Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XVI: Remoção
Em programa sensacionalista, o apresentador obeso gesticula enquanto grita.
“Encontraram um corpo, uma camisa com sangue, também foi mandado um vídeo daqueles troços de gente usando a máscara dele... Então... QUEM É A P$%# DESSE JACK BUILT?De que adianta ele morrer se ninguém sabe quem ele é? Me responda Prefeito! Me responda PM!”
- AH! – a morena grita de susto.
- Calma, pare de se debater. Fique calmo... – a voz dela... – Por favor.
Suas mãos seguram minha cabeça, levando-a até seu colo. Macio. Com um pano úmido ela enxuga meu suor. Ela fala comigo. Ela... Cuida de mim...
- Agüente firme...
Tudo que eu escuto antes de... Adivinhem? Apagar pela milésima vez.
Estou grogue. Pessoas conversam sobre mim. Duas pessoas. Ela e mais uma. Mulher, velha, cansada. O papo é sobre bala.
- Você tem que me ajudar Janete! Olha para ele! – Ela implora.
- Já te arrumei curativos, analgésicos, antibióticos! Não posso fazer mais nada. – a voz da velha.
- Você é médica, pode fazer algo por ele.
- E você fez bem seu trabalho, não devia ter abandonado o curso. Tratou bem desse coitado. Limpou suas feridas como te ensinei. Fez curativos impecavelmente... Mas...
- O que Janete? Você não fez aquele juramento... Aquele de salvar vidas... Sei lá!
- Juramento de Hipocrates.
- Isso!
- Olha... Você é minha amiga. Vou ser sincera depois que você me responder essa pergunta...
Nenhuma das duas percebeu que estou acordado. Não são ameaça. O rosto da minha salvadora é tão lindo quando seu corpo. Mulata dos traços finos e frágeis, além da... Sinto uma fisgada quando levanto meu pescoço para olhar sua... Agora sim me sinto envergonhado. A velha continua.
- Por que até agora você não levou esse homem a um hospital?
Hein senhorita salvador, por quê?
- Não posso te falar. Não pergunte de novo. Por nossa amizade.
Me sinto um lixo humano. Um dejeto de porco... Ela está cuidando de mim. A velha engole seco, olha para mim com olhos sérios, percebe que estou acordado escutando tudo... Olha para a moça, invejando sua ousadia, sua beleza, por não ter podido falar assim quando era mais nova. Novos tempos. Sua fala é triste.
- Esse homem não vai morrer.
- Graças...
- Então ele vai ficar bem?
- Vai.
- Ufa!
- É só retirar a bala que ainda está em seu abdômen.
- Quê?
- Isso mesmo que você escutou. Todos os outros ferimentos estão cicatrizando, menos esse.
- Janete...
- Doutora. Me chame de Doutora.
Aparecida. Esse é o nome dela.
- Doutora, você pode...
- Não! Pelo seu bem não vou salvar esse homem. Estou indo embora, trouxe mais alguns materiais hospitalares pra você. Estão na cozinha.
- Janete... Não vá... Por favor... Aparecida está desesperada. Isso é compreensível. Não é todo dia que temos um baleado em nossa cama. E eu sou o pior dos tipos. Ela sabe quem sou. Ela sabe!
A mulata vai até uma instante, onde um pequeno altar foi montado. Nossa Senhora de alguma coisa, com certeza! Ela começa a rezar baixinho, pedindo ajuda a não sei quem. Espero que seja escutada porque essa porra ta doendo pra caralho! - O que eu faço? – ela olha para mim. – Se eu te levar por hospital vão te matar.
Aparecida está prestes a chorar, seguro sua mão. Ela assusta, mas se acalma em seguida.
- Traz as tranqueiras da velha. Me arruma um canivete. Uma pinça, a maior que você tiver.
- Pra quê? Eu não sou médica... Nem enfermeira... Muito menos sei fazer cirurgia. Cuidei de você porque uma vez fiz um...
- TRAZ TUDO! – grito. Preciso colocar essa mulher no lugar. – Você sabe limpar ferida. EU SOU A PROVA DISSO! Você limpa e eu tiro essa merda!- Você é louco?
- Não. Não sou. Agora traz tudo.
Ela obedece.
Tudo esterilizado. A porcaria ta limpa. Hora de virar homem. Respiro fundo. Isso dói demais! Porra! Minha mão treme, não vou conseguir! VIADINHO! Seguro firme a lâmina, levo-a até o buraco da bala, empurro a carne. Isso dói pra caralho! Com a outra mão pego a pinça. Respiro fundo mais uma vez.
- Você não sabe fazer isso! Você não é gado de açougue... Pode morrer. – Aparecida protesta.
- Sé... Sério?
- Há, há, há! – gargalho. Isso também dói! Pra caralho!
- Tudo isso um plano?
- Relaxa Cidinha, foi tudo mentira. Só queria te distrair. Digamos que... – vergonha, meu rosto só transmite isso. – Esses merdinhas realmente acabaram comigo. Estou morto.
- Você fala muito para um defunto. – rimos juntos, mas só eu sinto dor com isso. – Deixe-me limpar essa bagunça.
Igual uma profissional. Não! Melhor! Um curativo perfeito, uma obra de arte. Tomo alguns analgésicos para dor. Paracentamol para elefante.
- Descanse agora. O remédio vai te deixar sonolento.
- Oi?
- Muito prazer e...
- Nada de desculpas. Não as aceito.
Engulo seco.
- Ao menos deixe-me apresentar...
- Eu sei quem você é. Por isso eu fiz o que fiz.
Com as duas mãos ela arreda um armário pesado, revelando meu uniforme e todas as armas. CADÊ A MÁSCARA?





