Eu sinto o cheiro de morte.
Escuto as moscas.
Um líquido viscoso adentra em minha boca.
Trevas.
Tudo aconteceu tão rápido. Lembro-me do clarão dentre as nuvens. Do estrondo percorrendo o céu. Sabia que não era Deus, pois Ele não existe. Também tinha a absoluta certeza de que a tempestade que estava por vir não era obra da natureza. Era pior.
Sinto meu corpo chacoalhar. Ouço vozes. Dois velhos com odor amedrontado e corações lentos.
Outro clarão. Um de meus mais odiosos companheiros sorriu. Não é bom quando isso acontece. Aquele ser não pode sorrir.
- Eles merecem mulher! – esbraveja o velho de voz rouca e sotaque italiano.
Ainda estou na Itália. Vivo.
A janela de minha mansão se partiu em migalhas. Todos nós aguardamos. Era Fausto e seus guardas. Então houve sangue. Lâminas cortaram o ar mais rápidas do que o bater de asas de um beija-flor. Mais velozes do que os próprios relâmpagos de Zeus. Eu me transformei para alcançar os céus e assim me afastar da batalha. Não por medo. Estratégia.
Voei para as nuvens. Vi o raio se formar em azul eletrizante. Bati minhas asas e planei ao encontro daquele que usurpava os poderes de um deus. Escondido na árvore ele brandeava seus feitiços. Rugi como um dragão! Meus braços se abriram em uma envergadura maior do que a de um urso. Galhos se partiram. Experimentei o gosto das folhas misturado ao sangue do feiticeiro. Arrancava a carne com facilidade. Ele gritava. Me senti poderoso. Segurei-o pelo pescoço com uma das mãos de tamanho avantajado pela transformação. A outra, as pernas. Novamente, abro os braços, só que desta vez, para parti-lo ao meio!
Os céus se calam.
Volto para a mansão em vôo. Não aceitarei tal ofensa Fausto. Esta é minha casa! Minha!
Dois cavalos correm em minha direção. Hipnotizados não se aterrorizam com minha forma demoníaca. Não foi um ataque planejado. Nos subestimaram. Esses vermes. Comerei seus corações em bandejas de ouro! Preparo minhas garras e presas para derrubar de uma só vez os cavalos e seus cavaleiros. E assim o faço. Banho-me em cor escarlate. Os animais enormes se partem como seda, o mesmo posso afirmar sobre quem os montava. Me deliciei com a queda de meus ofensores. Sorria em forma de aberração. Tão bela forma maior do que uma casa. Um demônio de histórias macabras. Não. Pior.
Em meu peito uma ferida se abre.
- Acabou homem. Deixe acabar. Por que raios carregar esses mortos? – reclama em tom elevado a voz da velha.
- Eram cristãos Rosetta! Entenda pelo amor ao Glorioso. A desgraça caiu sobre Santa Cecília por culpa de pensamentos como os seus. Enterrarei um por um, logo acima da colina. Agora te cala.
- Eles olham para mim Carlino. Eles serão nossa desgraça.
A velha está certa.
Fausto crava sua espada até que ela me atravesse. Não pude vê-lo. Por impulso dou-lhe um safanão. Ele gargalha. Corpo de homem jovem, músculos que denotam sua força e velocidade sobrenaturais, e é claro, face de príncipe. Sempre soube que teria de matá-lo. Suas presas são exibidas sem pudor. Volto a minha forma hominídea. As pernas fraquejam e eu me ajoelho perante sua força. A batalha cessa ao fundo. Um sentimento de desolação me percorre por completo, deixo transparecer em meu rosto perfeito. Minhas mãos tocam o chão.
O burro geme pelo peso que carrega. As rodas de madeira parecem imitar seu relincho.
“Sugarei sua alma Lucian”, disse Fausto antes de morder meu pescoço. Não protestei, deixei-o furar minha pele com seus dentes pontiagudos. Senti prazer ao liberar meu sangue. Fausto sugou com satisfação merecida. Com a glória de um vitorioso. E em instantes ele tremeu. Blasfemou contra mim segurando o pescoço com ambas as mãos. A ferida que fez em mim dói. Mal permaneço são. Mas o veneno ácido que corre em meu sangue também fere. O ardor deve estar matando-o nesse momento.
Asas negras e pesadas flutuam sobre a carroça. As aves sentem o mesmo cheiro que eu. O aroma do alimento. Da morte.
Fausto já não consegue falar. Suas maldições se calam. Uma pequena névoa sai de sua boca. Seu olhar... Que delícia. Essa é a mesma desolação que fingi segundos atrás. Sorri sem perceber, como meu companheiro no início dessa noite. Queria gargalhar. Apontar dedos e zombar de Fausto. Mas sei que irei morrer. Sua força foi suficiente para me enfraquecer. O ímpeto que me restou, usei para matá-lo junto comigo. Queria tantas coisas. Tantas maldades! Crueldades que poderia... Não... Ele não o fez. A visão embaça e torna-se vermelha. O desejo de matar não é meu. Mas eu tenho! É incrível! A ânsia por sangue surge de maneira surpreendente. Agarro Fausto pelos cabelos. Sei que ele irá morrer pelo meu sangue! Mas preciso sentir isso. Com as mãos, com os dentes, com cada parte de meu corpo. Dilacero-o como um suculento alimento. Derramo seu sangue sobre a grama sem vida. Urro enquanto o faço. Por um momento de clareza mordo meu próprio braço. Tal atitude me rendeu alguns segundos de terror e pavor. Todos a minha volta eram como eu. Um animal ensandecido! Crianças e mulheres também. Alguns choravam, pedindo perdão a Deus. Esses eram esmagados por outros que pareciam exaltar alguma divindade bestial. Não havia Fausto em meus braços. Eu estava nu. Pintado de vermelho sangue. A ferida em meu peito arde!
Ergo meu braço em meio aos cadáveres para sentir a noite. A velha grita.
Eu vi meu companheiro em pé no topo da torre mais alta da Catedral. Braços abertos e a insanidade no olhar. Ele me fita. Seus longos cabelos lisos dançam em seu rosto. Leio em seus lábios. “Nós viveremos Lucian. Mas a cidade pagará pela ofensa que nos fizeram. Somente nós sobreviremos à desgraça de Santa Cecília”. Minhas pernas em vão tentaram correr em sua direção. Então eu vi fogo e morte. Por fim, trevas.
Assisto a velha partir em disparada em meio à mata. Ainda estou com seu marido em meus braços. Sangue velho tem um sabor horrível, mas preciso de forças. As aves acima de mim parecem me agradecer por mais um a ser oferecido aos seus bicos esfomeados.
A velha cai. Uma ferida brota de seu rosto, superficial. Seu sangue é ralo, mas sinto seu cheiro daqui. Coitada, não posso culpá-la, não sei a quanto tempo estou entre corpos em decomposição. Deixarei o burro vivo.
- Pare mulher! – ordeno.
Ela não mais correrá, eu sei. Aguarda-me paralisada pelo meu comando.
Ela murmura em latim. Suplica a Deus a piedade que não teve para com aqueles que carregavam em sua carroça.
Toco com a ponta de meu dedo sua testa flácida. Sugo seu último pensamento em Santa Cecília. Pode ser um desperdício de sangue, mas preciso saber. Preciso ter a certeza de que a cidade agora se resume a escombros. Seus únicos proprietários são os ratos e os cachorros moribundos. E é claro, os fantasmas.
Dou as costas para a velha. Percebo seu olhar percorrendo todo meu corpo nu, imundo pelo barro e pelo sangue. O gosto amargo deixado pelo sangue velho me incomoda. Você não morrerá pelas minhas mãos, velha. Viverá! Contemple o dragão. Ordeno que meu corpo cresça, meus braços se mesclam à carne de meu tronco e formam um belo par de azas avermelhadas. Meu crânio se molda sozinho e brindo-a com a face do demônio vivo. Meus ossos se tornam pontiagudos como se fossem uma armadura natural. Abro as asas.
Ouço o frágil coração acelerar em temor.
A velha cai sobre a terra macia.
Eu menti.
Ela está morta, pelo pecado de ter me visto como realmente sou.

7 comentários:
li 3x
e meia agora
PQP!!
Fino d+ esse texto..
Zé....agora vc se superou!!!
hahuahuahuuha
Ficou MUITO bom!!!
Vc conseguiu passar um sentimento pra mim que é bem parecido com o que rola qd eu to jogando...mas eu tava so lendo...
Interpretou Lucian direitinho!!
Por falar em jogar bora jogar esse fds?! huahuahuahhuahua
Esse Lucian eh um bosta bora pro pau a hora que voce quiser.....
hahahahahahahhahaha
ate que ele eh um bom escudo mas soh quando ele for principe....
ai sim vai valer apena ....
mas ate la... eh um nada....ahhahahahahhahahahhaha
Sou a morte encarnada que te punirá por tuas iniquidades.
DOIDO D+....apesar da fraqueza do personagem o texto ficou excelente...se vc contar isso varias vezes as pessoas podem começar a acreditar que Luciam era forte. auhsusahsauhasuasuahaussausausa
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