Mente De Um Zé Que Se Chama Pedro

Este é um espaço para expor meus pontos de vista sobre os mais variados assuntos, desde política até a nova banda que começou a tocar nas rádios. Espero que gostem e que também comecem a despertar seus espíritos para a crítica! Beijos para as mocinhas e abraços para os mocinhos!

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Nome: Pedro Augusto

Um Zé que se chama Pedro.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XVI: Remoção


Em programa sensacionalista, o apresentador obeso gesticula enquanto grita.

“Encontraram um corpo, uma camisa com sangue, também foi mandado um vídeo daqueles troços de gente usando a máscara dele... Então... QUEM É A P$%# DESSE JACK BUILT?De que adianta ele morrer se ninguém sabe quem ele é? Me responda Prefeito! Me responda PM!”
♦ ♦ ♦
Augusto. É difícil lembrar meu nome quando estou longe de casa. Faz três minutos que estou de olhos abertos. Memorizei duas vezes o quarto, caso precise. Que cheiro gostoso. Arroz e feijão. Nesses minutos perdi alguns segundos olhando para o teto, apenas contando os tijolos e flertando com a fiação mal feita, que termina na lâmpada incandescente. Tentei distrair a dor que se estende do meu dedinho ao último fio de cabelo castanho. Só tentei. Partículas de poeira flutuam em câmera lenta, denunciadas pela luz do sol. Posso deduzir que é uma casa humilde. Ainda estou na favela. Isso é mal. Deus! Argh! Como meu abdômen dói. Confiro as outras feridas, os hematomas, os arranhões, toda essa porra! Um bom sinal, todas minhas mazelas foram esterilizadas e curativos foram feitos. Mas o abdômen ainda me preocupa... Muito...
Algo cai em meio ao óleo quente. Fritura. O aroma demora alguns segundos para alcançar o quarto. Bife. Bife de boi. Minha boca enche de água, chego a lamber levemente os lábios. O gosto de boca dormida me desanima um pouco, só que o poder do bife é maior. Me levanto. Travo meus dentes, sufocando um gemido. Seja lá quem cuidou de mim... Não posso arriscar. Preciso do elemento surpresa ao meu lado. Que merda de abdômen, dói pra caralho! Aprendo novamente a caminhar, passo por passo, seguindo o cheiro de carne frita. Realmente a casa é simples, um quarto, uma sala com um sofá de dois lugares, limpo, tudo muito limpo, uma televisão vinte polegadas, alguns porta retratos em um móvel. Não dou importância. Avisto o banheiro, logo a frente... A cozinha. Silencio meu andar. Respiro vagarosamente. Minha mão agarra um castiçal por instinto. Vou até o vão que leva à cozinha... Alguém me tratou bem, isso não quer dizer, necessariamente, que me quer bem! Preciso de respostas... Ca... Pu... Ma... Nossa! Se eu morri esse com certeza é o céu! Que morena maravilhosa! Minha reação só confirma o mau caratismo inerente ao sexo masculino. Não chega a ser... Se bem que... Eu acabei de ser humilhado por uns vermes. Levei um tiro do cara que aliviei a barra. Quase morri. Acordo em um quarto... E só consigo pensar na bunda dessa morena! Não só no bumbum, mas em todo seu corpo. Ela de costas. Cozinhando. Suas pernas a mostra pelo santo shortinho jeans. Uma pequena blusa branca. Simples. Básico. E belo. O sol a ilumina como se fosse uma deusa, sua pele reflete maciez, sabor, libido. A mulher para por um momento, como se tomasse fôlego, será que sentiu minha presença? Com o pulso ela afasta uma mecha cacheada de seus cabelos negros. Ainda com a mesma mão, sua nuca é levemente massageada. Ela liga o rádio, que encontra próximo a janela. O arroz e o feijão estão postos na mesa... Para dois! A mulher não está sozinha... Preciso me concentrar... Como isso é difícil.
Começo meu caminho até ela. Se não fosse a dor, juro que teria uma ereção nesse momento. Morena, serão apenas umas perguntas. Tenho que ser rápido, se ela gritar, o outro alguém pode aparecer e no meu estado... Estou fudido! Passo pela mesa, a refeição é tão tentadora quanto à co... Não sinto minhas pernas. Caralho! Pisco repetidamente tentando me manter alerta. Uma pontada atinge meu abdômen, o curativo ainda está lá. Meu joelho cede a fraqueza. Vou cair. Procuro apoio. Minhas mãos seguram a mesa, que em seguida é arrastada pelo meu peso. Eu sabia. Caio como uma bosta, jogando o arroz e o feijão pelo chão.
- AH! – a morena grita de susto.
Toda a cozinha expande e contrai. Alucinações! Malditas alucinações! A desgraça da febre está me cozinhando vivo, enquanto gemo em posição fetal em meio ao arroz e feijão... Na cozinha de uma gostosona. É humilhação demais! Dor demais!
- Calma, pare de se debater. Fique calmo... – a voz dela... – Por favor.
Suas mãos seguram minha cabeça, levando-a até seu colo. Macio. Com um pano úmido ela enxuga meu suor. Ela fala comigo. Ela... Cuida de mim...
- Agüente firme...
Tudo que eu escuto antes de... Adivinhem? Apagar pela milésima vez.
Estou grogue. Pessoas conversam sobre mim. Duas pessoas. Ela e mais uma. Mulher, velha, cansada. O papo é sobre bala.
- Você tem que me ajudar Janete! Olha para ele! – Ela implora.
- Já te arrumei curativos, analgésicos, antibióticos! Não posso fazer mais nada. – a voz da velha.
- Você é médica, pode fazer algo por ele.
- E você fez bem seu trabalho, não devia ter abandonado o curso. Tratou bem desse coitado. Limpou suas feridas como te ensinei. Fez curativos impecavelmente... Mas...
- O que Janete? Você não fez aquele juramento... Aquele de salvar vidas... Sei lá!
- Juramento de Hipocrates.
- Isso!
- Olha... Você é minha amiga. Vou ser sincera depois que você me responder essa pergunta...
Nenhuma das duas percebeu que estou acordado. Não são ameaça. O rosto da minha salvadora é tão lindo quando seu corpo. Mulata dos traços finos e frágeis, além da... Sinto uma fisgada quando levanto meu pescoço para olhar sua... Agora sim me sinto envergonhado. A velha continua.
- Por que até agora você não levou esse homem a um hospital?
Hein senhorita salvador, por quê?
- Não posso te falar. Não pergunte de novo. Por nossa amizade.
Me sinto um lixo humano. Um dejeto de porco... Ela está cuidando de mim. A velha engole seco, olha para mim com olhos sérios, percebe que estou acordado escutando tudo... Olha para a moça, invejando sua ousadia, sua beleza, por não ter podido falar assim quando era mais nova. Novos tempos. Sua fala é triste.
- Esse homem não vai morrer.
- Graças...
- Escute Aparecida. Escute bem. Não sei o quê você tem com esse homem, mas homens que levam tiros podem acabar nos matando. Mande-o embora de sua casa assim que ele melhorar.
- Então ele vai ficar bem?
- Vai.
- Ufa!
- É só retirar a bala que ainda está em seu abdômen.
- Quê?
- Isso mesmo que você escutou. Todos os outros ferimentos estão cicatrizando, menos esse.
- Janete...
- Doutora. Me chame de Doutora.
Aparecida. Esse é o nome dela.
- Doutora, você pode...
- Não! Pelo seu bem não vou salvar esse homem. Estou indo embora, trouxe mais alguns materiais hospitalares pra você. Estão na cozinha.
- Janete... Não vá... Por favor... Aparecida está desesperada. Isso é compreensível. Não é todo dia que temos um baleado em nossa cama. E eu sou o pior dos tipos. Ela sabe quem sou. Ela sabe!
A mulata vai até uma instante, onde um pequeno altar foi montado. Nossa Senhora de alguma coisa, com certeza! Ela começa a rezar baixinho, pedindo ajuda a não sei quem. Espero que seja escutada porque essa porra ta doendo pra caralho! - O que eu faço? – ela olha para mim. – Se eu te levar por hospital vão te matar.
Aparecida está prestes a chorar, seguro sua mão. Ela assusta, mas se acalma em seguida.
- Traz as tranqueiras da velha. Me arruma um canivete. Uma pinça, a maior que você tiver.
- Pra quê? Eu não sou médica... Nem enfermeira... Muito menos sei fazer cirurgia. Cuidei de você porque uma vez fiz um...
- TRAZ TUDO! – grito. Preciso colocar essa mulher no lugar. – Você sabe limpar ferida. EU SOU A PROVA DISSO! Você limpa e eu tiro essa merda!- Você é louco?
- Não. Não sou. Agora traz tudo.
Ela obedece.
Tudo esterilizado. A porcaria ta limpa. Hora de virar homem. Respiro fundo. Isso dói demais! Porra! Minha mão treme, não vou conseguir! VIADINHO! Seguro firme a lâmina, levo-a até o buraco da bala, empurro a carne. Isso dói pra caralho! Com a outra mão pego a pinça. Respiro fundo mais uma vez.
- Você não sabe fazer isso! Você não é gado de açougue... Pode morrer. – Aparecida protesta.
- Olha só mocinha, o corpo é meu e eu sei o que estou fazendo. Dizem que... – hora de distraí-la. - ...morte é uma opção. Eu não sou do tipo que desiste. Já fui ferido muitas vezes, já tomei tiro demais pra deixar um pedacinho de metal acabar comigo. Eu fui descuidado e impulsivo. Mas tudo faz parte do plano. Eu queria que fizessem isso comigo, pense bem... – a pinça adentra na carne, isso dói! - ... alguém como eu ser morto por uns merdinhas? Agora eu tenho o elemento surpresa mais uma vez! Para eles estou morto, então agora é só agir na surdina e pegar a bandidagem com calça na mão. Fácil e rápido. Esse tiro. Eu estar aqui... – metal com metal, achei a desgraçada da bala, falar e quase morrer simultaneamente é difícil! Muito! – Tudo parte do plano. Você. A doutora. Agora sim vou poder fazer o que quero... - minha voz falha. - Com liberdade! Vou mostrar meu verdadeiro poder! – que frase ridícula, ela acreditou.
Tiro o projétil do meu ventre.
Aparecida me olha espantada. Nem ao menos viu minha cirurgia de açougue. Mal consegue falar a frase que se segue.
- Sé... Sério?
- Há, há, há! – gargalho. Isso também dói! Pra caralho!
- Tudo isso um plano?
- Relaxa Cidinha, foi tudo mentira. Só queria te distrair. Digamos que... – vergonha, meu rosto só transmite isso. – Esses merdinhas realmente acabaram comigo. Estou morto.
- Você fala muito para um defunto. – rimos juntos, mas só eu sinto dor com isso. – Deixe-me limpar essa bagunça.
Igual uma profissional. Não! Melhor! Um curativo perfeito, uma obra de arte. Tomo alguns analgésicos para dor. Paracentamol para elefante.
- Descanse agora. O remédio vai te deixar sonolento.
- Aparecida...
- Oi?
- Muito prazer e...
- Nada de desculpas. Não as aceito.
Engulo seco.
- Ao menos deixe-me apresentar...
- Eu sei quem você é. Por isso eu fiz o que fiz.
Com as duas mãos ela arreda um armário pesado, revelando meu uniforme e todas as armas. CADÊ A MÁSCARA?

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

As Melhores Coisas Para se Fazer no Motel

Já viso de antemão se você é menor de dezoito anos, continue a ler esse texto, já que se eu falar para não ler, provavelmente você o lerá do mesmo jeito. Mas fique tranqüilo, não falarei de sexo, nem colocarei fotos de mulheres ou homens super desenvolvidos e seminus. Agora sim você parou de ler! Safadinho(a).
Não é mistério a função do Motel. Para aqueles puritanos de plantão, darei uma definição bem direta: é o lugar onde papai e mamãe fizeram você. Bem, se não foi lá talvez tenha sido em algum mirante... Ou debaixo do poste... Quem sabe na sala... Isso não vem ao caso. Aqui vai mais uma definição interessante: Motel é o lugar certo para celebração do amor. Ou de algumas fantasias também, criatividade a parte. E esse tópico não vem ao caso também.
O que tratarei nessas linhas libidinosas são as coisas que você pode fazer em um Motel! Afinal, um quarto fechado, com televisão por satélite ou a cabo, frigobar, mesinha, banheira, Box com dois chuveiros e várias outras lembrancinhas, é o lugar perfeito para diversão. Veja as melhores coisas para se fazer no Motel!
Partiremos do ponto “quarto fechado”, o que isso quer dizer? Isso significa privacidade, quase uma jóia preciosa nos dias de hoje, no qual pessoas clamam por atenção (ver Orkut de pré-adolescentes). Tendo um lugar reservado, longe dos ouvidos malignos das beatas fofoqueiras, o presente último e valioso que você ganhará é algo que se chama... Discrição. Com tal vantagem nas mãos, fantasias podem ser liberadas e o Motel se torna o melhor lugar para... CONVERSAR. Isso mesmo! Converse bastante. Conte tudo. Desabafe. Resolva intrigas. Desvende Conspirações. Sinta-se a vontade para abrir a boca e soltar os demônios nas paredes surdas. Não perca essa chance, dialogue, troque conhecimentos e teses científicas, sem ter medo de espiões e registros roubados. Conversar, aquilo que falta na humanidade, quem sabe assim Judeus e Palestinos... Isso é matéria para outro texto.
Outra coisa super legal de se fazer no Motel é: ASSISTIR FILME PORNÔ. De graça! É só ir mudando de canal em canal, uma hora vai aparecer aquele historinha bacana da mulher que procura o marido em seu trabalho, lá estando somente seu empregado mais peão possível, suado e com barba por fazer, então a troca de olhares revela uma lascívia reprimida, os diálogos são clichêmente montados, perdão o neologismo, e o resultados todos sabemos. Confesse, o melhor do filme pornô é rir das histórias ridículas e da má atuação dos “atores”. No Motel você terá isso de graça! Diversão garantida!

Sabe aquela geladeira em miniatura no canto do quarto? Aquele objeto refrigerador se chama frigobar. Em seu interior estão guardados refrigerantes, cervejas, destilados, daquelelados, energéticos, e quem sabe algo bizarro. Então ao chegar no Motel, ASSALTE O FRIGOBAR. A sensação de estar cometendo o crime libera no nosso organismo um bocado de “inas” e outras besteiras biológicas. O que importa é que você se sente o tal, só lembre-se que tem que pagar depois. Os funcionários do Motel têm tudo registrado em uma câmera de seguran... Brincadeira, eles conferem o quarto depois. Sem mais detalhes.
Provavelmente vocês notaram a mesinha. Qual a função de uma mesa em um quarto de Motel? Não respondam. JOGAR BARALHO é claro! Um truquinho, um buraco (ops!), um mal mal (aí!), um... Deixa pra lá. Mesa serve pra isso não é? Psiu! Não responda. As três dicas até agora são combináveis entre si, converse, veja filme pornô e jogue baralho, tomando aquela cervejinha! É melhor que um boteco, já que você assalta a geladeira! Certo? Errado, dã. Você assalta o frigobar. Repetindo, fri-go-bar! Não geladeirinha.
Agora partiremos para a banheira. Grandinha não é? Então não perca tempo e NADE NA BANHEIRA! Dê umas braçadas, em qualquer estilo! Borboleta ou de costas (iii!). Liga a hidromassagem, imagine o Havaí e essa é sua jacuzzi, confira o fri-go-bar e veja se ele tem algum drink exótico. Viram como um quarto de Motel pode ser o paraíso?
Após esse banho relaxante com óleos e sabonetes com cheio de flores azuis nevada do Jardim da Babilônia, colhidas pelas freiras mancas do Tibet, pegue as toalhas, enxugue seu corpo, monte o chinelo descartável, e LEVE TUDO PARA CASA! Isso mesmo! Sobrou sabonete? Leve. Sobrou shampoo? Leve. Sobrou alguma coisa? Leve tudo! E saia com os chinelos no pé! Provavelmente você nunca irá usar tudo isso, quem liga? É só lembrar dos hormônios e tal. Diversão garantida para umas duas semanas subseqüentes, nas quais você desesperadamente tentará esconder todas essas lembrancinhas, pelo seu falso-puritanismo envergonhado... Depois você esquecerá o chileno no meio da sala, seus parentes vão ver, olhar para você e pensar, “filho-da-puta sortudo, não faço isso há seis meses”.
NOTA: roubar coisinhas de Motel, sua mente poluída!
Agora, honestamente, sinceramente, e toda intimidade entre leitor e escritor, o melhor do Motel é o ESPELHO NO TETO! Deitar na cama e se ver deitado na cama, visão panorâmica completa. Faça umas caretas e veja como Deus te vê... Para quem não entendeu a piada, Deus está no? Céu! E o Céu é onde? Isso! Fique ali olhando em seus próprios olhos, desvende sua própria insignificância perante o universo que o contempla. Sinta seu corpo relaxado, feche os olhos agora, e responda a pergunta: meu reflexo também fechou os olhos?
Deixando as maluquices de lado, imagine fazendo todas essas coisas que apresentei ao mesmo tempo! E dizem que se divertir é difícil! Basta ir ao Motel mais próximo e GOZAR das dicas que carinhosamente apresentei.

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XV: Cachorros Quentes, Jornais e Estrelas de Chocolate

Eu só tenho dezessete anos e não consigo mais segurar! Queria poder desabafar, mas isso é perigoso demais. Não é a melhor coisa a se pensar quando é filha única de um casal católico. Não depois do que eu fiz. Essas idéias de escolha, que podemos agir por vontade própria, livre arbítrio e outro monte de asneira servem pra quê? No fim somos um bando de pecadores mesmo. Isso está me matando. Deveria ligar pra ela? Não melhor não.
Eu nunca faria o que fiz se não fosse ele. O Jack Built. Já faz uns dias que comecei a prestar atenção nesse doido. Claro que ele é doido! Há, Há, Há. Mas ele faz o que quer! Aposto tudo que seus pais fizeram de tudo para impedir. O quê será que pensam dele? É tudo muito volátil. O quê isso significa mesmo? Deixa pra lá. Meu professor de Física falou que ele apenas bate nos caras certos. Já a louca da Laura diz que ele quer ser só mais um ícone pop, só que, segundo ela, o Jack não vai conseguir porque seu nome não é... Esqueci a palavra. Droga! Essa agonia está me matando.
- Luiza, o jantar está na mesa. Não demore, está bem filha? – milha mãe chama para o jantar. Tenho que contar!
- Mãe... – minha garganta trava.
- O quê foi meu anjo?
- Deixa pra lá... – não consigo.
Minha mãe senta ao meu lado na cama, arreda alguns ursinhos e presentes de antigos namorados, já esquecidos.
- Filha, eu estou aqui para o quê você precisar. Eu e seu pai. – minha garganta seca por completo.
Ganho um beijo na cabeça. Ela sai.
Como eu conto algo assim? O mundo deles vai desabar. Eu faço o quê eu quero, não é assim que deve ser? Quer saber! Se alguém pode fazer o que ele faz, eu posso fazer isso! É simples!
O jantar. Três pratos. O número certo de cadeiras. O Jornal Nacional passando. Um jantar... Pode ser o último da minha vida. Eles vão me matar. Me sento. O silêncio é o nosso convidado especial. Minha mãe e meu pai estranham a ausência de minha falação. A falta dos casos que conto. Das fofocas das meninas. Eles vão perguntar... Eu sei! Mas não vou ser covarde. Igual ao Jack!
- Lú. – fala meu pai. – Sua mãe me falou que você não está bem, é o Diego de novo?
- Não pai... – minha barriga está gelada. – É que... – o jornal...
“Morre o vigilante Jack Built. A Polícia Militar encontrou um vídeo de traficantes ostentando a máscara do justiceiro. Segundo os policias, o vigilante foi agredido por mais de vinte homens, alguns foram capturados após uma denúncia anônima na noite de ontem. Dois garotos, salvos pelo vigilante confirmam a informação. Mais informações...”
Eu perdi minha virgindade e não consigo contar pra ninguém...

♦ ♦ ♦

“O corpo do suspeito foi levado para o Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro. Peritos devem fazer um exame de DNA, comparando amostras de sangue do corpo com o sangue de uma camiseta encontrada pela polícia, perto do local do crime.
Os policiais devem seguir para o IML, na tarde desta quinta-feira, para prosseguir com as investigações.”
Lucas finaliza seu texto com a certeza de que tudo não passa de uma fantasia. Uma pena ter que fazer parte do jogo, o jornalista se lamenta. Não há corpo, só sangue e um vídeo amador de um homem fantasiado tomando uma surra. Muito conveniente para o “meio”. Lucas sabe que jornais venderão como nunca, sua vontade de investigar foi literalmente podada com os depoimentos dos garotos que iam ser executados. O jornalista só não consegue entender como juízes e promotores podem levar a sério a narrativa de dois drogados, moradores de condomínio. O fato é que eles foram salvos. Essa deveria ser a notícia. Um brutamontes vendedor de haxixe, balançando uma máscara como troféu é um indício.... A revolta de quem estudou anos para isso é fácil de ser contida, afinal, isso não é seu problema.

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Dois garotos em uma esquina.
- O cara quebro a janela, jogando umas granadas de gás e saiu horrorizando.
- E como você sabe disso?
- Pô, meu irmão ta no hospital! Deu até entrevista pros bacana.
- Sério? Vai passar aonde? Cabuloso.
- Num é? Acho que vão até filmar aqui no morro.
- Filmar o quê?
- Sei lá, vamo enchê o sorriso e da alô pras câmera.
- Já é!
- Vai ter baile pra comemora, ta sabeno?
- E tudo liberado!
Dois garotos em uma esquina, riem.

♦ ♦ ♦

“Não penso que ele deveria morrer assim. É só alguém que quer fazer o certo e não consegue. É como alguns irmãos que vem nos procurar, querem fazer o certo e não conseguem. Tudo que precisamos nessa vida é de Jesus, ele nos mostrará o amor... Como? Sim. Sou pastor. E todos que precisarem podem me procurar, resolvemos todos os problemas, relacionamentos desastrosos, crise financeira, encosto... Posso deixar o endereço mocinha? É...”
João Paulo, pastor.

“Ainda bem que ele morreu. Um primo meu está no hospital por causa dele! O que ele fez? Bem... O... Ele... É...”
Tammy Alves, autônoma.

“Isso é tudo culpa de uma cultura vulgar vigente desde o pós-Guerra. Tal comportamento psico-social estaria extinto se não fosse o êxito americano no século XX. Absorvemos seu modo de vida como buchas sedentas por consumismo. Não é de hoje que a idéia de justiça pelas próprias mãos permeia Hollywood, quadrinhos e, acredite, até a própria mentalidade americana. Se lembram bem do Pato Donald? Hã? Eu não acho que matar é a solução, mas se nesse caso especial, já que Jack é uma doença social oriunda de uma cultura vulgar e imperialista...”
Marcelo Dutra, Professor Universitário Mestre em Ciências Sociais.

“Eu fico triste com a morte de um homem desses. Faltam pessoas honestas no mundo, quando elas aparecem, ou são engolidas pela apatia ou são mortas. Faz anos que não choro por alguém.”
José das Luzes, Policial Militar.

“Jack Built era um herói! E eu gostaria de convidar a todos para a passeata que vamos fazer em seu nome. Quero todos fantasiados de super-heróis ou animês. Qualquer um... Onde vai ser o encontro? Esse domingo no Colégio Marista em Belo Horizonte... Isso, no Anime Festival.”
Joe-chan =D, cosplay profissional.

“Meu… Essa parada é muito louca… Virô mania já. Paia ele ter morrido, o brother tinha pegada. Vai rolar uma PVT... O que é PVT? Private. Que?”
Guilherme Novais, DJ Chesko.

♦ ♦ ♦

- Vai, vai, vai! – grita mais uma voz desesperada no corredor.
Foram dez anos. Dias perdidos embaixo de livros, aprendendo tudo sobre o corpo humano e suas mazelas. E aqui estou no meio do corredor, com feridos e mais feridos lotando todo espaço disponível desse lugar decrépito. Hospital Carlos Chagas. Hospital Getúlio Vargas. Hospital da Lagoa. Hospital Universitário Pedro Ernesto. Não importa qual, todos são decrépitos. Passei anos na faculdade para ficar atrás de uma mesa, para ter “uma vida boa”, segundo meu pai. Agora seguro o braço de um homem, e esse mesmo homem está em outra sala onde tentam não retirar outro membro dele. Isso é um açougue. Desde que ele veio para o Rio, os baleados diminuíram, pouco, mas diminuíram, e os esquartejados dobraram seu número. Eu não gosto de sangue. O que estou fazendo nessa merda? Vida boa não é pai? Salvar vidas. Eu agüentaria. Ficaria nesse inferno por mais uns três anos talvez, depois montaria minha clínica em algum lugar mais... Calmo. Mas salvar vidas... Essas míseras e insignificantes... São todos ratos para mim. Pássaros que quebram suas asas e caem no nosso quintal, pegamos com carinho e cuidado. Fazemos uns curativos e os liberamos para o mundo louco mais uma vez. Fazemos isso com as andorinhas. Com os sabiás também. Entretanto eu me lembro de uma lição muito importante... Pombos são uma praga. Doenças acompanham seu vôo e sua alimentação. São uma praga porque são muitos. São em qualquer lugar, em qualquer ambiente, e mais do que isso... Não servem para nada! Absolutamente nada. Inúteis. Desprezíveis. Nojentos. Porcos alados. O que fazemos com eles? Brincamos. Damos alimento... Até eles começarem a nos incomodar, ai nós os... Matamos.
- Doutor... Me ajuda! Por favor! – grita um pombo no corredor.
- Argh! – geme mais um pombo.
- Porra! Dói pra caralho! Alguém me atende nessa merda! Tô avisando, se demorar eu vô passa geral mermão! – eis o foco da praga.
- Onde dói? – pergunto.
- Num tá vendo não pray?Minha perna ta quebrada... – esbraveja o inútil.
- Aqui? – aperto onde está inchado.
Ele grita.
- Entendi. Onde mais?
- Faz isso de novo doutor e você ta morto! Minha barriga também dói pra caralho...
Costelas quebradas, dois dedos cortados, o indicador e o polecar, hematomas e hermatroses...
- Está vendo essa seringa?
- Que?
- Apenas relaxe.
Enfio a agulha em seu braço.
- Isso arde...
- Eu sei. Você vai morrer em...
Olho para meu relógio, conto os exatos dois minutos, enquanto o ferido esbraveja “eu vou morrer”. Em um hospital... Todos podem morrer. Fico olhando em seus olhos, aguardando o momento em que ele deixa de me odiar, e começará a me venerar como sua única saída... Aí sim... Ele morre.
Eu não ligo para os inúteis, só não suporto aqueles que atrapalham. Repito o procedimento...

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIV: Deus, o Homem Morcego e a Menina Morta (Parte III)

Apaguei mais uma vez. Estou começando a me acostumar com isso. Logo na saída da caverna, justo quando começava a discernir o preto do branco... BUM. Eu apago. Queria ter mais palavras para descrever minhas desventuras na escuridão, mas não tenho. É escuridão e pronto. Talvez eu tenha algum sinônimo para esse substantivo... Sejamos diretos, preciso de mais alguma palavra para descrever?
Acordo. Abro meus olhos cautelosamente, não quero nenhuma surpresa. Preciso recuperar algum senso de lógica. Minha cautela não adiantou. Estou sem meu uniforme. As roupas que me vestem são comuns. Um casaco marrom semi novo, uma calça jeans cinza escuro, e uma camisa social básica. Tudo básico... Menos o cenário. Começo a dar meus primeiros passos e constato que este lugar está abandonado. Me encontro no terraço de alguma casa. Acima somente vejo estrelas silenciosas. Vejo o passado. O piso está empoeirado, cheio de rachaduras e com cheiro de esquecimento. Caminho até a sacada, projetada para apreciarem a lagoa. Me perco por um instante contemplando essa imensidão de água, refletindo também... O passado e as estrelas. Um píer abandonado e desgastado pelo tempo enfeita a superfície indo de encontro à lua, minha única luz neste lugar.
Olho para os lados em busca de alguma saída. Noto que não estou sozinho. Uma menina dorme tranquilamente em meio às colunas de cimento que adornam um alpendre no outro extremo do terraço. Vou até lá em buscar de respostas.
Como ela está em paz. Olhos fechados e quietos. Suas mãos são seu travesseiro. O único macio. Um conforto caprichoso que separa seu lindo rosto do chão velho e mal educado. Sua beleza é tão... Tão apaixonante. Pele branca, cabelos castanhos ondulados, com um aspecto de propaganda de shampoo. Está usando uma camisola, deixando transparecer os primeiros sinais da puberdade. Ela se mexe. Fico paralisado, recuo um instante. Prendo minha respiração, não sei por que, mas não quero acordá-la. Seu sono prossegue, devia estar sonhando. Com o quê? Uma cama confortável talvez. Uma família. Cadê a família dessa garota? Me aproximo pela segunda vez. E de novo me perco em sua beleza inocente. Desvendo mais um mistério de seus atributos, um mísero detalhe que completa sua perfeição... Duas pequenas pintas perto da boca. Tiro meu casaco. Se é que posso chamá-lo de meu. Cubro a menina, tentando protegê-la do sereno. Fazendo a única coisa que posso nesse momento, além de esperar. Não vou acordá-la. Deixarei a mocinha descansar em paz.
Retorno para a sacada. Encosto meu corpo num pila de cimento. Fico feliz por sentir o frio do silicato de cálcio, misturado com aluminato de cálcio. Observo o movimento lento das águas, indo para lá e para cá, seguindo a vontade do vento. Alguns pontos surgem uma vez ou outra, criando pequenas ondas que aumentam paulatinamente até desaparecerem por completo. São peixes, insetos, ou alguém invisível caminhando em minha direção. Deito. Mais uma vez contemplando aquilo que não existe mais, sendo enganado pelos meus sentidos e pela minha insignificância. Sem perceber, adormeço querendo sonhar com aquela menina.

“Por favor, não fique triste. Isso pode ser impossível, eu sei, sofremos quando coisas assim acontecem, mas você!, aquele que é capaz de coisas impossíveis, pode não ficar triste. Sempre te vi como alguém invencível, mesmo não estando aqui. Eu sabia! Sentia você me observando de longe. Por isso me contou seu segredo. Ou melhor, me deixou descobri-lo. Agora é minha vez de lhe contar um segredo. Sei de algo que você não irá fazer. E peço, mais uma vez, não fique triste. Você é o homem mais forte desse mundo, o que mais me amou. Desde o momento que escutei seu nome, sabia que era um Super-herói. O meu. Antes da máscara e do colante. Não chore, faça isso por mim... Não fique triste... Faça o impossível.”

- NÃO! – acordo assustado, suando e tremendo.
Meus olhos procuram a menina. Aonde ela foi? Meu casaco está lá, cobrindo a poeira. Deus, não! Por favor! Não! A lagoa! Lá está a garota, andando no píer, indo em direção a lua. Salto da sacada, são apenas quatro metros. Mal toco o chão e começo a correr. A madeira do píer é velha e está desgastada, sinto sua dor quando pisoteio seus restos. Ouço seu rangido.
- Não faça isso! – grito.
A menina para no final do píer. Ela me escutou! Eu a conheço. Eu a amo! Como nunca amei ninguém. Preciso... Eu preciso... Eu tenho...
- Eu estou chegando! Não vá! – grito, agora engasgado com as lágrimas.
Seu rosto se vira lentamente em minha direção. Deus como ela é linda! Perfeita! Um anjo... É alguém que deveria ser imortal. Ela sorri tristemente...
- EU NÃO SOU INVENCÍVEL! VOCÊ TEM QUE SER! VOCÊ! NÃO EU!
É tudo que consigo gritar antes de cair ajoelhado, segurando meu peito que explode em dor... Meu coração não dói... Ele está chorando! Enquanto a menina afunda como pedra nas águas escuras da lagoa. Indo para onde a luz que reflete na lua não a alcançará.
Rasgo a camisa. Tenho... Eu devo... Salvá-la! Eu vou! Pulo na água. Ignoro qualquer tipo de sensação, me concentro no ponto branco que é consumido pela escuridão. Concentro-me em seus olhos. Ela. Tudo que me importa... Eles se fecham e ela volta a dormir. Em uma cama mais fria e indiferente. Lágrimas saem dos meus olhos, como se alguma diferença fizesse... Não consigo... NÃO POSSO FAZER O IMPOSSÍVEL!
Grito onde o som não é nada. Totalmente afogado é tudo que faço. Tudo que sei fazer.
Silêncio e eu, já estamos íntimos. Não vou deixá-la sozinha nesse mundo. Alguém avise os filhos-da-puta! Avise-os que foram liberados do inferno! Estou voltando.