Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIV: Deus, o Homem Morcego e a Menina Morta (Parte II)
Trevas. Nada além da pura escuridão. O negro consome minha visão, não consigo ver nada. Começo a andar. Cada passo que dou é calculado. Tateio o chão rochoso com os pés, torcendo para não encontrar um abismo. Se bem que um abismo seria sorte, não quero encontrar Virgílio e encenar minha comédia pelo Inferno. Encontro uma parede, examino-a como um corpo de mulher. Carinhosamente. São rochas úmidas. Sinto o cheio de lodo. Com a mão direita na parede continuo minha caminhada através do limbo que me encontro. Um vento misterioso acaricia minha face. Uma corrente de ar! Deve haver uma saída por aqui. A felicidade em escapar do escuro leva embora minha cautela. Apreço o passo. Avisto uma luz, bem fraca. Começo a correr. Meus sentidos estão anestesiados, devo estar em desespero. A medida que aproximo do ponto solitário e luminoso meu coração volta a bater, se mexe como criança, como um novato no mundo.“- Olha mãe! Sou mais rápido que um coelho! – escuto a voz de uma criança.
- Ele corre muito bem! Nós temos um atleta na família! – fala um pai orgulhoso.”
Não entre no buraco. Não entre Bruce! Caio como uma fruta madura. O chão se desfaz aos meus pés. Agarro-me nas rochas que imitam minha queda. Elas se desprendem, e caímos.
A queda é longa. O impacto é bruto. Nada se quebra por um milagre. Meu joelho dói um pouco, nada que eu não agüente. Consigo enxergar parcialmente, minhas pupilas devem ter se adaptado a escuridão. Isso é uma caverna. Mal notei que estou de máscara. Estou vestindo o uniforme completo. Intacto. Nenhuma marca de bala. Nenhum buraco no kevlar. Pensei que tivessem levado minha máscara. Ao está saindo das trevas. Milhares de asas batendo aleatoriamente.
“Então... algo se move oculto... algo que aspira o ar viciado... e siliba. Planando com graça milenar... Ele se recusa a se afastar de seus irmãos. De olhos radiantes, sem alegria ou tristeza... seu hálito é quente e tem sabor dos inimigos vencidos... o odor de coisas malditas. Com certeza, ele é o mais feroz sobrevivente... o mais puro guerreiro... brilhando, odiando... possuindo minha pessoa.
Sonhando, talvez... Eu tenho vinte e cinco anos e isso está acontecendo agora... Encontrei uma caverna... enorme, silenciosa como uma igreja... sequiosa como o morcego.”
Algo me diz que não deveria estar aqui. É o medo que fala. Os morcegos se foram, mas há algo na escuridão. Algo que vigia. Atento. Posso sentir o bater de suas asas negras. Sua respiração. Estou em seu território. Desembainho duas lâminas, ao retirá-las o som ecoa pela caverna. A fera se enfurece. Agora ela caminha pelo teto. No escuro vejo a sombra caminhar acima da minha cabeça. O monstro desprega do teto e cai em minha direção. Pulo para trás. O peso da fera faz o chão estremecer. Fico imóvel, aguardando. O leviatã se ergue lentamente, quase dois metros de treva. Seu rugido é cavernoso. Queria poder não demonstrar medo. Se eu morri, esse deve ser Lúcifer, e eu não vou recuar. Com as armas em punho vou em direção a fera, meus golpes são rápidos, precisos. Treinei para isso! Sou FEITO para isso! Ela recua com graça e leveza. Desfiro um corte vertical. ACERTEI! Burro! A lâmina toca a pedra, soltando uma pequena faísca. A sombra agora se encontra atrás de mim, existem várias maneiras de atacá-la, vou usar a mais dolorida!
- RRRUUUYYYAAA!!! – grito me valendo do diafragma para me dar força.
A lâmina acerta a fera! A essa distância isso deve bastar. Rasgo a escuridão sem piedade, fazendo-a recuar.
- Amador. – é um homem?
Meu coração gela. Eu aceitei! Juro! Mãos grossas amassam meu pescoço, mas antes me desarma sem nenhuma dificuldade aparente. Sou jogado contra as rochas. Não consigo respirar. Engasgo com minha própria saliva. Então o diabo mostra sua face. Um homem. Seguro em seu antebraço, tendo me livrar de suas garras. Ele aperta mais. Falta-me ar, me desespero engolindo meu próprio sangue, até que sou jogado no chão com violência. Derrotado. Humilhado. Respiro aliviado.
- Não passa de um amador. Vou lhe dar dez segundos para contar como chegou aqui.
Olhos brancos e puros me ameaçam nas trevas. Ao meu lado vejo um pedaço de pano cortado. Uma capa! Eu acertei a capa.
- Dez.
- Olha...
- Nove.
- Calma aí...
- Oito. Você não vai querer esperar até o fim da contagem.
Começo a tossir.
- Sete. Minha paciência está acabando.
- Escuta, vou tentar explicar...
- Seis.
- O PORRA! EU VOU EXPLICAR CARALHO!
Um silêncio me faz arrepender.
- Cinco.
- Eu não sei como vim chegar aqui. Realmente eu não sei.
- Quatro. Não duvido disso. Seu jeito de lutar é desastroso, sem habilidade, obtuso. Um amador.
- Então desculpa, está bem? Não quis acordar você do seu sono... Seja lá o quê for que faça aqui.
- Três. Sua história seria mais fácil de acreditar, se não estivesse usando kevlar militar, armas japonesas, e uma máscara.
- Essa já é outra história, eu realmente uso isso. – aponto para o meu uniforme. – Só que no momento eu não faço idéia de como eu o vesti.
- Dois. Eu te doparia e largaria em um beco qualquer, mas você usa colante. E ninguém entra na minha caverna.
- Eu caço bandidos! Pronto! Falei! Não faço idéia de como vim para aqui! Por isso eu uso uniforme!
- Um. Como entrou aqui? Escolha bem suas próximas palavras amador.
- Eu morri.
- O quê?
- Sério! Levei um tiro aqui. – aponto para o abdômen. – Outro aqui. – mostro a perna. – Isso depois de espancar uns trinta homens, e ser espancado pelos outros vinte.
Ganho silêncio como resposta.
- Eu não faço idéia, juro. – me sinto um covarde.
- Por quê? Por que você faz isso? – sua voz tende para o diálogo, isso é bom, ao menos pra mim.
- Meu trabalho? Não existe um motivo específico. Eu só acho que existem filhos-da-puta demais, e alguém tem que fazer algo pelo mundo.
- E você conseguiu?
- O quê?
- Fazer algo pelo mundo.
- Digamos que eu tinha alguns planos, o Brasil não é lugar para pessoas honestas, ou que queiram realmente fazer o bem. Ia ser difícil, mas eu tinha esperança.
- Tinha?
- Eu morri, esqueceu.
Ele ri. O homem gargalha. Sua risada é louca, não é longa, dura alguns segundos. Ele não é normal.
- Você é tão ingênuo. Tão despreparado, inocente e débil. Me lembra Dick quando o conheci, vontade e raiva genuína, mas sem preparo.
- Qual é? Vai ficar me ofendendo assim?
- Se você quer fazer parte desse trabalho você precisa saber se é um homem ou uma doença! Criminosos também usam máscaras. Eles são a doença desse mundo! Escolha um lado. Se decidir ser um homem, é hora de ser mais do que isso. Doenças matam os homens. Então ser um também não é o bastante! Ao colocar uma máscara você desenha um alvo em sua testa.
- Mas eu já morri.
- Morte é para amadores! Para homens! Para doenças! Ao vestir esse colante a morte não passa de uma brincadeira. “Isso que meus pais me ensinaram. Caídos na rua... sangrando muito... morrendo sem razão nenhuma... eles me mostraram que o mundo só faz sentido quando você o força a fazer.”
Empatia. Deve ser isso. Alguém para se vestir de morcego deve ter seus problemas. Só que esse homem é mais do que um... Homem em uma fantasia. Sua voz me mostra isso. É incrível como podemos captar certas coisas quando aprendemos a escutar. A verdade através de ondas sonoras. Por isso ele acreditou em mim. Por isso eu leio tristeza em suas palavras. Mais do que isso eu sinto esperança, arrisco dizer... Otimismo. Nunca imaginei que haveria alguém tão grande. A fera que me fez temê-la, e transformou o medo em... Veneração.
- A saída é por ali. – ele aponta para um canto escuro. – É só ter cuidado com os morcegos, não de assuste, não farão nenhum mal, é só ficar imóvel.
Vou em direção as trevas mais uma vez.
- Qual o seu nome amador?
- Augusto.
- Bruce. Não volte mais aqui.
- Senão o quê? Vai me matar?
- Você já está morto esqueceu?
- Então terei de renascer.
Silêncio e escuro. Tudo que tenho.
“O vento sopra libertando folhas mortas. Os sapos coaxam sem parar e os grilos entram no coro. Um lobo uiva. Eu sei como ele se sente”.
NOTA: Trechos em itálico foram adaptados da obra máxima dos quadrinhos, O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.

