o bar, andamos em coreografia, passo a passo, ao som da canção.
Suas mãos agarram nas minhas com vontade, e começamos a bailar. A escória a minha volta imita nossos movimentos, preciso ganhar espaço e confiança. Como se confiança fosse o nome do que quero... Como se isso existisse aqui.
Homens discutem atrás de mim. Ignoro. O som da pistola disparando acontece junto com a batida da música, olho para ver melhor o que aconteceu... O terno bege do cara estirado no chão ganha detalhes vermelhos. Esse não é meu trabalho. A dança não para. A briga continua, socos e chutes são a sonoplastia agora. A cortesã oriental de cintura fina, deixa de rebolar comigo e vai apartar a luta. Outra não menos bela, mas mais formosa em seus atributos me agarra, e passamos a rebolar junto.
Sem mais delongas, abandono-a e vou em direção às escadas. Seu rosto é triste, como se eu fosse o tesouro em meio a esse esgoto de apostadores, viciados e bêbados.
O segundo andar é ainda mais podre. Jogos de cartas, dados, sinuca são os meios mais eficientes de ganhar algum dinheiro. A fumaça dos cigarros e charutos toma o lugar. O cinza da noite agora domina o ambiente interno, respirar é uma arte. O cara de fuinha se apressa em não me deixar subir, pego seu braço e faço-o rodopiar duas vezes do ar. Preciso achar Annie. Um negro do tamanho de urso me olha furioso. Os outros a seu lado compartilham o mesmo sentimento, espero que não sujem meu terno branco. Corro até a mesa de sinuca. Pego uma bola. Acho que era a sete. Jogo como um exímio arremessador, acerto a cabeça do careca ao lado do grandalhão. Pego o giz próximo a caçapa, amasso-o em minhas mãos. Dois deles correm com os tacos na mão, abaixo antes que a madeira rache meu crânio. Passo a rasteira nos dois ao mesmo tempo, não vão dar mais trabalho. A pele negra do homem agora está púrpura, deve ser raiva. Ele parte o taco, como se um graveto fosse. Abro a palma da minha mão e assopro todo o giz em sua cara! O pó arde em seus olhos. Continuo minha jornada pela cozinha do inferno.
A luz azul da cidade ilumina os degraus, subo cautelosamente, meus pés ainda acompanham a batida dos anos oitenta. Ao fim da escada, uma mulher de beleza selvagem me agarra. A juntada chega a ser confortável, apesar de forte. Meu joelho agora roça a parte inferior de sua coxa macia. Agarro sua bunda, trago-a para perto. Ela arrepia com meu hálito de menta. Beijo seu pescoço, buscando o caminho para seu ouvido.
- Onde está Annie? – pergunto com a voz charmosa.
Escuto um tapa. Um homem, bem vestido até, se não fosse a cor salmão de sua camisa, começa a bater em uma das prostitutas. Não na minha frente garotão! Meus sapatos brilham, meu chute acerta o peito do homem, que alça vôo e cai até o primeiro andar.
- Você está bem? – pego a mulher nos braços.
Mais vozes e palavrões me amaldiçoam. Corro até elas e as calo com meus punhos. Um dos malditos tenta me acertar com um porrete, desvio e dou a ele um novo tipo de dor.
As putas vêm até mim, preocupadas. Tento acalmá-las, passo por isso quase sempre... Um brilho reflete nos olhos verdes da cortesã. O reflexo de uma lâmina. Agarro o metal do revólver dentro do palito, sem ao menos olhar para trás, aperto o gatilho. Tudo que escuto é um urro. Faço meu algoz desaparecer. Me lembro de Annie. Pego a foto e mostro para as mulheres.
Nenhuma soube me informar. Nenhuma quer falar!
Desço pela escada a minha frente, direto para o primeiro andar, onde pessoas ainda dançam, apesar de algumas já terem notado o corpo estranho em seu organismo pútrido.
Corro até o palco. Pego o microfone! Grito para chamar a atenção de todos. Ergo a foto de Annie! Quatro homens sentados na mesa ao centro parecem se incomodar, atravesso todo o salão, subo em sua mesa, jogo a foto na cara de um deles.
- ONDE ESTÁ ANNIE? – faço o máximo para parecer um monstro. Forço o gutural, como se um demônio fosse.
As luzes se apagam! A vidraça do teto estoura! Os cacos sibilam no ar, caindo como chuva. Somente o azul macabro da noite ilumina o bar. Não penso duas vezes. Faço o dente de um dos caras, estragar meu sapato engraxado. Parto para cima deles com tudo que tenho. São uns beberrões e não conseguem brigar direito. Quebro o braço de um deles tranquilamente, e o lanço de cabeça na jukebox. A música para. Teclas de piano soam quatro vezes. Notas solitárias aos gemidos na escuridão.
Uma mulher grita! Não! Uma garota! O grito é juvenil! Minha visão ainda não se acostumou às trevas, tento segui-lo pela audição. Sou obrigado a machucar mais alguns imbecis. Empurro o último corajoso, largo sua carcaça mole em cima de uma garrafa de gim. Outro grito de Annie!
- ANNIE VOCÊ ESTÁ BEM? – grito!
As luzes de acendem! Minhas pupilas retraem. O salão agora está mais vazio, e mais homens vêm em minha direção. Cinco! Eles avançam juntos, são espertos. Tenho espaço livre o suficiente, esquivo de todas suas investidas. Passo uma rasteira em um deles. Um soco quase arranca meu chapéu branco, isso me deixou nervoso. Uso os cotovelos para causa mais estrago. Golpeio três deles ao mesmo tempo, de forma tão rápida que nem ao menos conseguem acompanhar. Deslizo com meus sapatos brilhantes, o chão encerado ajuda. Escapo ileso de mais uns golpes. Acerto as bolas do gordo a minha frente, isso o imobilizará. Pulo em um giro, rodando meu pé e acerto a orelha do último deles.
Avisto Annie sendo levada para a saída do bar. Tento correr até ela, mas sou impedido por TODOS! Quando menos espero, me vejo batendo em cada ser vivo daquele lugar. Homem ou mulher. Todos que avançavam, armados ou não. Tinha que ser rápido! Causa o máximo de estrago, no menor tempo possível! Usava as penas e os braços com destreza. De algum modo o terno branco não atrapalhava meu bailar.
Consigo escapar dos milhares de braços, e chego perto de Annie. O homem que a segura tem os traços fortes, e arranca uma metralhadora de não sei onde! Desarmo-o me valendo de golpes certeiros e fortes! Ele sente cada um deles. Faço esforço para isso! A garota está amedrontada.
- Está tudo bem Annie. – tento tranqüilizá-la.
As janelas que permitem a entrada do azul noturno, revelam silhuetas de pessoas... Fortemente armadas! Chamarão reforços! Pego a metralhadora do homem caído aos meus pés, e miro para as janelas. Colo do dedo no gatilho e tento controlar os coices da arma. Os vidros se partem, a chuva brilhante agora virou uma tempestade! Annie se esconde atrás de mim. Quando a arma para de cuspir as balas, largo-a no chão e falo para Annie.
- Está tudo bem! – dou um pequeno sorriso. – Vamos embora.
Com a respiração ofegante, partimos juntos para o cinza indiferente da noite.
NOTA: Essa crônica é uma homenagem ao grande e único... Michael Jackson! Assistam o video Smooth Criminal, caso não tenham entendido a homenagem.


5 Comments:
que boniiito, Pepêe! adorei!
boniito mesmo zé!
boa homenagem =)
Pedro,
n sei se captei a essência de sua msg, porém, vejo essa crônica como se descrevesse a trajetória da vida de Michael Jackson. Essa trajetória a qual me refiro é a história de luta e superação que marcaram a vida de Jackson.
Do menino pobre nascido nos guetos americanos, oprimido pelo pai e irmãos ao Rei do Pop. Michael é um exemplo de superação contra toda discriminação sofrida, desde sua cor, até sua classe social.
Apesar da vida excêntrica e até mesmo louca para muitos jackson fez da música e da dança uma filosofia de vida, saindo da escuridão dos guetos ao mais alto ponto de luz da Brodway*.
Como em sua crônica, depois que ele apareceu, nunca mais passou desabercibido pela vida. Acho que ele estava sempre com seu terno branco...
Hoje o mundo chora a perda de um ícone da música pop mundial.
Homenagem mais q justa Zé, gostei de mais!!
PS.: Essa é apenas uma opinião pessoal. Não estou aqui para julgar se as atitudes de Michael eram certas ou não.
Gostei da homenagem zé!! michael p mim eh um gênio, até por ele bolar clipes tao bem feitos, com estorias e efeitos (coisas q nao eram comuns antes dele surgir), além de dançar mto e ele mesmo criar as letras, coreografias, etc. belo post!
Pultz! adorei isso:
"Agarro o metal do revólver dentro do palito, sem ao menos olhar para trás, aperto o gatilho. Tudo que escuto é um urro." (hahaha!! ele é o cara!)
*****
Mas,"este vídeo foi removido por violação de termos de uso" =/
Eu achei o seu texto genial, cara! Eu tbm me amarrava no Jackson. O cara era muito inteligente e tinha uma criatividade incrível. Acho que vai demorar mais ou menos uns duzentos anos pra aparecer alguém assim...
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