Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIX: Guerra Contra O Crime
10:21 AM
O dia está lindo! Poucas nuvens e um sol amarelo iluminando esse mundo sujo e podre. Como estão felizes. Afinal, é sexta. O dia do baile funk se aproxima, estão todos estonteantes e confiantes. Apoio o rifle em meu ombro com cuidado, o vento acaricia meu rosto com carinho. O calor não chega a me incomodar. Não de colante. Armo o rifle. Todos eles bebem felizes, cheiram e fumam suas drogas.
- Eu sou o marinheiro da perna de... – cantarolo sozinho em cima do telhado, como um felino no cio. – Pau!
A bala corta o ar com ferocidade. Ultrapassa a velocidade do som, com certeza. Seu rugido é abafado pelo silenciador, mas o som das chamas que lançam o Stillo prateado pelo ar não podem se calar. Seria fácil mirar na cabeça do Joãozinho. Seu cadáver ilustraria muitos jornais pelo Brasil. Pena que seria só mais um verme morto. Não, não, meu amigo. É hora de incutir terror! Minha mira foi perfeita, o carro explode sem pudor. Uma puta que adora gritar! Pessoas correm e gritam. Meu alvo mija nas calças de tanto medo, assim como seus comparsas. Todos correndo imitando baratas medrosas.
Tenho três dias para prender os chefes do tráfico. Joãozinho e seu irmão, o maldito que me espancou dias atrás, Bombinha, como também Antonio Pereira. No meio do caminho o plano é tentar ferir o máximo de criminosos possíveis. Por três dias a Rocinha é minha! Não tenho outra alternativa, se a operação do General Costa Machado for mesmo concluída, não vai sobrar direito sobre direito do povo. Casas serão reviradas. Pessoas ficarão na linha de tiro dessa guerra. Isso vai virar um Estado de Sítio, e não vai ser nada bom. Preciso entregar esses malditos... Espero que seja o suficiente para saciar a fome do General.
O dia está lindo! Poucas nuvens e um sol amarelo iluminando esse mundo sujo e podre. Como estão felizes. Afinal, é sexta. O dia do baile funk se aproxima, estão todos estonteantes e confiantes. Apoio o rifle em meu ombro com cuidado, o vento acaricia meu rosto com carinho. O calor não chega a me incomodar. Não de colante. Armo o rifle. Todos eles bebem felizes, cheiram e fumam suas drogas.
- Eu sou o marinheiro da perna de... – cantarolo sozinho em cima do telhado, como um felino no cio. – Pau!
A bala corta o ar com ferocidade. Ultrapassa a velocidade do som, com certeza. Seu rugido é abafado pelo silenciador, mas o som das chamas que lançam o Stillo prateado pelo ar não podem se calar. Seria fácil mirar na cabeça do Joãozinho. Seu cadáver ilustraria muitos jornais pelo Brasil. Pena que seria só mais um verme morto. Não, não, meu amigo. É hora de incutir terror! Minha mira foi perfeita, o carro explode sem pudor. Uma puta que adora gritar! Pessoas correm e gritam. Meu alvo mija nas calças de tanto medo, assim como seus comparsas. Todos correndo imitando baratas medrosas.
Tenho três dias para prender os chefes do tráfico. Joãozinho e seu irmão, o maldito que me espancou dias atrás, Bombinha, como também Antonio Pereira. No meio do caminho o plano é tentar ferir o máximo de criminosos possíveis. Por três dias a Rocinha é minha! Não tenho outra alternativa, se a operação do General Costa Machado for mesmo concluída, não vai sobrar direito sobre direito do povo. Casas serão reviradas. Pessoas ficarão na linha de tiro dessa guerra. Isso vai virar um Estado de Sítio, e não vai ser nada bom. Preciso entregar esses malditos... Espero que seja o suficiente para saciar a fome do General.
Desmonto o rifle em poucos segundos. Guardo-o na mochila. Coloco o boné do falecido marido de Maria, pulo do telhado, e me misturo à multidão em pânico.
Envolver Maria Aparecida nisso é uma má idéia. Ontologicamente uma péssima idéia. Para não dizer covarde. Embora ela tenha gostado, não posso medir as conseqüências. É claro que Maria não vai estar na linha de frente, mas preciso de ajuda logística. Dei alguns cartões de crédito coorporativos, e sua missão é trazer dois computadores até o meio dia, com placa de vídeo e todas as frescuras necessárias para as máquinas serem eficientes. Ir a qualquer loja de operadora de celulares, e trazer internet móvel mais rápida que conseguir. Também dois aparelhos e chips novos. E por fim, juntar o máximo de informação possível da operação divulgada ontem pelo General, em jornais, revistas, e até na televisão.
Preciso ser rápido e eficiente como nunca. Estudar em um dia o comportamento dos traficantes, e neutralizar o máximo possível, não vai ser fácil. Eles também devem ter visto o discurso ontem. Dou graças por esses malditos serem previsíveis. De duas uma, ou eles correrão como ratos, ou se armarão para a guerra. Como estão excessivamente confiantes por terem me matado, seria uma vergonha cancelar o baile.
Me embrenho em becos e morros, não gosto de andar pelo solo. Esse emaranhado de casas parece um labirinto. Um campo de futebol surge a minha frente. Não há grama, natural ou sintética, apenas a poeira e a terra sendo levantadas, em meio aos gritos de crianças felizes. Do outro lado do campo um adolescente, magro e com olhar perverso, suas mãos frágeis seguram uma automática. Os óculos escuros apoiados em sua cabeça, tentam dar um ar de adulto a sua imagem. Não conseguem. Todos a sua volta o ignoram, como se fosse uma estatua de algum poeta morto, ou uma fonte. Seu celular toca. O jovem sai correndo. Chego a sorrir. Corro atrás, tentando ser o mais discreto possível.
Sigo-o até um comércio de registro duvidoso. Um açougue. O fedor da carne se alastra pela rua. O jovem entra. Noto as várias motocicletas á porta. Sessão de terapia. Olho para o relógio. Penso em Maria. A coitada saiu cedo para buscar minhas encomendas, já é quase hora do almoço. Devo ou não me permitir? Foda-se. Isso vai ser interessante.
A aparência é ordinária, comum. Carnes penduradas ainda sangrando, lingüiças e frangos sem cor enfeitam o freezer. O triturador geme ao moer a carne. O homem de branco e barba por fazer me olha curioso.
- Vai querer maminha ou picanha? – pergunta com uma voz repugnante, assuando o nariz logo depois.
Ignoro e tento olhar o que acontece por detrás da porta de metal.
- Mermão! Vai querer o quê? – o homem insiste, agora apontando o facão.
Sorrio. Perdão Maria, mas vou me atrasar um pouco.
Envolver Maria Aparecida nisso é uma má idéia. Ontologicamente uma péssima idéia. Para não dizer covarde. Embora ela tenha gostado, não posso medir as conseqüências. É claro que Maria não vai estar na linha de frente, mas preciso de ajuda logística. Dei alguns cartões de crédito coorporativos, e sua missão é trazer dois computadores até o meio dia, com placa de vídeo e todas as frescuras necessárias para as máquinas serem eficientes. Ir a qualquer loja de operadora de celulares, e trazer internet móvel mais rápida que conseguir. Também dois aparelhos e chips novos. E por fim, juntar o máximo de informação possível da operação divulgada ontem pelo General, em jornais, revistas, e até na televisão.
Preciso ser rápido e eficiente como nunca. Estudar em um dia o comportamento dos traficantes, e neutralizar o máximo possível, não vai ser fácil. Eles também devem ter visto o discurso ontem. Dou graças por esses malditos serem previsíveis. De duas uma, ou eles correrão como ratos, ou se armarão para a guerra. Como estão excessivamente confiantes por terem me matado, seria uma vergonha cancelar o baile.
Me embrenho em becos e morros, não gosto de andar pelo solo. Esse emaranhado de casas parece um labirinto. Um campo de futebol surge a minha frente. Não há grama, natural ou sintética, apenas a poeira e a terra sendo levantadas, em meio aos gritos de crianças felizes. Do outro lado do campo um adolescente, magro e com olhar perverso, suas mãos frágeis seguram uma automática. Os óculos escuros apoiados em sua cabeça, tentam dar um ar de adulto a sua imagem. Não conseguem. Todos a sua volta o ignoram, como se fosse uma estatua de algum poeta morto, ou uma fonte. Seu celular toca. O jovem sai correndo. Chego a sorrir. Corro atrás, tentando ser o mais discreto possível.
Sigo-o até um comércio de registro duvidoso. Um açougue. O fedor da carne se alastra pela rua. O jovem entra. Noto as várias motocicletas á porta. Sessão de terapia. Olho para o relógio. Penso em Maria. A coitada saiu cedo para buscar minhas encomendas, já é quase hora do almoço. Devo ou não me permitir? Foda-se. Isso vai ser interessante.
A aparência é ordinária, comum. Carnes penduradas ainda sangrando, lingüiças e frangos sem cor enfeitam o freezer. O triturador geme ao moer a carne. O homem de branco e barba por fazer me olha curioso.
- Vai querer maminha ou picanha? – pergunta com uma voz repugnante, assuando o nariz logo depois.
Ignoro e tento olhar o que acontece por detrás da porta de metal.
- Mermão! Vai querer o quê? – o homem insiste, agora apontando o facão.
Sorrio. Perdão Maria, mas vou me atrasar um pouco.
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
12:37 PM
- Quando o senhor falou em tocar o terror, não pensei que levaria ao pé da letra! – repreende Maria.
- Do que você está falando? – ironizo, enquanto deixo a mochila no sofá, indo direto para as caixas ainda embaladas. – Muito bem soldado. Missão cumprida. – abro as caixas e começo a instalar os computadores. – E a internet?
- Olha aqui super-herói, acabou de passar no jornal! Carro explodindo, uma refinaria de cocaína totalmente destruída e treze homens presos. – sinto uma pitada de diversão em suas palavras.
- Você fez almoço?
- Espere aí... Agora sou cozinheira também?
- Isso! Precisamos ficar fortinhos... – ligo tudo onde deve ser ligado, cabo por cabo. – E você vai ter um curso intensivo de vigilância monótona via satélite.
A comida de Maria é deliciosa. Tempera o feijão como se pintasse um quadro de arte, com cuidado e na medida certa. Conversamos bastante. Ambos diferentes, como se voltássemos a viver, deixando de lado aquele sentimento medíocre e depressivo. Morte acaba fazendo isso. Nos ronda silenciosa, e ataca quando menos espera. Sempre nos lembrando da finitude do ser humano. Ser limitado e frágil. Maria fica linda com uma roupa casual. Qualquer tipo de vestimenta cai bem em seu corpo brasileiro, suas curvas são dignas de uma deusa indígena. Seu sorriso é um imã ao sorriso alheio. Gosto de vê-la feliz.
- Como você convenceu a doutora de me dar folga hoje? – não contei de meu papinho ontem à tarde com Janete.
- Liguei e falei que você estava doente.
- Só isso?
Faço sim com a cabeça.
- Temos que montar nossa mentirinha. – afinal, não sabemos o quão fofoqueiros são seus vizinhos.
- Pra quê? – ela questiona, enquanto se levanta e começa a lavar as louças.
- Uma viúva, do nada, agora tem um homem em sua casa. – levanto os braços entojando a voz.
- Não vejo nenhum problema. Nem tenho que dar satisfação da minha vida... – Maria se irritou um pouco.
- Eu vejo. Porque pessoas falam! E também porque pessoas escutam. E certas pessoas não podem escutar que um estranho... – enfatizo. – Milagrosamente apareceu na casa de uma viúva solitária.
Maria agora está séria, com os olhos vidrados na água que cai da torneira.
- Você é meu primo distante. Ponto final. Vou espalhar a notícia entre os vizinhos. – Maria é seca, direta.
- Vamos para o computador. Chega de papo.
- Só uma coisa... – ela me interrompe.
- Pode falar.
- Você não quer acabar com o crime?
- Quero.
- Então, qual o problema dessa operação do General? Vários soldados entraram aqui, vai ser complicado eu sei, mas limparão a Rocinha em menos de uma semana. É o que você quer.
Paro um minuto, reflito... É complicado.
- Maria... – ainda não encontro palavras. – Quando está nesse mundo, quando você sai de casa e decide fazer da sua vida... Quando tentamos fazer o certo! Ele substancialmente tem que ser o certo. O tráfico é só uma ponta de todo esse gênero crime. Não que eu esteja diminuindo... É maléfico, uma chaga...
- Você não está chegando a lugar nenhum...
- Limpar a sujeira não adiantará de nada. A não ser que aja uma melhor estruturação e projeção a longo prazo. O que o General fez foi aproveitar a espetacularização feita com minha morte, e transformou isso em uma tragédia, conquistando a opinião pública. Agora ele tem o aval da sociedade para suspender direitos fundamentais dos cidadãos daqui da Rocinha. Que vão ficar no meio da troca de tiros, e serão os únicos sofredores com tudo isso. O tráfico continuará existindo, pois conta com apoio de conglomerados mafiosos internacionais e da tolerância da sociedade, em enxergar o básico sobre qualquer mercado... Ele só sobrevive com o consumo. Temos sorte do crime aqui não ser organizado...
- Então o que você faz também é inútil... Já que é uma luta perdida. – Maria é incisiva, ela compreende o dilema.
- É o que quero fazer todas as noites.
- Quando o senhor falou em tocar o terror, não pensei que levaria ao pé da letra! – repreende Maria.
- Do que você está falando? – ironizo, enquanto deixo a mochila no sofá, indo direto para as caixas ainda embaladas. – Muito bem soldado. Missão cumprida. – abro as caixas e começo a instalar os computadores. – E a internet?
- Olha aqui super-herói, acabou de passar no jornal! Carro explodindo, uma refinaria de cocaína totalmente destruída e treze homens presos. – sinto uma pitada de diversão em suas palavras.
- Você fez almoço?
- Espere aí... Agora sou cozinheira também?
- Isso! Precisamos ficar fortinhos... – ligo tudo onde deve ser ligado, cabo por cabo. – E você vai ter um curso intensivo de vigilância monótona via satélite.
A comida de Maria é deliciosa. Tempera o feijão como se pintasse um quadro de arte, com cuidado e na medida certa. Conversamos bastante. Ambos diferentes, como se voltássemos a viver, deixando de lado aquele sentimento medíocre e depressivo. Morte acaba fazendo isso. Nos ronda silenciosa, e ataca quando menos espera. Sempre nos lembrando da finitude do ser humano. Ser limitado e frágil. Maria fica linda com uma roupa casual. Qualquer tipo de vestimenta cai bem em seu corpo brasileiro, suas curvas são dignas de uma deusa indígena. Seu sorriso é um imã ao sorriso alheio. Gosto de vê-la feliz.
- Como você convenceu a doutora de me dar folga hoje? – não contei de meu papinho ontem à tarde com Janete.
- Liguei e falei que você estava doente.
- Só isso?
Faço sim com a cabeça.
- Temos que montar nossa mentirinha. – afinal, não sabemos o quão fofoqueiros são seus vizinhos.
- Pra quê? – ela questiona, enquanto se levanta e começa a lavar as louças.
- Uma viúva, do nada, agora tem um homem em sua casa. – levanto os braços entojando a voz.
- Não vejo nenhum problema. Nem tenho que dar satisfação da minha vida... – Maria se irritou um pouco.
- Eu vejo. Porque pessoas falam! E também porque pessoas escutam. E certas pessoas não podem escutar que um estranho... – enfatizo. – Milagrosamente apareceu na casa de uma viúva solitária.
Maria agora está séria, com os olhos vidrados na água que cai da torneira.
- Você é meu primo distante. Ponto final. Vou espalhar a notícia entre os vizinhos. – Maria é seca, direta.
- Vamos para o computador. Chega de papo.
- Só uma coisa... – ela me interrompe.
- Pode falar.
- Você não quer acabar com o crime?
- Quero.
- Então, qual o problema dessa operação do General? Vários soldados entraram aqui, vai ser complicado eu sei, mas limparão a Rocinha em menos de uma semana. É o que você quer.
Paro um minuto, reflito... É complicado.
- Maria... – ainda não encontro palavras. – Quando está nesse mundo, quando você sai de casa e decide fazer da sua vida... Quando tentamos fazer o certo! Ele substancialmente tem que ser o certo. O tráfico é só uma ponta de todo esse gênero crime. Não que eu esteja diminuindo... É maléfico, uma chaga...
- Você não está chegando a lugar nenhum...
- Limpar a sujeira não adiantará de nada. A não ser que aja uma melhor estruturação e projeção a longo prazo. O que o General fez foi aproveitar a espetacularização feita com minha morte, e transformou isso em uma tragédia, conquistando a opinião pública. Agora ele tem o aval da sociedade para suspender direitos fundamentais dos cidadãos daqui da Rocinha. Que vão ficar no meio da troca de tiros, e serão os únicos sofredores com tudo isso. O tráfico continuará existindo, pois conta com apoio de conglomerados mafiosos internacionais e da tolerância da sociedade, em enxergar o básico sobre qualquer mercado... Ele só sobrevive com o consumo. Temos sorte do crime aqui não ser organizado...
- Então o que você faz também é inútil... Já que é uma luta perdida. – Maria é incisiva, ela compreende o dilema.
- É o que quero fazer todas as noites.
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
15:00 PM
Maria é uma mulher inteligente. Compreendeu que tenho um parafuso solto, de alguma forma isso a agrada. Me conectei por um link pirata aos satélites americanos da CIA, não tive tempo de explicar como isso funciona. Na verdade nem eu compreendo bem. Cortesia de um amigo meu. Em sua tentativa de elucidar o procedimento, o engraçadinho disse, “é como o Google Earth, só que ao vivo, e com um zoom descente”. Consegui localizar meus três alvos, e esse brinquedinho computadorizado tem a opção de marcá-los, fazendo o próprio programa segui-los. Seus rastros ficam marcados com uma linha levemente amarelada, à medida que o trajeto, a rotina se repete, essa linha rotineira fica mais forte, assim posso traçar... A rotina dos meus alvos. Esse é o papel de Maria Aparecida, ficar em frente o computador e me informar cada detalhe.
Segundo ela, daqui duas semanas o exército ocupará a Rocinha, por sessenta dias, podendo ser prorrogados por mais sessenta se assim decidirem. Serão quinhentos soldados, contando com apoio aéreo e terrestre de carros blindados, caminhões e helicópteros.
Já rodei todo o morro e nada relevante. O ataque da manhã surtiu algum efeito, apenas a policia finge que ronda o local, e o helicóptero da imprensa capta tudo. Tenho um plano para a noite... Acho que Maria merece uma distração. Disco para o único número salvo no celular.
- Senhorita Aparecida?
- Pois não senhor herói. – ela gargalha. – Os três estão quietos em casa. Nenhum ousou sair.
- Digite automático no campo a sua direita.
- Pra quê?
- Mocinha curiosa você hein? – não dou tempo para a resposta e continuo. – Vamos para praia. O sol está me queimando aqui! Vamos nos divertir.
- Pensei que...
- Pensou errado! Me encontre no ponto de ônibus.
Desligo para não ouvir mais protestos.
Maria é uma mulher inteligente. Compreendeu que tenho um parafuso solto, de alguma forma isso a agrada. Me conectei por um link pirata aos satélites americanos da CIA, não tive tempo de explicar como isso funciona. Na verdade nem eu compreendo bem. Cortesia de um amigo meu. Em sua tentativa de elucidar o procedimento, o engraçadinho disse, “é como o Google Earth, só que ao vivo, e com um zoom descente”. Consegui localizar meus três alvos, e esse brinquedinho computadorizado tem a opção de marcá-los, fazendo o próprio programa segui-los. Seus rastros ficam marcados com uma linha levemente amarelada, à medida que o trajeto, a rotina se repete, essa linha rotineira fica mais forte, assim posso traçar... A rotina dos meus alvos. Esse é o papel de Maria Aparecida, ficar em frente o computador e me informar cada detalhe.
Segundo ela, daqui duas semanas o exército ocupará a Rocinha, por sessenta dias, podendo ser prorrogados por mais sessenta se assim decidirem. Serão quinhentos soldados, contando com apoio aéreo e terrestre de carros blindados, caminhões e helicópteros.
Já rodei todo o morro e nada relevante. O ataque da manhã surtiu algum efeito, apenas a policia finge que ronda o local, e o helicóptero da imprensa capta tudo. Tenho um plano para a noite... Acho que Maria merece uma distração. Disco para o único número salvo no celular.
- Senhorita Aparecida?
- Pois não senhor herói. – ela gargalha. – Os três estão quietos em casa. Nenhum ousou sair.
- Digite automático no campo a sua direita.
- Pra quê?
- Mocinha curiosa você hein? – não dou tempo para a resposta e continuo. – Vamos para praia. O sol está me queimando aqui! Vamos nos divertir.
- Pensei que...
- Pensou errado! Me encontre no ponto de ônibus.
Desligo para não ouvir mais protestos.
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
16:20 PM
Durante toda a pequena viagem até Copacabana, tive que ouvir protestos. Meus argumentos sendo jogados contra mim. Agora que percebi, três dias serão mais do que suficientes! Vou trabalhar durante a noite. Seus lábios se mechem, meu cérebro se desconecta como se desativasse minha audição. Mulheres gostam de falar. Interrompo seu discurso.
- Vamos dançar amanhã à noite. – sorrio e olho para o mar azul e magnífico.
- Que? – ela se surpreende.
- O João...
- O irmão daquele monstro musculoso...
- Isso. É dono de uma boate, vamos fazer uma visitinha.
Maria não comenta a idéia. Nem precisa, quanto menos souber melhor. Vou pegá-los onde menos esperam. Tenho o elemento surpresa, presumidamente morto do meu lado. Hoje vou assistir uma aula de Direito.
Saltamos. Em todos esses dias no Rio, somente hoje me dou ao luxo de ver o mar. De observá-lo. Olho para o alto e avisto o Cristo. Nos vigiando, como um protetor silencioso e frio... Feito de cimento e ferro. Toco a areia com meus pés, o calor é confortável. Esse momento demora mais do que deveria, deixando Maria preocupada.
- No que está pensando? – pergunta.
Quando me viro meu queixo cai. Gravidade! Libido! Seja o que for. É inegável que Maria é maravilhosa. Com seu biquíni discreto e um pouco velho, como se jamais tivesse usado, Maria Aparecida é ainda mais bela. Suas curvas são perfeitas, modeladas por um talentoso escultor. Nenhum defeito, nenhum detalhe. Qualquer estria ou celulite que exista é insignificante. Ela repara o meu espanto, ruboriza. Tiro a blusa, deixando os raios solares atingirem meu corpo branco demais. De alguma forma ela também se espanta. Tiro o curativo do abdômen com cuidado, quase curado. Um pouco de água do mar fará bem.
- Vamos? – convido para entrar no mar.
- Não posso. – seu rosto ruboriza mais uma vez.
- Por... – me calo. – Entendi.
- Prefiro tomar sol. – Maria sorri, mostrando o sorriso perfeito.
Alongo todos meus músculos. Estico os braços em busca de liberdade. Estalo a coluna. Caio na areia, e faço algumas flexões para aquecer. Os homens ao redor babam no corpo moreno de Maria, rio comigo mesmo. Em um pulo me levanto, e corro em direção ao azul infinito. Me sinto um moleque. Uma criança que vê pela primeira vez a sua insignificância perante a natureza. No caminho meus olhos se perdem em uma atriz mais ou menos famosa. Continuo e deixo o mar me banhar. O ferimento arde. Ignoro. Mergulho na água salgada. Deixo as ondas me acertarem. Me viro para a areia e aceno como um bobalhão para Maria, que me devolve outro daqueles sorrisos cativantes.
Com a água em minha cintura, agora contemplo o Rio de Janeiro. Sua beleza, sua maravilha. Pessoas tentam sobreviver aqui, chegam a ignorar a podridão. Às vezes eu também consigo... Não enxergar. São momentos gostosos, fazem valer a pena viver.
- Augusto? – uma voz familiar me arranca de meus pensamentos.
Angélica! O coração não se sintoniza com o resto do corpo, chega a bater tão forte, parecendo que pularia de meu peito a qualquer momento. Disfarço a surpresa, entoando qualquer outra reação.
- Angélica, como está? – por uma coincidência cruel, estamos a sós nessa pequena parte do Atlântico. Se não estamos, sinto como se estivéssemos.
Um tapa acerta meu rosto. Como resposta instintiva meu corpo se prepara para o ataque. Respiro fundo e seguro a reação. Meu rosto ainda arde quando sou bombardeado pelas palavras de Angélica.
- VOCÊ ESTAVA CERTO! Ele ia estuprá-la! O desgraçado admitiu para todos em uma mesa de bar. – sua voz é aguda, seu rosto meigo angelical sofre com algo que não entendo. – Ele ria Augusto! Ele ria, enquanto se vangloriava que estava prestes a comer minha amiga. E todos riam juntos! – lágrimas escorrem de seu rosto se misturando com a água do mar. – E você... – seus olhos claros atingem os meus, minhas pernas chegam a tremer. – VOCÊ TINHA QUE MORRER! – como? Me pergunto, enquanto mais uma vez meu queixo cai. – Acha que não ia perceber? – seu dedo agora está próximo do meu nariz. – UM CARA VINDO DE FORA, todo bonito, corpo sarado, e espancando drogados em uma festa. Seja lá qual for sua identidade, ESCOLHA UMA MÁSCARA MELHOR!
- Angélica... – meus braços buscam seu corpo trêmulo.
- NÃO ME TOCA! – recuo. – Eu chorei por você. Como se você fosse grande coisa para mim... – sua expressão agora é cínica. – Você só me comeu em uma porra de um dia! SÓ ISSO! E eu sofri por alguém que está se divertindo como um IDIOTA!
Seu discurso se encerra. Suas lágrimas também. Queria concordar, contar tudo. Não posso.
- Não sou quem você pensa que é. – sou frio.
- Como não? – Angélica esbraveja.
- Você fumou demais hoje. Vá para casa.
Angélica arma outro tapa, agarro seu braço antes de acertar meu rosto. Ficamos ali, em meio às ondas, nos digladiando com o olhar. Como ela é linda. E frágil. Tão diferente de Maria. Largo seu braço, e sem dar nenhuma palavra, vou em direção à areia. Maria vem correndo em minha direção.
- O que aconteceu?
- Nada.
- Quem era ela?
- Ninguém.
- Não vai me responder? O quê aconteceu?
- Vamos embora.
- Mal chegamos. – de alguma forma Maria protesta.
- Pode ficar se quiser. Eu estou indo embora.
Um babaca. Um ignorante. Nojento. Sujo! Grosso. Pego as roupas sujas de areia e parto. Não sei para onde, apenas ando, com a vontade de matar alguém.
Durante toda a pequena viagem até Copacabana, tive que ouvir protestos. Meus argumentos sendo jogados contra mim. Agora que percebi, três dias serão mais do que suficientes! Vou trabalhar durante a noite. Seus lábios se mechem, meu cérebro se desconecta como se desativasse minha audição. Mulheres gostam de falar. Interrompo seu discurso.
- Vamos dançar amanhã à noite. – sorrio e olho para o mar azul e magnífico.
- Que? – ela se surpreende.
- O João...
- O irmão daquele monstro musculoso...
- Isso. É dono de uma boate, vamos fazer uma visitinha.
Maria não comenta a idéia. Nem precisa, quanto menos souber melhor. Vou pegá-los onde menos esperam. Tenho o elemento surpresa, presumidamente morto do meu lado. Hoje vou assistir uma aula de Direito.
Saltamos. Em todos esses dias no Rio, somente hoje me dou ao luxo de ver o mar. De observá-lo. Olho para o alto e avisto o Cristo. Nos vigiando, como um protetor silencioso e frio... Feito de cimento e ferro. Toco a areia com meus pés, o calor é confortável. Esse momento demora mais do que deveria, deixando Maria preocupada.
- No que está pensando? – pergunta.
Quando me viro meu queixo cai. Gravidade! Libido! Seja o que for. É inegável que Maria é maravilhosa. Com seu biquíni discreto e um pouco velho, como se jamais tivesse usado, Maria Aparecida é ainda mais bela. Suas curvas são perfeitas, modeladas por um talentoso escultor. Nenhum defeito, nenhum detalhe. Qualquer estria ou celulite que exista é insignificante. Ela repara o meu espanto, ruboriza. Tiro a blusa, deixando os raios solares atingirem meu corpo branco demais. De alguma forma ela também se espanta. Tiro o curativo do abdômen com cuidado, quase curado. Um pouco de água do mar fará bem.
- Vamos? – convido para entrar no mar.
- Não posso. – seu rosto ruboriza mais uma vez.
- Por... – me calo. – Entendi.
- Prefiro tomar sol. – Maria sorri, mostrando o sorriso perfeito.
Alongo todos meus músculos. Estico os braços em busca de liberdade. Estalo a coluna. Caio na areia, e faço algumas flexões para aquecer. Os homens ao redor babam no corpo moreno de Maria, rio comigo mesmo. Em um pulo me levanto, e corro em direção ao azul infinito. Me sinto um moleque. Uma criança que vê pela primeira vez a sua insignificância perante a natureza. No caminho meus olhos se perdem em uma atriz mais ou menos famosa. Continuo e deixo o mar me banhar. O ferimento arde. Ignoro. Mergulho na água salgada. Deixo as ondas me acertarem. Me viro para a areia e aceno como um bobalhão para Maria, que me devolve outro daqueles sorrisos cativantes.
Com a água em minha cintura, agora contemplo o Rio de Janeiro. Sua beleza, sua maravilha. Pessoas tentam sobreviver aqui, chegam a ignorar a podridão. Às vezes eu também consigo... Não enxergar. São momentos gostosos, fazem valer a pena viver.
- Augusto? – uma voz familiar me arranca de meus pensamentos.
Angélica! O coração não se sintoniza com o resto do corpo, chega a bater tão forte, parecendo que pularia de meu peito a qualquer momento. Disfarço a surpresa, entoando qualquer outra reação.
- Angélica, como está? – por uma coincidência cruel, estamos a sós nessa pequena parte do Atlântico. Se não estamos, sinto como se estivéssemos.
Um tapa acerta meu rosto. Como resposta instintiva meu corpo se prepara para o ataque. Respiro fundo e seguro a reação. Meu rosto ainda arde quando sou bombardeado pelas palavras de Angélica.
- VOCÊ ESTAVA CERTO! Ele ia estuprá-la! O desgraçado admitiu para todos em uma mesa de bar. – sua voz é aguda, seu rosto meigo angelical sofre com algo que não entendo. – Ele ria Augusto! Ele ria, enquanto se vangloriava que estava prestes a comer minha amiga. E todos riam juntos! – lágrimas escorrem de seu rosto se misturando com a água do mar. – E você... – seus olhos claros atingem os meus, minhas pernas chegam a tremer. – VOCÊ TINHA QUE MORRER! – como? Me pergunto, enquanto mais uma vez meu queixo cai. – Acha que não ia perceber? – seu dedo agora está próximo do meu nariz. – UM CARA VINDO DE FORA, todo bonito, corpo sarado, e espancando drogados em uma festa. Seja lá qual for sua identidade, ESCOLHA UMA MÁSCARA MELHOR!
- Angélica... – meus braços buscam seu corpo trêmulo.
- NÃO ME TOCA! – recuo. – Eu chorei por você. Como se você fosse grande coisa para mim... – sua expressão agora é cínica. – Você só me comeu em uma porra de um dia! SÓ ISSO! E eu sofri por alguém que está se divertindo como um IDIOTA!
Seu discurso se encerra. Suas lágrimas também. Queria concordar, contar tudo. Não posso.
- Não sou quem você pensa que é. – sou frio.
- Como não? – Angélica esbraveja.
- Você fumou demais hoje. Vá para casa.
Angélica arma outro tapa, agarro seu braço antes de acertar meu rosto. Ficamos ali, em meio às ondas, nos digladiando com o olhar. Como ela é linda. E frágil. Tão diferente de Maria. Largo seu braço, e sem dar nenhuma palavra, vou em direção à areia. Maria vem correndo em minha direção.
- O que aconteceu?
- Nada.
- Quem era ela?
- Ninguém.
- Não vai me responder? O quê aconteceu?
- Vamos embora.
- Mal chegamos. – de alguma forma Maria protesta.
- Pode ficar se quiser. Eu estou indo embora.
Um babaca. Um ignorante. Nojento. Sujo! Grosso. Pego as roupas sujas de areia e parto. Não sei para onde, apenas ando, com a vontade de matar alguém.
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
19:35 PM
Mais cedo lembro de Maria me perguntar sobre o uniforme. Disse que sem a máscara ele não vale de nada. Arrumei uma toca vagabunda para esconder parte de meu rosto, não é muito eficiente, mas servirá.
A Universidade está movimentada. Jovens em passos ensaiados vão de sala em sala, buscando um futuro decente. Me informo com o porteiro, e vou em direção a Faculdade de Ciências Humanas. Sou uma presença estranha, os demais universitários notam isso e cochicham entre si. Meu primeiro dia na escolinha. A segurança é débil. Meros enfeites. Adentro no prédio construído no século passado, com uma arquitetura dos anos quarenta se não me engano. Pelo corredor um professor se vangloria de seu doutarado, sobre algo claramente desinteressante. Papos sobre leis e provas permeiam o corredor. De porta em porta, busco pela pequena janela algum rosto conhecido. Na quarta tentativa eu avisto...
Antônio Pereira. Ex-policial militar. Corrupto. Traficante. Cafetão. Minha presa. Minhas mãos agarram a toca com vontade, puxando para baixo, ocultando meu rosto. Ergo minha perda, e com um só golpe ponho a baixo a porta da sala de aula! Interrompo algo sobre Teoria Geral dos Contratos. Todos se assustam. Principalmente, uma loira que grita histericamente. Caminho até a carteira de Toninho, que assim como os outros alunos não entendem o que está acontecendo. Ninguém ousa me parar. Agarro o verme pelo colarinho! Como um brinquedo, levanto-o e o lanço em cima das carteiras. Chego a derrubar outros estudantes. Eles superam. Vejo o temor em sua face. Isso me anima. Chuto tudo que encontro em minha frente. Mochilas, carteiras, bolsas. Tudo que me separa do meu alvo.
- Quê... Porra! – um palavrão, estava sentindo falta da boca suja desses filhos da puta.
Toninho é gordo, como qualquer outro homem de quarenta anos. Seu rosto é enrugado, e eu faço questão de enrugá-lo ainda mais com um soco! Pego-o pelo cabelo e bato suas costa na parede! Protestos contra minha violência ecoam pela sala. Ignoro. Antonio tenta reagir, inutilmente. Cada tentativa é devolvida com uma pancada mais forte. Nenhuma palavra sai da minha boca. Ele entende o que está acontecendo.
- Agente pode conversar... – soco sua nuca, o criminoso entende a mensagem.
Arrasto-o como um troféu por toda a Universidade. Pessoas correm para saciar sua curiosidade. Toninho pede por ajuda. Ninguém ousa. Muito menos os seguranças. Caminhamos até seu carro. Uma passeata, uma verdadeira platéia nos segue em direção ao estacionamento. Chuto o saco de merda, fazendo-o catar cavaco até bater com a cabeça no farolete de seu Honda.
- O quê... – não o deixo terminar e acerto mais uma vez seu rosto.
Vasculho seus bolsos, suas mãos tentam impedir as minhas. Quebro seus dedos. Todos eles. O gordo grita! Encontro à chave do carro. Abro o porta malas, e lá está... Sacos cheios de comprimidos e cartelinhas de sintéticos. Pego um desses sacos, esfrego na cara de Antonio.
- Sabia que isso é especialidade da máfia turca? – quase rosno.
Estapeio seu rosto com as drogas, até o saco estourar e cartelas e comprimidos tomarem o chão. Parece que o homem percebe quem sou... Isso me irrita e acerto seu rosto com mais força. Ele chora. Mal escuto os protestos e esbravejos em minhas costas.
O vermelho da polícia reflete nas árvores, e a sirene é estridente. Hora de ir. Largo a carcaça espancada de Antonio e parto, indo em direção aos estudantes, minha platéia, que se abrem como o mar para Moisés. Todos eles agora quietos, apenas murmúrios e cochichos. Estão intimidados.
- Você pensa que isso ajuda? – uma jovem de óculos grandes pula em minha frente. – Acha que assim teremos justiça? Leis! – ela segura seu livro como um escudo. Temos leis! Não precisamos disso. Não destrua tudo que conquistamos com essa justiça torpe e suja. – a jovem é tão pequena, não é bonita, mas tem seu charme. – Eu sei que ficamos indignados, desacreditados, mas o que você fez é... – suas mãos trêmulas arrumam seus óculos desajeitados. ERRADO! Pare de destruir cem anos de teorias! Não assassine o nosso Estado de Direito!
Fico ali parado. A respiração da jovem é ofegante. Os olhos nos ensinam muita coisa... Os dela me mostram a paixão. Seus colegas se juntam, todos com medo, mas preparados para defendê-la.
- Desculpe... – a palavra mal sai da minha boca.
Vou embora. Isso que preciso... Ir embora!
Mais cedo lembro de Maria me perguntar sobre o uniforme. Disse que sem a máscara ele não vale de nada. Arrumei uma toca vagabunda para esconder parte de meu rosto, não é muito eficiente, mas servirá.
A Universidade está movimentada. Jovens em passos ensaiados vão de sala em sala, buscando um futuro decente. Me informo com o porteiro, e vou em direção a Faculdade de Ciências Humanas. Sou uma presença estranha, os demais universitários notam isso e cochicham entre si. Meu primeiro dia na escolinha. A segurança é débil. Meros enfeites. Adentro no prédio construído no século passado, com uma arquitetura dos anos quarenta se não me engano. Pelo corredor um professor se vangloria de seu doutarado, sobre algo claramente desinteressante. Papos sobre leis e provas permeiam o corredor. De porta em porta, busco pela pequena janela algum rosto conhecido. Na quarta tentativa eu avisto...
Antônio Pereira. Ex-policial militar. Corrupto. Traficante. Cafetão. Minha presa. Minhas mãos agarram a toca com vontade, puxando para baixo, ocultando meu rosto. Ergo minha perda, e com um só golpe ponho a baixo a porta da sala de aula! Interrompo algo sobre Teoria Geral dos Contratos. Todos se assustam. Principalmente, uma loira que grita histericamente. Caminho até a carteira de Toninho, que assim como os outros alunos não entendem o que está acontecendo. Ninguém ousa me parar. Agarro o verme pelo colarinho! Como um brinquedo, levanto-o e o lanço em cima das carteiras. Chego a derrubar outros estudantes. Eles superam. Vejo o temor em sua face. Isso me anima. Chuto tudo que encontro em minha frente. Mochilas, carteiras, bolsas. Tudo que me separa do meu alvo.
- Quê... Porra! – um palavrão, estava sentindo falta da boca suja desses filhos da puta.
Toninho é gordo, como qualquer outro homem de quarenta anos. Seu rosto é enrugado, e eu faço questão de enrugá-lo ainda mais com um soco! Pego-o pelo cabelo e bato suas costa na parede! Protestos contra minha violência ecoam pela sala. Ignoro. Antonio tenta reagir, inutilmente. Cada tentativa é devolvida com uma pancada mais forte. Nenhuma palavra sai da minha boca. Ele entende o que está acontecendo.
- Agente pode conversar... – soco sua nuca, o criminoso entende a mensagem.
Arrasto-o como um troféu por toda a Universidade. Pessoas correm para saciar sua curiosidade. Toninho pede por ajuda. Ninguém ousa. Muito menos os seguranças. Caminhamos até seu carro. Uma passeata, uma verdadeira platéia nos segue em direção ao estacionamento. Chuto o saco de merda, fazendo-o catar cavaco até bater com a cabeça no farolete de seu Honda.
- O quê... – não o deixo terminar e acerto mais uma vez seu rosto.
Vasculho seus bolsos, suas mãos tentam impedir as minhas. Quebro seus dedos. Todos eles. O gordo grita! Encontro à chave do carro. Abro o porta malas, e lá está... Sacos cheios de comprimidos e cartelinhas de sintéticos. Pego um desses sacos, esfrego na cara de Antonio.
- Sabia que isso é especialidade da máfia turca? – quase rosno.
Estapeio seu rosto com as drogas, até o saco estourar e cartelas e comprimidos tomarem o chão. Parece que o homem percebe quem sou... Isso me irrita e acerto seu rosto com mais força. Ele chora. Mal escuto os protestos e esbravejos em minhas costas.
O vermelho da polícia reflete nas árvores, e a sirene é estridente. Hora de ir. Largo a carcaça espancada de Antonio e parto, indo em direção aos estudantes, minha platéia, que se abrem como o mar para Moisés. Todos eles agora quietos, apenas murmúrios e cochichos. Estão intimidados.
- Você pensa que isso ajuda? – uma jovem de óculos grandes pula em minha frente. – Acha que assim teremos justiça? Leis! – ela segura seu livro como um escudo. Temos leis! Não precisamos disso. Não destrua tudo que conquistamos com essa justiça torpe e suja. – a jovem é tão pequena, não é bonita, mas tem seu charme. – Eu sei que ficamos indignados, desacreditados, mas o que você fez é... – suas mãos trêmulas arrumam seus óculos desajeitados. ERRADO! Pare de destruir cem anos de teorias! Não assassine o nosso Estado de Direito!
Fico ali parado. A respiração da jovem é ofegante. Os olhos nos ensinam muita coisa... Os dela me mostram a paixão. Seus colegas se juntam, todos com medo, mas preparados para defendê-la.
- Desculpe... – a palavra mal sai da minha boca.
Vou embora. Isso que preciso... Ir embora!


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