Mente De Um Zé Que Se Chama Pedro

Este é um espaço para expor meus pontos de vista sobre os mais variados assuntos, desde política até a nova banda que começou a tocar nas rádios. Espero que gostem e que também comecem a despertar seus espíritos para a crítica! Beijos para as mocinhas e abraços para os mocinhos!

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Nome: Pedro Augusto

Um Zé que se chama Pedro.

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XVIII: Dúvida, Amor e Veneno

RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
02:03 AM


Não consigo dormir. Não é a dor. Deixei Aparecida em sua cama, a mesma que venho ocupando há dois dias. Vim até a janela. Para pensar, eu acho. Apenas vim. Apoio meus cotovelos e observo o emaranhado de casas. São milhares! Se amontoam, uma obra infantil. Como blocos de um quebra cabeça mal feito e desorganizado. Nenhuma peça se encaixa aqui. Mesmo durante a noite podemos contemplar a Rocinha, agora calada, dormindo.
A chuva de dias atrás foi atípica, o clima tropical volta a me incomodar. Deixo a janela aberta e caminho até a cozinha. Um bom copo de água como companhia seria bom. Bebo rapidamente, ansiando outro. Chego a babar um pouco. É refrescante. Estou muito viadinho esses dias. Me lembra o começo de tudo. A infantilidade. A maldita inocência. Ser adolescente foi uma fase boa, agora preciso crescer. Dúvidas são para crianças. Se bem que... Todos são até o fim.
Brasil. Ordem e progresso. Penso em nossa bandeira como uma meta. Na verdade acho que essa era a real intenção. Quantos anos de República nós temos? Quantos anos de país? Faltam aulas de história pra garotada. Não. Não faltam. Não há patriotismo nessa terra. Nem deveria. O maior ícone dessa barca é o futebol. Ou então aquele baixinho que inventou o relógio de pulso, e três dias depois de uns americanos inventou o avião. Eu deveria colocar a bandeira do Brasil em meu uniforme. Se é que vou vesti-lo novamente.
Uma rajada de metralhadora perturba o silêncio. Meu coração acelera. A adrenalina programada para agir corre aceleradamente pelos braços e pernas. Sigo o som. Calculo a direção. O tempo para chegar até lá. Qual arma foi usada. Quantos tiros. Imagino todas as sete hipóteses do porquê do disparo. Cinco minutos. Esse seria o tempo para chegar até lá, desarmar e espancar o verme.
Respiro fundo. Sento em uma cadeira. Dura e indiferente. Namoro o copo com a água pela metade. Bebo de gole em gole. Respiro fundo mais uma vez. Penso em minha irmã. Que tipo de mundo eu lhe dei? Penso nas drogas, nos políticos, nas imbecis boas intenções que permeiam isso tudo! Não temo guerras. Esse não é meu trabalho. Por Deus não temos que viver em uma sociedade tão beligerante quanto Ruanda ou Afeganistão. Isso não é menos preocupante. Nem um pouco. O Brasil é violento por natureza. Sua sociedade é autoritária! Reacionária e hipócrita! Passiva e indiferente. E o pior antidemocrática. Respiro fundo. Liberação da maconha! Rio sozinho. Como se isso fosse a solução. Bando de asnos que ainda não aprenderam a comer usando talheres. Marcha da maconha, como eu gostaria de sair descendo a pancada em todos! Me sinto tão infantil, esse é meu trabalho. Dar porrada! Não vejo outra solução. Estamos afogados em boas intenções e particularidades sendo reivindicadas. Uma crise está por vir. Sinto no ar. E o que farei?
Crianças morrem no tráfico. Crianças! Eu me lembro de Ibiza.

Decoração de outro planeta, colorida, chamativa, cativante. Um pulso sonoro constante. Uma batida de coração. Um coração amante. Forte e vigoroso. Em seguida a melodia começa. Leve e romântica. E o coração pulsando sem parar. Barulhos indescritíveis e vozes metalizadas entram na dança. Enquanto estou parado, hipnotizado pela... Festa. A música para. O piano solitário toca uma nota por vez. Seguranças e capangas vêem em minha direção. Devem estar vindo pelo traficante de sintéticos espancado no banheiro, ou pela explosão de uma Van da máfia albanesa no estacionamento. Não! Pelas vinte mulheres escravizadas que entreguei à polícia semana passada. O coração pulsa novamente, as luzes acompanham freneticamente. Até parar mais uma vez. Ah o piano. Como é lindo. Quebro o braço do que aparenta ser o mais forte. Já sei! É isso. Estou de colante. Meu punho afunda o rosto do de rastafari. Antes que a música eletrônica passe a ficar entediante, todos os dez já estavam no chão.

No fim tudo é festa. Tudo é samba. E isso me deixa muito puto. A passividade do usuário. A tolerância da sociedade para com esse. Até a lei o trata com mel. NÃO! Isso não é diversão. É segurança pública.
Passo a noite olhando para o resto de água.

RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
06:03 AM


- Augusto?
Maria.
- Você dormiu sentado na cozinha? – ela está brava! – Por que não me acordou? E o repouso?
- Calma mamãe. – tento sorrir com a cara inchada e o corpo dolorido.
Aparecida balança a cabeça negativamente, e faz seu caminho até o banheiro. Ela tem que trabalhar. E eu também. Hoje vou embora.
Queria conhecê-la um pouco mais. Gratidão eu acho. Tomamos nosso café em silêncio. Aparecida coloca seu uniforme bege e sem sal. Isso não retira o ar carioca de sua beleza. Arruma sua bolsa, com todos os milhares de acessórios indispensáveis. Me troco também. Com roupas de seu marido. Caem bem, apesar de estarem largas e com cheiro de guardadas.
- Estou indo. Vê se dorme direito agora, está bem? – preocupada como sempre. Sempre? O que é isso? Somos íntimos agora?
- Vou te acompanhar até o ponto de ônibus.
E assim o faço. São alguns quarteirões e uma escadaria até chegar no ponto mais próximo. Entre protestos sobre a questão repouso, falamos de coisas triviais. Desde novela, política e de como odiamos a Hebe. Trocamos algumas pinçadelas de teorias próprias a respeito de relacionamento. Maria é madura. Com seus vinte e seis anos. Já viúva. Como sempre – sempre! – nada sobre seu passado, e muito de mim. Falei por alto do Japão e dos Estados Unidos. As ruas estão bem movimentadas. Trabalhadores saem como formigas em direção ao trabalho. Sou um estranho aqui, e todos percebem isso. Uma gorda que anda com dificuldades, devido a suas coxas roçarem umas nas outras, pergunta quem eu era. Sem total discrição. Maria Aparecida envergonhada responde que sou um primo, lá do norte, de Roraima. Ela é de lá? Seu sotaque é tão chato, tão carioca. Continuamos a caminhada com a obesa inconveniente nos acompanhando. Chega duvidar da resposta, solto um “uai” sem querer. Força do hábito. A mentira agora é que estou morando em Minas Gerais. Seu rosto redondo sorri, acreditando. Avistamos o ponto. Um mar de gente aguarda o transporte. Todos com rostos cansados e inchados pelo sono. Todos indiferentes ao cadáver em um canto da calçada. O sangue já está coagulado. Vozes lamentam sem nenhum alarde. Aparecida segura meu braço. Paro e fico olhando para o corpo com quatro furos no peito e dois na cabeça. Um cartaz fixado no poste chama mais minha atenção.

BAILE FUNK – TÔMA TÔMA TÔMA JACK BUILT

Os filhos da puta! Vão comemorar minha morte! Mc Bombinha? Maria segura ainda mais forte meu braço. Não sinto nada. Nem raiva. E a merda do baile é open bar. Olho para os lados. Lembro onde estou. O ônibus de Maria chega. A balofa a chama. Ela não quer ir. Não larga meu braço. Beijo sua testa.
- Obrigado. Por tudo. – não espero resposta, começo a andar.
Viro mais uma vez, ganho uma expressão triste da minha salvadora. Ela sabe que preciso ir embora. O cadáver. Um garoto de dezesseis anos morto. Sorri pra mim. Me esnoba.

RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
09:43 AM

Pego uma mala velha. Maria não ligaria, eu sei. Coloco o uniforme, ou o que restou dele, dobrado sobre o kevlar perfurado. As lâminas eu embrulho no jornal, e as acomodo com cuidado. Escrevo uma carta, nada muito sentimental, apenas agradecendo. Bebo o último copo d’água. Percorro com o olhar todos os cômodos apertados, o coração aperta. Estou muito viadinho. Definitivamente.
Hora de buscar minhas outras tralhas. No hotel e na base naval.
RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
11:13 AM


Não presto atenção no caminho. Em nada. Apenas viajo em meus pensamentos. Para falar a verdade... Não lembro de nada que pensei até aqui. Dou o sinal, salto a alguns quarteirões da base. Vou procurar uma entrada mais discreta. Salto à grade. O abdômen dói um pouco. Corro um pouco abaixado até um tanque. Vasculho o ambiente. Livre. Cautelosamente chego até um caminhão militar. Dois marinheiros passam trocando figurinhas sobre o Flamengo e o Bota Fogo. Espero. Atravesso o pátio sem ser visto. Chego ao meu quarto, meu cantinho especial e reservado. Pego a chave que me deram, abro e me alivio. Tudo está aqui. O rifle, a escopeta americana, meu brinquedinho de escalar prédios, as granadas. Fico surpreso desses militas não terem vindo fuçar minhas tralhas. Guardo tudo em minhas mochilas, que também estão aqui. Hora de ir. A porta se abre.
- Quem será que abriu essa porta? Costa Machado e Oswaldo nem chegaram... – Coronel Manuel Belloto.
Belloto não acredita no que vê. Seus olhos arregalados e sua boca aberta me demonstram isso. Depois da surpresa, vem a vergonha. Talvez ele chegue a lamentar por uns instantes, pelo fato de ter me negado reforço no que seria a maior operação já vista no Rio de Janeiro. Talvez por sua omissão ter custado uma vida humana. Não. A vergonha é passageira. Sua arrogância é maior.
- Enfim vi seu rosto... – uma pausa. – Herói.
Fico calado.
- Então Jack Built sobreviveu. Os jornais sensacionalistas estão errados. Conseguiu sobreviver a todas intempéries. Foi derrotado. Humilhado. Mas seu vigor é grande, e não se permite descansar. Não é herói? – sua expressão agora é pura arrogância, por conseqüência, pura naturalidade. – Você falhou.
Fico calado.
- Não pude arriscar a imagem das forças armadas. São instituições e deviam ser preservadas. – seu rosto magro e velho me irrita.
- Você quer se justificar? – questiono.
- Nunca precisei herói. Não é agora que vou. É só para não haver rancor, ou nenhuma espécie de desafeto entre você... – Belloto se aproxima. – E as instituições desse país. Ficamos orgulhosos pela sua perseverança, garra e amor à pátria.
- Eu não gostei de você desde o momento que o vi Coronel. Você é fraco, como homem e como militar. Um caráter decadente. Só participei disso por respeito ao General Costa Machado. – não chego elevar o tom de voz, mas a mensagem é essa.
Algo que disse o atingiu. Sua arrogância ainda permanece. Triste, mas ainda arrogante. Uma de suas mãos massageia o rosto. Pego minhas coisas e me preparo para sair.
- Espere... – seu braço estica como se quisesse me impedir. – Você é tão jovem. Jamais vi seu rosto. – sua mão ainda massageia seu rosto. – Pare de desperdiçar sua vida. Volte para casa, para sua família, arrume uma namorada, tenha filhos, estude... – sua voz cessa.
Ignoro. Caminho para saída. Penso em Angélica. E em minha irmã... E nela... Vida normal. Só Deus sabe o quanto a quero. Quem sabe esse arrogante não esteja certo. Caminho tranquilamente através do pátio. Alguns soldados estranham, mas é justamente isso que os intimada. Vejo Costa Machado me observando na janela de um dos prédios. Surpreso. Belloto faz sinal para me deixarem passar.
- Você nos amaldiçoou Costa Machado. Não devia ter tirado a coleira desse rapaz.
Hora de esquecer e voltar pra casa.

RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
15:33 PM


- Senhor?
Travo meus pensamentos em algo, enquanto observo as letras e os números de plástico informando horário e preço das passagens. São letras e números amarelos. Belo Horizonte em vermelho.
- Senhor? – uma voz feminina e irritada.
Meu cérebro não está em harmonia com a visão. Ainda olho o amarelo de plástico. O quadro é negro e cheio de furos.
- Escuta aqui! – o som é agudo e o sotaque é cheio de xis.
- Como? – pergunto ao voltar da excursão para o mundo da lua.
- Vai comprar ou o quê? – a mulher é feia, antipática e o seu falar me incomoda.
Maria me acolheu, cuidou de mim, e pronto! Pego um ônibus, volto para meu mundinho, ponto final. Ela merecia ao menos um abraço, um obrigado. Um agradecimento digno. Às vezes me espanto o quanto idiota consigo ser. Se é que posso me considerar um homem. Humilhado. Derrotado. E a única pessoa que me ajudou... Vou ir vê-la! Maria merece! Chego a sorrir.
- Hei! Qual é a tua? – a atendente ela sua voz esganiçada.
Agarro minha bagagem. Mando um beijo para a mal amada e corro até Maria!
RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
16:02 PM


Não foi difícil encontrar o consultório onde Aparecida trabalha. Me lembro do uniforme sem vida que usava, da logo marca, e do nome. Janete Clínica Médico-Cirúrgica. O bairro é elegante, assim como a casa onde se instalou a clínica. Branca com adornos verdes, combinando com a logo marca. Acima da porta de entrada, o nome daquela que se recusou a retirar a bala alojada em meu abdômen. Médica e patroa de Maria Aparecida. Entro na esperança de encontrar a recepcionista que brincou de médica há alguns dias atrás.
- Boa tarde, posso ajudar? – uma moça jovem, com sorriso cativante me recebe. Não é Maria.
- Boa tarde. – retribuo a educação. – Maria Aparecida está? – pergunto.
Isso a surpreende. Não faço idéia por que. Sua educação se mantém.
- O que o senhor gostaria de tratar com ela? – responde a senhorita.
- Na verdade... – tento responder mas sou interrompido.
- Pode deixar Lívia, eu atendo ele. – a voz é um pouco roca, o cigarro causa isso. Cansada também. É Janete.
Por um instante a parcela humana em mim fala mais alto, e meu olhar é grosseiro. Afinal, ela disse sim para a minha morte.
- Entre por favor. – Janete sorri como uma boa anfitriã.
Eu obedeço.
Trocamos alguns cumprimentos. Em seu ambiente ela é segura, não demonstra o medo e a insegurança profissional que demonstrou dias atrás. Pede para examinar meus ferimentos. Permito apenas para entrar em seu pequeno jogo de desculpas, e quem sabe conseguir algumas respostas.
- Incrível. – Janete elogia.
- O quê? O estrago feito? – respondo ríspido.
- Sua recuperação. Maria tratou bem de você. – ela vai até sua mesa, abre uma gaveta. – Tome um desses a cada seis horas, evitará qualquer infecção.
- Obrigado. – guardo os comprimidos em uma das malas. – Não vim aqui pra isso. – sento na cadeira. – E você sabe disso!
- Olhe, eu só não queria... – sua expressão é triste, mas não de arrependimento.
- Problemas.
- Isso. Espero que entenda.
- Entendo, com certeza. – sorrio levemente. – Muito humano. – debocho.
- Eu tenho filhos, marido, família. Uma vida! Não posso entrar nesse fogo cruzado. Já imaginou se algum daqueles... – seu rosto denota nojo.
- Não vim aqui pra isso também. Nem tenho direito de lhe cobrar nada. Vim por Maria. Preciso falar com ela.
- Maria saiu para o almoço e não voltou.
Alguma coisa se mexe dentro do meu peito. Janete percebe a preocupação.
- Fique tranqüilo. – ela me acalma. – Maria ligou, disse que não se sentia bem e que iria para casa.
- Tenha uma boa tarde doutora. – me levanto, não tenho motivos para permanecer aqui.
- Ela estava feliz.
- Como?
- Maria. Ela estava tão alegre ontem. Sorridente, sabe? – Janete gira a cadeira, e parece contemplar a vegetação que decora a vista de seu consultório. – Há anos não a via daquele jeito. Quer dizer, eu nunca a vi com tamanho ânimo. – Janete sorri. – Nem mesmo no dia de seu casamento. Meu irmão é pastor, foi através dele que a conheci. Seu marido era muito religioso, que Jesus o tenha.
- Por que está me contando isso? – pergunto.
- Ela está feliz por sua causa! A coitada sempre viveu a sombra do passado, e pela primeira vez eu vi em seus olhos uma luz de liberdade. – Janete se emociona.
- Honestamente doutora, não creio que tenho...
- Tem sim meu jovem. Tem sim! Não me arrependo de negar-lhe socorro. – como já demonstrou mulher. – Já falei, tenho família, e eles são tudo que importa pra mim. O fato de Maria ter te salvado significou algo para ela que não consigo explicar. Talvez se sinta bem por ter feito uma boa ação. Ou pela sua companhia em sua casa. Quem sabe sua solidão não tenha diminuído. – o pesar surge em sua face. – Jack... Nem ao menos sei o seu nome. Acho justo que saiba de algumas coisas.
- Sobre Maria?
Janete confirma com a cabeça e começa a história.
- Maria Aparecida sempre foi uma mulher triste. Quando a conheci ela tinha somente dezessete anos, e casaria no ano seguinte. Não sorria muito, entretanto sempre era bondosa, tanto com a mãe quanto com o marido. Sei que Maria não gostava das palavras de meu irmão, religião, Deus, a incomodava um pouco. Mas todas as terças e domingos Maria estava lá, junto com o marido, escutando as palavras de Jesus.
- O marido era ruim pra ela? De onde vinha a tristeza?
- Também gostaria de saber meu jovem. – seus olhos cansados encontram os meus. – Sua mãe veio fugida de Roraima para o Rio de Janeiro, quando Maria tinha apenas nove anos. Nunca soube o real motivo de sua vinda. Tudo que sei são conversas tortas depois do culto, e pelo que meu irmão me contava. – Janete fica pensativa, e retoma a narrativa. – Parece que o pai a usava como moeda de troca para índios locais. Sua família era pobre, e naquele norte perdido em meio à floresta, lei é algo tão acreditável quanto curupiras.
- Moeda de troca?
- Não sei de detalhes. Sei que judiavam da coitadinha. Sexualmente, digo. – um ardor me consome. – Sua mãe possuía uma cicatriz no rosto, nunca a questionei a veracidade desses fatos, dizem que ela matou o próprio marido em defesa da filha.
- A mãe de Maria ainda está viva? – pergunto.
- Não. Morreu uma semana após o casamento da filha. Parece que viveu o quanto podia, resistindo o máximo só para ter certeza de que sua filha não ficaria sozinha.
- E o marido, era bom para ela? – questiono com certo tom de dúvida.
- Um homem de família. Da igreja. Um bom homem. – vejo certeza em suas palavras. – Era policial também.
- Honesto?
- Respeite a alma do homem! – sou repreendido. – Honestíssimo. Um santo! O único que sabia de toda a verdade sobre o passado de Maria, o único. A aceitou e cuidou dela.
- Como ele morreu? – pergunto.
- Executado.
- Por quê? Por ele ser policial? – elevo o tom de voz.
- Não, em uma briga de bar. – Janete se levanta, pega um copo descartável e o enche com água gelada, toma um gole demorado. Me oferece. Recuso. – Maria nunca o amou. Eles pareciam mais amigos do que marido e mulher. Mesmo sendo o primeiro e último homem de sua vida, Maria tinha um carinho enorme por ele, mas era um amor frio. Amor de alguém que não se lembrava como amar. Isso o magoava, mas como um homem honrado e correto, ficou do lado de sua esposa. Incentivou seus estudos, tentava lhe mostrar Jesus, a levava para a igreja. – tanto Jesus em uma conversa nunca me incomodou tanto.
- E a briga do bar?
- Uns colegas policiais, que não sabem o limite do álcool, começaram a caçoar do pobre coitado. Dizendo-lhe injúrias e difamações. Insinuavam a infidelidade de Maria, sua frigidez. A chamavam de Virgem Maria. Até que caçoaram algo sobre o passado da pobre coitada. Não lembro o quê. Não houve testemunhas nem culpados para esse assassinato. A versão oficial, não a verdadeira, relata o pobre Roberto como um homem de demasia violência que feriu, sem nenhum motivo, três colegas em uma mesa de bar, e um quarto, em legítima defesa, atirou três vezes, duas no peito e uma na cabeça, matando assim o marido de Maria.
O quão oportuno silêncio. Janete o quebra.
- Maria Aparecida não chorou sequer uma vez.
- Mas ela não tinha um carinho por ele? Mesmo não o amando como você falou? – procuro alguma lógica na expressão carinho sem amor.
- Não me peça para explicar a fisiologia dos sentimentos meu jovem. É uma estrutura complexa demais para a ciência humana, apenas tentamos compreender, ou fingir compreender.
- Entendo... Maria tem depressão.
Janete faz sim com a cabeça.
- Vejo que vai embora.
- Antes queria falar com Maria. Por isso vim até aqui.
- Fique tranqüilo. Mesmo tendo visto seu rosto, seu segredo está bem guardado comigo. – ela é firme no que fala, mas não posso arriscar.
- Eu estou. – sorrio, ficando sério logo em seguida. – Se algum dia me reconhecerem... – Arregalo os olhos e mostro um largo sorriso. – Eu sei a quem procurar.
Pego um cartão com o nome, endereço, telefone da Clínica. Deixo o consultório... Satisfeito com o compromisso que a doutora me fez. Ela guardará meu segredo.
Vou até a casa de Aparecida. Queria poder fazer algo... Lutar contra esse inimigo invisível e parasita. Corrói o coração e assassina a alma. Não tenho poderes para apagar o passado de alguém.
RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
18:17 PM

Maldito trânsito! Depois de pegar um ônibus errado, me vejo parado em meio ao mar de carros, se movimentando como lesmas moribundas. Tudo bem. Me familiarizo com essa parte da favela. Salto da lotação. Penso em Maria. Penso em minha irmãzinha. Subo a mesma escadaria que desci esta manhã. O cartaz da festa de comemoração da minha morte me fita. Dois jovens magros e atrevidos tentam me provocar. Ignoro. Sorte a deles. Chego à porta da casa de Aparecida. Está entreaberta! Meus sentidos se aguçam, largo minha bagagem e corro para dentro. A casa é pequena, em segundos vasculho a sala e a cozinha. A televisão está ligada! O quarto!
- MARIA! – grito!
Lá está ela, sentada na cama, com o metal em suas mãos. A voz da jornalista é conveniente, ritmada. Maria está com um trinta e oito nas mãos, com o olhar vazio, indo de mim para o revólver.
- Pensei que tinha ido. – sua fala é indiferente, apática.
- O que pensa que está fazendo mulher? – sou rude.
Seus olhos travam no metal opaco do revólver, como se me ignorasse. Até que o falar ensaiado da jornalista chama minha atenção.

Estamos ao vivo da coletiva dada pelo General do Exército Costa Machado, onde serão discutidas medidas emergenciais a respeito da segurança na cidade do Rio de Janeiro. A morte do vigilante urbano Jack Built, nas mãos de traficantes na noite do dia quatro de agosto, desencadeou uma enorme discussão a respeito da impunidade e da falência de nosso sistema penal. Veremos agora o protagonista desse debate sobre a Mobilização Nacional Contra o Crime.

O General surge, resguardado da bandeira de nossa República e pelos escudos das forças armadas. Microfones e câmeras registram o momento de sua subida no palanque. Meu coração agora bate freneticamente, como se acompanhasse os flashs dos fotógrafos.
- Augusto? – a indiferença penosa de Maria some.
Um monstro quer rasgar meu peito. Costa Machado caminha até o microfone no centro do palco. Como um político! COMO A MERDA DE UM POLÍTICO! Sua presença é poderosa. Como a de uma cobra! Então eu me lembro de sua voz, forte e determinada... Como agora... Como em frente a cova de seu irmão... Para todo o Brasil!


Eu fui avisado para não vir aqui. Alertaram-me. “Não vá para televisão”. Me disseram. Mas porque eu deveria escutar tal advertência? Quando alguém como ele está morto. Não fique atrás daquele caixão. Não há luto. Nenhuma cerimônia. Esse homem foi o estremo do espírito que vivemos. O desejo puro pela Justiça. Por isso eu estou aqui. Não tenho dado a vocês, o que vocês deveriam ter. Até quando vamos sair nas ruas, andar livremente em avenidas, nos encontrarmos na praia, sem sermos prisioneiros do medo? Nossas esposas conversando, nossas crianças rindo... Enquanto formos prisioneiros do medo, não teremos uma cidade. Me rotulem um fracassado até esse dia. Quando pressupomos uma sociedade democrática, e sim ela foi conquistada. Era isso? O que tínhamos em mente? Essa desordem. Esse caos. Essa impunidade! Essa morosidade! Era isso? O Rio de Janeiro já foi maravilhoso. Não pode ser maravilhoso de novo? Algo de Jack Built, não poderia ser aprendido? Esse guerreiro não poderia me dar o poder, a força, o conhecimento para somarmos nossa coragem para cumprir essa básica, fundamental tarefa? Construir uma cidade em que se possa viver! Apenas em que se possa viver. HAVIA UMA MARAVILHA QUE ERA UMA CIDADE! Era uma maravilha! E não pode ser uma maravilha de novo? Uma cidade maravilhosa onde não temos traficantes, policiais corruptos, matadores, ladrões, pedófilos, miséria, fome! Cidadãos. Todos juntos fazendo um lugar melhor para viver. É algo demais a pedir a vocês? Estamos pedindo algo demais? É além de nossas capacidades? Porque se for, nós não passamos de um gado a caminho do matadouro! Eu não vou cair dessa maneira! EU ESCOLHO DAR O TROCO! Eu escolho ascender e não cair! Eu escolho viver e não morrer! E eu sei, eu sei! O que está em mim, está também em vocês! É por isso que eu peço a vocês agora se juntem a mim! Ergam-se comigo nas asas desse anjo assassinado! Vamos construir na alma desse guerreiro! Pegar sua jornada, seguir em frente! Até essa cidade! Minha cidade! Sua cidade! Nossa cidade! A cidade dele! Ser maravilhosa de novo! Maravilhosa mais uma vez! Eu estou com você Jack, eu sou você.

A jornalista fala algo sobre quinhentos soldados e “a maior operação das forças armadas em ambiente urbano”. Gostaria de ter prestado mais atenção. Gostaria que minhas mãos parassem de tremer. Que meu coração deixasse de ser um animal selvagem! Maria tenta conversar. Abraça minhas costas. Enquanto minha mão sangra. Minha mandíbula trava. Não escuto nada. Não sinto nada, nem o soco que desferi atravessando os tijolos da parece. Raiva. Pura e simples. Algo parecido com um som gutural sai de minha boca.
- Fui enganado Maria. Ele me usou! Sabia que eu não ficaria na coleira. A imprensa foi a parte mais fácil. Apenas jogue carne aos cães! Dê a eles o gozo. Foi isso que ele fez. Me deu um motivo para vir até o Rio de Janeiro. Um propósito. – tento recuperar o fôlego. – Conquistou minha confiança! Alimentou minha vaidade. O maldito sabia que eu salvaria vidas! Então... atirou em mim! COSTA MACHADO ME MATOU PARA COLOCAR O EXÉRCITO NAS RUAS! – grito, cuspindo todos meus demônios na cara de Maria.
- Para Augusto! PARA! – ela também grita.
Seu clamor me faz perceber algo de maior importância no momento. As lágrimas no rosto de Maria. Mais uma vez... Nos abraçamos. Caídos em nossa própria desgraça. Ao meu ouvido sua fala é trêmula e penosa.
- Você me salvaria?
Um gelado percorre minha espinha.
- Sempre.
- Você... vai embora?
- Vou.
Seus braços me apertam.
- Mas antes vou tocar o terror nessa porra de Rio de Janeiro! E você vai me ajudar!
NOTA: Há uma pequena homenagem aos vários discursos feitos pelo ator Al Pacino. Alguns trechos e idéias podem ser extraídos da fala de Costa Machado.

Terça-feira, Maio 05, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XVII: Medo e Delírio

* Em um quarto de hotel, em alguma cidade podre e luminosa.

- Argh! Que merda! De onde surgiu essa mulher? Larga meu pé sua vaca!
- Calma porra. Ela ta só fritando.
- Onde você arrumou essa piranha?
- No avião.
- Que quadros são esses?
- Ela é fanática religiosa e gosta de pintar a Barbra Streisand. A mocinha pediu um remédio pra dormir na viagem.
- E você batizou a parada?
- Isso. Ela surtou. Ficou louquinha.
- O quê você não faz pra arrumar um sexo. Seu doente.
- E isso foi a mais de vinte quatro horas atrás. A vagabunda não para de fritar! O quê agente vai fazer com ela?
- Agente? Bem... Tenho uma idéia. Fanática religiosa não é? Jesus e tudo mais. Conheço uns policiais. Pagam cenzinho cada pra fazer um grupal. Agente coloca uns quadros de Jesus e uma Bíblia no meio. Enfia um sintético nela. Olha essas coxas, essa aí agüenta o tranco.
- Você é doente?
- Eu? Você dopa a desgraçada, e o doente aqui sou eu? Só estou tentando achar um modo de lucrar com isso.


♦ ♦ ♦
- Por que o preto?
- Camuflagem. Funciona muito bem à noite.
- Mas acaba assustando as pessoas, não? - hoje Aparecida tirou o dia para perguntas.
- A idéia é mais ou menos essa. Se eu pulasse na frente de um criminoso, com colete amarelo e azul, imagina! A intenção não é matar o crime de tanto rir.
- Você não teria um símbolo, algo além do preto?
- Te incomoda tanto assim?
- É meio mórbido. – sua boca se fecha e é levada para o canto esquerdo, como um coelhinho.
- Meu nome também não funciona como deveria.
- Verdade. – ela confirma.
Rimos juntos.
- No começo era pior, pode acreditar. – e como era! – Não planejei a parte publicitária de vestir um colante e sair pelas ruas.
- Eu fiquei pensando Augusto. Qual motivo... – sua pele morena segue perfeitamente cada expressão de dúvida, enquanto a luz incandescente é refletida em seus olhos.
- Se eu falar que não sei. Você acreditaria?
- Vindo de você... – ela morde os lábios, tentando conter um sorriso. – Acreditaria sim!
Rimos mais uma vez. Nos damos bem. Isso é fato! Desde que deixei de ficar grogue com os analgésicos, temos conversado bastante. Não saio da cama há dois dias, preciso repousar, os ferimentos ainda doem. Me recupero bem. Maria Aparecida é uma mulher interessante. Curiosa. Muito curiosa para falar a verdade. Acorda cedo e vai para o trabalho, retorna as seis, arruma minha bagunça, senta na cama e ficamos conversando. Segundo ela, eu a salvei das garras das novelas. Não duvido. Pessoas ainda vêem essa porcaria? Nosso papo acaba desembocando madrugada adentro. Não falamos sobre sua vida, tento descobrir algumas coisas, mas quando o assunto é ela, sempre surge uma pergunta para lubridiar o rumo da conversa. Tive que descobrir algumas coisas sozinho, pelo modo de falar, maneirismos, porta retratos e essa cama de casal. No primeiro dia pensei que ela fosse casada, nenhum homem apareceu, nem ao menos foi citado, conclui que Maria gostava de conforto. Não é porque se vive em uma favela que não pode dar ao luxo de algum conforto. Só que essa cama representa algo mais triste. Esse colchão que me acomoda simboliza sua solidão. Camas de casal não são feitas para dormir no meio delas. Foram feitas para serem divididas. Duas pessoas unidas e abraçadas pelo amor, compartilhando o sono. Maria Aparecida é viúva. A foto de um homem vestido com uniforme da policia dentro da Bíblia me contou. Ele era policial militar. Como morreu? A foto fria não é tão sincera quanto parece. Minha salvadora é evangélica. O rádio vagabundo que usa como despertador toca a mesma música todos os dias às cinco da manhã. Algo sobre misericórdia divina, repetindo e repetindo o tempo todo. Não tenho nada contra religiões, mas isso me soou como uma espécie de lavagem cerebral. E se eu falar que a intenção é essa, posso parecer rude, mas tudo aquilo que se repete constantemente tem um fim. E gruda na porra da cabeça. Me peguei cantando sozinho, enquanto mijava.
- Cida, quantas horas? E que dia é hoje? Preciso diminuir a dose desses remédios.
- Seis de agosto. Só um instante que vou ver as horas. – adoro suas roupas de ficar em casa. Um básico estonteante.
Maria corre na cozinha e grita.
- São nove horas!

RIO DE JANEIRO – 06 DE AGOSTO DE 2008
21:00 PM

- Obrigado! – grito agradecendo.
- Vai querer o quê pra jantar? – momento conversa a grito.
Apesar da situação estou gostando de como estamos nos conhecendo. Maria possui um coração bondoso, e de alguma forma Jack Built despertou algo nela. Não descobri o quê ainda.
Tento me levantar, o abdômen queima. Chega de frescura. Não posso me acomodar. Caminho até a cozinha. Maria se encontra agachada procurando algo em uma das estantes de metal, empurrando panelas e vasilhas de plástico. Já comentei de sua bunda? Sou um homem respeitoso, estou tentando evitar pensamentos sujos. Pena que meus olhos não têm consciência. Malditos. Como ela é linda. Seu sotaque carioca nem chega a me incomodar.
- Não, não! – sou repreendido. – Já de volta pra cama! Nada de ficar se esforçando.
Maria fecha a cara e vem ao meu encontro. Segura no meu braço, e começa a me levar de volta para o quarto. Levo minha mão à sua. Seus olhos encontram os meus. Não sinto nada. Não expresso nada.
- Me solta.
- Mas... – não a deixo argumentar.
- Sente-se. – aponto para a mesa da cozinha. Ela obedece. – Olha Maria, eu agradeço por tudo que fez por mim, mas eu não sou feito de seda. Não sou um graveto.
- Eu sei... – seus dentes mordem sua boca mais uma vez.
- Você me trouxe de volta a vida Aparecida! Eu lhe devo isso. Só não se preocupe tanto comigo. Por favor. Sei que esse lance de máscara empolga muita gente, mas... – uma pausa proposital. – Por que você me salvou? Sei que não trabalha pra ninguém que me quer morto. Em dois dias aprendi muito sobre você, mesmo com suas evasivas ao falar de si mesma. Ou é uma ótima atriz, ou estou sendo muito inocente. E acredite, quando se leva um tiro e é espancado, descuidado é o último adjetivo que se aplica a minha pessoa! Vou repetir... – ambos sérios, nos olhamos. – Por que você me salvou? Por que ao escutar tantos tiros... POR QUE VOCÊ SE ARRISCOU TANTO?
- EU NÃO SEI! – ela responde meu grito!
Silêncio, meu velho companheiro nessa cidade estranha. Ele é expulso por uma voz macia, triste e sincera... A voz de Maria.
- Eu não sei Jack... Quer dizer... Augusto. Não sei mesmo! – suas sobrancelhas contraem, sua cabeça abaixa. – Você acredita em mim?
- Vindo de você...
Rimos juntos. Jantamos falando de coisas boas.
- Agora vá descansar mocinho.
- Quem trabalha aqui é você... Mocinha!
- Vou ver um pouco de televisão. – Cida se levanta, juntando as louças e deixando-as na pia.
- Vamos ver juntos então.
- No sofá duro? Seus ferimentos. Não é nada confortável. – bom aviso.
- Tudo bem.
Ela confirma com a cabeça, se vira e começa a brincar com o detergente, banhando os pratos sujos de feijão e arroz com água corrente. Vou até a sala, tiro a televisão da tomada, pego a antena... Agora a prova da recuperação... Carregar uma televisão de vinte polegadas. Os milhares de machucados reclamam! Minha perna treme. Isso é tão fácil. Debilitado de merda! Tenho sucesso. Levo a televisão para o quarto. Arredo a Bíblia, apoiando o aparelho em uma estante. Ligo, testo e pronto!
- O quê você apronto hein, senhor super-herói? – indaga com as mãos na cintura ao entrar no quarto.
- Vamos ver televisão juntos!
A pele morena enrubesce. O convite é aceito.

RIO DE JANEIRO – 07 DE AGOSTO DE 2008
00:13 AM

A luz medíocre da tv luta contra a escuridão do quarto.
- Acho que sei por que você me salvou. – lanço a frase no ar, isso a surpreende.
Maria não fala nada.
- Não tem haver com sua religião, tem? – pergunto.
- Religião? – outra pergunta... dessa vez retórica.
- Você não é evangélica? A Bíblia. A rádio.
- Meu marido era. Na verdade eu tenho diploma e tudo mais, dou minha contribuição para o culto, mas nunca levei a sério. Mantenho a rádio só porque foi o Beto que programou. Era nele que meu marido ouvia os jogos do Bota-fogo, e essa rádio. – ela continua olhando para a tela.
- Como ele morreu?
- Bala perdida.
A frieza do momento não me atrapalha. Nem me surpreende. Notícias são jogadas pela televisão no nosso colo, enquanto falamos de morte.
- Não sabia quem você era. Sabia que você existia. – vez de Maria lançar uma frase no ar. – Por que eu te salvei?
- Você precisa cuidar das pessoas. Eu sou o ápice desse desejo. Cuidar de quem cuida dos outros. Por isso casou com um policial, por isso se arriscou tanto para me salvar. – também não tiro os olhos da televisão. – Sem fazer isso você não se completa.
- Eu não casei porque ele era um policial. Como você chegou a essa conclusão?
- É por isso que eu coloco uma máscara e saio à noite.
A morbidez do momento é interrompida. Não. Aumentada pela voz séria da bela jornalista, vestida com seu uniformezinho engomado, protegida por monitores e a redoma de vidro do jornalismo.

“Mais detalhes sobre a reação das autoridades à presença do falecido, e suposto herói Jack Built no Rio de Janeiro. Como também a comoção das pessoas ao redor do país...”.

Maria se levanta correndo e desliga o televisor! Sinto daqui seu coração batendo com força. O meu? Está calmo, quase silencioso, como a moça do jornal falou.
- Você não está morto! Os jornais e revistas dizem que sim! Mas não está!
- Cida, será que realmente precisamos cuidar dos outros? – as trevas tomaram o quarto, não nos incomodamos com ela. Maria e eu. – Há quase oito anos eu... – engulo seco. – VISTO A PORRA DE UMA ROUPA PRETA! Uma merda! Um caralho de um colante preto! PRA QUÊ? É como me falaram! É ridículo! Infantil! Inútil! Combater o crime... Como eu posso reclamar se eu for morto? EU ESTOU MORTO! Em oito anos a melhor coisa que eu sei fazer é como derrubar um homem em combate. Sou uma máquina de matar... Só que nem isso eu consigo fazer... Não consigo matar a porra de um verme sem me sentir culpado! Jack Built está... morto.
Maria corre até mim, me abraça. Ambos solitários nessa cidade. Ambos no escuro.
*NOTA: Cena adptada do filme homônimo ao título desse capítulo.