Mente De Um Zé Que Se Chama Pedro

Este é um espaço para expor meus pontos de vista sobre os mais variados assuntos, desde política até a nova banda que começou a tocar nas rádios. Espero que gostem e que também comecem a despertar seus espíritos para a crítica! Beijos para as mocinhas e abraços para os mocinhos!

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Nome: Pedro Augusto

Um Zé que se chama Pedro.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

A Crônica do Terno Branco

O terno branco me incomoda. Fico muito visível. Devo confessar que o chapéu branco me deixa charmoso, escondo meus olhos com sua aba. Tento não desfilar enquanto ando, isso é muito anos cinqüenta para mim. A polícia me deu somente um nome... Annie. Filha de um milionário. Tem que ser. Para me chamarem com tanta urgência. Só me deram uma foto, a garota tem dezenove anos, loira dos cabelos dourados e pele rosa. A menina parece um anjo. Pura. Inocente. Foi seqüestrada. É tudo que preciso saber... Se o pai dela tem algum tipo de negócio ilegal, cuido disso depois. Ela está sozinha, com medo, temo pelo pior. Só me avisaram... “Não vá de uniforme, você precisa entrar naquele bar de luzes vermelhas, use esse disfarce”. Um terno branco! Tento amenizar o meu brilho natural com uma camisa azul... Não deu certo.
Esse bar é um antro da escória de nossa sociedade. Falo de criminosos, viciados e putas. O lugar é grande, foi um bordel badalado no início do século, mesmo tendo a mesma clientela o lugar é cinza. Exala podridão e mete medo nos curiosos. A policia raramente vem aqui, quando aparecem é para pegar propina. Meus sapatos brilham sob a luz azul da cidade, estão bem engraxados e são desconfortáveis. Espero não ter que lutar.
Venho pela calçada molhada ao
relento, algumas cabeças curiosas me acompanham. Ignoro-as e caminho com elegância. “Entre, descubra onde Annie está e saia!”. Foram categóricos. Eu não dou a mínima, só saio do lugar com a loirinha comigo. Abro a porta de madeira velha, o letreiro escarlate me cumprimenta. Que tipo de estabelecimento tem sua entrada em um beco, que parece ter saído de filmes noir? Ajeito o palito branco. Meu sapato brilhoso entra em minha frente.
O interior do bar ainda tem seu toque sinistro, mas não é cinza esfumaçado como seu exterior. A luz chega a incomodar meus olhos.
Outra coisa me incomoda. Ou esse terno branco é realmente oitentista demais, ou tenho um magnetismo incrível exalando. Todos no bar em silêncio, nenhuma música, nada, nem sequer um bêbado cantarolando... Quietos demais! Todos sem exceção reparam minha chegada, até aquela prostituta oriental sendo lambida pelo pescoço. A falta de som me deixa nervoso, mordo meu lábio inferior e analiso o ambiente. O balcão do bar relativamente movimentado, garrafas ao fundo e copos manchando a madeira, enquanto o barman luta contra o suar dos vidros. A jukebox solitária e sem utilidade complementa meu visual, estou no passado. Nostalgia, essa é a palavra. Desfilo dentre as mesas, em direção a jukebox, preciso de alguma música ou foi perder a cabeça. Por falar em cabeça, todas me acompanham em uma coreografia sinistra. Eu jogaria a moeda de um real de longe... Se pudesse.
A moeda tintila dando início a uma música velha. Ritmo dançante, agradável, tem seu charme admito. Sem perceber meus pés começam a seguir a melodia, os braços também. Dou um sorriso pelo canto da boca e parto para cima dos olhares curiosos. Hora de começar a... Entrevista.
O quê eu sei? Primeiro, o homem entrou pela janela de seu apartamento. Sei disso pela mancha de sangue deixada em seu carpete. Segundo, ela o viu. Coitadinha, devia estar apavorada. Tentou se esconder sob a mesa, ele percebeu e quase partiu a madeira em sua cabeça. Em seguida, Annie correu para o quarto e foi golpeada. Foi o seu fim. O dia negro era domingo, faz uma semana. A lua era crescente.
O seqüestrador deve ser forte, mesmo sendo mulher um homem sozinho não a dominaria tão facilmente. Annie você esta bem?
A cortesã oriental vem me dar seu cumprimento, oferece seus serviços – não duvido de sua competência – e afirma que o preço é bom. Dou corda, sorrio e jogo meu charme, levantando de leve o chapéu. Ela se oferece de maneira educada para mostrar o bar, andamos em coreografia, passo a passo, ao som da canção.
Suas mãos agarram nas minhas com vontade, e começamos a bailar. A escória a minha volta imita nossos movimentos, preciso ganhar espaço e confiança. Como se confiança fosse o nome do que quero... Como se isso existisse aqui.
Homens discutem atrás de mim. Ignoro. O som da pistola disparando acontece junto com a batida da música, olho para ver melhor o que aconteceu... O terno bege do cara estirado no chão ganha detalhes vermelhos. Esse não é meu trabalho. A dança não para. A briga continua, socos e chutes são a sonoplastia agora. A cortesã oriental de cintura fina, deixa de rebolar comigo e vai apartar a luta. Outra não menos bela, mas mais formosa em seus atributos me agarra, e passamos a rebolar junto.
Sem mais delongas, abandono-a e vou em direção às escadas. Seu rosto é triste, como se eu fosse o tesouro em meio a esse esgoto de apostadores, viciados e bêbados.
O segundo andar é ainda mais podre. Jogos de cartas, dados, sinuca são os meios mais eficientes de ganhar algum dinheiro. A fumaça dos cigarros e charutos toma o lugar. O cinza da noite agora domina o ambiente interno, respirar é uma arte. O cara de fuinha se apressa em não me deixar subir, pego seu braço e faço-o rodopiar duas vezes do ar. Preciso achar Annie. Um negro do tamanho de urso me olha furioso. Os outros a seu lado compartilham o mesmo sentimento, espero que não sujem meu terno branco. Corro até a mesa de sinuca. Pego uma bola. Acho que era a sete. Jogo como um exímio arremessador, acerto a cabeça do careca ao lado do grandalhão. Pego o giz próximo a caçapa, amasso-o em minhas mãos. Dois deles correm com os tacos na mão, abaixo antes que a madeira rache meu crânio. Passo a rasteira nos dois ao mesmo tempo, não vão dar mais trabalho. A pele negra do homem agora está púrpura, deve ser raiva. Ele parte o taco, como se um graveto fosse. Abro a palma da minha mão e assopro todo o giz em sua cara! O pó arde em seus olhos. Continuo minha jornada pela cozinha do inferno.
A luz azul da cidade ilumina os degraus, subo cautelosamente, meus pés ainda acompanham a batida dos anos oitenta. Ao fim da escada, uma mulher de beleza selvagem me agarra. A juntada chega a ser confortável, apesar de forte. Meu joelho agora roça a parte inferior de sua coxa macia. Agarro sua bunda, trago-a para perto. Ela arrepia com meu hálito de menta. Beijo seu pescoço, buscando o caminho para seu ouvido.
- Onde está Annie? – pergunto com a voz charmosa.
Escuto um tapa. Um homem, bem vestido até, se não fosse a cor salmão de sua camisa, começa a bater em uma das prostitutas. Não na minha frente garotão! Meus sapatos brilham, meu chute acerta o peito do homem, que alça vôo e cai até o primeiro andar.
- Você está bem? – pego a mulher nos braços.
Mais vozes e palavrões me amaldiçoam. Corro até elas e as calo com meus punhos. Um dos malditos tenta me acertar com um porrete, desvio e dou a ele um novo tipo de dor.
As putas vêm até mim, preocupadas. Tento acalmá-las, passo por isso quase sempre... Um brilho reflete nos olhos verdes da cortesã. O reflexo de uma lâmina. Agarro o metal do revólver dentro do palito, sem ao menos olhar para trás, aperto o gatilho. Tudo que escuto é um urro. Faço meu algoz desaparecer. Me lembro de Annie. Pego a foto e mostro para as mulheres.
Nenhuma soube me informar. Nenhuma quer falar!
Desço pela escada a minha frente, direto para o primeiro andar, onde pessoas ainda dançam, apesar de algumas já terem notado o corpo estranho em seu organismo pútrido.
Corro até o palco. Pego o microfone! Grito para chamar a atenção de todos. Ergo a foto de Annie! Quatro homens sentados na mesa ao centro parecem se incomodar, atravesso todo o salão, subo em sua mesa, jogo a foto na cara de um deles.
- ONDE ESTÁ ANNIE? – faço o máximo para parecer um monstro. Forço o gutural, como se um demônio fosse.
As luzes se apagam! A vidraça do teto estoura! Os cacos sibilam no ar, caindo como chuva. Somente o azul macabro da noite ilumina o bar. Não penso duas vezes. Faço o dente de um dos caras, estragar meu sapato engraxado. Parto para cima deles com tudo que tenho. São uns beberrões e não conseguem brigar direito. Quebro o braço de um deles tranquilamente, e o lanço de cabeça na jukebox. A música para. Teclas de piano soam quatro vezes. Notas solitárias aos gemidos na escuridão.
Uma mulher grita! Não! Uma garota! O grito é juvenil! Minha visão ainda não se acostumou às trevas, tento segui-lo pela audição. Sou obrigado a machucar mais alguns imbecis. Empurro o último corajoso, largo sua carcaça mole em cima de uma garrafa de gim. Outro grito de Annie!
- ANNIE VOCÊ ESTÁ BEM? – grito!
As luzes de acendem! Minhas pupilas retraem. O salão agora está mais vazio, e mais homens vêm em minha direção. Cinco! Eles avançam juntos, são espertos. Tenho espaço livre o suficiente, esquivo de todas suas investidas. Passo uma rasteira em um deles. Um soco quase arranca meu chapéu branco, isso me deixou nervoso. Uso os cotovelos para causa mais estrago. Golpeio três deles ao mesmo tempo, de forma tão rápida que nem ao menos conseguem acompanhar. Deslizo com meus sapatos brilhantes, o chão encerado ajuda. Escapo ileso de mais uns golpes. Acerto as bolas do gordo a minha frente, isso o imobilizará. Pulo em um giro, rodando meu pé e acerto a orelha do último deles.
Avisto Annie sendo levada para a saída do bar. Tento correr até ela, mas sou impedido por TODOS! Quando menos espero, me vejo batendo em cada ser vivo daquele lugar. Homem ou mulher. Todos que avançavam, armados ou não. Tinha que ser rápido! Causa o máximo de estrago, no menor tempo possível! Usava as penas e os braços com destreza. De algum modo o terno branco não atrapalhava meu bailar.
Consigo escapar dos milhares de braços, e chego perto de Annie. O homem que a segura tem os traços fortes, e arranca uma metralhadora de não sei onde! Desarmo-o me valendo de golpes certeiros e fortes! Ele sente cada um deles. Faço esforço para isso! A garota está amedrontada.
- Está tudo bem Annie. – tento tranqüilizá-la.
As janelas que permitem a entrada do azul noturno, revelam silhuetas de pessoas... Fortemente armadas! Chamarão reforços! Pego a metralhadora do homem caído aos meus pés, e miro para as janelas. Colo do dedo no gatilho e tento controlar os coices da arma. Os vidros se partem, a chuva brilhante agora virou uma tempestade! Annie se esconde atrás de mim. Quando a arma para de cuspir as balas, largo-a no chão e falo para Annie.
- Está tudo bem! – dou um pequeno sorriso. – Vamos embora.
Com a respiração ofegante, partimos juntos para o cinza indiferente da noite.

NOTA: Essa crônica é uma homenagem ao grande e único... Michael Jackson! Assistam o video Smooth Criminal, caso não tenham entendido a homenagem.


Quinta-feira, Junho 25, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XXI: Néon

RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
13:58 PM


Sábado e o trânsito não ajuda. O ônibus não está tão cheio, isso alivia um pouco. Me da chance para respirar. Maria está pensativa olhando o céu. Eu, mais inquieto impossível. Fico apertando o ferro com minhas mãos. Mordo meus lábios a cada minuto que passa, além de ficar olhando para lá e para cá, sem nada para olhar. Não prestando atenção em nada. As nuvens tomaram conta do azul, o dia agora está cinza. Melancolicamente cinza.
Um General doente prometeu me caçar. Fui morto por traficantes há quase uma semana... Suspiro, abaixo minha cabeça, na tentativa de aliviar a inquietação. Fecho os olhos. Eu sou um controlador. Preciso ter algum controle, e perdi todo o senso aqui no Rio de Janeiro. Minas Gerais é meu território. Belo Horizonte minha cidade! Lá eu mando! Apareço e todos sabem o que significa... Dor garantida para quem quiser brincar de bandido. Aqui não. Falta a sensação do preto no branco do meu trabalho. Vou ter que sair dando pancada em soldados e traficantes. Isso não é bom. Para o... Caralho! Você tem que se encontrar rapaz... Não está na idade de ficar bancando o viadinho. Trânsito da porra! Tudo parado. Soco a barra de ferro. Maria se assusta. Igualmente o passageiro a minha frente, um senhor com a face cansada. Olho para os lados tentando esconder a vergonha. Agora sim percebo onde estamos! Já chegamos perto da Rocinha, as casas empilhadas no que uma vez fora um morro já estão visíveis.
O vidro do ônibus se quebra! Sons de estouros seguem vindos da favela.
Agarro Maria e deito por cima de seu corpo no chão de metal frio. Alguns passageiros imitam o meu movimento. Nunca meu corpo esteve tão próximo do dela, sinto sua pele macia, rígida e... O aroma de seus cabelos seduz meu olfato. O som de um helicóptero passa por nosso ônibus, aguardo alguns instantes e ele aparece através da janela estilhaçada. Sirenes de polícia abafam as buzinas desesperadas. A adrenalina começa a fluir pelo meu corpo, minha pele sente falta do colante e meu peito da proteção do kevlar. Pessoas podem se ferir com... Um gemido de dor vem do outro lado do ônibus. O homem com uniforme azul, crachá no bolso, da um espasmo e revela o sangue em sua barriga.
- Maria! Ligue para uma ambulância! – me levanto rápido e começo a correr para a saída do ônibus. – ABRA A PORTA MOTORISTA!
- Onde você vai Augusto? – Maria questiona com a expressão de desespero.
- Onde você acha? – respondo fitando seus olhos e os demais olhos naquele ônibus, que também fazem a mesma pergunta.
Maria morde os lábios temendo o pior. Salto do ônibus assim que a porta se abre. Outro tiro acerta a lateral do veículo. Pessoas saem dos carros e se abaixam no asfalto sujo. Corro no labirinto de carros, pulo a barreira de aço que separa as casas da avenida. Pessoas gritam, e correm em minha direção. Não para mim... Para longe da guerra e dos tiros. Sou obrigado a dançar no meio delas, desviando de cara rosto amedrontado. Uma mãe corre com o filho dos braços. Uma rajada de metralhadora dá ao ambiente a trilha sonora adequada! Comércios fecham as portas. Duas Blazers da Polícia Militar cantam os pneus a minha frente, fechando a rua. Ignoro-as e sigo correndo o mais rápido que posso. O helicóptero é meu guia. Avisto um cadáver no meio da rua, passo por ele tentando obter alguma resposta. O corpo é gordo e está suado, segurando um fuzil. E é claro, um buraco no meio do peito minando sangue. A minha frente alguns policiais feridos se protegem atrás do poste, trocando tiros com as casas acima dos morros. O helicóptero está parado, uma arma aponta em sua lateral e começa a atirar. Os cartuchos usados caem como chuva dourada.
- Sai daqui porra! – grita uma voz atrás de mim. Um policial. – Quer morrer caralho?
Não respondo.
- Sai pra lá seu imbecil! – o outro a seu lado também ofende. Ambos armados vão ao socorro dos companheiros.
- Por que só duas viaturas? – pergunto com a voz calma e serena.
- Não é da sua conta! – eles me empurram, e vão até a linha de tiro.
Milícias. Não é um confronto com traficantes ou bandidos normais. A outra ferida infeccionada da pele do Rio de Janeiro. Milícias de ex-policiais civis, militares e até integrantes das forças armadas. Invadem as comunidades carentes, prometendo segurança e outras blasfêmias. Agem ao arrepio das leis. Os filhos da puta tem treinamento! Tem treinamento! Cobram por essa proteção, sem direito a constituir o devedor em mora... Fuzilam e expulsam os inadimplentes. É uma indústria e tanto. Envolve políticos corruptos, eleitos pelo medo e pela chantagem. Um animal difícil de se abater... Para os policiais comuns... Não para mim!
Agarro o fuzil do miliciano morto e me esgueiro pelos becos apertados. Subo o morro na lateral do confronto. Tiro a blusa e a uso como máscara. Devo estar parecido com um palestino ou... um completo imbecil. Surge alguns garotos correndo, chorando. Se intimidam com minha presença e ficam paralisados a minha frente, acelero o passo em compaixão. Os tiros estão cada vez mais altos e claros. Armamento pesado. Não sei dizer qual. O helicóptero recua. Mais sirenes e gritos dão o som a essa guerra. Mal caibo no beco que se segue, os disparos estão mais próximos. Caminho vagarosamente, curvo meu corpo, apoio a parte de trás do fuzil do meu ombro. Chego ao fim do beco. Os disparos estão vindo de algum lugar próximo. O helicóptero retorna e metralha algo a minha direita. Viro para o lugar, com o fuzil apontado para frente... Uma casa! Homens pulam as janelas fugindo dos disparos. Aos berros um deles dá ordens para se espalharem. Todos estão armados, com metralhadoras e pistolas. O maior deles usa uma doze. Estão próximos... Muito... Meu dedo coça. Quase chego a apertar o gatilho... As balas sairiam nervosas e violariam com facilidade a carne dos milicianos... MERDA. Largo o fuzil e parto para cima deles. O som das hélices me da a furtividade que preciso. Os milicianos atiram a esmo. Balas perfurantes e desespero são um perigo... Ainda mais com casas tão próximas. Tenho que ser rápido. O maior deles, usa uma camisa pólo laranja, me vê, grita e atira com sua espingarda. Dou um salto, rolo no chão e a poeira do asfalto destruído pelo disparo suja meu corpo. Ele arma novamente a doze. Azar o dele estou perto demais. Dou um pequeno salto, e direciono meus pés para seus joelhos. Ambos se partem. Com direito a fratura exposta e muito sangue. O grandão esperneia como um bebê. Pego sua doze e miro na porta de ferro. Atiro. A porta cai! Outro miliciano me avista. O desgraçado atira freneticamente, com o dedo colado na Uzi. Me jogo para dentro da casa. CARALHO! Outros quatro aqui dentro! Desviam sua atenção do morro abaixo deles. Dos policiais. Se viram preparados para atirar. Mais uma vez sou obrigado a ganhar o ar e caio dentro de um pequeno banheiro, tudo atrás de mim vira pó com milhares de tiros! O homem fora da casa grita. Vítima de seus próprios companheiros. São quatro. Armo a doze atiro nos azulejos do banheiro minúsculo e fétido. Puxo mais uma vez a madeira da espingarda. Atiro na parede! Os milicianos recarregam suas armas. Jogo a doze no vazo, ainda amarelo pelo mijo. Respiro fundo. Lanço adrenalina para os músculos certos. O diafragma é bombeado. A energia é acumulada. Uso a lembrança de Costa Machado ao meu favor. O ódio é minha ferramenta agora!
- RRRHHHUUUURRRRYYYYAAAAHHHH!!!! – exorcizo a besta dentro de mim.
Meus pulsos destroem os tijolos vagabundos, mas somente após esmagar os azulejos beges e de extremo mal gosto. Atravesso a parede como se de papel fosse. Essa merda vai doer muito amanhã! A poeira e as migalhas batizam meu corpo. Os milicianos perdem preciosos segundos assustados com a cena. Tempo o suficiente para que eu os alcance. Primeiro passo é desarmá-los. Os dois primeiros foi fácil. Exagerei na força de meu chute, e um deles imita minha manobra, só que com a cabeça. Minha perna direita é mais rápida e mais forte, desmaio o outro com um só golpe. Os restantes ainda têm fôlego, terminam de recarregar suas pistolas e apontam para mim. Faço meu punho desviar a pontaria de um deles. O tiro acerta o teto. O mesmo punho desvia a pontaria do outro 38 que me ameaça. A bala acerta um televisor de 29 polegadas. Com facilidade ambos beijam a lona com os dentes da frente. Nada de cortar carne mais colegas.
Silêncio. Respiro ofegante. Isso é muito bom. Mal reparei que estava sorrindo.
O som das hélices está mais próximo. Passos apressados também se revelam. A polícia. Me preparo para ir embora, agarro um palito horroroso para o disfarce... Calma aí... Um computador. Quantas informações não podem estar aí... Abraço a torre como um bebê. Não vou deixar você ser destruído por incompetentes e corruptos. Parto me esgueirando pelo morro. E claro... Tiro a camisa da cara.

RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
15:48 PM


O segurança do hospital não resistiu nem dez segundos. A recepcionista de sorriso metálico grita eufórica às minhas costas. Ignoro-a. Sei que minha aparência suja de cinza pelo pó de cimento, de laranja pelas migalhas de tijolos, e o suor que não deixa meu cheiro o mais agradável... Não é das melhores. Pô! Mas tinha que chamar a segurança. Tsc, tsc. A porta automática do elevador se fecha, me lembro da mulher de Firmato. Ela fitava os números digitais vermelhos. As lágrimas tomavam seu rosto... E eu... Um completo idiota. Suspiro. Devia pensar mais nos sentimentos alheios. Será que não entendem que isso me enfraquece? Se eu parar pra pensar em minha mãe, ou no meu pai, não conseguirei fazer o que faço! É por isso que criminosos vencem. Sua família ou é sua arma ou seu escudo. Nunca um motivo para arriscar sua saga lucrativa que solapa leis. Eu TENHO que fazer isso! POR QUÊ NÃO ENTENDE QUE TIVE QUE IR EMBORA POR ISSO? Agora não é lugar para lembrar do passado... A porta automática saúda o corredor branco. Caminho até o quarto de Firmato.
- O quê? – o delegado se assusta.
- Um presente para você. Para incentivar a sua opinião contrária... – respiro um pouco. – Para me ajudar.
Deixo a torre do computador ao lado das flores, que enfeitam uma mesa ao canto do quarto. O lugar cheira a hospital. Agora mais do que nunca as dores passam a aparecer.
- Suas mãos homem... – Firmato comenta.
Percebo o porquê do espanto. Estão feridas. Os calos não foram o bastante e a pele está um pouco rasgada. Nada fatal. Vasculho uma pequena prateleira. Encontro alguns analgésicos. Paracetamol, Tylex, Novalgina... Isso é um santuário. Tomo alguns comprimidos.
- Qual o conteúdo desse HD? – questiona Firmato, olhando curioso para os remédios.
- Acabei de espancar uns milicianos. Provavelmente “pés inchados”. – os que fazem o trabalho sujo. – Essa torre estava lá. Alguma senha de e-mail e pronto! Políticos e alguma galerinha do topo... – aponto para o céu com meu indicador. – Vão estar ligados a esses pés-rapados. O armamento era pesado. Mas dei conta... – um auto-elogio.
O elevador apita no corredor. Passos apressados e duros caminham até o quarto.
- Tenho que ir doutor! – sorrio. – Espero poder contar com você. Não te incomodarei mais...
Apoio o pé e me preparo para sair pela janela.
- Jack... Esse é o sétimo andar... – afirma o delegado, como se fosse o maior absurdo que aconteceu nessa sala.
Dou uma piscadela e vou até o vento refrescante da altitude. Pensei ter ouvido um... “obrigado”.

RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
17:52 PM


- Maria! Você tem que trancar essa porta menina.
Entro fazendo muito barulho, revelando minha presença. Ela não responde. Está vidrada nos monitores. Um verdadeiro oráculo da cidade maravilhosa. Chego a achar engraçado. Maria é muito eficiente. Talvez com um treinamento certo... NÃO! Você é um lobo solitário e maluco, nada de tragar inocentes para essa sandice sem sentido.
- Tá... – ela é seca e direta, sem querer ser grossa.
- Preciso de um banho. – retiro o palito, que não serviu muito bem como disfarce.
- Tá... – mais uma vez.
- Fez as malas? – pergunto.
Agora sim tenho sua atenção! Ela se vira com os olhos saltando em minha direção. Tenta conter um sorriso sincero. Sua face brilha... Isso também me cativa. De alguma forma estamos sorrindo como bobos.
- Você falou sério Augusto?
- Claro! Chega de clima tropical o ano inteiro e funk. – sou sincero, apesar de reduzir o Rio a uma frase pejorativa.
- Sua mãe... – Maria balança a mão, como se começasse a fazer uma contagem. – Seu...
- Relaxa mulher... – tiro a camisa e a jogo no canto. – Somos bons de inventar mentirinhas!
Ela sorri e se volta para os monitores.
Demoro mais do que devia no chuveiro. O quê eu vou inventar para minha mãe? Puta merda! “Mãe, essa é a mulher que salvou minha vida no Rio de Janeiro. Como temo pela sua segurança, a trouxe para casa. E mais! Seu filho é o vigilante que recentemente morreu... Como pôde ver nos jornais. E...”. Estou completamente... Fudido! Maria pode ser minha namorada... Não! Deixo a água lavar minhas feridas. Abro e fecho as mãos para ter certeza que nada quebrou. Sei que faria Maria feliz ao levá-la comigo. Chega de sofrimento em sua vida, vou fazer o máximo para aliviar sua existência. Me lembro do dia em que estava com a arma de seu ex-marido nas mãos. O dia em que eu iria embora... Será que ela... Não. Ela tem depressão e eu aqui preocupado com bandidos. Traumas de infância e uma vida sofrida... O inimigo de Maria é maior e mais forte do que eu. Invencível. Impossíveis de se vencer na base da violência. Ah... Simples e fácil violência. Destrói mais não cura...
Desligo o chuveiro. Enxugo as partes molhadas de meu corpo. As dores começam a surgir. Vou até o espelho. Caramba como estou feio! Vaidade foi a última coisa que tive por aqui. A barba está grande, coça um bocado. Como não notei antes. O cabelo despenteado, parece um louco. Enxugo-o com a toalha, piorando a aparência. Faço umas caretas. Puts!
- Maria! – grito.
- O quê Augusto? – ela devolve o grito.
- Você tem alguma lâmina por aqui? – grito mais uma vez.
- Tirando as suas armas? – parece que encontramos um novo meio de nos comunicarmos... Piadinhas e gritos!
- Engraçadinha. – murmurei. – Preciso fazer essa barba. Estou parecendo um viking.
Uns instantes se passam. Maria bate na porta do banheiro. Abro. Um braço surge tímido, com uma gilete rosa.
- Isso servirá? – a voz mal sai de sua boca envergonhada.
- Claro.
A porta bate. Misturo a água no sabão para criar espuma e começo a desenhar o rosto. Brinco deixando um bigode francês. Costumava fazer isso na adolescência. O bigode me deixa com um ar mais maduro. Quem sabe... Não. Passo a lâmina e arranco os pelos que faltam.
Chego no quarto e sou surpreendido por Maria... Minha pele aquece de maneira mágica, excitante e indevida... Somente de calcinha e sutiã. Dou um salto para fora do quarto. Ela não me notou, ainda bem. Tento usar a respiração para acalmar... Bem... Acho que entendemos bem o quê deve se acalmar. Estou somente de toalha. Maria tem o corpo tipicamente brasileiro, mais do que perfeito. Um metro e sessenta e poucos, ancas largas, coxas bem delineadas como se fosse atleta, a cintura é delicada, a gordura que ali insiste em ficar é um charme, boa para a pegada... Respeito homem! Seu rosto juvenil é só mais um adorno a esta perfeita obra de genes nacionais.
Ela sai do quarto, perfumada e bem arrumada. Calça jeans e um salto que nunca a vi usar... Acho que ninguém nunca a viu usar. A bata que eu lhe dei de presente é mais bonita nela do que no manequim. Fico boquiaberto por alguns instantes... Noto que está envergonhada, seus ombros se fecham...
- Por... – demoro a completar a frase. – que? – é tudo que falo.
- Vamos sair hoje. – Maria sorri ousada. – Acabei de ver Joãozinho e seu irmão brutamontes indo para um clube noturno. Acho que era uma boate ou algo assim... – ela franze o cenho, como se pensasse. – Você disse que precisava pegá-los hoje.
Isso me assusta. Essa eficiência! A primeira vez que a vi tudo era tão... Triste nessa casa. A foto do marido morto. O passado indecifrável. Agora isso. Preciso cortar suas asas, infelizmente.
- Eu vou! – aponto para ela com o dedo indicado. – A senhorita vai dormir!
- E se o General vir atrás de mim? – isso era para ser uma brincadeira.
Fico sério. Gelado como o inverno russo. Olho de forma ameaçadora para Maria, a brincadeira não foi bem vinda. Suas mãos tocam meu rosto recém barbeado, acariciando-o. Não adianta. A inquietação voltou. Seguro-a pelos pulsos, retiro suas mãos.
- Você conseguiu o que queria. – sou frio. – Você vai comigo.
- Relaxe Augusto. Acha mesmo que o General faria algo de mal? – ela tenta argumentar. Costa Machado é um monstro manipulador... Algo em mim diz que ele não desceria a esse nível. Me tranqüilizo por um instante. – As conversas no bairro que me preocupam. Se cair algo no ouvido errado... É com os donos do morro que temos que nos preocupar.
- Desde quando você foi de se preocupar com você mesmo. – bombardeio, me arrependendo logo depois.
Maria engole seco, como se engolisse um pranto. Sai para a cozinha. Me visto. Olho para o armário que esconde meu uniforme. Meu colante. O toque de Maria ainda continua em meu rosto, não entendo bem minha ligação com ela, queria a máscara agora.
- Vamos. – comando.
Maria obedece, pega um papel com o endereço anotado, apaga as luzes, e vamos em direção ao ponto de ônibus.
Curioso. A noite está amena, quase um friozinho elegante. As nuvens tomaram mais os céus. Um chuvisco impertinente cai sobre nossas cabeças, nem chega a nos molhar. Os postes são nossa companhia, todos estão em suas casas, aproveitando a programação de um sábado à noite. O bar ao longe convida os solitários e excêntricos. O samba é o som da vez. Ritmo constante, alegre e confuso. Olhares curiosos me atingem quando passamos em frente ao dito bar, isso me preocupa. Mais por Maria do que por mim. Continuo andando como se nada estivesse acontecendo, como se eu não fosse um estranho em meio ao sotaque chiado, como se eu não fosse jovem e bonito com a viúva puritana e evangélica do bairro!
Entramos no primeiro ônibus e zarpamos rumo às luzes de néon da cidade maravilhosa!

RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
21:05 PM


Os solavancos do ônibus não me incomodam mais. Acostumei, eu acho. Muito menos as curvas. Somente os garotos segurando armas me dão arrepios. Vejo alguns em uma esquina macabra. As coisas se confundem aos poucos, falo das casas mal acabadas das favelas e os prédios que se espremem para caber cada vez mais gente. O asfalto é a ligação de tudo. As veias do organismo vivo... A cidade dos homens. Se Deus fez uma coisa bem feita, foram os engenheiros. Meus dedos estão entrelaçados nos de Maria. Seus dedos são magros, mas a mão é graciosamente gordinha.
- Vamos parar próximos a praia, de lá teremos que pegar um táxi. – sua face denota certo desconforto.
- Maria, você está bem? – pergunto demonstrando preocupação.
- Nunca sai. – sua resposta é tímida.
Não quero prolongar esse assunto desconcertante.
- Você está maravilhosa! Vamos dançar muito! – falo alegre.
- Mas...
- Os irmãos drogados? – me porto como alguém excessivamente confiante. – Deixo-os para o final da noite. – dou uma piscadela. Ganho um sorriso. – Vamos descer.


RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
21:35 PM


O calçadão é movimentado. Turistas tiram fotos como se o mundo fosse acabar, tudo é novidade para eles. Jovens conversam em um volume alto demais nos quiosques, me lembro do chopp com Angélica. Procuro em vão por um rosto conhecido. Nenhum. Aonde estão os atores e atrizes? Agora que preciso de um apoio, um rosto conhecido... Maria e eu. Na balada. Ai, ai... Tenho que me segurar.
- Augusto! Vamos! – Maria me chama ao para um táxi.
Obedeço.
A entrada do clube é movimentadíssima. Vários carros e indivíduos disputam um lugar na rua. A porta da boate é bem decorada, faz o que deve fazer, chamar atenção! Seguranças de preto, dois deles, cobertos de massa muscular e tatuagens, controlam a entrada. Os letreiros coloridos de roxo encantam um nome, não presto atenção. Ainda estou procurando um rosto conhecido, mas para esmagá-lo logo após. Eu e Maria estamos de mãos dadas, como um casal. Ela está espantada, chega a grudar o corpo em mim cada vez que um bêbado passa por nós gritando. Da entrada sinto as batidas eletrônicas, harmônicas com o piscar das luzes.
Pegamos o cartão magnético de consumação. Moderno, muito bem. Drogas realmente dão muito dinheiro. O lugar é escuro, somente os balcões dos bares são devidamente iluminados. As luzes brancas refletem nas garrafas de bebidas alcoólicas, um repouso para quem não agüenta ver sua visão ser destruída pelos lasers frenéticos da pista de dança. O ritmo mecânico, meio industrial faz o pública dançar como uma massa única e disforme. O chão treme. Homens e mulheres brincam no mercado da conquista. Amigos se divertem se abraçando, e amigas mancomunam fofocas e estratégias. A música acelera. Um casal beija apaixonado no canto. Sem pudor, se amam sinceramente aos olhos invejosos. As batidas da caixa de som ditam o ritmo de nossos corações. Meus olhos ainda procuram os irmãos, e Maria ainda parece ser minha esposa, namorada, companheira.
- Vamos dançar. – puxo-a, com a certeza de que ela não me ouviu.
Embrenhamos nos indivíduos suados e perfumados. Todos produzidos adequadamente para a caça, convidativos com o olhar. Seguro as duas mãos de Maria e começo a mexer, para a esquerda e para direita. Tento aprender o balancear da canção... Se é que posso chamar essa caixa pulando de canção. O estroboscópio pisca raivoso. Agora danço, me movimento como todos os outros, deixo-me levar. Maria também! Isso a diverte. A voz metálica da vocalista remixada é irritante, mas de modo estranho... Adequado ao momento. A música acelera mais ainda, como se fosse explodir. Maria sorri! Eu também! Acho que nunca em sua vida tantas pessoas tiveram contato com ela, falo de empurrões e reboladas desengonçadas de algumas moças embriagadas.
- Espere aqui. – tento me comunicar.
- O QUÊ? – Maria grita.
Chego até seu ouvido.
- Vou comprar algo para bebermos. – falo alto.
- NÃO ME DEIXE SOZINHA! – o grito dói em meus tímpanos.
Faço uma careta e um sinal para ela relaxar. Vou para o bar.
- Quem é o dono disso? – pergunto como quem não quer nada.
O barman é negro, tem o cabelo esquisito, estilo Bob Marley. Imagino os piolhos.
- Ele lá. – responde indiferente a minha pessoa, apontando uma massa de músculo em forma de gente ao lado do Dj. Bombinha!
O touro humano dança travando seus enormes bíceps, chega a ser cômico. Vá cheirar pó seu anabolisado, dançar não é seu forte. Vejo que está de tapa olho, somente uma das marcas que vou deixar em você. Sorrio autoconfiante no balcão.
- Vai querer o quê? – pergunta o barman rodopiando uma garrafa de gim.
- Duas vodkas puras, com gelo e limão. – entrego meu cartão.
- O irmão dele. – fala o barman neto do Bob, aponta novamente para o Bombinha. – Que curte saca? Esse aí é hétero.
- Sério? – pergunto às gargalhadas, como se eu já não soubesse. Pensava que era um segredo.
Pego os copos envoltos com guardanapos e vou até Maria. A música fica mais pesada! A melodia eletrônica se arrasta, demora mais para se fixar no ambiente. Gritos melódicos e artificiais dão um tom gótico ao lugar. Em seguida, sons mais delicados entram em cena. Maria está de olhos fechados e se liberta... Nem nota o homem que tenta se aproximar. Paro e fico observando, Maria graciosa dançando livre pela primeira vez. Me sinto orgulhoso. A música para. Olho para o Dj, e para o Bombinha que curte junto comigo, Maria e todos os outros a mesma música. Dou um gole na vodka, minha garganta esquenta. O outro copo é para Maria. O ritmo se torna repetitivo, dando graça a algumas coreografias possíveis.
- ONDE VOCÊ ESTEVE? – Maria grita!
Sorrio balançando a cabeça. Entrego o copo. Ela olha curiosa, da um gole, e recebo uma careta.
- Vodka. – falo com os dentes a mostra.
- O QUÊ? – outro grito. Novo meio de comunicação meu e dela, somente nosso.
Fecho os olhos e danço também.
Tudo passa muito rápido ao seu lado, até as músicas infinitas e chatas que nos agradam essa noite. O copo de vodka alegrou um pouco mais Maria, que esta realmente à vontade. Juntamos nossos corpos e bailamos como um só. No meio da tempestade de batidas, às vezes surgiam momentos calmos e tranqüilos. Eu aproveitava esses momentos, para ficar mais perto dela. Linda. Livre. Feliz.
O funk estraga tudo. Bombinha pega o microfone e as putarias tomam conta. Letras ofensivas, ritmos mal construídos e palavrões! O público parece não ligar. A festa continua. Sento em um puff vermelho, junto com alguns casais, enquanto aguardo Maria voltar do banheiro. Com um sorriso no rosto, ela senta ao meu lado. Ficamos ali. Calados e alegres. Sem nenhum de nós dar um movimento sequer, aproveitando o pequeno contado de nossas coxas e braços. Estávamos pegando fogo!
- Quantas horas? – Maria pergunta, quebrando o silêncio.
- Não faço idéia.
Viro para o bêbado no sofá, loiro e jovem. Exagerou nas bebidas, nada mais normal. Espero que seja somente... Suspiro.
- Hei. – cutuco o moribundo.
Ele murmura algo que não entendo. Pego seu braço e olho as horas que seu relógio me mostra.
RIO DE JANEIRO – 10 DE AGOSTO DE 2008
03:24 AM


- Maria...
- Oi?
- São três e vinte quatro da manhã.
- Já! – ela se surpreende. O sorriso é constante, agora é maior e mostra os dentes perfeitos. – Passou muito rápido. Adorei dançar! Nunca fiz isso sabia?
- O quê? Dançar? – pergunto.
- Não. Sair... Ficar de madrugada acordada. – sua cabeça pende para um lado, como se afirmasse o óbvio. – Muito menos dançando. – suas mãos pequenas ajeitam o cabelo ondulado. – Minha mãe não deixava. Se bem que... Eu não tinha amigos também. Talvez eu não tivesse, porque ela não me deixava sair. – Maria fica séria. – Ela só me liberou quando me casei, só que ele... – ela não disse seu nome, por quê?. – Era parecido com ela. Ambos me viam como alguém frágil, isso me incomoda um pouco. Eles não precisavam me segurar daquele modo. Minha mãe eu entendia... Tudo é culpa minha... – ela olha para seus pés, uma lágrima solitária atinge o chão. – Eu aqui, achando que perdi parte de minha vida, e eles... Mortos... – agora a gota desbrava suas bochechas, arrastando a maquiagem. – Mamãe largou tudo por mim... Eu não deveria nem existir. E você, tem sua missão seu objetivo e perde tempo...
A música nefasta havia parado, pessoas se preparam para deixa o local, mas ainda a pista está cheia. Hora de agir.
- Maria, me espere lá fora. - sou direto.
Ela entende, enxuga as lágrimas, ajeita sua roupa, me olha com um olhar triste e vai em direção à pista de dança. É necessário cruzá-la para chegar à saída. Vejo-a entrando no meio da multidão dançante... Começo a caminha para a gaiola do Dj, onde Bombinha, e seu tapa olho, beija uma prostituta. Procuro Maria mais uma vez com o olhar... Acuada, um cara grita com ela. A mulher loira a seu lado ajuda, ambos pressionam Maria com a parede de pessoas. Sem querer, Maria esbarra em um grupo de mulheres às suas costas, que se viram e também partem para a ofensiva. Salto para a pista de dança. Empurro quem esteja em minha frente! Homem, mulher, homossexual, travesti. Jogo-os para longe. Não passam de gravetos para mim! As ofensas são muitas! E altas! Posso ouvi-las claramente sob a música que estupra minha orelha. Meus braços empurram o grupo de mulheres, como papel, voam para um canto. Entro na frente do grupo ofensivo e encaro o homem... De frente! Como igual... Não! Como superior... O bafo alcoólico me da nojo. Vontade de vomitar. A nuca formiga. O coração lateja, querendo sair. Me preparo...
- Não Augusto! – Maria segura meus braços. – Eu derramei a cerveja dele, deixa pra lá. – seus olhos ainda estão vermelhos pelo choro.
Pense nos sentimentos dela sua anta! Tiro uma nota de cinco reais... Viro para o homem que esbraveja xingamentos ininteligíveis.
- Toma! – ofereço a nota. – Isso paga sua cerveja.
- E... u... – tenta se comunicar o seqüelado. – Tenho cara de mendigo? – as palavras saem emboladas. A mulher ao seu lado o encoraja.
- Esquece isso Augusto, vem. – Maria me puxa.
Me deixo levar, ambos caminhamos para sair da pista.
- Precisa da meninha pra te salvar? Hein? Machão? Colé! – ofende o maldito. Ignoro.
Maria larga meu braço, e com a cólera em sua face parte para cima do homem.
- NÃO QUERO DEIXAR QUE ELE ARRANQUE SUA CABEÇA! Eu deveria pedir para ele quebrar você em pedaços! Mas não quero que ele faça nada de errado, Augusto é um bom homem e cada vez que ele perde a cabeça ele... – Maria esbraveja como uma eficiente protetora. Me sinto orgulhoso.
O bêbado da um safanão em Maria, ela caí no chão.
- VEM CÁ ENTÃO RAPÁ! – ele me provoca.
Todas as pessoas em minha volta se foram. Desapareceram. Ou quem sabe, são invisíveis. O ambiente se movimenta em câmera lenta. A única coisa veloz e animalesca aqui é meu sangue! Carregado de adrenalina! De ódio! De raiva! Por pessoas como esse desgraçado, ignorante, abjeto! Um coice. Meu coração da um... Único... E bruto coice. Meu punho atrita com o ar e só para quando esmigalha a mandíbula do imbecil. Ele cai como um tronco podre. Chega a tremer no chão. Convulsão? Sua companheira grita...
- É ESSE CARA QUE TE FODE? – minha voz é demoníaca. Maria volta a chorar. – Vamos Maria. – parto para a saída.
Dois seguranças. Dois armários vivos, vestidos de preto vem em minha direção. Pessoas se afastam, prudentes. Eles tomam posição de batalha, vão sofrer pela imprudência alheia. Torço para que sejam bem treinados, assim não causarei nenhum dano permanente. Um deles tenta agarrar meu braço, o outro vai para minhas costas e encaixa um mata leão. Clássico. Pego a caneta que está no bolso do gigante que me segura, e finco em sua perna. O segurança não chega a gritar, mas me larga e sente a dor. O outro me golpeia, tão forte quanto o Bombinha. MERDA! Eu precisava desses desgraçados presos hoje. Desconto à frustração revidando o golpe, o segurança cai quebrando a mesa de madeira. Clássico. Aquele que me segurava se prepara mais uma vez para atacar, olho para sua coxa com a caneta fincada, na esperança de que ele entenda o aviso... Não adiantou! Ele avança! Seu soco raspa em meus cabelos, o seguro pelo pescoço e com a perna acerto a caneta! Agora sim ele grita. Piso na caneta afundando-a em sua coxa! Sua pele morena fica pálida... Ele cai inútil no chão.
Todos me olham amedrontados. Menos Maria, que corre para a saída. Corro atrás dela.
- MARIA! – grito.
Ela da sinal para um táxi. Entramos no primeiro que para.
- Odeio isso. – sua voz engasga com o pranto.
- Com o quê? Aquele idiota...
- Você é o idiota! Isso não adianta... Por favor, de onde vem tanto ódio de alguém que quer salvar as pessoas? Isso me dá medo!
O taxista nem se importa com o diálogo. Para ele somos mais um casal, perdendo o nosso tempo... Brigando.
Me calo e passo a contar postes. Nenhum pensamento linear me vem. Maria encosta no meu peito e chora... Molhando minha camisa. Não me importo. Passo meu braço em sua volta. Ela chora com dor, algo que estava guardado presumo. Meus olhos também se enchem, me seguro, travo minha mandíbula e volto para os postes. Um deles pisca, se apaga e volta a brilhar. As mãos de Maria amassam minha blusa, me seguram firme como nunca assim o fizera...
Eu vou consertar tudo! Eu tenho... Preciso...

Terça-feira, Junho 23, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XX: Como Podemos Vencer?


RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
22:41 PM

Eu pretendia ir direto até Maria, me desculpar e tentar explicar o quão covarde eu sou. Pretendia. Até agora continuo vagando como um espírito errante. Pensei em ir ver o Cristo. Também a idéia ficou na ceara dos pensamentos.
Pela janela no táxi a cidade devolve meus insultos. Cada pessoa pra mim é um experimento em potencial. Em suas particularidades. Todas possuem sua...
- Vai querer continuar seguindo aquele carro, patrão?
O taxista. Jovem, veste uma camisa pólo cor musgo e um bigode ralo no rosto. Noto sua aliança dourada refletindo a luz do poste.
- Eles estão indo pra uma parte mais afastada, acho que... – o taxista é hesitante.
- Não se preocupe comigo. Quando eles pararem, você me deixa e pode ir embora. – entendo a preocupação do homem.
Dois homens renderam um casal, obrigando-os a entrar no carro. Sorte do casal que assisti tudo de camarote. Esse tipo de ação é mais comum do que aparenta. É fácil, rápido. Seqüestro. Nesse tipo de situação sempre me preocupo mais com as mulheres. Homens armados se sentem poderosos e no controle, isso é excitante para alguns pervertidos. Perder os bens materiais é algo que se pode superar, ser violentada, ou assistir, no caso do companheiro, é traumatizante. Estou sem nenhum equipamento, somente a toca para esconder meu rosto. Vai ser o suficiente.
Estalo meus dedos. Estou inquieto. O táxi segue o Corsa até uma estrada escura, subimos uma longa reta. A vista para o mar é linda. A água negra reflete a lua nova e algumas estrelas tímidas. Me concentro nos faroletes vermelhos a nossa frente. A seta do Corsa é acionada. Aqui parece ser um bom lugar para se namorar, perigosamente excitante. Eles param.
- Siga em frente. – ordeno. O taxista obedece.
- Mulher tem em todo lugar amigo. Se ela terminou com você... – o cara está tentando me consolar! – Deixe-a seguir em frente...
- Você acha que estou seguindo... – gargalho. – Pode parar aqui. E relaxe não sou nenhum ex namorado ciumento, nenhum marido traído. – mas posso ser tão violento quanto.
Dou-lhe o dinheiro e saio. Acelero meu passo, quando escuto gritos vindo do Corsa.
- Isso ai! Agora pula! – ordena uma voz esganiçada.
- Por favor... Agente já te deu tudo... Leva o carro... – implora o homem, temendo por sua segurança e de sua companheira.
A mulher treme e chora. Seus cabelos negros sibilam junto com o vento, tornando nu o abismo às suas costas. Seus algozes nem se preocupam em esconder o rosto. A crueldade alimenta a besta dentro de mim.
- Quero vê pulando porra! Anda logo! – grita o outro apontando seu revolver.
Estão se sentindo poderosos.
- Mas... – agora o homem também chora, pela primeira vez em anos creio. Aparentar ter quarenta e poucos. Deve ter uma vida simples e pacata. E agora isso...
- Já vamos levar tudo seu mermão! Quero ver se você sabe voar. – os dois riem juntos.
Visto a toca. Meu capuz. Começo a rosnar como o próprio demônio.
- Que isso? – questiona uma de minhas presas.
- Deve ser um bicho ai, relaxa rapá! – seu rosto percorre a escuridão, voltando para o casal. – PULA CARALHO!
O imbecil atira no chão. A mulher grita de susto, seu companheiro a abraça, na tentativa inútil de confortá-la. Meu rosnado aumenta.
- Cacete. – o segundo busca enxergar algo na mata.
Capto seus olhos. Avanço! Meu grito é gutural, vindo das profundezas! Eles se assustam, atiram a esmo, errando cada disparo. Amadores. Consigo abraçar os dois, que se debatem. A prioridade é desarmá-los. Com toda a força que meus músculos permitem, jogo ambos em direção a mata. Capotam no chão, embolando um no outro. Sem dar oportunidade de reação, parto para cima deles. Cada pancada, o som de ossos quebrando, do sangue jorrando de suas bocas, me satisfaz. Os dois são fortes, isso torna a batalha mais divertida. Não que tenham alguma chance... Só não quero que acabe agora. Não percebi, continuei rosnando o tempo todo. Um deles desmaia. O outro se arrasta pela poeira, amassando folhas secas, tentando fugir. O Corsa arranca cantando os pneus, os faróis, por um instante, iluminam a face amedrontada do homem. Agora ele sabe como o casal se sentiu. Agarro sua perna. Ele grita. Arrasto-o pelas folhas secas. Suas mãos buscam algo em que segurar. Inutilmente. A perna escapa das minhas mãos. Isso me irrita! E muito! Engatinhando como um bebê, ele se arrasta para fugir... Agarro-o pelas orelhas. Ainda solto sons ininteligíveis pela boca. Chego até a beira do barranco.Todo seu corpo batalha pela sobrevivência. Estou pronto para matá-lo! É fácil demais! Só lançar sua carcaça abjeta para frente, e assistir a cada quicada que o animal daria nas pedras. Fico sem ar. Derrubo o bandido no chão. Tento recuperar meu fôlego. Minha nuca gela, meu coração acelera. NÃO! Saio correndo em direção a estrada, na esperança de que o suor mande embora essa ânsia assassina dentro de mim.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
00:11 PM

Essa é a primeira regra do meu trabalho: não matar. Encosto minha cabeça no ferro gelado. O chacoalhar do ônibus impedi que eu durma. Cada buraco ou curva é um sofrimento. Demorei a achar o ponto correto, errei duas vezes e sempre acabava em um lugar ermo, desconhecido. Agora os muros são familiares, o caminho é conhecido.
Ando vagarosamente, calculando cada passo e me perdendo mais uma vez. As ruas são escuras e mal iluminadas. Nem a lua quer aparecer por aqui, será vergonha? Viro a direita em um beco, avisto a escadaria e subo contando os degraus. Um casal troca ofensas, algo sobre dinheiro e bebida. Chego ao topo da escadaria. A rua está deserta, morbidamente quieta. O farol solitário de uma moto aponta no fim da rua, vindo vagarosamente em minha direção. Ao passar por mim avisto dois homens, sem capacete, não chego a olhar para seus rostos ou vestimentas. O Ar-15 nas mãos do carona e a Sig-Sauer em sua cintura roubam toda minha atenção. Armamento pesado. Internacional. A motocicleta continua seu caminho, como se eu não existisse. Eu deveria... É a rua de Maria. Nada de tiros aqui. Vou até a porta da casa.
Está destrancada! Abro cautelosamente, tentando ouvir qualquer movimento, até uma mísera respiração. Tudo em paz. A sala está tomada pelas trevas, sendo iluminada pela luz dos monitores. Abaixo deles Maria dorme. Nas telas o satélite monitora a noite carioca. A coitada ficou aqui até agora. Seus braços separam seu rosto delicado da madeira, sua respiração é calma e tranqüila. Sem acordá-la, desligo os monitores, trazendo a escuridão para a sala. Com cuidado, pego Maria em meu colo. Instintivamente seus braços agora estão envoltos em meu pescoço, sua cabeça em meu peito. Sinto sua respiração calma e serena. Espero que esteja tendo um sonho bom. Caminho até o quarto.
- Pai... – Maria sussurra. – Pai... Corte a corda pai. Me deixe correr... – suas mãos apertam minha camisa suada. – Corte pai... Ta machucando... – suas palavras soam tão penosas.
Deito Maria na cama de forma delicada. Sua face demonstra inquietação. Pego um lençol no armário. Cubro todo seu corpo. Acaricio seu cabelo ondulado e com cheiro doce, beijo sua testa, levo meus lábios até seu ouvido, falando bem baixinho.
- Eu corto pra você Maria. Descanse.
Fico ali, sentado no chão, deslizando minhas mãos entre seus cabelos, aguardando o pesadelo ir embora. Ele se vai... O sono pacífico retorna. Beijo sua testa mais uma vez e saiu do quarto.
Sento em frente os monitores e fito o colorido da noite. Agarro o mouse, vasculho as ruas, os becos e avenidas da Rocinha. Como é fácil trabalhar com uma ferramenta dessas. É de arrepiar os defensores da dita segurança nacional. Esse brinquedinho pode achar esconderijos de terroristas no Afeganistão, eu não vou encontrar uns bandidos em uma moto? É como procurar uma agulha no palheiro.
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O programa de auditório arranca a monotonia da noite. Sorridente e carismático o apresentador caminha pela platéia, que o cerca batendo palmas com o mesmo entusiasmo. Os convidados da noite: um professor universitário, com seus doutorados em História e Sociologia, catedrático da USP; uma modelo brasileira, destaque nas passarelas européias, atualmente namora um jogador de futebol – ou seria um ator famoso americano?; por fim, um cantor de uma banda, que toca uma espécie de rock meloso e sem graça.
O apresentador.
- Já tratamos da questão do Etanol. Não foi? – a platéia confirma. – Falamos sobre a amostra de filmes independentes que acontece aqui no Rio essa semana... Vamos ver... A nova peça... – várias pausas e caretas, enquanto segura o microfone com a mão direita e um papel com a esquerda. – Vamos falar sobre Jack Built. Você primeiro professor...
O professor da USP.
- Definitivamente um homem que decide colocar uma máscara e sair para esbofetar... Agora vamos com bastante cautela por favor... Ditos criminosos. Por que ditos? Porque não sabemos, e agora, jamais saberemos seus critérios para bater e torturar os pobres. Pobres sim meus amigos. É fato que as ações desse vigilante eram totalmente direcionadas para os oprimidos, os desprovidos, as minorias que sofrem já com o desmazelo da sociedade. Imaginem a sociedade como um conjunto de balões. Jack Built é um menino que acredita que os balões pretos – aqui como os bandidos. – são os criminosos, as demais cores somos nós, cidadãos comuns. Acontece que historicamente, devido às manipulações e correntes políticas, as cores mais escuras dos balões tendem a ficar mais na base desse conjunto. Jack Built, com uma agulha tenta limpar o conjunto de balões, estourando-os com uma agulha. E como menino, não consegue discernir com clareza as cores, uma vez que esses balões flutuam sobre sua cabeça, levando a luz do sol a ofuscar seu discernimento, então a cada salto e agulhada, ele acerta os balões pretos e os de cor escura, que ele, julga ser também da cor preta. Ele é definitivamente um risco político. Um reacionário. É doloroso dizer, mas no fundo creio que sua morte foi um benefício para a sociedade.
A modelo. O professor franze a testa, momentos antes de a moça abrir a boca.
- Reduzir o Jack a um risco político é errado. Ele não é uma força da natureza, um ente conspiratório que luta contra as classes menos desfavorecidas. Vejo como um homem indignado. Insatisfeito com o status quo que vivemos. É claro que a criminalidade atinge os mais... Pobres. Mas isso é culpa dele? Pelo que vejo, o homem salva vidas, e bate nas pessoas certas. Está bem! Temos a criminalidade crescente pela insuficiência de um Estado, que deixa pessoas a sua margem... Jack por outro lado, tenta trazer essas pessoas de volta para o caminho correto. Não como uma ONG que admite fazer acordos com donos de morro, por exemplo. Ele bate! Bate forte, como uma correção. No fundo ele desejaria que todos seguissem as leis, e respeitassem os direitos alheios. Bem... É o que eu penso.
O cantor da banda que acreditar ser rock o que suas guitarras tocam.
- Revolução brother! Falta isso, saca? Atitude!


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RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
02:01 PM

Os homens da moto são uma espécie de vigias do bairro. Cumprem uma rotina, um padrão fácil de ser aprendido. Estico a corda que roubei de um varal. Ela é grande o suficiente de ir de um lado a outro da rua, vai dar certo! Escolhi a rua mais escura por onde eles passam. Isso vai dificultar a percepção deles. Preciso saber onde guardam aquele tipo de arma, deve haver algum depósito, uma casa, alguma merda de lugar. Com sorte esses imbecis sabem quem é o fornecedor, para uma visita futura. Ai vem o farol. Solitário, iluminando a escuridão. Ambos estão sem capacete, vai ser uma queda e tanto. A moto acelera, mudando a marcha. Me escondo atrás do poste, fico imóvel, utilizando as trevas como camuflagem. Nada de uniforme hoje.
Tudo ocorre como o previsto. A corda segura o condutor pelo peito, jogando ambos no chão, a motocicleta segue seu curso até perder o equilíbrio. Amarrei bem, a corda estava bem tencionada, não poderia correr riscos de ela arrebentar. A queda foi feia, nada fatal, nenhum ferimento sério para eles... Até o momento pelo menos.
Enquanto eles esbravejam e xingam palavrões dignos de estádios de futebol, corro e chuto o Ar-15 para longe. A mão de um deles tenta pegar a Sig-sauer, piso e a seguro no chão. Os dois são jovens, sempre são. O que pilotava a motocicleta se levanta, dispara socos em minha direção. Danço um pouco, e acerto um cruzado em seu queixo, jogando no chão mais uma vez. Chego a achar engraçado, ao ver ele engasgar com o próprio sangue. O outro caído, agora tenta tirar meu pé da sua mão. O que também torna a situação cômica. Chuto sua cara. Este também engasga. O Brasil merece uma classe melhor de criminosos.
Os dois gemem de dor, pego a Ar-15, e volto para perto deles. Aponto na cara de um, do que pilotava.
- Onde vocês guardam suas armas? – falo de forma gutural.
- Pô... – o verme cospe um catarro de sangue. – Qualé...
Interrogar criminosos é um esporte delicioso. Você pode fazer qualquer tipo de merda, e simplesmente... A consciência não pesa. Dou um tiro com a Ar-15, bem ao lado de sua cabeça, o barulho é selvagem e alto! Seu tímpano deve ter estourado, ou agora ele passará a escutar sinos.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
02:23 PM

Uns cagões! A vergonha pra trupe do crime. Só o tiro foi o bastante para eles me trazerem até o telhado dessa escola municipal. Esses desgraçados não têm escrúpulos mesmo! Guardam armas de calibre pesado, e até granadas, dentro da caixa de água da escola!
Seguro a base da caixa azul, preparo minhas pernas e braços, de uma só vez levanto o recipiente de uns bons milhares de litros. A caixa de água tomba, derramando água por todo o lugar, um outro tipo de larva é revelado... Armas, dos mais variados tipos e tamanhos, todas amarradas em sacos plásticos para não enferrujarem. A Ar-15 ainda está comigo, miro nas armas e grudo meu dedo no gatilho. Gasto todo o pente atingindo as armas! Os plásticos e os pedaços de armas, pulam junto com água. Estilhaços são lançados no ar. Não paro nem por um segundo, até que tudo esteja destruído. Os coices contínuos acompanham as batidas do meu coração.
Quando termino quebro a Ar-15 em dois pedaços. Inutilizo-a para sempre.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
02:43 PM

A água quente cai sobre minhas costas. O vapor ganha todo o espaço do pequeno banheiro. Ensaboou meu rosto, deixando a á água batizá-lo e confortá-lo em seguida. É disso que eu estava precisando! Um bom banho quente para arrancar as sujeiras de mim.
Mal deito no sofá e o sono ataca. Durmo tão fácil. Deve ser o cansaço, ou só a simples vontade de dormir.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
08:00 PM

O aroma do pão tostado é convidativo. A margarina da um toque ao sabor do queijo, que estala na frigideira. Acordei cedo para tentar surpreender Maria. Escolhi com cuidado, frutas, leite, pães e o queijo. Mineiro é claro! Maria ainda dorme, tranqüila e serena. Parece que o ontem jamais existiu. Sou um babaca mesmo! Preciso aprontar esse ambientei toda, só para tentar me desculpar. Retiro o queijo junto com a crosta escura que se fixa na superfície da frigideira. Corto os pães, passo manteiga, e ajeito o queijo para derretê-la. Aqueço o leite, até o ponto correto para não criar nata. Misturo o achocolatado. Abro um pacote de biscoitos. Uma maçã e uma banana para enfeitar a bandeja. Pronto! Tomará que dê certo.
- Desculpa por ontem. – Maria aparece na cozinha, seu rosto ainda está amassado e inchado. Ela ainda é linda.
Fico completamente sem jeito, segurando a bandeja do café, que era para ser um café na cama. Maria continua.
- Eu vi a garota de batendo, não sabia o quê fazer. Se devia intervir ou... – seu rosto se envergonha, Maria olha para baixo enquanto gesticula. – Ela gritava... Desculpe mesmo. De verdade. Não queria invadir sua intimidade...
- Deixa de bobagem Maria! – repreendo. – Vamos sente logo. Tome esse café que preparei com cuidado. Era para ser uma surpresa e você estragou tudo!
- Descul... – interrompo-a.
- Olha só! Mais uma desculpas e eu vou usar todos os meios de causar dor que aprendi em você. – discurso com um sorriso no rosto, indo em sua direção. Simulo uns socos. Maria entra na brincadeira. Agora somos duas crianças brincando de luta na cozinha. – Eu que tenho que pedir desculpas. – Meu rosto queima, não tenho para onde correr. – Você me aceita em sua casa, salva minha vida, e eu ainda te tratei como uma qualquer. Você não merece isso! Me desculpa.
Seus lábios tocam minha bochecha. Não foi preciso dizer nada, eu estava desculpado.
Devoramos todo o café da manhã. Maria elogiou o pão e o queijo, me fiz de bobo, como se não tivesse gostado do elogio. Nem café eu sei fazer. Conversamos sobre tudo! Mais uma vez. Maria me conta que dominou o programa no computador, que até foi ver como estava o consultório da doutora Janete. Passados alguns instantes de mastigação e risos, sua face denota seriedade. Correspondo a tal expressão.
- As pessoas estão mesmo comentando. – Maria afirma.
- Sobre mim?
- Isso. – confirma.
- Qual eu? – sorrio, sem obter outro em troca.
- Sobre você mesmo. Um pessoal da igreja veio aqui ontem, perguntaram por que eu não vou mais ao culto. Os olhos de algumas delas secavam os computadores, o travesseiro no sofá e até a televisão que agora está no quarto. Fiquei sem saber onde me esconder. Fui bombardeada com perguntas. – Nunca vi Maria falar tanto. – Isso me incomodou sabe?
- E aí?
- Nem me lembro da desculpa que dei.
- Não se preocupe...
- Como não? – Maria se altera.
- Não vou ficar por muito tempo.
- Ah... – uma tristeza a atinge sem pedir permissão. – Outra coisa...
- O quê?
- O baile funk. Que vai comemorar a sua morte não vai ser qualquer.
- Como assim? – agora eu me altero.
- O local mudou. Não vai ser mesmo onde costuma ser, naquele galpão na entrada do morro. Vão fazer na Acadêmicos da Rocinha, é uma escola de samba, o espaço é maior e mais... Acessível.
- Acessível?
- Foi o que me disseram ontem, também consegui escutar algumas conversas alheias. – Maria está ficando perigosamente boa nisso.
- Entendi. Escolheram um lugar mais público, para diversificar mais o público, assim a polícia ou o General vão pensar duas vezes antes de qualquer movimento.
Maria concorda com a cabeça, mordendo seus lábios perfeitamente desenhados.
Levanto, coleto os pratos cheios de migalhas, deixo-os na pia. Faço o mesmo com os copos.
- Pode deixar Augusto, eu cuido disso. – Sua mão segura meu ombro.
- Não mesmo! Vá se aprontar. – me viro e dou um sorriso para amenizar o papo sério.
- Aprontar? Pra quê?
- Vamos visitar um colega meu.
O rosto de Maria fica engraçado quando denota dúvida. Sua boca faz um pequeno bico, a sobrancelha esquerda se eleva delicadamente. Isso revela a menina que ainda existe em seu interior.
- Bem senhorita, não é bem um dos melhores passeis que irá fazer na vida. Vamos ao hospital. – balanço as mãos, seco-as no pano de prato.
- Ele é médico?
- Não. – dou um sorriso malicioso.
- Pode ir parando com o mistério senhor Augusto! – ela aponta o dedo. – Sei muito bem que você não conhece ninguém aqui no Rio. Com exceção daqueles militares que te sacanearam.
Fico sério. Maria está levando tudo isso a sério demais. Normalmente... Ao menos nos primeiros dias ela era uma mulher tímida, reservada e quase sem atitude. Está manhã há algo estranho no ar. Será que as perguntas a incomodaram tanto assim? Nesses momentos que vejo quem é o mistério nesse pequeno barraco. Maria Aparecida.
- O nome dele é Thiago Firmato. Você deve tê-lo visto nos jornais, eu salvei a vida dele e peguei os caras que tentavam matá-lo.
Recolho o restante de louças da mesa, dobro o forro e coloco as frutas em uma cesta. Uma maçã cai. Maria se abaixa para pegá-la antes de mim. Suas vestimentas leves recuam em suas coxas, grossas e firmes. Sem que meu cérebro dê a ordem meus olhos percorrem todo seu corpo magnífico, o sangue corre quente em minhas veias. Ela se levanta. Agora está bem perto de mim. O sangue cavalga de forma selvagem, quase incontrolável. O castanho escuro de seus olhos é hipinotizante. Seu cheiro é puro, sem nenhuma usurpação de algum perfume.
- Vou me aprontar... – seu rosto se abaixa e ela vai até seu quarto. Mais uma vez meus olhos masculinos percorrem seu corpo, travando em suas ancas magníficas.
Homens são realmente engraçados. Não fujo a regra. Nem quero! Não há nada melhor do que uma mulher perfeita, nada mesmo! Uns verdadeiros animais, somos plenamente incapazes de racionar de forma plena diante de uma fêmea. A não ser que já não estejamos enfeitiçados por outra. Minha vontade de dominar Maria, jogá-la nesse chão batido e frio, fazendo-o esquentar com o calor de nossos corpos, é grande. Deus! Como essa mulher é gostosa. Mesmo assim, um dever inerente a minha vontade me domina. O dever de protegê-la! Dívida por ela ter salvo minha vida? Não... É um carinho protetor. Poucos homens devem ter se deitado com ela. Amor não é algo presente em sua vida. Por isso... Se contente em olhar seu pervertido!
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
09:10 PM

- Você tem mãe? – Maria quebra o silêncio.
Vamos de ônibus mais uma vez, com seus chacoalhares e freadas bruscas. Cheio! Entupido de pessoas. E como não pode faltar em uma lotação, crianças histéricas. Brincando de Homem-Aranha nos ferros. Dois irmãos, um magro bem loirinho e o outro gordo. Coitado, suas coxas podem ser divididas em camadas. Os dois lutam para saber quem é o Homem-Aranha. Todos querem ser ele. Fazem aquele movimento com os dois dedos, como um chifre de demônio, imaginam a teia saído e grudando no vidro. O magricelo salta, acreditando ter sido picado por uma aranha radioativa. Sua testa se choca com o apoio de ferro. Ele chora. O irmão gordo ri. Ou melhor, gargalha! A mãe intervém e repreende o momento super-heróico.
- Tenho sim. Claro! – não percebi que tinha um sorriso no rosto.
- Eu sei. Dã... – Maria faz uma careta. – Quer dizer... Sua mãe é viva? Sabe o quê você faz?
- Minha mãe? Saber do meu trabalho. – gargalho. – Não mesmo! A velha me mataria, me acorrentaria. Ninguém da minha família sabe. Minha irmã de algum modo desconfia, porque ela sempre percebe quando chego tarde em casa.
- Você tem uma irmã? – isso a surpreende.
- Sim! Ela tem três anos. Uma graça de chatice.
- Não fale assim dela. Deve ser linda. – agora seus olhos brilham.
- E é. A pessoa mais pura e bela desse mundo. Não cheguei a ver seu nascimento, muito menos seu primeiro ano de vida. – uma tristeza mal educada fala por mim.
- Onde você estava?
- Pelo mundo.
Maria aguarda o complemento.
- Então... – dou uma risada sem graça e forçada. – Eu precisava de experiência. De vivência. Principalmente, eu tinha que saber se vale a pena fazer o quê faço. Eu precisava conhecer o mundo! Ver as pessoas que vivem nele. Suas diferentes culturas, seus ensinamentos... Eu tinha que aprender. Tudo! Era minha obrigação saber o máximo de coisas possíveis. Os primeiros anos como... Você sabe. Foram desastrosos. Não tinha um método, uma estratégia, nem mesmo um uniforme descente. Eu pulava na frente de armas acreditando que elas não me acertariam. Comprava qualquer briga, sem medir conseqüências. Apanhava! Fui salvo muitas vezes pelo vermelho rodopiante das viaturas. Minha única e verdadeira aliada era a sorte. Me dediquei ao meu corpo e artes marciais no Japão, Tailândia e China. Apanhei muito. – agora a risada é menos forçada. – Para minha mãe eu estava em uma viagem de mochileiro pela Europa. Gastando a poupança para a faculdade. Meu pai não ligou, de algum modo ele sentiu que eu precisava daquilo. Meu irmão... Também tenho um irmão, mais velho e insuportável. Quase me bateu... – faço a cara de quem é confiante, certo de que mesmo mais velho, ele não tinha nenhuma chance. Também tive ajuda do governo, por uns trabalhinhos, como essa furada em que me encontro. – Maria não gostou da última frase, desvia o olhar de mim e passa a olhar a cidade que passar por nós sem dizer oi. – Também deixei para traz um amor... Isso é história para outra hora! Fiquei cinco anos fora do Brasil, voltei tem um ano...
Maria já não prestava atenção no que eu falava, parei sem que ela notasse. Imitei seu olhar e passei a namorar a cidade maravilhosa. Vendo o verde que rodeia a imensa lagoa, da qual não lembro o nome. O céu tem muitas nuvens, isso compromete a beleza da paisagem. Mas o sol é forte e o calor constante. Deve chover nos dias que virão...
Descemos no ponto mais próximo do hospital. Maria conhece o lugar, já veio fazer alguns serviços para sua chefe nessa região. Trocamos algumas palavras, mais sobre medicina, assunto que não tenho o mínimo conhecimento. Maria entende bem, disse que seu sonho era ser médica. Nunca teve condições para tal, então o máximo que conseguiu se aproximar de um jaleco branco foi o curso inacabado de enfermagem que freqüentava. Não há frustração em sua breve narrativa. Sua história é indiferente, como se seu sonho fosse uma bobagem. Eu diria que Maria está anestesiada. O sofrimento tem esse poder. De nos deixar adormecidos, para que não soframos mais com decepções. Alguns consideram isso algo bom, mesmo que inconscientemente, chamam de “ficar mais forte”. Não concordo! Não posso concordar. Sentimentos são para serem vividos, se há sofrimento, que siga em frente, agüente a pancada... Não fique indiferente a elas. Engraçado como podemos aprender vendo filmes.
- É aqui. – Maria aponta para o prédio branco com janelas espelhadas, o letreiro verde é claro. Um hospital. – Como vamos nos identificar? Deve haver alguma segurança, afinal tentaram matar o homem. Você não poderia ligar para ele?
- Preciso da ajuda de Firmato. Não confio em telefones.
Entramos no prédio. O cheiro de álcool e desinfetante domina o lugar. Cheiro de hospital. Enfermeiras e médicos vão de lá para cá, em passos preguiçosos e calmos. Pacientes idosos sorriem com poucos dentes, uma menina de braço quebrado segura dois pirulitos como se fosse a melhor recompensa pela dor. O lugar é quieto. Os aparelhos da recepcionista chamam mais atenção do que seus olhos verdes.
- Pois não senhor? – uma baba mínima se acumula no canto de sua boca. Mínima, mas ainda sim incomoda.
- Vim visitar Thiago Firmato. – respondo com um sorriso.
- Você é parente? – ela responde com um sorriso.
- Não. – outro sorriso.
- Você é policial? – mais um... sorriso.
- Não. Sou... – minhas bochechas ficam levemente doloridas.
- Sinto muito, não posso deixar que vá até o Sr. Firmato. Questões de segurança.
- Mas... – tento argumentar, sou interrompido.
- Você deve saber da situação delicada em que o Sr. Firmato se encontra, creio que entendera o procedimento para mantermos seguro e tranqüilo o ambiente para o Dr. Por isso, caso seja da imprensa, ou amigo, não estamos autorizados a deixar ninguém ir até o quarto do Sr. Firmato. – ela ainda sorri, sem ao menos tomar fôlego.
Maria segura meu braço, seu olhar me questiona o que devemos fazer.
- Sem correr meninos! Nada de pular em cima do pai de vocês como fizeram da última vez. Lembrem-se o ferimento infeccionou. – uma mulher magra e de aparência bondosa repreende dois garotos familiares.
- Eu já vi aqueles garotos. – cochicho com Maria.
- Onde? – ela questiona.
Remexo minha memória. A mulher de mãos dadas com os meninos caminha até a recepcionista. Um dos garotos me olha, e desvia o rosto em seguida. Onde eu já vi esse menino?
- Bom dia Sra. Firmato. – a moça dos dentes metálicos lança seu sorriso mais uma vez.
Senhora? São os filhos do delegado! Isso! Eu dei a arma para o garoto segurar. Mandei vigiar os bandidos da motocicleta. Me lembro de suas mãos firmes, e olhar atento.
- Ainda tem as mãos firmes garoto. – falo maliciosamente.
- É comigo? – pergunta o garoto. É com você sim,
- Tudo bem senhor? – pergunta a mãe, puxando o garoto para perto de si.
Agacho para ficar da altura do garoto.
- Você vigiou bem aqueles bandidos! Parabéns! Fez um bom trabalho. – faço um jóia com meu polegar. – Suas mãos ainda são firmes?
O menino arregala os olhos, tenta falar algo, mas as palavras se recusam a sair.
- Senhor... – a voz mansa da mãe tenta me repreender.
- Mãe... – as pequenas mãos puxam a blusa de sua mãe.
- Que foi filho? – ela atende o chamado.
- É ele... – seu dedo indicador aponta para mim. O meu faz um sinal para ele ficar em silêncio.
- Quem fi... – a mãe está vem informada. As lágrimas começam a escorrer em sua face magra.
- Quer que eu chame a segurança Sra. Firmato? – agora o aparelho metálico é ocultado, e a recepcionista ameaça segurando o telefone.
- Não... Não precisa Sabrina. Está tudo bem. – a mulher retira um lenço da bolsa, enxuga as lágrimas, respira fundo. – Obrigada por salvar meu marido. – ela engole o choro, enquanto abraça os filhos com seus braços magros e protetores.
Me levanto.
- Preciso falar com seu marido. – afirmo.
- Claro. – ela passa o lenço mais uma vez no rosto. – Vamos suba comigo.
- Mas Sra. Firmato, tenho ordens... – a recepcionista intervém.
- Ele vai comigo Sabrina, se precisar de qualquer coisa eu aviso. – explica a Sra. Firmato.
Maria e eu pegamos um crachá para cada. Todos em silêncio aguardamos o elevador, que range do outro lado da parede. A porta se abre automaticamente, como uma coreografia, entramos.
- O que quer com meu marido? – a Sra. Firmato pergunta com o rosto fixo nos números de cada andar.
- Preciso de sua ajuda.
- Para quê? – o olhar ainda se prende aos números digitais em vermelho ao lado da porta.
Maria e eu nos questionamos em silêncio.
- Quero que saiba, ele está onde está por ser honesto! Já que você não morreu, confesso que fico mais aliviada, mas por gratidão. Vocês dois são parecidos na burrice... – a voz é mansa, mas não as palavras. – Já parou para pensar em quem sofreu quando os jornais noticiaram sua morte? Você não tem família? Uma namorada. Ela não sofreu? – agora se refere à Maria. – Não existem poderes nesse mundo. Você não é invencível. Eu não vou perder meu marido! – as lágrimas escorrem como um rio na chuva. – Acredito que exista alguém no mundo que não quer te perder também...
- O que você está dizendo senhora? – sou desafiador. – Sim. Acredito que tenham sofrido com minha morte. Mas estou aqui, e seu marido também. E isso é sinal que estamos incomodando alguém! E esse alguém é mau. Morrerei quantas vezes precisar, e seu marido, como um bom homem também o faria. – Maria agarra meu braço, na tentativa de me calar. – Sei que ele faria falta, você teria que cuidar de seus filhos sozinha, você se sentiria sozinha! Entendo sua dor! É por isso que eles têm vencido... Porque temos sido omissos...
O elevador se abre ao som de um apito digital. Caminhamos até o quarto em... Um conveniente silêncio.
Thiago Firmato. Delegado. Honesto. Punido pela sua própria virtude. Sua aparência é fraca, mas viva. O soro pinga sem pressa ao seu lado. Os garotos não obedecem ao aviso da mãe e correm para abraçar o pai, que sorri ao vê-los. A senhora ajeita o travesseiro do marido, e lhe da um beijo. Deixo-os conversar por alguns instantes. O braço de Maria ainda segura o meu. O menino das mãos firmes está calado, mas seu irmão conta com empolgação como o Homem-Aranha... Ele de novo... Derrotou o Duende Verde. A senhora vai até a janela, abrindo as cortinas para que o sol amarelo entre no quarto. Firmato olha para mim e Maria, depois para sua esposa, aí sim fala com a voz um pouco rouca.
- São seus amigos amor?
A senhora fica em silêncio.
- É o Jack Built pai. – responde o garoto.
- O quê? – Firmato está surpreso e mexe o corpo de maneira imprudente.
- Thiago! Não se levante. – a esposa corre para acalmar o marido.
- Você? Mas tão jovem? – Firmato faz uma careta de dor. – Achei que tinha morrido.
- Você e todos os jornais do Rio de Janeiro e do Brasil. – dou uma risada irônica.
- Mas como? – Firmato está feliz com a notícia, demonstra entusiasmo.
- O senhor que tem que me explicar como não se recuperou ainda. Enfrentei um bocado de meliante, levei tiros, e estou de pé. Você levou só um tirinho e está ai cheio das dores. – brinco.
- O super-herói aqui é você. – Firmato me devolve a brincadeira, sua esposa não gostou e fecha a cara.
- Ele precisa de sua ajuda Thiago.
- Como eu... – o delegado aponta para si. – Posso te ajudar?
- Preste bastante atenção homem. Preciso da ajuda de sua imagem. – afirmo.
- Imagem? – ele questiona.
- Você é quase um mártir essa semana. Para a imprensa. Eu te salvei, morri. Tentaram te matar porque você não é condizente com o crime e com a corrupção.
- E o que isso tem haver?
- Quero que vá para os jornais e televisões.
- Pra quê?
- Quero você contra a operação do General Costa Machado! – falo cada palavra com força e firmeza que merecem.
- Não mesmo! Agora que temos a chance de limpar pelo menos a Rocinha, os desgraçados viram o que conseguiram fazer com você, não haverá mais limites se não... – interrompo seu discurso.
- Não! O exército não pode subir o morro! Não assim! – quase grito.
- Achei que era o que queríamos! – Firmato também se exalta.
- Pense homem! Aquelas pessoas já vivem a margem, estão entregues à criminosos. Esses malditos virarão verdadeiros heróis se o exército comprar essa guerra! Um Estado de Sítio na Rocinha é a pior maneira de fazer isso...
- Não mesmo! Isso é uma guerra. Você caiu. Eu caí! – Firmato não sabe o que fala, ele não conhece Costa Machado, nem quero explicar essa parte.
- Cidadãos de bem serão esmagados! – argumento.
- Sinto muito Jack, mas não se pode agradar a todos. Não devemos ser passiveis mais perante essa classe criminosa que toma nossa cidade! Porque isso agora?
- Porque acredito na Democracia! E estão usando a minha morte para conquistar a opinião pública, e convencer os outros poderes a aceitarem essa medida extrema!
- Democracia Jack? Você... – Firmato se cala. Eu também.
- Peço... – engulo seco, nunca fui de fazer isso. – Como agradecimento por eu ter salvo sua vida! Faça isso. Confie em mim! Eu pegarei os irmãos que comandam o tráfico. Isso irá desestabilizá-los por um tempo...
- E de nada adiantará. Virão outros em seu lugar. – ele está certo.
- E continuaremos lutando! Eu peço... Por favor. Condene publicamente essa operação... – chego à beira de implorar.
- Farei isso. Pagarei minha divida com você. Agora saia! – essa frase dói. O desprezo pode machucar. Muito.
Obedeço. Maria e eu partimos sem dizer nada. No canto dos meus olhos vejo um pequeno tchau, do menino das mãos firmes.
RIO DE JANEIRO – 09 DE AGOSTO DE 2008
12:42 PM

Sem perceber Maria me conduziu até um Shopping. Me fez olhar algumas vitrines coloridas, roupas, aparelhos eletrônicos, tudo para tentar me acalmar. Ela não parou de falar um segundo. Me contou como o norte do país pode ser belo, não mencionou sua infância sofrida, mas disse que se lembra de ter visto um boto cor de rosa uma vez. Não sabe se foi sonho, ou realidade. Sua mente parece ter esquecido de muita coisa que viveu, isso não é necessariamente ruim. O boto é constante em suas memórias, segundo ela. Não perguntei por quê. Nem tentei imagina o que esse animal raro representa pra ela. As letras luminosas dançam em minha visão, pessoas as acompanham com prazer. O braço de Maria ainda segura o meu. Seu ex-marido foi assunto pela primeira vez. Por apenas alguns segundos, quando vimos a camisa do Bota Fogo. Ele era botafoguense. Ofereci a Maria um presente, disso que poderia escolher algo pra ela. Com muita relutância a convenci, então ela escolheu uma bata, simples e barata. Não discuti. Sei que ela ficaria desconfortável em escolher algo caro, não que dinheiro fosse o problema. Esses cartões hackeados, os quais os chamo de coorporativos, descontam na conta diretamente de alguns deputados e senadores corruptos. Espero que os contribuintes não reclamem. Tem muito dinheiro invisível rondando o país. Não me sinto bem com isso, mas dou uma boa contraprestação social.
- Não seria melhor mesmo, deixar isso por conta do exército? – questiona Maria, enquanto namora uma sandália com adornos de strass.
- Não Maria. Não do jeito que está sendo. – respondo perdido em tantos brilhos.
- Você tem que considerar que poderiam vir conseqüências benéficas... Ora. – ela argumenta.
- Claro, Maria Aparecida! Desde que você esteja disposta a deixar alguns cadáveres inocentes no caminho...
- É difícil de acreditar que... Isso aconteceria...
- Eu também. Mas o meu foi só o primeiro. Não posso arriscar.
- Você tem que deixar? – Maria me... desafia.
- Não existe essa idéia de fazer a coisa certa pelo motivo errado! O motivo deve ser certo, e o que fazer também. Lembre-se disso.
- Não sei se entendi, desculpa, não sou muito inteligente...
- Assunto encerrado Maria.
Caminhamos entre os corredores de lojas. As telas de plasma e lcd jorram informações para nós. E como bons receptores, perdemos alguns segundos com o colorido das explosões que acontecem no filme em suas telas.
- Estou com fome. – comenta Maria.
- Vamos para a praça de alimentação. Nada melhor do quê um bom fast-food, para nos sentirmos entalados. – sorrimos juntos.
O cheiro de comida é delicioso! Percorre as narinas sem pudor, me lembrando que estava com fome. Minha boca é tomara por saliva, já imagino o tamanho do sanduíche que vou querer. Vasculho os letreiros. Maria puxa meu braço.
- Vamos comer em outro lugar. – ela sorri sem jeito.
- Por quê? – questiono surpreso.
- Estou sem fome. – ela olha para frente e segue me puxando.
- Então pra que comer em outro lugar? Você mente muito mal Maria. O quê foi?
- Nada.
Viro a cabeça para tentar ver o que, ou quem, incomodou Maria desse jeito. Aperto os olhos. E nada. Ninguém olhando para nós, nenhum rosto ameaçador... Meu coração bate uma única só vez. Um coice firme e solitário. Em seguida para. A nuca formiga novamente. Meus olhos travam em Costa Machado! Mesmo sem o uniforme militar o homem transmite sensações de poder e autoridade. O braço frágil de Maria tenta me segurar, inutilmente deixo-a de lado e caminho até a mesa do General, que come tranquilamente sua refeição, acompanhado de um único homem de costas para mim. O caminho até a mesa é mais distante do que pensava, tentei ordenar meus pensamentos, decidindo se quebraria sua cara ali mesmo ou... Sento sem pedir permissão. Bem de frente para o General Costa Machado. Ele larga os talheres, e sem nem ao menos picas uma vez, olha dentro de meus olhos. Ficamos ali, não sei dizer por quanto tempo, travando uma luta psíquica, disputando quem de nós é o mais firme. Costa Machado ainda mastiga a última garfada, sem pressa, como se eu não estivesse ali. O homem viu meu rosto de longe dias atrás, jamais me reconheceria, mas isso não é necessário quando o espírito marca o ambiente com sua presença. Ele sabe quem sou! O mais estranho aqui é que estou... Calmo. Ao sentar meu coração voltou a bater de maneira ordenada e calma. Isso não vai ser uma luta. Definitivamente, não vai ser em um Shopping que terei de enfrentar o General Costa Machado.
- Vá comprar um suco para mim Rogério, e não tenha pressa. – toda e qualquer palavra soa como uma ordem. O homem, que agora vejo é um simples jovem de alguns vinte anos de idade, rosto familiar, obedece sem pestanejar. - Estou no exército a mais de quarenta anos. – a frase tem o peso de uma montanha. – Nunca fitei olhos como os seus. Há uma fibra nesse olhar. Ódio também, mas agora ele não o controla. Você é o tipo de homem que deveria usar uma arma. Ela não o dominaria, jamais. – suas mãos acariciam o bigode branco. - Nesses quarenta anos, é fácil imaginar, vendo a história de nosso país, o que enfrentei. Vi esse país crescer em cinco anos, assisti a sua modernização e participei dela. Queríamos ser fortes! Ansiávamos a alcunha de potência sul-americana. Tínhamos ordem, vivíamos em paz. Mas, os jovens, ah os jovens, queriam mais. Fome insaciável. Insatisfação infinita. Desejos que levariam a desordem. Esse demônio que se disfarça de liberdade, que adentra em nossas entranhas como verme... Era isso que queriam? Um país entregue aos corruptos e assassinos. – o General põe os dois braços na mesa, até essa cadeira de metal é um trono para esse homem. – Eu li a Constituição antes de 1988, eu previ. Eu sabia! Nós não queremos isso. Não estamos prontos. E agora veja... – seu braço me mostra o invisível. – Drogas, prostituição, tráfico de armas, assassinatos, estupros... Todos os dias.
- Isso não vai funcionar comigo General. – afirmo.
- Você quer o mesmo que eu garoto. – sua voz é como aço.
- Não, não quero General. Você me deixou para morrer. Poderíamos ter capturado vários daqueles malditos de uma só vez.
- Belotto foi claro. Você avançou porque quis. – nem ao menos uma vez, o desgraçado fraqueja.
- Eu tinha que salvar aqueles garotos!
- Tinha? – a pergunta fica no ar. – Ir a mídia foi uma idéia interessante, no princípio achei aquilo sujo demais. Mas o jeito que os meios te tratavam, em menos de uma semana você estava estrelando em todos os canais e revistas! Eu sabia... O garoto fez a decisão certa. Você não precisava ter salvo aqueles garotos, imagine, filhos de políticos assassinados pelo tráfico.
- Está querendo dizer... – denoto nojo. – Que eu não deveria ter salvo aqueles garotos?
- Não precisamos de viciados. Aliás, alcançaríamos os jovens nesse intento. - mais uma vez suas mãos acariciam o bigode.
- Seu...
- Você irá me ofender garoto? Só porque consigo ver através de olhos do progresso, prevendo situações e... – o General toma fôlego. – Tudo isso foi culpa sua. Inclusive a sua morte. Me lembro bem de nossa primeira reunião, você quis a sua espetacularização. Eu me aproveitei dela. – o velho sorri.
O jovem retorna com o suco enlatado.
- Esse que você pediu vovô? – sua voz não me é estranha. Ele se vira para mim. – Quem é esse?
A ira percorre meu peito, rasgando-o em seu interior! O fogueteiro! Aquele miserável que deixei... Eu caí em sua história... Ele disse que teria um filho! Eu aliviei para o filho da puta! ELE ATIROU EM MIM! Meu abdômen se contorce e me lembro da dor. Costa Machado percebe a raiva. Entende que posso esmagar o maldito e subjugá-lo como um brinquedo.
- Ele é Jack Built. – o jovem treme ao escutar as palavras do General, engasga com sua própria comida.
- Você não só me deixou para morrer... – não tiro os olhos do jovem, que agora só consegue olhar para o prato. – VOCÊ MANDOU ME MATAR! – todo o a praça de alimentação agora tem nossa atenção.
- O quê você queria que eu fizesse? – o velho volta a atenção para seu prato de comigo, enchendo sua boca dela, como se nada tivesse acontecido. – Eu tenho uma cidade para limpar. Encontrei a melhor maneira de fazer isso. Com força! Com eficiência! Graças a você... – ele ri novamente. Ele ri! – Agora parte da imprensa está do meu lado, a classe média em sua inteireza, algumas peças importantes do Judiciário... Agora as coisas serão do meu jeito! Não há lugar nessa cidade para traficantes, ladrões e assassinos. Não mais.
- E você irá matar a todos, ou quem precisar para isso. – provoco.
- É CLARO! – as migalhas de comida voam da sua boca. – Isso é preciso. Não vê? Acha que a polícia irá fazer esse trabalho? NÃO! Eles não têm colhões para isso.
- E você tem? – provoco mais uma vez.
- Tenho o quê você não tem. Soldados.
Concordo levemente com a cabeça, retomamos a batalha com o olhar. Ele é velho, e isso definitivamente não é sinônimo de fraqueza. Seus músculos ainda são fortes, delineando a camisa social que veste. Sua presença me incomoda. Eu confiei nesse mentiroso! Nesse manipulador! NÃO! Ele não pode vencer.
- Velho. Sem rodeios. Me poupe dessa sua retórica porca. Sentei nessa mesa só para te dar um único aviso... – Costa Machado controla seu humor com sua respiração, e está atento. – Se seus soldados entrarem em alguma casa onde uma família esteja almoçando em paz, ou se algum trabalhador for atingido por uma bala perdida sequer, não me importará quem a disparou, ou se alguma criança sujar o asfalto com sangue, eu irei atrás de você! E você estará comprando uma guerra que não poderá vencer.
- Como ousa seu... - o jovem se exalta.
Agarro seu antebraço com força com a mão direita, enquanto a mão esquerda agarra a faca de serra que o imbecil usa para se alimentar e cravo em sua mão!
- AARRGG!! – o meu assassino grita de dor.
A lâmina atravessa a carne de sua mão, usei força o suficiente para que a faca crave na madeira da mesa, deixando-a presa. O sangue começa a minar. Costa Machado não mexe um milímetro sequer. Engole o restante de comida em sua boca. Abre o suco, toma um gole e bate a lata com força na mesa. O líquido pula junto com os talheres e pratos, suja completamente a mesa.
- Quem é aquela moça com rosto preocupado, logo ali atrás? – fala o General, escolhendo bem as palavras. – Muito bonita.
- Fique longe dela. – ameaço.
- Você é meu inimigo agora Jack. Irei te caçar se ficar em meu caminho. Deus sabe que irei te caçar como um animal se você ficar entre minha operação e a favela da Rocinha.
Levanto de forma brusca, derrubo a cadeira e vou em direção a Maria. Agarro-a pelo braço. Ela treme, e está com a cara assustada.
- Vamos embora! Chegando na sua casa, empacote suas coisas. – falo enquanto ando apressadamente pelo Shopping. – Você vai se mudar!
- Pra onde? – Maria quase tropeça ao tentar acompanhar meu ritmo. Não largo seu braço.
- Hoje à noite vou pegar os irmãos! Esse baile não vai acontecer. Depois você vai para Minas Gerais comigo! Amanhã é o meu último dia no Rio de Janeiro... – olho para ela. – E o seu também!
Nos camuflamos em meio a multidão.

Sábado, Junho 20, 2009

Arrepios: Idéias Mortas ou Como Se Alimentar de Capim e Ler Marx



Por que esse tipo de mentalidade retrograda só se perpetua nas Universidades Federais? Duvido que seja, digamos, uma ideologia majoritária nos campus e faculdades federais pelo Brasil. Mas com certeza é marca registrada de cursos de História, Geografia, Sociologia (Ciências Sociais), Filosofia, e - agora arrepiem-se - Direito. Em suma, a bobajada esquerdopata ronda e se mantêm de forma constante nas ciências humanas. Enfim, não sei o porquê da burrice endêmica. Tudo bem, temos que conviver com a bobagem. Lembram-se? Só que ninguém é obrigado a aturar violência! Essa bobagem não pode vir e esmagar meu direito, aquele básico que todos sabem, o clichê dos clichês, o de "ir e vir". É o que acontece na USP! Sim. Essa mesmo meu caro. Vejam o video, ele fala por si. Quem é contra a greve deve ser... Espancado e apedrejado. O motivo? Desejo de oprimir os oprimidos, aposto! Sigo em frente no texto, de forma geral e com fatos vividos por mim.
Uma das razões de meu arrepio a estudantes dessa trupe, é a famosa antropologia marxista de categorizar pessoas. Somos "trabalhadores", vulgo proletariado, categoria que traz a inata qualidade da honestidade, e o defeito de serem "oprimidos", ou então somos "burgueses", aqueles que exploram e toda a ladainha que aprendemos nas auletas de história. Chamo essa razão arrepiante de... Arranca Rabo de Classes. Quer coisa mais atrasada, imoral, manipuladora, e sem fundamento fático que isso? Para alguns essa besteira de séculos passados, esse motivo para derramamento de sangue, ainda existe. E vejam! É uma justificativa para... Burlar nossas leis. Ver USP. Ver MST.
Dando continuidade, o parágrafo anterior nos mostra outro detalhe desprovido de sentido... A Causa. Notem, todo estudante das idéias mortas tem uma causa. Essa energia motivadora de suas bobagens fanáticas e radicais, sempre é justa! Sempre! Não importa quantas leis ou pessoas que tenham que esmagar. A Causa é sempre JUSTA! Ver Cuba. Ver Che Guevara. Ver qualquer facistóide latino-americano.
Temos as categorias e a base, agora e quem for contra? Quem não concordar com o iluminismo santificador que essa galerinha propõe? De duas uma, ou é movido por interesses egoísticos, ou é alienado. Tente debater de qualquer forma com a trupe do radicalismo, você vai acabar sendo espancado ou ridicularizado por ter... A razão! E eles sempre contarão com um argumento - liguem a Tecla Sap. - dogmático e real. "O socialismo real nunca foi implantado". Claro que não! Não tem como! Não presta! Existe uma brecha, como as pernas de uma puta de vermelho, para a ditadura! E aposto que até Marx ou Engels, nem fazem idéia do que era. São conceitos mortos e devem ser esquecidos. Em outros textos meus, só ir fuçando o arquivo, refuto com mais calma outras esquisitisses dessa galerinha. Com mais calma e detalhe. Até mais entusiasmo eu diria. Continuemos.
No Encontro Mineiro dos Estudantes de Direito, lá estava o seu estimado amigo, tentando se divertir, e nas horas vagas aprender algo. Durante as pescadelas nas palestras, um dos temas era os 120 anos de nossa República. Bacana não? Uau! O interessante mesmo veio depois, no decorrer dos chamados Grupos de Trabalho. Nós tinhamos que assistir as palestras, e após a soneca, iriamos nos dirigir até salas de aula para debater o tema proposto. Friso, a República. Assim, com cara inchada e ressaca no sangue, lá fui. Me bateu uma certa saudade de 2007, em outro também Encontro Mineiro dos Estudantes de Direito, quando lembrei de uma discussão minha com uma aluna da UFMG, a respeito do tratamento desigual entre empregador-empregado. Dessa discussão eu previ... Lá vem mais um GT daqueles! Não foi diferente. Nem venha me perguntar como o assunto foi parar naquele famigerado programa assistencialista. Os detalhes me escapam, mas não a essência! O nome da bagaça: Bolsa Família. Alguém duvida que esse programa, essa assistência, mesmo que tenha uma consequência - argh! - nobre, é usado como moeda de troca eleitoral? Alguém em sã consciência acha mesmo que o governo atual faz jus ao ideário da "multiplicação dos peixes"? Sério! Convenhamos, é essa esmola dada a milhões que sustenta a imoralidade e a solapação das instituições democráticas! Essa porcaria alimenta o "povo" - arrepios! - alicerce dos populistas, aproveitadores e corruptos. Não é novidade. Então, não perdendo o foco, o responsável por conduzir o debate era um verdadeiro entusiasta da Causa. Sua fala era apaixonada! Firme! Cheia de certezas! O dito cujo era professor universitário. Em meios aos comentários dos mais esdruxulos e imbecis, sem contar com os inúteis. O vingador solta, reproduzo literalmente, minha memória gravou essa frase, e passarei para a eternidade aqui: "Pelo menos o pobre come". Conseguiram extrai a safadeza dessa frase? Que se fodam as leis! Que se fodam os princípios democráticos! Que se foda a tolerância! Que se foda o seu dinheiro! Que se foda a República! Desde que... O pobre coma. É bonito? É A Causa! Quando o homem terminou a supra citada frase, levantei a mão e disse: "Não. Não é assim. Pelo menos o pobre SÓ come". Tenho outros exemplos fáticos que vivi, mas os deixarei para outra hora. Quem sabe você já não o tenha lido? Vou fazer uma relação dos meus xingos direcionados a essa trupe. Os links estarão disponíveis no fim do post.
Vejam o video mais uma vez. Passeata? Manifestação? Deixo para os mortos e fanáticos. Se quero protestar, contestar, ou tentar, vá lá, fazer a diferença, eu escrevo! Sozinho? Que seja. Só não me peça para comer capim.

Outros textos:

Um desabafo...
Depois do desabafo, uma revolta...
Depois do desabafo, uma revolta, uma conclusão!
Fudendo, Explicando e Flertando com a Democracia - Parte 1
Fudendo, Explicando e Flertando com a Democracia - Parte 2
Fudendo, Explicando e Flertando com a Democracia - Parte 3
A Retórica das Falsas Verdades
Eleições 2008: Algumas declarações e um manual de "Como não ser feito de..."
O Cu do Universo: um lugar chamado planeta terra
Uma Conversa Com Reinaldo Azevedo
As Massas

Sexta-feira, Junho 12, 2009

Clube do Anti-namoro

Existe algo mais estúpido do que namorar? Tá! Eu sei que existe. Ser comunista é um bom exemplo. Gostar de Caminho das Índias é outro. Sério! A instituição do namoro é ontologicamente uma hipocrisia. Antes deu explicar o porquê, vamos entender seu significado. Não há dia melhor do que hoje para escrever essas palavras, afinal... Feliz dia dos namorados. Não, não, não. Aos nervosinhos e defensores fervorosos das alianças de prata, relaxem, curtam o carinho e amor desses kbites gramáticos em formas de letras. Se não der. Tentem se divertir.
Namoro, do latim, game almost over. É o nome que se da a uma relação mais íntima entre pessoas. O íntima inclui beijinhos e amaços. Se você possui um amigo ou amiga assim, devemos extrair outro requisito de tal instituto que é a exclusividade. Fazendo jus a Bíblia e outros livros religiosos do tempo em que jogar pedra nos outros era bacanissimo, e cagar, jogando as fezes pela janela era o máximo, chamaremos essa exclusividade de... Fidelidade. Essa é a hora que um arrepio percorre toda sua coluna, o pescoço aperta. Sim! A tão desejada coleira.
Até aqui estamos entendidos? Para caracterizar um namoro, não basta passear de mãos dadas pela calçada. Você deve ter contato físico, além disso ser fiel. Quer dizer... Não necessariamente fiel... Bem... É... Que... Continuemos com a dissertação. A gênese de tal galenteio tem origem no olhar. Uma pessoa olha para a outra, seu peito da um coice, o desejo é o guia de suas ações. Se seguir todo o ritual mágico, aquela mentirada de ser gente boa, educado, limpo, você conseguirá partir do ficar, para o namorar. Essa passagem exige alguns ritos de iniciação. Como na máfia. Só que sem ter que segurar a Santa de madeira, enquanto ela pega fogo. Aquele que anseia aprofundar uma relação deve: 1) conhecer a família; 2) conhecer os amigos; 3) conhecer os animais de estimação. Depois disso, pronto! A pessoa é oficialmente namorado de alguém.
É claro que acima resumi grossamente, e de maneira mal educada, todo o galanteio, o romance, o tremor das mãos e a nervosia de cada um daqueles momentos. Mas lembre-se, sempre existe uma coragem líquida que se chama cachaça. Essa mesmo! Aquela que lhe deu coragem de conhecer seu namorado, naquela festa... Lembra? Adiante. Todos sabemos o que é um namoro! Na Índia não pode, sabia? Ainda dizem que lá é um lugar super descolado. Pelo amor de Jah! Não podemos nem comer um bom bife de vaca. Desculpe mais uma vez, espero não ter que pular para um próximo parágrafo. Outro fato notório é que todo namoro está fadado ao fim, do latim, the end. Isso te incomoda? Eu sei. É triste. Superável, completamente. O império romano acabou, ninguém chorou por ele. O muro de Berlim caiu, e ai? Agora você está abrindo o orkut do seu namorado, vendo as amigas lindas que deixaram recados para ele, o suicídio é tão legal nesses momentos. Mas o fim pode ser bom. Não. Não! A saída não é ir para farra. O casamento é um fim do namoro. Gostou agora né? Noivado é um namoro com aliança de ouro, e uma desculpa para o homem enrolar as mulheres. Tanto ser namorado(a) ou noivo(a) é um aquecimento para o casamento! Um treinamento. Um briefing. É nesse curso da vida que você aprenderá várias coisas super interessantes, ganhando uma experiência super descolada e sendo alguem... Maduro! Pessoas podem ser de várias maneiras, mas você aprenderá que - agora segue uma lista auto explicativa:

  • De perto todo mundo é de alguma maneira... Pior.
  • Parentes são um tormento.
  • Amigos de homens sempre são contra o namoro do amigo. Amigas de mulheres sempre estão prontas para dar o - vulgo - pulão no namorado da amiga.
  • Traição é como a gripe. Não a suína, que, pasmem!, teve cerca de cinquenta casos no Brasil! Traição é uma dengue mais endêmica. Mais constante que as guerras dos homens cruéis e malvados, que assolam nosso planeta como uma chaga constante, seifando vidas, e mais vidas (lágrimas).
  • O ciúme tem como fonte a insegurança.
  • A insegurança tem como fonte o passado, ou uns quilos a mais, ou uma cara feia, ou... Entenderam né?
  • O passado tem como fonte uma infância sinistra, cheia de traumas, decepções, traições - ver tópico acima - , que perpetuaram pela adolescência, e o perseguem na vida universitária.
  • Confiança é um tesouro! Tão frágil quanto precioso. Raro, muitíssimo, raro. Quase uma lenda. Um folclore urbano inventado para você comprar presentes e saciar seu consumo nessa sociedade nojenta e capitalista! Não, nada disso. Falando sério, confiança é mais parecida com os alienígenas... Todos conhecem alguma pessoa que já viu, e juram de pé junto que o Universo é grande demais para nossos caprichos.
Maduros. Somos todos maduros o suficiente nesse instante. Namoro não é um mar de rosas, nem mesmo um mundo fantástico de Bob. Esse ensaio para o casamento, ou essa curtição compromissada, tem o destino fatal porque homens e mulheres, digo, pessoas - maldita Constituição que dá direito a todos indistintamente, agora tenho que considerar namoros gays. Nada contra, só estou me acostumando a falar de relacionamentos... Indistintamente. Isonomia saca? - não conseguem se entender! Discutir relação é algo totalmente desprovido de sentido (ler Ciclone e Aguaceiro, neste blog). Homens são burros por natureza. Inúteis e imbecis em seu âmago. Como vocês (mulheres) esperam que entendamos tudo que passa em seus neurônicos elétricos? Detalhe, mocinhas tem uns milhões a menos. É impossível, outrossim jamais as mulheres, que sentem demais, saberão entender a natureza masculina. Mulher não raciocina, mulher sente. Mulher não pensa, matuta. Mulher não discursa, ladainha. Mulher não sente... Tem TPM. Rapaz, tente ficar em silêncio por dois segundos com sua namorada. Aposto minha vida, que ela perguntará como não quer nada, utilizando daqueles olhos pidões, "o quê você está pensando amor?". Viu? Ganhei a aposta. E você senhorita, saiba que amigos do seu namorado são necessários. Matilha. Um lance animal e macho! Ele a descartará sem saber que faz isso, pois para ele é natural. Inconscientemente o homem é grosso, ausente, sacana e... Burro.


Dia doze de junho. Dia dos namorados. A data que comemora algo que irá acabar. Um instituto social fadado ao fim. A inexistência. Onde amor e respeito, dançam distintamente, sendo úteis somente unidos. No fim, só não queremos estar sozinhos, poder olhar para os olhos de outra pessoa e falar... Eu te amo. Sem medo, sem qualquer vergonha. E assim ter como resposta... Eu te amo. Por isso namoramos... Para sermos namorados de volta, independentemente de qualquer obstáculo! Ser amado e amar vale a pena! No mais, para os solteiros de plantão, vamos para a farra e brincar de amar o mundo!

Sexta-feira, Junho 05, 2009

Jack Built, o Louco - Perto de Cristo, Longe de Deus! Capítulo XIX: Guerra Contra O Crime

RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
10:21 AM

O dia está lindo! Poucas nuvens e um sol amarelo iluminando esse mundo sujo e podre. Como estão felizes. Afinal, é sexta. O dia do baile funk se aproxima, estão todos estonteantes e confiantes. Apoio o rifle em meu ombro com cuidado, o vento acaricia meu rosto com carinho. O calor não chega a me incomodar. Não de colante. Armo o rifle. Todos eles bebem felizes, cheiram e fumam suas drogas.
- Eu sou o marinheiro da perna de... – cantarolo sozinho em cima do telhado, como um felino no cio. – Pau!
A bala corta o ar com ferocidade. Ultrapassa a velocidade do som, com certeza. Seu rugido é abafado pelo silenciador, mas o som das chamas que lançam o Stillo prateado pelo ar não podem se calar. Seria fácil mirar na cabeça do Joãozinho. Seu cadáver ilustraria muitos jornais pelo Brasil. Pena que seria só mais um verme morto. Não, não, meu amigo. É hora de incutir terror! Minha mira foi perfeita, o carro explode sem pudor. Uma puta que adora gritar! Pessoas correm e gritam. Meu alvo mija nas calças de tanto medo, assim como seus comparsas. Todos correndo imitando baratas medrosas.
Tenho três dias para prender os chefes do tráfico. Joãozinho e seu irmão, o maldito que me espancou dias atrás, Bombinha, como também Antonio Pereira. No meio do caminho o plano é tentar ferir o máximo de criminosos possíveis. Por três dias a Rocinha é minha! Não tenho outra alternativa, se a operação do General Costa Machado for mesmo concluída, não vai sobrar direito sobre direito do povo. Casas serão reviradas. Pessoas ficarão na linha de tiro dessa guerra. Isso vai virar um Estado de Sítio, e não vai ser nada bom. Preciso entregar esses malditos... Espero que seja o suficiente para saciar a fome do General.
Desmonto o rifle em poucos segundos. Guardo-o na mochila. Coloco o boné do falecido marido de Maria, pulo do telhado, e me misturo à multidão em pânico.
Envolver Maria Aparecida nisso é uma má idéia. Ontologicamente uma péssima idéia. Para não dizer covarde. Embora ela tenha gostado, não posso medir as conseqüências. É claro que Maria não vai estar na linha de frente, mas preciso de ajuda logística. Dei alguns cartões de crédito coorporativos, e sua missão é trazer dois computadores até o meio dia, com placa de vídeo e todas as frescuras necessárias para as máquinas serem eficientes. Ir a qualquer loja de operadora de celulares, e trazer internet móvel mais rápida que conseguir. Também dois aparelhos e chips novos. E por fim, juntar o máximo de informação possível da operação divulgada ontem pelo General, em jornais, revistas, e até na televisão.
Preciso ser rápido e eficiente como nunca. Estudar em um dia o comportamento dos traficantes, e neutralizar o máximo possível, não vai ser fácil. Eles também devem ter visto o discurso ontem. Dou graças por esses malditos serem previsíveis. De duas uma, ou eles correrão como ratos, ou se armarão para a guerra. Como estão excessivamente confiantes por terem me matado, seria uma vergonha cancelar o baile.
Me embrenho em becos e morros, não gosto de andar pelo solo. Esse emaranhado de casas parece um labirinto. Um campo de futebol surge a minha frente. Não há grama, natural ou sintética, apenas a poeira e a terra sendo levantadas, em meio aos gritos de crianças felizes. Do outro lado do campo um adolescente, magro e com olhar perverso, suas mãos frágeis seguram uma automática. Os óculos escuros apoiados em sua cabeça, tentam dar um ar de adulto a sua imagem. Não conseguem. Todos a sua volta o ignoram, como se fosse uma estatua de algum poeta morto, ou uma fonte. Seu celular toca. O jovem sai correndo. Chego a sorrir. Corro atrás, tentando ser o mais discreto possível.
Sigo-o até um comércio de registro duvidoso. Um açougue. O fedor da carne se alastra pela rua. O jovem entra. Noto as várias motocicletas á porta. Sessão de terapia. Olho para o relógio. Penso em Maria. A coitada saiu cedo para buscar minhas encomendas, já é quase hora do almoço. Devo ou não me permitir? Foda-se. Isso vai ser interessante.
A aparência é ordinária, comum. Carnes penduradas ainda sangrando, lingüiças e frangos sem cor enfeitam o freezer. O triturador geme ao moer a carne. O homem de branco e barba por fazer me olha curioso.
- Vai querer maminha ou picanha? – pergunta com uma voz repugnante, assuando o nariz logo depois.
Ignoro e tento olhar o que acontece por detrás da porta de metal.
- Mermão! Vai querer o quê? – o homem insiste, agora apontando o facão.
Sorrio. Perdão Maria, mas vou me atrasar um pouco.
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
12:37 PM

- Quando o senhor falou em tocar o terror, não pensei que levaria ao pé da letra! – repreende Maria.
- Do que você está falando? – ironizo, enquanto deixo a mochila no sofá, indo direto para as caixas ainda embaladas. – Muito bem soldado. Missão cumprida. – abro as caixas e começo a instalar os computadores. – E a internet?
- Olha aqui super-herói, acabou de passar no jornal! Carro explodindo, uma refinaria de cocaína totalmente destruída e treze homens presos. – sinto uma pitada de diversão em suas palavras.
- Você fez almoço?
- Espere aí... Agora sou cozinheira também?
- Isso! Precisamos ficar fortinhos... – ligo tudo onde deve ser ligado, cabo por cabo. – E você vai ter um curso intensivo de vigilância monótona via satélite.
A comida de Maria é deliciosa. Tempera o feijão como se pintasse um quadro de arte, com cuidado e na medida certa. Conversamos bastante. Ambos diferentes, como se voltássemos a viver, deixando de lado aquele sentimento medíocre e depressivo. Morte acaba fazendo isso. Nos ronda silenciosa, e ataca quando menos espera. Sempre nos lembrando da finitude do ser humano. Ser limitado e frágil. Maria fica linda com uma roupa casual. Qualquer tipo de vestimenta cai bem em seu corpo brasileiro, suas curvas são dignas de uma deusa indígena. Seu sorriso é um imã ao sorriso alheio. Gosto de vê-la feliz.
- Como você convenceu a doutora de me dar folga hoje? – não contei de meu papinho ontem à tarde com Janete.
- Liguei e falei que você estava doente.
- Só isso?
Faço sim com a cabeça.
- Temos que montar nossa mentirinha. – afinal, não sabemos o quão fofoqueiros são seus vizinhos.
- Pra quê? – ela questiona, enquanto se levanta e começa a lavar as louças.
- Uma viúva, do nada, agora tem um homem em sua casa. – levanto os braços entojando a voz.
- Não vejo nenhum problema. Nem tenho que dar satisfação da minha vida... – Maria se irritou um pouco.
- Eu vejo. Porque pessoas falam! E também porque pessoas escutam. E certas pessoas não podem escutar que um estranho... – enfatizo. – Milagrosamente apareceu na casa de uma viúva solitária.
Maria agora está séria, com os olhos vidrados na água que cai da torneira.
- Você é meu primo distante. Ponto final. Vou espalhar a notícia entre os vizinhos. – Maria é seca, direta.
- Vamos para o computador. Chega de papo.
- Só uma coisa... – ela me interrompe.
- Pode falar.
- Você não quer acabar com o crime?
- Quero.
- Então, qual o problema dessa operação do General? Vários soldados entraram aqui, vai ser complicado eu sei, mas limparão a Rocinha em menos de uma semana. É o que você quer.
Paro um minuto, reflito... É complicado.
- Maria... – ainda não encontro palavras. – Quando está nesse mundo, quando você sai de casa e decide fazer da sua vida... Quando tentamos fazer o certo! Ele substancialmente tem que ser o certo. O tráfico é só uma ponta de todo esse gênero crime. Não que eu esteja diminuindo... É maléfico, uma chaga...
- Você não está chegando a lugar nenhum...
- Limpar a sujeira não adiantará de nada. A não ser que aja uma melhor estruturação e projeção a longo prazo. O que o General fez foi aproveitar a espetacularização feita com minha morte, e transformou isso em uma tragédia, conquistando a opinião pública. Agora ele tem o aval da sociedade para suspender direitos fundamentais dos cidadãos daqui da Rocinha. Que vão ficar no meio da troca de tiros, e serão os únicos sofredores com tudo isso. O tráfico continuará existindo, pois conta com apoio de conglomerados mafiosos internacionais e da tolerância da sociedade, em enxergar o básico sobre qualquer mercado... Ele só sobrevive com o consumo. Temos sorte do crime aqui não ser organizado...
- Então o que você faz também é inútil... Já que é uma luta perdida. – Maria é incisiva, ela compreende o dilema.
- É o que quero fazer todas as noites.
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
15:00 PM

Maria é uma mulher inteligente. Compreendeu que tenho um parafuso solto, de alguma forma isso a agrada. Me conectei por um link pirata aos satélites americanos da CIA, não tive tempo de explicar como isso funciona. Na verdade nem eu compreendo bem. Cortesia de um amigo meu. Em sua tentativa de elucidar o procedimento, o engraçadinho disse, “é como o Google Earth, só que ao vivo, e com um zoom descente”. Consegui localizar meus três alvos, e esse brinquedinho computadorizado tem a opção de marcá-los, fazendo o próprio programa segui-los. Seus rastros ficam marcados com uma linha levemente amarelada, à medida que o trajeto, a rotina se repete, essa linha rotineira fica mais forte, assim posso traçar... A rotina dos meus alvos. Esse é o papel de Maria Aparecida, ficar em frente o computador e me informar cada detalhe.
Segundo ela, daqui duas semanas o exército ocupará a Rocinha, por sessenta dias, podendo ser prorrogados por mais sessenta se assim decidirem. Serão quinhentos soldados, contando com apoio aéreo e terrestre de carros blindados, caminhões e helicópteros.
Já rodei todo o morro e nada relevante. O ataque da manhã surtiu algum efeito, apenas a policia finge que ronda o local, e o helicóptero da imprensa capta tudo. Tenho um plano para a noite... Acho que Maria merece uma distração. Disco para o único número salvo no celular.
- Senhorita Aparecida?
- Pois não senhor herói. – ela gargalha. – Os três estão quietos em casa. Nenhum ousou sair.
- Digite automático no campo a sua direita.
- Pra quê?
- Mocinha curiosa você hein? – não dou tempo para a resposta e continuo. – Vamos para praia. O sol está me queimando aqui! Vamos nos divertir.
- Pensei que...
- Pensou errado! Me encontre no ponto de ônibus.
Desligo para não ouvir mais protestos.
RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
16:20 PM

Durante toda a pequena viagem até Copacabana, tive que ouvir protestos. Meus argumentos sendo jogados contra mim. Agora que percebi, três dias serão mais do que suficientes! Vou trabalhar durante a noite. Seus lábios se mechem, meu cérebro se desconecta como se desativasse minha audição. Mulheres gostam de falar. Interrompo seu discurso.
- Vamos dançar amanhã à noite. – sorrio e olho para o mar azul e magnífico.
- Que? – ela se surpreende.
- O João...
- O irmão daquele monstro musculoso...
- Isso. É dono de uma boate, vamos fazer uma visitinha.
Maria não comenta a idéia. Nem precisa, quanto menos souber melhor. Vou pegá-los onde menos esperam. Tenho o elemento surpresa, presumidamente morto do meu lado. Hoje vou assistir uma aula de Direito.
Saltamos. Em todos esses dias no Rio, somente hoje me dou ao luxo de ver o mar. De observá-lo. Olho para o alto e avisto o Cristo. Nos vigiando, como um protetor silencioso e frio... Feito de cimento e ferro. Toco a areia com meus pés, o calor é confortável. Esse momento demora mais do que deveria, deixando Maria preocupada.
- No que está pensando? – pergunta.
Quando me viro meu queixo cai. Gravidade! Libido! Seja o que for. É inegável que Maria é maravilhosa. Com seu biquíni discreto e um pouco velho, como se jamais tivesse usado, Maria Aparecida é ainda mais bela. Suas curvas são perfeitas, modeladas por um talentoso escultor. Nenhum defeito, nenhum detalhe. Qualquer estria ou celulite que exista é insignificante. Ela repara o meu espanto, ruboriza. Tiro a blusa, deixando os raios solares atingirem meu corpo branco demais. De alguma forma ela também se espanta. Tiro o curativo do abdômen com cuidado, quase curado. Um pouco de água do mar fará bem.
- Vamos? – convido para entrar no mar.
- Não posso. – seu rosto ruboriza mais uma vez.
- Por... – me calo. – Entendi.
- Prefiro tomar sol. – Maria sorri, mostrando o sorriso perfeito.
Alongo todos meus músculos. Estico os braços em busca de liberdade. Estalo a coluna. Caio na areia, e faço algumas flexões para aquecer. Os homens ao redor babam no corpo moreno de Maria, rio comigo mesmo. Em um pulo me levanto, e corro em direção ao azul infinito. Me sinto um moleque. Uma criança que vê pela primeira vez a sua insignificância perante a natureza. No caminho meus olhos se perdem em uma atriz mais ou menos famosa. Continuo e deixo o mar me banhar. O ferimento arde. Ignoro. Mergulho na água salgada. Deixo as ondas me acertarem. Me viro para a areia e aceno como um bobalhão para Maria, que me devolve outro daqueles sorrisos cativantes.
Com a água em minha cintura, agora contemplo o Rio de Janeiro. Sua beleza, sua maravilha. Pessoas tentam sobreviver aqui, chegam a ignorar a podridão. Às vezes eu também consigo... Não enxergar. São momentos gostosos, fazem valer a pena viver.
- Augusto? – uma voz familiar me arranca de meus pensamentos.
Angélica! O coração não se sintoniza com o resto do corpo, chega a bater tão forte, parecendo que pularia de meu peito a qualquer momento. Disfarço a surpresa, entoando qualquer outra reação.
- Angélica, como está? – por uma coincidência cruel, estamos a sós nessa pequena parte do Atlântico. Se não estamos, sinto como se estivéssemos.
Um tapa acerta meu rosto. Como resposta instintiva meu corpo se prepara para o ataque. Respiro fundo e seguro a reação. Meu rosto ainda arde quando sou bombardeado pelas palavras de Angélica.
- VOCÊ ESTAVA CERTO! Ele ia estuprá-la! O desgraçado admitiu para todos em uma mesa de bar. – sua voz é aguda, seu rosto meigo angelical sofre com algo que não entendo. – Ele ria Augusto! Ele ria, enquanto se vangloriava que estava prestes a comer minha amiga. E todos riam juntos! – lágrimas escorrem de seu rosto se misturando com a água do mar. – E você... – seus olhos claros atingem os meus, minhas pernas chegam a tremer. – VOCÊ TINHA QUE MORRER! – como? Me pergunto, enquanto mais uma vez meu queixo cai. – Acha que não ia perceber? – seu dedo agora está próximo do meu nariz. – UM CARA VINDO DE FORA, todo bonito, corpo sarado, e espancando drogados em uma festa. Seja lá qual for sua identidade, ESCOLHA UMA MÁSCARA MELHOR!
- Angélica... – meus braços buscam seu corpo trêmulo.
- NÃO ME TOCA! – recuo. – Eu chorei por você. Como se você fosse grande coisa para mim... – sua expressão agora é cínica. – Você só me comeu em uma porra de um dia! SÓ ISSO! E eu sofri por alguém que está se divertindo como um IDIOTA!
Seu discurso se encerra. Suas lágrimas também. Queria concordar, contar tudo. Não posso.
- Não sou quem você pensa que é. – sou frio.
- Como não? – Angélica esbraveja.
- Você fumou demais hoje. Vá para casa.
Angélica arma outro tapa, agarro seu braço antes de acertar meu rosto. Ficamos ali, em meio às ondas, nos digladiando com o olhar. Como ela é linda. E frágil. Tão diferente de Maria. Largo seu braço, e sem dar nenhuma palavra, vou em direção à areia. Maria vem correndo em minha direção.
- O que aconteceu?
- Nada.
- Quem era ela?
- Ninguém.
- Não vai me responder? O quê aconteceu?
- Vamos embora.
- Mal chegamos. – de alguma forma Maria protesta.
- Pode ficar se quiser. Eu estou indo embora.
Um babaca. Um ignorante. Nojento. Sujo! Grosso. Pego as roupas sujas de areia e parto. Não sei para onde, apenas ando, com a vontade de matar alguém.

RIO DE JANEIRO – 08 DE AGOSTO DE 2008
19:35 PM

Mais cedo lembro de Maria me perguntar sobre o uniforme. Disse que sem a máscara ele não vale de nada. Arrumei uma toca vagabunda para esconder parte de meu rosto, não é muito eficiente, mas servirá.
A Universidade está movimentada. Jovens em passos ensaiados vão de sala em sala, buscando um futuro decente. Me informo com o porteiro, e vou em direção a Faculdade de Ciências Humanas. Sou uma presença estranha, os demais universitários notam isso e cochicham entre si. Meu primeiro dia na escolinha. A segurança é débil. Meros enfeites. Adentro no prédio construído no século passado, com uma arquitetura dos anos quarenta se não me engano. Pelo corredor um professor se vangloria de seu doutarado, sobre algo claramente desinteressante. Papos sobre leis e provas permeiam o corredor. De porta em porta, busco pela pequena janela algum rosto conhecido. Na quarta tentativa eu avisto...
Antônio Pereira. Ex-policial militar. Corrupto. Traficante. Cafetão. Minha presa. Minhas mãos agarram a toca com vontade, puxando para baixo, ocultando meu rosto. Ergo minha perda, e com um só golpe ponho a baixo a porta da sala de aula! Interrompo algo sobre Teoria Geral dos Contratos. Todos se assustam. Principalmente, uma loira que grita histericamente. Caminho até a carteira de Toninho, que assim como os outros alunos não entendem o que está acontecendo. Ninguém ousa me parar. Agarro o verme pelo colarinho! Como um brinquedo, levanto-o e o lanço em cima das carteiras. Chego a derrubar outros estudantes. Eles superam. Vejo o temor em sua face. Isso me anima. Chuto tudo que encontro em minha frente. Mochilas, carteiras, bolsas. Tudo que me separa do meu alvo.
- Quê... Porra! – um palavrão, estava sentindo falta da boca suja desses filhos da puta.
Toninho é gordo, como qualquer outro homem de quarenta anos. Seu rosto é enrugado, e eu faço questão de enrugá-lo ainda mais com um soco! Pego-o pelo cabelo e bato suas costa na parede! Protestos contra minha violência ecoam pela sala. Ignoro. Antonio tenta reagir, inutilmente. Cada tentativa é devolvida com uma pancada mais forte. Nenhuma palavra sai da minha boca. Ele entende o que está acontecendo.
- Agente pode conversar... – soco sua nuca, o criminoso entende a mensagem.
Arrasto-o como um troféu por toda a Universidade. Pessoas correm para saciar sua curiosidade. Toninho pede por ajuda. Ninguém ousa. Muito menos os seguranças. Caminhamos até seu carro. Uma passeata, uma verdadeira platéia nos segue em direção ao estacionamento. Chuto o saco de merda, fazendo-o catar cavaco até bater com a cabeça no farolete de seu Honda.
- O quê... – não o deixo terminar e acerto mais uma vez seu rosto.
Vasculho seus bolsos, suas mãos tentam impedir as minhas. Quebro seus dedos. Todos eles. O gordo grita! Encontro à chave do carro. Abro o porta malas, e lá está... Sacos cheios de comprimidos e cartelinhas de sintéticos. Pego um desses sacos, esfrego na cara de Antonio.
- Sabia que isso é especialidade da máfia turca? – quase rosno.
Estapeio seu rosto com as drogas, até o saco estourar e cartelas e comprimidos tomarem o chão. Parece que o homem percebe quem sou... Isso me irrita e acerto seu rosto com mais força. Ele chora. Mal escuto os protestos e esbravejos em minhas costas.
O vermelho da polícia reflete nas árvores, e a sirene é estridente. Hora de ir. Largo a carcaça espancada de Antonio e parto, indo em direção aos estudantes, minha platéia, que se abrem como o mar para Moisés. Todos eles agora quietos, apenas murmúrios e cochichos. Estão intimidados.
- Você pensa que isso ajuda? – uma jovem de óculos grandes pula em minha frente. – Acha que assim teremos justiça? Leis! – ela segura seu livro como um escudo. Temos leis! Não precisamos disso. Não destrua tudo que conquistamos com essa justiça torpe e suja. – a jovem é tão pequena, não é bonita, mas tem seu charme. – Eu sei que ficamos indignados, desacreditados, mas o que você fez é... – suas mãos trêmulas arrumam seus óculos desajeitados. ERRADO! Pare de destruir cem anos de teorias! Não assassine o nosso Estado de Direito!
Fico ali parado. A respiração da jovem é ofegante. Os olhos nos ensinam muita coisa... Os dela me mostram a paixão. Seus colegas se juntam, todos com medo, mas preparados para defendê-la.
- Desculpe... – a palavra mal sai da minha boca.
Vou embora. Isso que preciso... Ir embora!