Mente De Um Zé Que Se Chama Pedro

Este é um espaço para expor meus pontos de vista sobre os mais variados assuntos, desde política até a nova banda que começou a tocar nas rádios. Espero que gostem e que também comecem a despertar seus espíritos para a crítica! Beijos para as mocinhas e abraços para os mocinhos!

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Nome: Pedro Augusto

Um Zé que se chama Pedro.

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIV: Deus, o Homem Morcego e a Menina Morta (Parte II)

Trevas. Nada além da pura escuridão. O negro consome minha visão, não consigo ver nada. Começo a andar. Cada passo que dou é calculado. Tateio o chão rochoso com os pés, torcendo para não encontrar um abismo. Se bem que um abismo seria sorte, não quero encontrar Virgílio e encenar minha comédia pelo Inferno. Encontro uma parede, examino-a como um corpo de mulher. Carinhosamente. São rochas úmidas. Sinto o cheio de lodo. Com a mão direita na parede continuo minha caminhada através do limbo que me encontro. Um vento misterioso acaricia minha face. Uma corrente de ar! Deve haver uma saída por aqui. A felicidade em escapar do escuro leva embora minha cautela. Apreço o passo. Avisto uma luz, bem fraca. Começo a correr. Meus sentidos estão anestesiados, devo estar em desespero. A medida que aproximo do ponto solitário e luminoso meu coração volta a bater, se mexe como criança, como um novato no mundo.
“- Olha mãe! Sou mais rápido que um coelho! – escuto a voz de uma criança.
- Ele corre muito bem! Nós temos um atleta na família! – fala um pai orgulhoso.”
Não entre no buraco. Não entre Bruce! Caio como uma fruta madura. O chão se desfaz aos meus pés. Agarro-me nas rochas que imitam minha queda. Elas se desprendem, e caímos.
A queda é longa. O impacto é bruto. Nada se quebra por um milagre. Meu joelho dói um pouco, nada que eu não agüente. Consigo enxergar parcialmente, minhas pupilas devem ter se adaptado a escuridão. Isso é uma caverna. Mal notei que estou de máscara. Estou vestindo o uniforme completo. Intacto. Nenhuma marca de bala. Nenhum buraco no kevlar. Pensei que tivessem levado minha máscara. Ao está saindo das trevas. Milhares de asas batendo aleatoriamente.
“Então... algo se move oculto... algo que aspira o ar viciado... e siliba. Planando com graça milenar... Ele se recusa a se afastar de seus irmãos. De olhos radiantes, sem alegria ou tristeza... seu hálito é quente e tem sabor dos inimigos vencidos... o odor de coisas malditas. Com certeza, ele é o mais feroz sobrevivente... o mais puro guerreiro... brilhando, odiando... possuindo minha pessoa.
Sonhando, talvez... Eu tenho vinte e cinco anos e isso está acontecendo agora... Encontrei uma caverna... enorme, silenciosa como uma igreja... sequiosa como o morcego.”
Algo me diz que não deveria estar aqui. É o medo que fala. Os morcegos se foram, mas há algo na escuridão. Algo que vigia. Atento. Posso sentir o bater de suas asas negras. Sua respiração. Estou em seu território. Desembainho duas lâminas, ao retirá-las o som ecoa pela caverna. A fera se enfurece. Agora ela caminha pelo teto. No escuro vejo a sombra caminhar acima da minha cabeça. O monstro desprega do teto e cai em minha direção. Pulo para trás. O peso da fera faz o chão estremecer. Fico imóvel, aguardando. O leviatã se ergue lentamente, quase dois metros de treva. Seu rugido é cavernoso. Queria poder não demonstrar medo. Se eu morri, esse deve ser Lúcifer, e eu não vou recuar. Com as armas em punho vou em direção a fera, meus golpes são rápidos, precisos. Treinei para isso! Sou FEITO para isso! Ela recua com graça e leveza. Desfiro um corte vertical. ACERTEI! Burro! A lâmina toca a pedra, soltando uma pequena faísca. A sombra agora se encontra atrás de mim, existem várias maneiras de atacá-la, vou usar a mais dolorida!
- RRRUUUYYYAAA!!! – grito me valendo do diafragma para me dar força.
A lâmina acerta a fera! A essa distância isso deve bastar. Rasgo a escuridão sem piedade, fazendo-a recuar.
- Amador. – é um homem?
Meu coração gela. Eu aceitei! Juro! Mãos grossas amassam meu pescoço, mas antes me desarma sem nenhuma dificuldade aparente. Sou jogado contra as rochas. Não consigo respirar. Engasgo com minha própria saliva. Então o diabo mostra sua face. Um homem. Seguro em seu antebraço, tendo me livrar de suas garras. Ele aperta mais. Falta-me ar, me desespero engolindo meu próprio sangue, até que sou jogado no chão com violência. Derrotado. Humilhado. Respiro aliviado.
- Não passa de um amador. Vou lhe dar dez segundos para contar como chegou aqui.
Olhos brancos e puros me ameaçam nas trevas. Ao meu lado vejo um pedaço de pano cortado. Uma capa! Eu acertei a capa.
- Dez.
- Olha...
- Nove.
- Calma aí...
- Oito. Você não vai querer esperar até o fim da contagem.
Começo a tossir.
- Sete. Minha paciência está acabando.
- Escuta, vou tentar explicar...
- Seis.
- O PORRA! EU VOU EXPLICAR CARALHO!
Um silêncio me faz arrepender.
- Cinco.
- Eu não sei como vim chegar aqui. Realmente eu não sei.
- Quatro. Não duvido disso. Seu jeito de lutar é desastroso, sem habilidade, obtuso. Um amador.
- Então desculpa, está bem? Não quis acordar você do seu sono... Seja lá o quê for que faça aqui.
- Três. Sua história seria mais fácil de acreditar, se não estivesse usando kevlar militar, armas japonesas, e uma máscara.
- Essa já é outra história, eu realmente uso isso. – aponto para o meu uniforme. – Só que no momento eu não faço idéia de como eu o vesti.
- Dois. Eu te doparia e largaria em um beco qualquer, mas você usa colante. E ninguém entra na minha caverna.
- Eu caço bandidos! Pronto! Falei! Não faço idéia de como vim para aqui! Por isso eu uso uniforme!
- Um. Como entrou aqui? Escolha bem suas próximas palavras amador.
- Eu morri.
- O quê?
- Sério! Levei um tiro aqui. – aponto para o abdômen. – Outro aqui. – mostro a perna. – Isso depois de espancar uns trinta homens, e ser espancado pelos outros vinte.
Ganho silêncio como resposta.
- Eu não faço idéia, juro. – me sinto um covarde.
- Por quê? Por que você faz isso? – sua voz tende para o diálogo, isso é bom, ao menos pra mim.
- Meu trabalho? Não existe um motivo específico. Eu só acho que existem filhos-da-puta demais, e alguém tem que fazer algo pelo mundo.
- E você conseguiu?
- O quê?
- Fazer algo pelo mundo.
- Digamos que eu tinha alguns planos, o Brasil não é lugar para pessoas honestas, ou que queiram realmente fazer o bem. Ia ser difícil, mas eu tinha esperança.
- Tinha?
- Eu morri, esqueceu.
Ele ri. O homem gargalha. Sua risada é louca, não é longa, dura alguns segundos. Ele não é normal.
- Você é tão ingênuo. Tão despreparado, inocente e débil. Me lembra Dick quando o conheci, vontade e raiva genuína, mas sem preparo.
- Qual é? Vai ficar me ofendendo assim?
- Se você quer fazer parte desse trabalho você precisa saber se é um homem ou uma doença! Criminosos também usam máscaras. Eles são a doença desse mundo! Escolha um lado. Se decidir ser um homem, é hora de ser mais do que isso. Doenças matam os homens. Então ser um também não é o bastante! Ao colocar uma máscara você desenha um alvo em sua testa.
- Mas eu já morri.
- Morte é para amadores! Para homens! Para doenças! Ao vestir esse colante a morte não passa de uma brincadeira. “Isso que meus pais me ensinaram. Caídos na rua... sangrando muito... morrendo sem razão nenhuma... eles me mostraram que o mundo só faz sentido quando você o força a fazer.”

Empatia. Deve ser isso. Alguém para se vestir de morcego deve ter seus problemas. Só que esse homem é mais do que um... Homem em uma fantasia. Sua voz me mostra isso. É incrível como podemos captar certas coisas quando aprendemos a escutar. A verdade através de ondas sonoras. Por isso ele acreditou em mim. Por isso eu leio tristeza em suas palavras. Mais do que isso eu sinto esperança, arrisco dizer... Otimismo. Nunca imaginei que haveria alguém tão grande. A fera que me fez temê-la, e transformou o medo em... Veneração.
- A saída é por ali. – ele aponta para um canto escuro. – É só ter cuidado com os morcegos, não de assuste, não farão nenhum mal, é só ficar imóvel.
Vou em direção as trevas mais uma vez.
- Qual o seu nome amador?
- Augusto.
- Bruce. Não volte mais aqui.
- Senão o quê? Vai me matar?
- Você já está morto esqueceu?
- Então terei de renascer.
Silêncio e escuro. Tudo que tenho.
“O vento sopra libertando folhas mortas. Os sapos coaxam sem parar e os grilos entram no coro. Um lobo uiva. Eu sei como ele se sente”.

NOTA: Trechos em itálico foram adaptados da obra máxima dos quadrinhos, O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.


Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIV: Deus, o Homem Morcego e a Menina Morta

- Oi, Eu sou Deus.
Abro meus olhos.
Meu corpo não está dolorido. Pelo contrário. Nunca me senti tão bem. Alguém está falando comigo, tento enxergar, a luz do local é ofuscante. A voz é profunda, serena, e ao mesmo tempo imponente. É absurdo! Por que não? Vamos lá...
- Sentes bem, meu querido? Eu sou...
- Eu sei. Já entendi. Eu morri não é?
O buraco em meu abdômen sumiu. Minha perna não está sangrando. Meu rosto não está inchado. A claridade vai diminuindo paulatinamente. Tateio mais uma vez meu corpo, incrédulo. Ainda bem que sou uma pessoa realista. Realmente eu estou morto.
- Sempre achei a palavra morte, um signo lingüístico muito dramático. - fala o Senhor, o qual possui o “s” maiúsculo.
- Como assim?
- A palavra flerta com extremos existenciais.
- Parabéns, Você... – merda! Chamar Deus de Você. Cacete.
Ele percebe minha auto censura e sorri levemente, com aquele ar superior, dispensando palavras, ou até um consolo me inocentando de tal pecado. Honestamente, e espero que o Alpha não leia estes pensamentos, a última coisa que eu quero é o Todo Poderoso na minha cola, o Homem, se é que posso chamá-lo assim, que está na minha frente é tão comum como qualquer outro. Longe de mim retirar sua magnificência, mas Deus é a cara do Robert Downey Junior! Um cavanhaque charmoso, mal feito, cabelos castanhos propositalmente atrapalhados, e é claro, esse sorriso achando graça da minha, utilizando aspas, “timidez”.
O Senhor vai até uma mesa, pega um livro com capa de couro, abre na página marcada por um fio escarlate, e começa a ler.
- E vi um novo céu e uma nova terra. Porque já se foram o primeiro céu e a primeira terra, e o mar já não existe. E vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que descia do céu da parte de Deus, pronta como uma esposa preparada para o seu marido. E ouvi uma grande voz, vinda do trono, que dizia: "Eis que o tabernáculo de Deus está com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas." E o que estava assentado sobre o trono disse: "Eis que faço novas todas as coisas." E acrescentou: "Escreve; porque estas palavras são fiéis e verdadeiras." . Disse-me ainda: "Está realizado: eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. A quem tiver sede, de graça lhe darei a beber da fonte da água da vida. Aquele que vencer herdará estas coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho".
Ao terminar a leitura, uma pausa proposital se segue. Deus olha para cima, fecha os olhos, e fala com uma emocionada.
- Apocalipse de São João (21,1-21,7).
Mordendo seus lábios, transparecendo preocupação, Ele gesticula oferecendo-me um acento. Obviamente, obedeço.
- Jovem... – agora olhando em meus olhos. – Você levará seu povo. Os levará sem distinção. Eu digo TODOS. Leve-os para a aurora dos tempos. Desça o monte e lhes entregue a revelação.
- E como eu faço isso? – pergunto com a voz trêmula.
- Construa uma arca.
Fico em silêncio apenas olhando em seus olhos. Será isso mesmo? O Cara lê a Bíblia e me manda construir uma arca? Esfrego meus olhos. Coço a cabeça. A risada não demora a vir. Ele ri de mim.
- Vocês são muito criativos! E como são! Leia novamente o que acabei de lhe recitar. Dramático. Poético. E olha que foi um singelo parágrafo. Perdoe-me a brincadeira, apenas gostaria que você se sentisse a vontade. Vamos, relaxe. Não paire seus pensamentos sob as nuvens cinzentas da existência. Como disse, morte em si, digo, a palavra, já é dramática demais. De um lado o “fim”, para alguns, do outro, o “começo”. Eu não fiz isso. Morte é apenas... Morte. E acredite meu querido, há mais belezas em um sistema circulatório do que em uma ressurreição.
- Eu não estava, podemos dizer, desconfortável porque eu morri. Essas coisas acontecem. Não penso em criar asas e sair voando logo após receber um tiro no abdômen...
- Depois de ser brutalmente espancado, severamente, por vários malfeitores. – por qual motivo Deus parece caçoar de mim? – Perdão o excesso de advérbios, não queria te interromper.
- Isso. Esqueci dessa parte. Eu não duvidaria da Sua existência, não na Sua frente. É que se houvesse um Céu, e concluindo que é para lá que vou, ou aqui estou, eu o imaginava mais...
- Colorido?
- Não utilizaria essa palavra, apesar dela resumir a minha idéia de céu. Eu esperava ver conhecidos antigos, pessoas que perdemos, amigos, quem sabe até meus inimigos. Um ambiente o oposto dessa sala de reuniões, com essa mesa de madeira e essas enormes janelas, escondidas por cortinas frias. Havia pessoas voando, castelos dourados, um rio imenso, todo azul e imponente. Ou com sorte, setenta virgens a minha espera e um palácio?
Rimos juntos. Continuo.
- A única coisa que confirmou a expectativa foi a luz. Sua voz, eu acho. E esse vazio dentro de mim. Não se veste um colante e sai pulando em prédios achando que irá viver para sempre. Ao menos não é assim comigo. Eu sabia que iria morrer algum dia. É lógico que todos nós morremos, deixe-me expressar melhor...
- Você já previa que seu trabalho o mataria.
- É. Afinal, é isso que eu faço. Viver a caçando a morte de beco em beco. Já faz sete anos.
- Pensei que você lutava contra o crime.
- É a mesma coisa! Pelo menos no Brasil. Eu arrisco falar que no mundo todo é assim.
Rimos mais uma vez. Retomo o bate papo.
- Perdão se isso de ofender, mas esse mundo não é dos melhores. São filhos da puta demais nascendo todo dia! Mesmo se você for otimista, ou alguém feliz com a vida, sabe que ir ao supermercado em alguma cidade do México proporciona mais medo do que um filme de terror. Que a África é um caso perdido, até mesmo para o século XXI. Ou que o Oriente Médio já é incapaz de comportar a vida humana. São coisas ruins. Só isso. Coisas ruins demais nesse mundo!
- Até agora não achei a conexão lógica de sua argumentação...
- A bomba atômica! Que porra foi aquela! Não dava para botar o dedinho divino e impedir que uma cidade inteira virasse pó? Era muito difícil? Hein?
- Sem isso os japoneses não se renderiam e a guerra continuaria.
- O quê você disse?
- Sem isso os japoneses não se renderiam e a guerra continuaria.
Minhas mãos voam em direção ao colarinho de Deus, levanto-o do chão e jogo seu corpo em uma direção qualquer, de encontro às cortinas e acerta o vidro por de trás delas, assim se parte uma janela no Céu.
- Como você pode? TER TODO ESSE PODER E NÃO FAZER NADA!
- Você chorou pelos bárbaros mortos pelos romanos? Chorou ao ver o Império Maia massacrar as tribos mais fracas? Quando cabeças revoltosas rolaram na França? Foram pais, filhos, mães, irmãs. No feudalismo japonês, morrer era uma honra sabia. Você já lamentou alguma vida aborígene morrendo de gripe européia. O regime comunista assassinou direta e indiretamente milhões. Eu não escutei lágrimas suas por Nuria Monfort, mulher que sofreu por um amor impossível, morreu velha na companhia de suas rugas, com uma faca cravada no peito. Foi assassinada por um Inspetor de Policia. Na sua terra, seu país, seu pranto é tão dolorido a cada dia que um doente é deixado a esmo de sua própria e triste sorte? Um flagelado nordestino talvez? Um índio queimado?
- Por que você só pergunta? Dê-me algo! Uma resposta! É claro que não choro por todos! Eu só quero...
- Não me venha com milhões em cadáveres. Não traga a morte para nossa conversa. É para isso que eu serviria? Para você minha função é salvar vidas.
- Você nos dá a vida!
- Eu criei vocês.
- Então nos salve!
- Do quê Augusto?
- De nós mesmos.
- Seus olhos são verdadeiros, não há dúvida disso. Quer expugnar o sofrimento alheio, só que você não tem poderes para isso. Então a raiva o leva a solução mais próxima, ao menos simbolicamente, que é utilizar a força. No seu caso peculiar, a força bruta.
- Então Deus é um psicólogo.
- Eu sou Tudo Augusto.
- Você é tudo! Menos justo!
- Defina justiça.
Começo a preparar algum tipo de discurso, sem perceber sou interrompido.
- Isso não é justiça. Nossa conversa começou bem, agora você me ataca. Isso não é uma batalha. Não digladiaremos verbalmente. Você não poderia vencer.
- Déspota egoísta! Você nos colocou nessa merda! Agora nos tire de lá!
- Isso dói Augusto. Mais do que você pode imaginar. Fique em silêncio. Vamos nos calar por alguns instantes. O quê você escuta?
- Nada. É só o silêncio. Isso é alguma meditação ou coisa do tipo?
- Você morreu.
- Eu sei! Pra que isso?
- E estou te escutando. Eu ouço tudo Augusto. Cada pequena formiga erguendo um grão miserável de terra. O copular de um casal apaixonado. O som da bala atravessando a carne macia, transpassando camadas de tecidos, atingindo um intestino, deixando vazar o quê era um belo jantar. Um jantar comido às pressas. A pessoa se esqueceu de degustar aquele milho fresco e amarelo, colhido pelas garras monstruosas de um trator movido a diesel. Eu ouço sua irmã rezando por você. Seu pai indo trabalhar, reclamando a sua falta de responsabilidade. “Praia e gandaia durante o período letivo! Um absurdo!”. Mal o homem sabe que seu filho está morto, atacando Deus com palavras clichês usadas a milhares de anos. Não é possível apontar o dedo para mim Augusto, e me chamar de déspota. Qual tirano é capaz de escutar de escutar tudo? Conceitos humanos não se aplicam ao que não é humano. Você deveria saber disso, é um homem inteligente. Um homem bom. Não se ofenda por favor. Não quero ser evasivo. Venha, deixe-me lhe mostrar minha criação.
Suas mãos agarram as cortinas frias, com um movimento suave elas são abertas. Através do vidro quebrado eu contemplo aquilo que as palavras não aprenderam a descrever. São nebulosas, constelações, estrelas, planetas, sóis, luas! São tantos detalhes que me perco. Eu nunca tinha visto um sol azul. As chamas não são revoltosas, elas dançam uniformemente, um movimento espalhafatoso.
“Este universo que contemplamos, não é mais do que uma ínfima e quase ridícula fração de todo um Universo-Mestre (também chamado de Universo dos Universos) e que reúne a totalidade do espaço astronômico. Este Universo-Mestre está conformado, de um lado, pelo que qualifico de Grande Universo (habitado ou habitável) e, por outra parte, do Espaço Exterior, ainda inabitável, com suas zonas anulares de espaço “impenetrado”, alternando com outras áreas de espaço “penetrado” por múltiplos circuitos energéticos.
Essas zonas “penetradas” são formadas por imensos universos em formação, que os telescópios e radiotelescópios vão aos poucos descobrindo. Neste Universo-Mestre, como lhe dizia, existe o chamado Grande Universo que é, em realidade, o verdadeiro objetivo dessa formação. O referido Grande Universo encontra-se, por sua vez, subdividido em departamentos administrativos. Quero acentuar-lhe este conceito: “departamentos administrativos”, para que você não caia no engano de associá-los com divisões puramente astronômicas. Pois bem, depois do parêntese, continuo: esses departamentos puramente administrativos estão organizados segundo o sistema decimal, com uma exceção septenária no vértice.
Resumindo ao extremo, dir-lhe-ei que este Grande Universo em que vivemos é formado por um Universo Central, e um total de sete superuniversos que giram ao redor do Universo Central, seguindo uma trajetória elítica enormemente alongada e muito plana.
Se me permite, falar-lhe-ei agora desses sete superuniversos que gravitam em torno do Universo Central. Cada um deles se acha dividido, ad-mi-nis-tra-ti-va-men-te falando, da seguinte forma:
10 setores maiores, cada um deles com 100 setores menores. Cada setor menor, por sua vez, com um total de 100 universos locais, criados ou por criar.
Cada universo local consta de 100 constelações (criadas ou por criar) e, por sua parte, cada constelação é integrada por 100 sistemas.
Finalmente, cada sistema reúne cerca de 1000 planetas, criados ou por criar.
Se dispusermos em números, cada um dos sete superuniversos conta com:
10 setores maiores;
1000 setores menores;
100000 universos locais;
10000000 de constelações;
1000000000 de sistemas e, aproximadamente, um bilhão de planetas habitados ou habitáveis no futuro.
Pois bem, seu planeta acha-se situado no sétimo superuniverso. O núcleo central desse sétimo superuniverso é a sua Via Láctea...”
- Minha?
Rimos mais uma vez. Meu cérebro formiga. Não consigo assimilar essas cifras enfadonhas. Meu abdômen retrai em dor. Grito sem perceber.
- Perdoe-me Augusto, por não corresponder as suas expectativas em tempo.
Estou com a sensação de estar sendo arrastado. Pisco uma vez e tudo parece uma eternidade. Um flash salta aos meus olhos, e não faço idéia de onde veio. O abdômen incomoda muito! Olho para ele e não há nenhum ferimento. Agora é a vez da perna. Cambaleio até me apoiar na mesa, mal consigo ficar em pé. Outra piscadela e mais trevas me consomem. Caio no chão. Ergo a mão em busca de ajuda, minha visão embaça, só consigo ver a luz incandescente que ilumina meu rosto, alguém a segura. Uma mão firme. Tudo que posso perceber nesse momento.
- Vou salvar você. – alguém sussurra em meu ouvido.
As trevas me tomam.

NOTA: O trecho em itálico foi adaptado da obra Rebelião de Lúcifer, J. J. Benítez.

"Aprendamos a sonhar, senhores, e então, pode ser que encontremos a Verdade."
J. J. Benítez